RAIO X
VigiSAN / Com Ciência Cidadã
O que é: Sistema municipal de vigilância em segurança alimentar e nutricional em construção em São Paulo, que combina ciência cidadã, dados abertos e governança intersetorial.
Público-alvo: Gestores públicos, conselheiros, pesquisadores e moradores de territórios periféricos.
Foco de atuação: Produção participativa de dados sobre alimentação e monitoramento territorial da insegurança alimentar.
Início das atividades: 2024.
Impacto até agora: Formação de jovens pesquisadores, aplicação territorial da EBIA e desenvolvimento de uma arquitetura pública de dados para políticas alimentares.
É uma manhã no início de 2025 em União Vila Nova, na zona leste do município de São Paulo. Jovens pesquisadores percorrem as ruas com tablets em mãos, entrevistando moradores para compreender a situação de segurança alimentar e nutricional de seu próprio território. O levantamento faz parte do projeto Com Ciência Cidadã, uma iniciativa baseada em dados abertos, pesquisa científica e participação social, com protagonismo juvenil.
Fruto de um esforço intersetorial entre a sociedade civil organizada e o legislativo municipal de São Paulo, o projeto traz recursos financeiros e metodológicos para que os jovens coletem, analisem e publiquem dados de seu bairro, transformando o território em fonte e, ao mesmo tempo, em destino de evidência.
Após um período de formação e com supervisão de uma pesquisadora, os jovens passaram quatro meses em trabalho de campo. Bateram de porta em porta, aplicaram a versão curta da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) e conversaram com moradores sobre questões aparentemente simples, mas decisivas: se havia comida suficiente em casa nos últimos dias, se alguém pulou refeições, se a preocupação com o fim dos alimentos antes do fim do mês virou rotina.
Mais do que ampliar acesso a dados, a ciência cidadã aproxima evidência e experiência. Cada resposta tem rosto, endereço e história. A coleta deixa de ser apenas técnica e passa a produzir conhecimento localizado, conduzido por quem vive nos territórios onde a fome se concentra.
A ciência cidadã – uma vertente da ciência aberta – defende a participação ativa de cidadãos em diferentes etapas do processo científico, da formulação de perguntas à coleta, análise e disseminação de resultados.1, 2 Ao coproduzir evidências com quem vive as realidades estudadas, busca ampliar legitimidade, transparência e utilidade social dos dados. Sem dados territoriais apropriados pela sociedade, as políticas tendem a errar o alvo. Com ciência cidadã, a evidência e participação social caminham juntas.
Ao mesmo tempo, “dar rosto” aos dados exige cautela. Quanto menos específica e detalhada é a escala territorial, maior o risco de estigmatização de populações vulnerabilizadas. Por isso, a produção de evidências hiperlocais também precisa estar acompanhada de marcos éticos e regras de governança de dados. Essa tensão entre visibilidade e proteção não é apenas técnica: é parte do próprio caso.
As perguntas estratégicas
A experiência de União Vila Nova e o desenho do VigiSAN colocam quatro perguntas estratégicas que podem ser relevantes para outras localidades que enfrentam problemas complexos e territorializados como a fome:
1) Como produzir evidência acionável em escala hiperlocal sem renunciar ao rigor e comparabilidade com diagnósticos municipais?
2) Como transformar dados em governança: quem decide, com quais protocolos, e como construir intersetorialidade e interoperabilidade entre bases e setores?
3) Como institucionalizar e ampliar a ciência cidadã como política permanente, garantindo sustentabilidade política e financeira e capacidade técnica continuada?
4) O que eventos climáticos extremos revelam sobre a insegurança alimentar e como incorporar essa interdependência (clima, infraestrutura urbana e vulnerabilidade social) no desenho da vigilância em segurança alimentar e nutricional?
Localizado às margens do rio Tietê, o bairro de União Vila Nova é habitado majoritariamente por famílias que migraram das regiões Norte e Nordeste do país. Nas últimas duas décadas, o território passou por um processo de reurbanização que incluiu a ampliação do saneamento básico, pavimentação de vias e a implantação de equipamentos públicos de educação e saúde. Ao lado dessas mudanças, coletivos, organizações da sociedade civil e hortas urbanas sustentam, no cotidiano, redes de apoio e de cuidado.
A vulnerabilidade territorial permanece como um traço estruturante para essa comunidade, que historicamente convive com episódios recorrentes de alagamentos e inundações durante períodos de chuvas intensas. Os impactos são imediatos – perda de bens, danos às moradias e interrupção de serviços – e provocam efeitos menos visíveis, porém profundos, como medo, angústia e sensação de insegurança permanente diante da imprevisibilidade climática.
