O que está sobre a mesa
Crianças Yanomami adoecem, perdem peso e deixam de comer em um ciclo persistente de disseminação de doenças e desestruturação territorial. Doenças recorrentes, deslocamentos forçados, redução da caça e da pesca e a entrada de alimentos industrializados impactam sistemas alimentares e saberes ancestrais que resistiram por séculos. As respostas institucionais ainda ignoram o que estrutura a alimentação nessas comunidades – o comer coletivo, a autonomia das crianças, o território como base de tudo. O desafio é construir estratégias que integrem saúde, alimentação e cultura como dimensões inseparáveis – e que partam do território, não de fora.
A crise humanitária no território Yanomami, intensificada entre 2021 e 2023, mobilizou atenção nacional e internacional. Fotografias de crianças indígenas severamente desnutridas inundaram a imprensa e as redes sociais, despertando indignação e mobilização por respostas imediatas. O problema dessas imagens dramáticas, entretanto, é que, para além de seu poder de denúncia, elas tendem a produzir respostas simples para um fenômeno complexo.
A solução parece evidente: disponibilizar alimentos, suplementos e assistência médica. É o que qualquer observador externo concluiria diante de crianças extremamente magras. Mas quando se escutam as mães e cuidadores Yanomami, a insuficiência desta proposta fica evidente. A desnutrição infantil não é percebida como consequência direta, ou exclusiva, da falta de alimentos. É sintoma de algo muito mais profundo: uma desestruturação socioambiental, territorial e epidemiológica que não cabe em nenhum protocolo de suplementação alimentar. Para essas famílias, a resposta exige mais. As crianças não emagrecem apenas porque lhes falta comida – emagrecem porque adoecem. Emagrecem porque a malária voltou com força, porque rios foram contaminados, áreas de caça desapareceram, os homens passam longos períodos trabalhando no garimpo e as redes de cuidado coletivo foram tensionadas por transformações profundas no território.
A desnutrição infantil entre os Yanomami não pode ser compreendida apenas como um déficit alimentar ou um problema biomédico isolado. Ela resulta da convergência de fatores ambientais, sociais, epidemiológicos e culturais que vêm transformando profundamente as condições de vida no território ao longo das últimas décadas, contribuindo para limitar o acesso aos alimentos e comprometer as condições de recuperação. É o sintoma visível de uma crise socioambiental e sanitária muito mais ampla. Compreendê-la exige deslocar o olhar: em vez de perguntar quantas calorias faltam na dieta infantil, é preciso entender o que aconteceu com o território, com os sistemas alimentares tradicionais e as redes sociais que sustentam o cuidado coletivo. Esse deslocamento começa pela escuta.
A desnutrição infantil entre os Yanomami não pode ser compreendida apenas como um déficit alimentar. Ela resulta da convergência de fatores ambientais, sociais, epidemiológicos e culturais que vêm transformando as condições de vida no território
Este artigo combina o conhecimento antropológico produzido nas últimas décadas1,2,3,4,5,6 com a experiência das autoras em comunidades Yanomami e escutas realizadas, ao longo de 2025,7 com mães, cuidadores, lideranças e profissionais indígenas de saúde. O objetivo é contribuir para o movimento das organizações indígenas que buscam colocar a percepção Yanomami no centro das estratégias de enfrentamento à desnutrição infantil.
Frequentemente responsabilizadas pelas equipes oficiais de saúde pelo adoecimento e a desnutrição das crianças, as mulheres Yanomami respondem a tais acusações com precisão. Elas descrevem como diversificam a alimentação por meio das roças de maniva, da coleta na floresta, da caça e da pesca, e contestam a ideia recorrente de descuido ou ignorância atribuída às famílias. O que situam no centro do problema de agravamento da situação sanitária é a expansão recente do garimpo, a flexibilização de normas ambientais e a fragilização da fiscalização estatal a partir do final de 2020. Em suas falas, a precariedade da assistência em saúde aparece como um fator determinante. Durante o XIV Encontro de Mulheres Yanomami,8 as participantes reforçaram que as crianças emagrecem por causa da alta incidência de malária, que enfraquece seus corpos e reduz sua capacidade de se alimentar, além das diarreias, doenças respiratórias e verminoses, e da ausência de atendimento médico regular. Para elas, é o contexto de adoecimento generalizado e de abandono institucional – e não a simples falta de alimentos – que explica a persistência da desnutrição infantil.
