RAIO X
CEI Amigo do Peito
O que é: Selo da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo que reconhece unidades educacionais que promovem e apoiam o aleitamento materno.
Público-alvo: Bebês e crianças de 0 a 3 anos, suas famílias e profissionais das unidades educacionais da rede municipal.
Foco de atuação: Formação de equipes escolares, adaptação de espaços nas creches e incentivo à continuidade da amamentação após o retorno ao trabalho.
Início das atividades: 2018.
Impacto até agora: 1.490 unidades reconhecidos com o selo – cerca de 58% da rede municipal, que atende mais de 335 mil crianças.
Foi para solucionar um grande dilema que, dez anos atrás, a Coordenadoria de Alimentação Escolar (Codae) da Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo resolveu tomar providências. Era uma contradição fazer um esforço enorme para levar a melhor alimentação às crianças de 0 a 3 anos atendidas pelo sistema educacional e ao mesmo tempo deixar do lado de fora um de seus elementos mais importantes, o leite materno.
A recomendação de que bebês até 6 meses sejam alimentados exclusivamente com leite humano, e que o aleitamento se mantenha até pelo menos 2 anos de idade é consenso internacional. Os benefícios da amamentação à imunidade e ao desenvolvimento infantil são comprovados há décadas, e se estendem também a quem amamenta, na prevenção por exemplo do câncer de mama. “Se entendemos que o melhor alimento para bebês é o leite materno, e essas crianças estão no ambiente educacional, temos de encontrar maneiras de que recebam esse leite”, diz a nutricionista Kátia Romanelli, que fazia parte do primeiro grupo de trabalho sobre o tema na Codae, naquela época, e hoje está à frente do projeto CEI Amigo do Peito.
Criada em 2018, como resultado das reflexões do grupo, a iniciativa de apoio à amamentação entregou no ano passado 1.490 selos de Amigo do Peito a unidades educacionais da Prefeitura de São Paulo, reconhecendo a promoção da amamentação em seu interior. O número representa 58% do total de unidades, uma proporção que cresce a cada ano.
CEI é a abreviação de centro de educação infantil, o nome oficial da grande maioria das unidades educacionais paulistanas que atendem crianças de 0 a 3 anos. A secretaria prefere não usar o termo “creche”. “Ele sustenta uma carga assistencial, e essas instituições promovem a educação infantil”, ressalva a nutricionista.
As unidades que ganham o selo estão abertas a receber mães que vão dar o peito aos bebês a qualquer hora do período letivo, e também recebem da família leite materno congelado para que ele seja dado à criança ao longo do dia. Os avanços no incentivo à amamentação nas unidades educacionais, resultantes das reflexões do grupo de trabalho, começaram com a preparação de material educativo para derrubar os mitos mais comuns, e seguem evoluindo, como com o programa que está formando centenas de embaixadores Amigos do Peito para atuar de forma educativa nas equipes.
Resistência
“No começo, muitos educadores acreditavam que a criança amamentada no peito dentro da unidade teria maior dificuldade de adaptação, que ia chorar ao se separar da mãe”, conta Romanelli. Na prática, porém, percebia-se o contrário, o bebê ficava tranquilo, adormecia no peito, explica.
Para quebrar a resistência, a primeira ação da secretaria foi criar um vídeo educativo voltado às equipes, com depoimentos de diretoras de unidades onde a amamentação acontecia, e de uma pediatra e uma psicóloga falando dos benefícios do aleitamento. Para reconhecer e divulgar as boas experiências, surgiu em 2018 a ideia de criar um selo, inspirado na consagrada iniciativa Hospital Amigo da Criança.
Toda a ação se baseia na educação e no reconhecimento de atitudes tomadas de forma voluntária. “O selo não é um certificado, porque não vamos até a unidade verificar que aquelas ações estão acontecendo”, esclarece Romanelli. As unidades respondem anualmente a um questionário sobre 12 ações divididas em três eixos: equipe, família e ambiente. Recebem o selo aquelas que disserem cumprir 50% dos requisitos em cada eixo.
Equipe
Imagine que uma família vai fazer a matrícula de um bebê na unidade de educação infantil e ouve: “Ele ‘ainda’ mama?”, exemplifica a nutricionista. “Esse primeiro contato é muito importante, a família está insegura, e só o modo como é feita a pergunta já pode ser determinante.”