Na primeira semana de fevereiro de 2025, os jovens pesquisadores precisaram interromper a pesquisa de campo por conta das fortes chuvas que inundaram o bairro. O trabalho de coleta de dados foi suspenso – não por falta de método, mas pela força concreta da realidade territorial que atravessava a experiência de pesquisa. Os diá-
rios de campo ganharam centralidade. A observação participante se tornou ativismo, ampliando a compreensão de como território, conhecimento e luta social são interdependentes. Como lembra o geógrafo Milton Santos, “não existe produção científica que não seja, ao mesmo tempo, uma produção política”. Nesse contexto, os diários comunicaram dramas vividos por seus vizinhos e familiares, revelando o que a fome e a precariedade urbana significam quando atravessam a vida cotidiana. “As inundações deixam marcas profundas na vida dos moradores. Perdas materiais, sofrimento emocional e o medo constante de novas tragédias os assombram”, diz um registro. Outro fala sobre a morte de uma criança vítima de uma infecção provavelmente contraída na água da enchente e sobre o desespero nos olhos das pessoas com a perda de tudo o que conquistaram.
Os registros também destacaram a percepção de ausência de políticas públicas e manutenção urbana, assim como coalizões informais e redes de solidariedade como infraestrutura social de resposta: “A ausência do poder público impulsiona a ação da comunidade, que cria uma rede de solidariedade dos coletivos, organizações sociais e moradores para amparar os mais vulneráveis. Mutirões de limpeza, arrecadação de doações e projetos sociais surgem da união dos moradores, demonstrando que a esperança floresce mesmo em meio à adversidade. A comunidade se mobiliza para ajudar os mais afetados pelas enchentes”.
A interrupção involuntária do trabalho de campo tornou-se, paradoxalmente, um dado empírico incontornável: produzir conhecimento sobre a segurança alimentar e nutricional (SAN) em União Vila Nova não pode ser dissociado das condições ambientais, urbanas e sociais que moldam a vida no território. Aqui, insegurança alimentar não é apenas indicador de consumo ou renda. Ela emerge do acoplamento entre eventos climáticos extremos, precariedade urbana e desigualdades históricas. Para a vigilância em SAN, isso significa que o “objeto” não cabe numa única secretaria nem em uma única base de dados: exige leitura integrada e coordenação intersetorial.
A fome tem CEP
Os achados em União Vila Nova reforçam e aprofundam o primeiro grande esforço científico empreendido pelo município de São Paulo entre 2023 e 2024, baseado em métodos reconhecidos pela literatura especializada. Em 2024, a prefeitura publicou o I Inquérito sobre a Situação Alimentar no Município, estudo coordenado pelo Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Comusan), em articulação com universidades públicas e organizações da sociedade civil e do terceiro setor, que utilizou a EBIA como instrumento central de diagnóstico.
O levantamento mostrou que 50,5% da população paulistana – cerca de 5,8 milhões de pessoas – vivia em domicílios com algum grau de insegurança alimentar. Destas, 12,5% encontravam-se em insegurança alimentar grave ou fome, o equivalente a aproximadamente 1,4 milhão de pessoas. Em termos proporcionais, a fome na capital foi três vezes maior que a média nacional (4,0%) e quatro vezes superior à média do estado de São Paulo (2,9%). A distribuição da fome na capital revelou-se marcada socioespacialmente: 72% das pessoas em insegurança alimentar grave estavam concentradas nas áreas periféricas e, na zona leste, mais de 15% dos domicílios vivenciaram a fome.3
Os dados coletados no bairro e sistematizados no II Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na Cidade de São Paulo indicam que por volta de dois terços dos domicílios pesquisados apresentavam algum grau de insegurança alimentar, proporção superior à média municipal e compatível, e até ligeiramente mais elevada, à observada para os bairros dessa área na zona leste.4
Além disso, o Panorama registra que, em União Vila Nova, os indicadores de insegurança alimentar se intensificam quando combinados a outros fatores de vulnerabilidade territorial, como instabilidade de renda, presença de crianças no domicílio e eventos climáticos extremos. Esses achados reforçam que diagnósticos municipais são fundamentais, mas os dados produzidos no território revelam nuances que só emergem em abordagens participativas e locais.