Uma crise produzida no território
O território Yanomami tem cerca de 9,6 milhões de hectares de floresta distribuídos entre Brasil e Venezuela – uma das maiores áreas indígenas contínuas da Amazônia. Nele, a vida social se organiza em torno de redes de parentesco, padrões de mobilidade e sistemas de subsistência que articulam agricultura itinerante, caça, pesca e coleta na floresta. Mais do que simples estratégias de obtenção de alimentos, essas práticas estruturam as relações sociais e a própria cosmologia Yanomami. O cultivo das roças, as expedições de caça, os deslocamentos sazonais e os rituais associados à produção alimentar combinam dimensões ecológicas, sociais e espirituais da vida coletiva. A alimentação não se reduz a uma questão nutricional, ela é parte constitutiva das relações de parentesco, da vida comunitária e dos processos pelos quais se aprende, gradualmente, a tornar-se pessoa no interior dessa sociedade.
Esse sistema de vida vem sendo profundamente impactado por sucessivos processos de invasão territorial e degradação ambiental há décadas. A abertura da rodovia Perimetral Norte, nos anos 1970, representa um momento decisivo por ter intensificado o contato com frentes de ocupação não indígenas. Junto com trabalhadores, missionários e colonos, chegaram também epidemias devastadoras de gripe, sarampo, pneumonia e malária, que atingiram duramente diversas comunidades. Nas décadas seguintes, a expansão do garimpo ilegal agravou de forma dramática esses impactos.
Entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990, e mais recentemente, entre 2010 e 2022, milhares de garimpeiros ocuparam ilegalmente áreas do território Yanomami. A invasão resultou em rios contaminados por mercúrio, extensas áreas de floresta destruídas, aumento da violência e disseminação massiva de doenças infecciosas. A malária, em particular, voltou a assumir proporções epidêmicas, tornando-se um dos principais fatores de adoecimento e mortalidade infantil em diversas regiões. Ao mesmo tempo, a presença do garimpo desorganizou atividades tradicionais de caça, pesca e agricultura, o que reduziu de maneira significativa a disponibilidade de alimentos nas cercanias das aldeias.
Essas transformações também alteraram os padrões de ocupação territorial. Muitas comunidades passaram a se concentrar nas proximidades de pistas de pouso ou postos de saúde, buscando acesso a medicamentos e assistência médica. Esse processo, em geral descrito como uma forma de sedentarização forçada, leva à concentração demográfica em áreas ambientalmente degradadas e com condições sanitárias precárias. Como resultado, parasitoses intestinais proliferam de forma alarmante, afetando sobretudo as crianças, com altas taxas de infecção por lombrigas, amebas e outros vermes.
Os efeitos sobre os sistemas alimentares tradicionais são imediatos. Território restrito, caça reduzida, rios contaminados, floresta destruída – cada um desses fatores compromete a produção e o acesso a alimentos. A queda no consumo de proteínas da caça e da pesca é o primeiro efeito desse processo, criando as condições para o agravamento da desnutrição. Epidemias como a malária completam esse quadro: quando adultos adoecem, roças não são abertas, animais não são caçados, peixes não são pescados. A base de subsistência alimentar pode ficar comprometida por longos períodos (às vezes por anos), prolongando a escassez de alimentos e aprofundando a vulnerabilidade sobretudo das crianças.
A convergência entre fome e doença fragiliza em demasia a saúde das crianças. A desnutrição severa, associada à alta incidência de parasitoses, prejudica o sistema imunológico e aumenta a suscetibilidade a doenças introduzidas por populações não indígenas, como sarampo, coqueluche, tuberculose e infecções respiratórias. Um ciclo perverso de retroalimentação entre crise ambiental, colapso produtivo e tragédia sanitária se instala.
As crianças Yanomami estão entre as mais afetadas por déficits nutricionais nas populações indígenas das Américas. Estudos recentes9,10,11,12 indicam que a prevalência de desnutrição infantil ultrapassa 50%, enquanto mais de 80% das crianças com menos de 5 anos apresentam baixa estatura para a idade – um indicador de atraso crônico de crescimento comumente associado a um ciclo intergeracional de subnutrição materna.
Os efeitos da crise vão além da mortalidade imediata. As deficiências nutricionais na infância têm consequências que se estendem por toda a trajetória de vida, comprometendo desenvolvimento cognitivo, capacidade produtiva e saúde na vida adulta.