Discutir o assunto amamentação internamente, buscar informações com nutricionistas da Codae e do serviço público e apresentar para os funcionários materiais educativos e o informativo técnico são ações que as unidades detentoras do selo Amigo do Peito declaram realizar. “Não adianta só a diretora ser entusiasta do aleitamento. Sozinha, não consegue implementar”, ressalta Romanelli.
Conforme avalia Cristina Marcelino de Torres Sernaglia, coordenadora pedagógica do CEI Nair Salgado, uma das grandes resistências das equipes é permitir a entrada na unidade de quem vai amamentar. “É comum que se imponham regras, horários. Não têm a confiança de que é possível abrir as portas. Se não se está fazendo nada de errado, por que ter medo?”, pergunta.
“Aqui as mães entram a qualquer momento para amamentar, ou para tirar dúvidas. Estamos sempre de prontidão para elas. É claro que não foi sempre assim, mas fomos trabalhando esse olhar para o aleitamento”, corrobora a diretora da unidade, Danielle Rodrigues Caneschi.
O Nair Salgado, considerado referência em amamentação, fica no Carandiru, zona norte de São Paulo, próximo ao Parque da Juventude Dom Paulo Evaristo Arns e dentro da comunidade Zaki Narchi, onde vivem cerca de 2.500 pessoas.
Para Sernaglia, o incentivo ao aleitamento dentro da unidade cria um vínculo entre família e educadores que tem reflexos positivos para o espaço e para a comunicação, pelo bem-estar da criança. “Eu falo para os pais e para a equipe: essa confiança não pode ser quebrada. Não pode acontecer de alguém chegar para dar o peito e ouvir que ‘hoje não dá’”, afirma a coordenadora.
Embaixadores Amigos do Peito
Para reforçar a comunicação das equipes, em 2025 nasceu mais uma iniciativa: os embaixadores Amigos do Peito. A ideia foi contar com pontos focais do movimento pró-amamentação dentro das unidades, pessoas engajadas que façam o incentivo fluir de forma mais capilarizada. “Pode ser uma professora, um agente de apoio, um auxiliar administrativo ou de enfermagem, ou então nutricionistas assessoras, das empresas terceirizadas”, descreve Kátia Romanelli. “Foi proposital não considerar a equipe gestora – diretor, coordenador pedagógico, assistente de direção etc. –, porque ela já recebe os orientativos, participa de formações. Queríamos atingir outras pessoas, fazer delas referências.”
Na ação, mais uma vez voluntária, diretores foram convidados a indicar candidatos a embaixadores, que então passaram por uma formação online de três horas e por um encontro presencial. Foram 698 pessoas formadas na primeira edição. O grupo segue trocando informações pelo Telegram.
“É trabalhoso, mas muito gratificante. Costumo dizer que também sou educadora, porque a gente acaba educando a família e a criança”, diz a auxiliar de enfermagem e embaixadora Amiga do Peito Cristiane Maria Santos França, do Nair Salgado.
As edições futuras devem ampliar a rede e incentivar o surgimento de mais unidades que recebam o selo Amigo do Peito, acredita Romanelli. Para a formação online, foram produzidos cinco novos vídeos educativos, criados a partir de um esforço de escuta das equipes das 13 Diretorias Regionais de Ensino (DREs) do município, que colheu as dúvidas e demandas internas.
Além do material sobre o acolhimento da amamentação no ambiente educacional, houve um grande enfoque nas questões operacionais: as técnicas para coletar, armazenar e oferecer leite congelado quando o aleitamento presencial não é possível.
“Vimos que era uma necessidade. Fizemos então um passo a passo sobre como fazer a extração do leite, com material para as famílias”, diz Romanelli, referindo-se ao material cedido pela organização da sociedade civil LeME (Leite Materno na Escola). A nutricionista revela também o tema mais delicado da formação: como oferecer o leite aos bebês sem usar mamadeira.
“Fizemos um vídeo só sobre isso, mostrando que bicos, mamadeiras e chupetas podem levar ao desmame, e quais são as alternativas.” Ela reconhece que dar leite com outros métodos que não a mamadeira é mais difícil. “Mas não é impossível. O adulto precisa estar seguro da importância do que está fazendo e conhecer os princípios. Para usar copo de vidro, colher simples ou copo de transição para dar o leite descongelado, tem de ser em um momento em que o bebê ainda não esteja com muita fome ou sono”, explica.
A necessidade dessa informação vem aumentando à medida que os bebês chegam às unidades educacionais cada vez mais novos, em um “efeito colateral” da extinção, desde 2020, da fila para matrícula nas creches paulistanas. “Como antes havia longa espera, os bebês chegavam já comendo outros alimentos. A média de fila era de oito meses”, lembra a nutricionista da Codae. Agora, o sistema chega a registrar bebês com menos de um mês de vida.