Agir sobre a evidência
O II Panorama Municipal de SAN sistematiza a construção do VigiSAN, um sistema municipal de vigilância em SAN guiado por intersetorialidade, governança de dados, participação social e territorialização. Coordenado pelo Comusan e seu observatório (ObSANPA), e executado pelo Centro de Recuperação e Educação Nutricional (CREN), o projeto Com Ciência Cidadã estruturou o VigiSAN em dois componentes. O primeiro é o conceitual: elaboração participativa de matrizes conceituais, fluxogramas e protocolos de vigilância; oficinas intersetoriais com gestores, conselheiros e especialistas não necessariamente cientistas e acadêmicos, também reforçando o caráter de ciência cidadã da ação coletiva e pública; maratona de prospecção e tratamento de dados (design thinking), resultando em propostas concretas para implantação do sistema.
O segundo componente é o aplicado: formação de jovens cientistas em União Vila Nova; coletas com EBIA (versão curta) integradas a práticas de educação científica do Detetives da Comida e produção de dados locais e apropriação social das evidências – com foco na alfabetização científica, no engajamento cívico e no controle social.
O VigiSAN não é um instrumento apenas descritivo, mas um mecanismo de governança que integra dados administrativos, coletas comunitárias e indicadores intersetoriais, orientando planejamento, monitoramento e avaliação das políticas no município. Em outras palavras, o sistema pretende encurtar a distância entre três momentos que, muitas vezes, ficam desconectados: produzir evidência, interpretar evidência e agir sobre ela.
O depoimento (colhido como relato de participante em atividade formativa) não adiciona novos números; ele traduz o sentido da ciência cidadã: produzir dados e interpretá-los coletivamente cria consciência pública e capacidade de reivindicação – condições democráticas para realizar o direito humano à alimentação adequada.4
Do dado ao planejamento
Em políticas urbanas complexas, produzir dados é necessário, mas não suficiente. A passagem da evidência para a ação depende de um desenho de governança que responda, de modo explícito, a perguntas que normalmente ficam implícitas ou dispersas:
O que precisa ser monitorado. A matriz conceitual organiza dimensões analíticas e evita que a vigilância se reduza a um único indicador, protegendo a leitura integrada do fenômeno.
De onde vêm as informações. Ao combinar dados administrativos, coletas comunitárias e indicadores intersetoriais, o sistema amplia cobertura e aumenta a chance de capturar sobreposições de vulnerabilidade.
Quem tem responsabilidade por atualizar e interpretar. O fluxo e o protocolo definem papéis institucionais e rotinas de atualização, criando previsibilidade operacional e reduzindo a dependência de esforços pontuais.
Como a informação volta ao território e se transforma em responsabilidade. A transparência por meio de observatórios e painéis públicos, combinada à formação (gestores, conselheiros e jovens), fortalece uma cultura de dados e condições de controle social.
Em União Vila Nova, esse ponto é ainda mais sensível porque a produção de evidência ocorre em territórios expostos a choques. A enchente mostrou que a governança da segurança alimentar e nutricional precisa conseguir “ler” e reagir a acoplamentos entre clima, infraestrutura e vulnerabilidade social. Nesse contexto, a arquitetura do VigiSAN busca institucionalizar não apenas um diagnóstico, mas uma capacidade coletiva de monitorar e agir. Ao fazê-lo, contribui para tomada de decisão baseada em evidências e para o controle social, reforçando o papel da ciência como instrumento de governança democrática.4 ,1
Como o sistema foi desenhado: metodologias participativas e arquitetura de dados
O projeto Com Ciência Cidadã detalha um conjunto de metodologias de co-design e de formação, pactuadas ao longo de oficinas participativas que conectam os princípios de SAN à construção de indicadores, painéis informacionais e protocolos operacionais para a vigilância em escala municipal. Essas oficinas reuniram gestores públicos, conselheiros, pesquisadores, organizações da sociedade civil e atores dos territórios, permitindo que diferentes saberes fossem incorporados de forma sistemática ao desenho do VigiSAN.
Como resultado desse processo colaborativo, foi estruturada uma matriz conceitual de vigilância em SAN, que organiza as dimensões analíticas do sistema e orienta a leitura integrada dos dados. Essa matriz é operacionalizada por meio de um fluxo e de um protocolo de funcionamento do VigiSAN, que definem responsabilidades institucionais, fontes de informação, processos de atualização e formas de articulação intersetorial no âmbito da administração municipal.
O desenho metodológico também incorporou laboratórios de aplicação, combinando abordagens quantitativas e qualitativas, com o objetivo de testar e refinar instrumentos de coleta, análise e interpretação de dados em contextos territoriais específicos. Esses laboratórios foram complementados por cursos voltados à prospecção, ao tratamento e à visualização de dados, fortalecendo capacidades técnicas de gestores, conselheiros e cidadãos interessados na vigilância da SAN.