As políticas de saúde voltadas à população Yanomami enfrentam desafios históricos que, nos últimos anos, culminaram na necessidade de intervenções emergenciais.13 O sistema de atenção à saúde formalmente organizado pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y) convive há décadas com limitações estruturais que comprometem a continuidade e a qualidade do atendimento.
As fragilidades tornam-se particularmente visíveis na atenção primária e nos sistemas de vigilância em saúde. Instrumentos fundamentais para o monitoramento das condições nutricionais, como o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional Indígena (Sisvan-I), apresentam cobertura limitada e uso irregular. A falta de recursos humanos, infraestrutura adequada, logística de deslocamento e continuidade administrativa dificultam a produção de dados confiáveis. Sem eles, a formulação de políticas públicas mais eficazes não acontece. Ou chega tarde.
A precariedade da atenção primária também se reflete nos indicadores de saúde infantil. Altas taxas de hospitalização por Condições Sensíveis à Atenção Primária (CSAP), como pneumonia e outras infecções respiratórias, indicam falhas na prevenção e no acompanhamento contínuo das crianças nas comunidades. Ao mesmo tempo, a desigualdade no acesso aos serviços de saúde permanece evidente. Comunidades visitadas de forma intermitente pelas equipes médicas apresentam incidências significativamente maiores de malária, anemia, febre e diarreia quando comparadas àquelas que contam com presença regular de profissionais de saúde.
Os dados do Dsei-Y evidenciam a gravidade do problema – mas não esgotam sua compreensão.
538 mortes. 92% evitáveis
Entre 2019 e 2022, foram registrados 538 óbitos de crianças com menos de 5 anos no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y). Desse total, 92% – 495 crianças – foram classificados como mortes evitáveis, segundo dados do próprio Dsei-Y.
O número evidencia menos uma tragédia natural do que uma falha sistemática: de assistência em saúde, de presença do Estado no território e de proteção das condições ecológicas e sociais que sustentam a vida nas comunidades. Em 21 dos 37 polos base da Terra Indígena Yanomami, mais da metade das crianças com menos de 5 anos apresentava déficit de peso em 2023.
Quando as crianças ficam “magrinhas”
Entre os yanomami, a desnutrição não é considerada uma doença no sentido biomédico. Nas narrativas das famílias, as crianças afetadas são descritas como “magrinhas”. Durante o trabalho de escuta realizado na Casa de Saúde Indígena Yanomami (CASAI-Y), em Boa Vista, Roraima, conversas com mães, pais e lideranças provenientes de diferentes regiões do território14 revelaram interpretações recorrentes sobre as causas desse emagrecimento, oferecendo pistas importantes para entender como o problema é vivido e explicado pelas próprias comunidades.
A explicação mais frequente não é a falta de comida – é a xawara, a doença trazida pelos brancos. Malária, pneumonia, diarreias, infecções respiratórias: são elas que, na visão das famílias, levam as crianças a perder peso. (Ver quadro “As doenças que vieram de fora”.)
Para as lideranças das regiões das serras, do Palimiu e de outras áreas com alta incidência de malária, o garimpo ilegal não é apenas agente de destruição ambiental – é o principal vetor material e simbólico da xawara. A fumaça das máquinas, a queima do mercúrio: tudo isso, no entendimento Yanomami, carrega doença.
Para as famílias, as crianças não emagrecem porque falta comida, mas porque adoecem. O adoecimento enfraquece o corpo e reduz a capacidade de se alimentar. A criança fica doente de maneira recorrente, perde o apetite, fica prostrada evolui para quadros de desnutrição grave com infestação parasitária, num ciclo que a fragilidade da assistência médica não consegue interromper. Como relatou uma mãe Sanöma (subgrupo étnico Yanomami): “Eu cuido bem do meu filho. Ele ficou magrinho depois que pegou malária. Ficou fraco e não quis mais comer”.
Enquanto a biomedicina atua sobre sintomas observáveis, o diagnóstico xamânico opera nas causas invisíveis do adoecimento. É essa integração entre o plano visível e o invisível que as respostas institucionais à desnutrição sistematicamente ignoram
Mesmo quando o emagrecimento é associado a doenças infecciosas, xawara, o sistema biomédico costuma ser acionado só quando o estado da criança se agrava visivelmente. Quando ele é interpretado como resultado de um desequilíbrio espiritual, a resposta inicial tende a passar pela oferta de alimentos produzidos na própria comunidade – e, se não houver melhora, o trabalho dos xamãs é iniciado. Os dois caminhos, com frequência, acabam sendo percorridos de modo paralelo: a medicina ocidental tratando os sintomas, o xamanismo atuando nas causas que ela não alcança.
Em síntese, a crise socioambiental que atravessa o território Yanomami articula-se às etiologias locais da doença ao favorecer a disseminação das “doenças dos brancos”. Nesses contextos, os meios tradicionais de cura tornam-se muitas vezes insuficientes para conter enfermidades introduzidas pelo contato, enquanto a degradação ecológica e a desorganização das atividades de subsistência fragilizam progressivamente as condições de vida das comunidades. Compreender essa articulação entre os sistemas Yanomami de interpretação da doença e os impactos socioambientais da crise é fundamental para entender as respostas das comunidades à emergência de saúde.
Corpo, cosmologia e saúde
As concepções yanomami sobre “corpo” e “pessoa” desempenham papel central na compreensão da desnutrição infantil. Para muitos povos amazônicos, o corpo humano tem múltiplas dimensões (físicas, energéticas e espirituais) que se relacionam entre si. Entre os Yanomami, essas dimensões incluem a imagem vital da pessoa e seu “duplo animal”, elementos que garantem equilíbrio e vitalidade. Assim, o papel dos xamãs (frequentemente associados aos espíritos auxiliares conhecidos como xapiri ou hekura) no diagnóstico das crianças doentes e “magrinhas” é central, pois eles são responsáveis por acessar a dimensão sobrenatural e invisível das doenças que afetam a “imagem essencial” (ütupë) e o corpo interior da criança. (Ver quadro “O diagnóstico do xamã”, na p. 23.)
Enquanto a medicina ocidental tende a concentrar-se nos sintomas e em seus tratamentos, o diagnóstico xamânico busca identificar as causas invisíveis do adoecimento. A atuação do xamã consiste, assim, em uma complexa terapia voltada à recomposição dos elementos que constituem a pessoa: extrair males, proteger a criança de agressões humanas ou espirituais e reintegrar os componentes de sua vitalidade. Ao fazê-lo, o xamã não cuida apenas do paciente, mas contribui para restaurar o equilíbrio e a segurança de toda a família e da comunidade.
As doenças que vieram de fora
Entre os Yanomami, nem todas as doenças têm a mesma origem – e essa distinção orienta decisões concretas sobre quando buscar tratamento, a quem recorrer e quais estratégias terapêuticas mobilizar.
As doenças do universo Yanomami – resultantes de feitiçaria, de agressões ao duplo animal (rixï) ou de espíritos maléficos (në wïri) – são tratadas pelo xamanismo. Os xamãs convocam seus espíritos auxiliares (xapiri) para diagnosticar a causa sobrenatural e extrair os objetos patogênicos responsáveis pelo adoecimento.
Já as xawara pë – entre os Yanomami – ou wasu wasu tö – entre os Sanöma – designam as “doenças do universo dos brancos”: malária, pneumonia, diarreias, infecções respiratórias. No entendimento Yanomami, essas enfermidades estão associadas às “fumaças” (wakëxi) produzidas pelas máquinas dos brancos – motores de aviões, helicópteros e equipamentos de garimpo – e à queima de mercúrio e outros resíduos. Quando o emagrecimento infantil é atribuído a uma xawara, as famílias tendem a recorrer ao sistema biomédico. Quando é interpretado como resultado de desequilíbrios espirituais, o primeiro caminho é o xamã. Com frequência, os dois caminhos são percorridos já que a medicina ocidental é vista como uma forma poderosa de tratamento sintomático, enquanto a cura xamânica trata as causas profundas (a etiologia sobrenatural).
A desestruturação do sistema
O garimpo é um elemento de desarticulação da vida social Yanomami em múltiplos planos. Muitos homens jovens deixam suas comunidades para trabalhar nos garimpos interrompendo atividades fundamentais como o cultivo das roças e a caça, e o fornecimento de alimentos para suas famílias. Esse afastamento enfraquece a rede de cuidado coletivo que sustenta a vida nas aldeias. Ao mesmo tempo, a permanência prolongada em áreas de garimpo expõe esses trabalhadores a ambientes com alta incidência de malária. Quando retornam às comunidades, mesmo que por períodos curtos, podem reintroduzir o parasita da doença e desencadear novos ciclos de transmissão que afetam sobretudo crianças e mulheres.