Além disso, o projeto promoveu uma maratona de inovação, inspirada em metodologias de design thinking, voltada à prototipagem de soluções para os desafios da segurança alimentar no município. Esse espaço permitiu transformar problemas complexos em propostas concretas, conectando diagnóstico, experimentação e planejamento de políticas públicas de maneira criativa e colaborativa.
Ao articular design da informação, participação social e ciência cidadã, o VigiSAN se consolida como infraestrutura pública de dados, fundamental para ampliar a precisão territorial do diagnóstico da insegurança alimentar e fortalecer mecanismos de transparência, monitoramento e accountability das políticas públicas.
O que o caso ensina
Com base nos elementos sistematizados no Panorama, o caso pode ser lido a partir de quatro decisões estratégicas que ajudam a explicar por que a iniciativa vai além de um projeto pontual e se aproxima de uma infraestrutura sociotécnica de governança.
A primeira é medir com instrumento validado e traduzir para o território. A escolha da EBIA curta manteve um instrumento reconhecido e comparável, ao mesmo tempo que tornou viável a coleta porta a porta por jovens pesquisadores, ao longo de meses, em um território específico. O trade-off é conhecido: instrumentos padronizados aumentam comparabilidade, mas podem reduzir sensibilidade para particularidades locais. A forma encontrada para lidar com isso foi combinar a aplicação da EBIA com conversas e registros de campo, ampliando interpretação e situando a evidência no cotidiano.
A segunda decisão é transformar participação em capacidade. O projeto apostou na formação e supervisão dos jovens e na integração da coleta com práticas de educação científica. Em vez de mobilizar a comunidade apenas como fonte de informação, buscou construir capacidade local para produzir, ler e discutir evidências. O trade-off é tempo e esforço institucional: formar pessoas, supervisionar, sustentar engajamento e assegurar qualidade de demanda mais do que terceirizar uma pesquisa. Em contrapartida, cria condições para alfabetização científica, controle social e continuidade.
A terceira decisão é desenhar governança antes de prometer impacto. A elaboração da matriz, do fluxo e do protocolo (com oficinas e pactuação) define responsabilidades, fontes, rotinas de atualização e articulação intersetorial. É um tipo de resultado menos visível do que uma ação imediata de combate à fome, mas é o que permite a passagem do diagnóstico para a política pública. O trade-off está na complexidade: interoperabilidade entre bases, silos administrativos e disputas sobre prioridades precisam ser enfrentados para que o sistema funcione como governança, e não apenas como painel.
A quarta e última decisão é tratar crises como evidência e como requisito de desenho. A interrupção da pesquisa pela enchente mostrou que a fome no território está acoplada a infraestruturas urbanas, saneamento, saúde e risco climático. O trade-off é ampliar a ambição: a vigilância em SAN não se resolve apenas com indicadores alimentares. Em periferias expostas a choques, exige leitura integrada e capacidade de resposta intersetorial, inclusive para reconhecer que desastres climáticos podem intensificar e acelerar trajetórias de insegurança alimentar.
O que pode ser transferível para outros territórios
A experiência de São Paulo com o VigiSAN e o projeto Com Ciência Cidadã apresenta elementos com potencial de replicabilidade para outros municípios, especialmente aqueles que enfrentam desigualdades territoriais profundas na garantia da SAN. Entre esses elementos destacam-se: adoção de uma arquitetura participativa, estruturada por meio de oficinas, maratonas de inovação e laboratórios de aplicação; integração de instrumentos cientificamente validados, como a EBIA, a processos de educação científica e formação cidadã; criação de observatórios e painéis públicos com dados abertos e recortes territoriais finos; constituição de arranjos de governança intersetorial, envolvendo conselhos, secretarias e órgãos técnicos; e formação de jovens cientistas aliada a estratégias de comunicação pública dos achados, ampliando transparência e controle social.
Ao mesmo tempo, o próprio Panorama ressalta que contextos institucionais, trajetória das políticas locais e arranjos políticos e administrativos não são facilmente transferíveis entre cidades. Por essa razão, a replicação do modelo não deve ser entendida como simples reprodução, mas como um processo que exige adaptação metodológica, pactuação política e enraizamento territorial, respeitando as especificidades sociais, culturais e institucionais de cada realidade local.4
Como síntese prática, um roteiro inspirado no caso inclui:
1) combinar diagnóstico confiável com recorte territorial fino;
2) pactuar governança (matriz, fluxo, protocolo) antes de expandir;
3) formar capacidades distribuídas (gestores, conselheiros e juventudes);
4) tratar dados como bem público coproduzido, com transparência e controle social;
5) incorporar vulnerabilidades urbanas e choques climáticos como parte do problema a ser monitorado.