O contato intensificado com garimpeiros e a sociedade envolvente tem transformado a dinâmica social das comunidades, particularmente entre os jovens. Aumento de gestações precoces, maior frequência de mães solteiras e um enfraquecimento do engajamento masculino nas atividades agrícolas e nas práticas de cuidado familiar são relatos comuns. O desmame precoce, muitas vezes associado a uma nova gravidez da mãe, constitui outro fator crítico nesse contexto. Quando isso ocorre, a criança deixa de receber o leite materno antes do tempo esperado e, em muitos casos, a família não dispõe de substitutos alimentares adequados para garantir sua nutrição.
O garimpo não é o único vetor de transformação. No médio rio Negro, por exemplo, homens Yanomami passaram a participar da extração de piaçaba, atividade vinculada a cadeias comerciais regionais. O trabalho dá acesso a mercadorias industrializadas e exige longos períodos de ausência das comunidades. O resultado são redes familiares de cuidado fragilizadas, redução da disponibilidade de alimentos provenientes da caça e de outras práticas tradicionais de subsistência, alterando gradualmente o equilíbrio que sustenta a alimentação e o cuidado das crianças.15
O contato crescente com centros urbanos introduz novos padrões de consumo alimentar. Produtos industrializados como arroz, açúcar, refrigerantes e alimentos ultraprocessados passam a integrar a dieta cotidiana ao mesmo tempo que diminui a disponibilidade de alimentos tradicionais. O resultado é um cenário nutricional cada vez mais complexo: carências alimentares e mudança de hábitos de consumo.
O diagnóstico do xamã
Para os Yanomami, o adoecimento tem causas visíveis e invisíveis – e o xamã é o especialista naquelas que não se consegue ver. Quando uma criança emagrece sem explicação aparente, o diagnóstico xamânico pode ser acionado para identificar o que escapa à observação comum, para compreender a lógica por trás dos sintomas observados no corpo da criança.
O processo de diagnóstico começa com a inalação de yakoana, um pó alucinógeno que permite ao xamã entrar em estado de transe visionário. Nesse estado, ele convoca e incorpora seus espíritos auxiliares, os xapiri, por meio dos quais acessa dimensões sobrenaturais da doença. Com o auxílio desses espíritos, busca o rastro (ano) deixado pelos agentes responsáveis pelo adoecimento, examina o “corpo interior” da criança e procura localizar os objetos patogênicos (matihi) associados a agressões espirituais ou cosmológicas. O diagnóstico envolve a reconstrução das relações invisíveis que ligam o corpo da criança aos agentes que provocaram seu adoecimento.
Um exemplo recorrente em que o emagrecimento infantil é interpretado à luz dessas concepções é o fenômeno conhecido como totixipë ou wakisipö, associado ao enfraquecimento que ocorre quando uma mulher engravida novamente enquanto ainda amamenta uma criança. Nesses casos, acredita-se que o filho que continua mamando pode enfraquecer rapidamente, apresentando um quadro físico caracterizado por magreza extrema, choro frequente e abdômen inchado. Na interpretação Yanomami, o totixipë não é classificado como uma “doença dos brancos” (xawara) nem como resultado de feitiçaria inimiga, mas como um enfraquecimento do õsi tö, o “corpo interior” da criança, provocado pela nova gestação da mãe. “Quando tem wakisipö, a criança sente muita fome, mas continua fraca. Só o trabalho do xamã pode fortalecer o corpo dela”, explicou um xamã Sanöma. Mesmo quando a criança se recupera, acredita-se que a marca física desse processo pode permanecer ao longo da vida.
Em outras situações, o adoecimento infantil pode ser atribuído à perda do “duplo animal” (rixï), entidade que acompanha a pessoa desde o nascimento. Quando esse duplo se perde ou é capturado por espíritos maléficos, o xamã realiza rituais específicos para recuperá-lo, como varrer o chão da aldeia com folhas para guiá-lo de volta a seu ninho ou resgatá-lo das forças que o retiveram. Ele atua no plano invisível para restabelecer a integridade espiritual fragilizada do bebê, buscando recuperar seu “duplo animal” para que ele possa voltar a se desenvolver e ganhar peso. Há também diagnósticos relacionados ao que se pode chamar de xamanismo agressivo, quando se acredita que grandes xamãs de aldeias distantes enviam espíritos auxiliares hostis (xapiri huu) para atacar e adoecer crianças de outras comunidades.
Alimentação, cuidado e autonomia
Quando as crianças adoecem, os cuidadores costumam buscar ajuda nos postos de saúde das comunidades ou com agentes indígenas de saúde. Ainda assim, o processo de recuperação nutricional enfrenta obstáculos significativos. Um dos principais refere-se à adaptação alimentar durante o tratamento. Nos Centros de Recuperação Nutricional (CRN) localizados na cidade, muitas crianças rejeitam os alimentos oferecidos – leite, fórmulas nutricionais e dietas hospitalares –, descritos como comida de napë (comida de branco). Elas demonstram preferência por alimentos familiares, como mingau de banana, frutas, peixe, caça e preparações doces. Algumas crianças chegam a perder peso durante a permanência na CASAI-Y, em Boa Vista, por não conseguirem se adaptar à alimentação oferecida. (Ver quadro “Comer e tornar-se Yanomami”, na p. 24.)
A necessidade de permanecer um longo período na cidade para o tratamento dificulta a adesão. A recuperação nutricional pode exigir semanas ou até meses de acompanhamento, mantendo mães e crianças afastadas de suas comunidades. O distanciamento provoca grande angústia, sobretudo porque muitas mulheres precisam deixar outros filhos nas aldeias e interromper suas atividades nas roças. Entre as cuidadoras, a principal queixa refere-se à demora do processo e ao desejo constante de retornar à comunidade.
As barreiras de comunicação também dificultam o cuidado. Poucos profissionais de saúde falam Yanomami, enquanto a maioria das cuidadoras não domina o português. Essa distância linguística compromete a compreensão dos procedimentos médicos e limita o diálogo entre equipes de saúde e famílias. Soma-se a isso o receio de novas infecções quando é preciso permanecer na cidade, já que muitas crianças ficam expostas a ambientes hospitalares ou a longos períodos de espera por atendimento e benefícios sociais.
Essas dificuldades são frequentemente agravadas por tensões culturais no encontro entre os sistemas de cuidado. Não raro, profissionais de saúde atribuem a desnutrição a práticas alimentares ou hábitos de higiene das famílias, desconsiderando os saberes locais e as transformações socioambientais que afetam o território. Essa tendência à culpabilização gera desconfiança e fragiliza o diálogo intercultural necessário para o tratamento. Ao mesmo tempo, a precariedade da infraestrutura de saúde dentro do próprio território obrigando a busca de atendimento nas cidades, onde relatam enfrentar longas esperas, procedimentos mal explicados e, em alguns casos, experiências de violência institucional. Por isso, muitas mulheres defendem o fortalecimento da assistência médica nas próprias comunidades.
Quando removidos para centros urbanos, os Yanomami frequentam espaços percebidos como potencialmente hostis, onde circulam inimigos, onde há risco de feitiçaria e onde prevalecem formas de sociabilidade e de manejo da doença orientadas pela lógica dos brancos. O tratamento biomédico, nesse contexto, pode ser percebido como incompleto, justamente por não considerar as dimensões espirituais e relacionais do adoecimento. Se na perspectiva Yanomami adoecer implica um processo de transformação que pode alterar a própria condição da pessoa, a recuperação da saúde depende da reinserção do doente em seus círculos de cuidado e proteção.
Comer e tornar-se Yanomami
Os Yanomami possuem um entendimento de desenvolvimento da pessoa que se afasta da ideia de estágios biológicos universais, focando na construção do corpo e da pessoa. A alimentação e o cuidado são centrais nesse processo. O nascimento não é o início radical da vida e da personalidade, o indivíduo passa por um longo processo de “aprender a ser humano”. Uma criança não é imediatamente feita humana. Para ser considerada pessoa, precisa demonstrar potencial social, como saber andar, falar ou alimentar-se com certa autonomia.
Nos primeiros cinco a seis meses de vida, as crianças se alimentam exclusivamente do leite materno – não há tradição de se criarem mamíferos para consumo de leite, e nenhum substituto é culturalmente disponível. Em casos de dificuldade na amamentação, outras mulheres lactantes da comunidade oferecem o próprio leite, e a mãe é estimulada a consumir alimentos específicos para auxiliar na produção de leite como taioba, batata, cana, mingau, beiju, chibé.