O que está em funcionamento
A partir da experiência do Com Ciência Cidadã, o município de São Paulo passou a contar com um conjunto articulado de produtos institucionais e capacidades técnicas voltados à vigilância da segurança alimentar. Entre os principais resultados destacam-se a elaboração e pactuação de matrizes conceituais, fluxos e protocolos operacionais do VigiSAN, a formação continuada de gestores públicos, conselheiros e jovens pesquisadores em temas como ciência aberta, dados abertos e vigilância em SAN, a sistematização dos achados no II Panorama Municipal de SAN e a integração prática de instrumentos validados – como EBIA – com processos de educação científica no território. Embora ainda em consolidação, o caráter transformador da experiência reside na mudança de posição da sociedade, que deixa de ser apenas público consultado para tornar-se coprodutora de evidências e, portanto, corresponsável pela governança das políticas públicas de SAN.
O caso paulistano também evidencia desafios estruturais para a consolidação do VigiSAN e da ciência cidadã como política permanente de vigilância. Entre eles destacam-se: necessidade de sustentabilidade política e financeira, para garantir a continuidade de formações, coletas e painéis informacionais; escalabilidade das metodologias para outros distritos e territórios com menor capacidade técnica instalada; integração intersetorial, assegurando interoperabilidade entre bases de dados das áreas de saúde, assistência social, educação, abastecimento e segurança hídrica; fortalecimento de uma cultura pública de dados, que promova acesso, reuso e alfabetização informacional para diferentes públicos; e aplicação de marcos éticos e de governança de dados, especialmente para a proteção de populações vulnerabilizadas.2
Esses desafios não diminuem o valor da experiência. Pelo contrário, definem a agenda necessária de institucionalização e amadurecimento do sistema. Em termos de transição sociotécnica, é a passagem de um arranjo experimental para uma política pública estruturante: manter o que dá legitimidade (território, participação, transparência) e, simultaneamente, consolidar rotinas e capacidades que permitam continuidade e expansão.
Dados como bens públicos
Em uma metrópole onde cerca de 1,4 milhão de pessoas vivem em situação de fome e onde a insegurança alimentar se concentra de forma persistente nas periferias urbanas, produzir e utilizar evidências com a sociedade não é um luxo metodológico ou um complemento acessório às políticas públicas. É uma condição essencial de eficácia.
O VigiSAN e o Com Ciência Cidadã demonstram que os dados podem ser tratados como bens públicos coproduzidos; que jovens, conselheiros e moradores podem atuar como agentes técnicos da vigilância em segurança alimentar ; e que matrizes, fluxos e protocolos construídos com os territórios são capazes de transformar informações em planejamento, tomada de decisão e cobrança pública. Nesse processo, a ciência deixa de ser apenas instrumento diagnóstico e passa a funcionar como infraestrutura democrática, fundamental para a governança das políticas alimentares.
Em São Paulo, a experiência analisada indica que realizar a segurança alimentar e nutricional exige a articulação indissociável entre território, ciência e participação social. Esse tripé – evidência local qualificada, governança intersetorial e controle social ativo – aponta um caminho concreto para alinhar diagnósticos, políticas públicas e vidas, contribuindo para que o direito humano à alimentação adequada seja efetivamente realizado onde ele mais falta.
Notas
1.ALBAGLI, Sarita. Ciência cidadã: conceitos e práticas. Ciência & Cultura, São Paulo, v. 77, n. 1, 2025.
2.FIOCRUZ. Ciência Aberta: portal e formação modular (Campus Virtual). Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2023. Disponível em: <https://fiocruz.br/ciencia-aberta>. Acesso em: 6 jan. 2026.
Disponível também em: <https://campusvirtual.fiocruz.br/portal/?q=formacao-modular/ciencia-aberta>. Acesso em: 6 jan. 2026.
4. FRANCO, Jessica Vaz; MOURA, Larissa; ALBUQUERQUE, Maria Paula de (org.). 2º Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na Cidade de São Paulo: contribuições do Com Ciência Cidadã para implementação do VigiSAN. São Paulo: Lucas Melara & Companhia; CREN; LM & Companhia, 2025.3.RIBEIRO JUNIOR, José Raimundo Sousa; BANDONI, Daniel; TOMITA, Luciana Yuki. I Inquérito sobre a Situação Alimentar no Município de São Paulo: primeiros resultados. São Paulo: UNIFESP; UFABC, 2024. Realização: OBSANPA; COMUSAN; SMDHC; SESAN