Na fase do engatinhar, a criança passa a receber pequenas porções de alimentos moles, como mingau de banana madura, frutas, beiju, carne de caça para ser chupada. As mães não preparam refeições separadas: mastigam e oferecem os mesmos alimentos que os adultos consomem. As crianças não são forçadas a comer.
Comer, entre os Yanomami, é sempre um ato coletivo. Comer sozinho e isolado é considerado inadequado – quase um gesto antissocial. As crianças comem junto com a família, sem horários fixos, quando sentem fome. Elas costumam consumir mandioca, banana, caça, peixe e frutas em pequenas porções distribuídas ao longo do dia. Desde cedo, desenvolvem autonomia para aceitar ou recusar alimentos, aprendendo gradualmente a participar das práticas alimentares da comunidade. Essa lógica tem consequências diretas para os programas de recuperação nutricional: quando suplementos e fórmulas terapêuticas são introduzidos em contextos hospitalares, muitas crianças os recusam. As mães, respeitando a autonomia dos filhos, tendem a não forçar.
Outro aspecto essencial para compreender os desafios relacionados ao tratamento e recuperação nutricional infantil Yanomami é a organização social do cuidado. Diferentemente de muitas sociedades ocidentais, nas quais o cuidado infantil se concentra na família nuclear, entre os Yanomami a responsabilidade pelas crianças é compartilhada por uma ampla rede de parentes. Avós, tios, irmãos mais velhos e outros membros da comunidade participam ativamente da produção de alimentos e do cuidado cotidiano. Sem acompanhamento adequado, isso pode comprometer a adesão ao tratamento nutricional. Intervenções eficazes precisam, portanto, dialogar com essas práticas culturais e adaptar estratégias de alimentação terapêutica às dinâmicas familiares e comunitárias.
Caminhos para uma resposta intercultural
Diante da gravidade da crise humanitária no território Yanomami, diferentes ações emergenciais foram mobilizadas nos últimos anos pelo governo federal e organizações humanitárias. Em 20 de janeiro de 2023, o Ministério da Saúde decretou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) e instituiu o Centro de Operações de Emergências (COE) Yanomami, responsável por coordenar uma resposta interministerial voltada ao enfrentamento da situação.
Operações de saúde, distribuição de alimentos e programas de recuperação nutricional desempenharam papel fundamental para salvar vidas no curto prazo. Mas respostas centradas na assistência emergencial, como a suplementação alimentar ou a hospitalização de crianças, tem alcance limitado – não enfrentam as causas estruturais da desnutrição.
Embora essas iniciativas tenham produzido resultados imediatos importantes, analistas apontam que a resposta foi conduzida por uma lógica centralizada, protagonizada pelo Ministério da Saúde, o que acabou restringindo a atuação de outros setores a funções predominantemente operacionais. Também foi apontada a ausência de mecanismos consistentes de participação social. Em particular, as associações indígenas locais tiveram papel pouco claro ou marginal no planejamento inicial e na formulação das estratégias de resposta.
A experiência Yanomami evidencia a necessidade de repensar os modelos convencionais de enfrentamento da desnutrição infantil em contextos indígenas. Mais do que um problema estritamente alimentar, a desnutrição revela a convergência entre doenças infecciosas, degradação territorial e fragilização dos sistemas tradicionais de subsistência. Nesse cenário, estratégias eficazes de recuperação nutricional exigem fortalecer a presença de serviços de saúde próximos às comunidades, ampliar a cobertura da atenção primária indígena e desenvolver formas de cuidado capazes de dialogar com as dinâmicas sociais e culturais locais.
Programas de recuperação nutricional precisam envolver a família extensa – avós, tios, irmãos e outros parentes – no cuidado das crianças. Da mesma forma, estratégias terapêuticas devem considerar as práticas culturais relacionadas à alimentação e à autonomia das crianças, evitando impor modelos que desconsiderem essas dinâmicas. É fundamental investir na formação de mediadores culturais e promotores de saúde indígenas que possam articular conhecimentos biomédicos e saberes tradicionais.
Por fim, políticas públicas e iniciativas filantrópicas precisam reconhecer que a desnutrição infantil Yanomami está diretamente relacionada à proteção territorial e à preservação dos sistemas alimentares tradicionais. A experiência no território mostra que a recuperação nutricional das crianças depende da proteção das condições ecológicas, territoriais e sociais que sustentam seus modos de vida. Enquanto rios e florestas continuarem ameaçados pelo garimpo, enquanto epidemias como a malária persistirem e os sistemas tradicionais de produção de alimentos permanecerem fragilizados, a insegurança alimentar tenderá a se reproduzir.
Responder a essa crise exige reconhecer o valor dos conhecimentos indígenas, proteger os territórios e construir sistemas de saúde capazes de dialogar com diferentes formas de compreender o corpo, a alimentação e o cuidado. Somente ao enfrentar essas dimensões estruturais será possível romper, de maneira duradoura, o ciclo de vulnerabilidade que hoje ameaça tantas crianças Yanomami.
Notas
1) Albert, B.; Gomez, G. G. (orgs.). Saúde Yanomami: um manual etnolinguístico. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1997. 304 p. (Coleção Eduardo Galvão).
2) Kopenawa, D.; Albert, B. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
3) Limulja, H. O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos yanomami. São Paulo: Ubu, 2022.
4) Ramos, A. R. Memórias Sanumá: espaço e tempo em uma sociedade Yanomami. São Paulo: Marco Zero; Brasília: Editora UnB, 1990.
5) Biserra, R. S. Ainda estamos vivos: uma etnografia da saúde Sanumá. 2006. 276 f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Universidade de Brasília, Brasília, 2006.
6) Guimarães, S. Corpos e ciclos da vida Sanumá-Yanomami. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 16, n. 34, p. 261-286, jul./dez. 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-71832010000200012.
7) A revisão da bibliografia antropológica contou com o apoio do antropólogo Fábio Zuker. A realização dessas atividades de escuta contou com o apoio do tradutor e intérprete de línguas (Yanomami, Yanomae, Yanomami, Yanomama, Sanöma e Ninam) Richard Duque e do INFINIS.
8) Para saber mais sobre a demanda das mulheres reunidas em 2023, na Missão Catrimani, para o XIV Encontro de Mulheres Yanomami, ver: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/xiv-encontro-de-mulheres-yanomami-discute-crise-na-saude-gravidas-bebem. Acesso em: 2 mar. 2026.
9) Moraes, A. O. S. Perfil alimentar de crianças indígenas Yanomami de seis a 59 meses, segundo o grau de processamento dos alimentos. 2021. 128 f. Dissertação (Mestrado em Nutrição e Alimentos) – Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2021.
10) Lôbo, M. K. B. S.; Santos, R. A. S.; Luz, R. T. Determinantes da desnutrição nas crianças indígenas. Revista Saúde.Com, v. 20, n. 4, p. 3.594-3.603, 2024. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/rsc/article/view/16965. Acesso em: 2 jan. 2026.
11) Orellana, J. D. Y. et al. Associação de baixa estatura severa em crianças indígenas Yanomami com baixa estatura materna: indícios de transmissão intergeracional. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 24, n. 5, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/BxPjHsVgXhs3jchyjmxVXBn/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 2 jan. 2026.
12)UNICEF. Pesquisa sobre os determinantes sociais da desnutrição de crianças indígenas de até 5 anos de idade em oito aldeias inseridas no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Yanomami. Rio de Janeiro: UNICEF, 2020.
Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/media/22536/file/pesquisa-sobre-determinantes-sociais-da-desnutricao-de-criancas-indigenas-de-ate-5-anos-de-idade-em-oito-aldeias-inseridas-no-dsei-yanomami.pdf. Acesso em: 22 set. 2025.
13) Machado, A. M. et al. Xawara: rastros da Covid-19 na Terra Indígena Yanomami e a omissão do Estado. São Paulo: Instituto Socioambiental; Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana; Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana, 2020. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/xawara-rastros-da-covid-19-na-terra-indigena-yanomami-e-omissao-do-estado. Acesso em: 2 jan. 2026.
14) Desde os Ŷaroamë do Maaimasi (Polo Base Missão Catrimani), os yanomamis do Xiroxiropi, Xamani, Yanomama da Maloca Papiu, Yanomami do Palimiu, Sanoma de Auaris e Olomai, Yanomami de Marari e Waharo, Yanomami do Parima, Surucucu, Xitei (região das serras), envolvendo falantes de cinco variantes dialetais da família linguística Yanomami.
15) ARAÚJO, F. N. As diferentes formas de relação patrão/freguês: os Yanomamɨ e os regatões na exploração de piaçaba em Barcelos, Médio Rio Negro. 2016. 174 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade de Brasília, Brasília, 2016.