A recomendação de aleitamento exclusivo até os 6 meses é consenso internacional e da Organização Mundial da Saúde (OMS), e o Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos (versão 2025) é explícito ao dizer que “nenhum outro tipo de alimento precisa ser oferecido [até os 6 meses]: nem líquidos, como água, água de coco, chá, suco ou outros leites; nem qualquer outro alimento, como frutas, verduras, papinha e mingau”.
“Amamentando aos 17, encontrei incentivo na creche”
Eu me tornei mãe aos 17 anos, ainda na escola.
Quando descobri que estava grávida, senti medo e insegurança e tive muitas dúvidas sobre como seria dali para a frente. Mas quando minha filha nasceu tudo ganhou um novo sentido. Entre tantas descobertas, a amamentação foi uma das experiências mais intensas e transformadoras que vivi.
Amamentar minha menina foi, ao mesmo tempo, desafiador e poderoso. No começo, senti dor, cansaço e até pensei que não conseguiria. Eu ainda era uma adolescente, conciliando provas, trabalhos e responsabilidades que muitas pessoas da minha idade nem imaginavam. Mesmo assim, cada vez que a colocava no peito sentia uma conexão inexplicável, uma força que vinha de dentro e me lembrava que eu era capaz.
Levei minha filha comigo para a escola algumas vezes, porque não tinha outra opção. Em certos momentos, fui barrada. Disseram que aquele não era um lugar para isso, que eu não poderia amamentar ali. Aquilo doeu. Doeu porque eu estava apenas cuidando da minha filha, exercendo algo que é natural e necessário. Me senti julgada, pequena, como se estivesse fazendo algo errado.
Mas também encontrei apoio. Tive professores e pessoas que entenderam minha situação, que me deram liberdade para amamentar e continuar estudando. Esses gestos fizeram toda a diferença. Quando alguém me oferecia um espaço, uma palavra de incentivo ou simplesmente respeito, eu me sentia acolhida e mais forte para continuar.
E, se na escola regular enfrentei barreiras, na creche [CEI Nair Salgado] eu vivi o oposto. O CEI me incentivou muito. Muito mesmo. Lá eu encontrei acolhimento, orientação e, principalmente, respeito. Tive espaço adequado para amamentar, privacidade quando precisei e incentivo para continuar oferecendo o melhor para minha filha. Nunca me senti julgada. Pelo contrário, me senti apoiada, compreendida e valorizada como mãe.
Esse incentivo fez crescer minha confiança. Saber que existia um lugar que reconhecia a importância da amamentação e fazia questão de garantir esse direito me fortaleceu. O CEI não apenas cuidou da minha filha, mas também cuidou de mim, da minha autoestima e da minha segurança como mãe jovem.
Amamentar, para mim, foi um ato de amor e resistência. Foi provar todos os dias que eu podia ser mãe e estudante ao mesmo tempo. Foi enfrentar olhares, comentários e regras rígidas, mas também reconhecer a importância de lutar pelo meu direito e pelo bem-estar da minha filha.
Hoje, quando olho para trás, vejo que a amamentação não foi apenas sobre alimentar minha menina. Foi sobre amadurecimento, coragem e superação. Foi sobre aprender que, mesmo tão jovem, eu tinha dentro de mim uma força imensa. E que, com apoio, estrutura e respeito – como encontrei no CEI –, toda mãe, independente da idade, merece viver esse momento com dignidade.
Manuella Martinez Rodrigues, 19 anos, é mãe de Sofia Caroline e estudante de jornalismo e fotografia.
Treinamento na cozinha, copo e colher
Mesmo antes de ser oficialmente embaixadora Amiga do Peito, a auxiliar de enfermagem Cristiane França já tinha organizado um treinamento para o pessoal da cozinha do CEI Nair Salgado para mostrar como o leite deve ser descongelado (com o recipiente colocado em água quente, mas fora do fogo), como identificar se o leite está em condições de ser oferecido, como os copos ou colheres devem ser higienizados.
As professoras, que vão dar o leite aos bebês, também precisam de apoio e orientação para conseguir usar o copinho e não a mamadeira. Kátia Romanelli sabe que a mamadeira ainda é muito prevalente nas unidades, mas comemora o fato de a pesquisa mais recente da secretaria, respondida em abril de 2025 por 1.972 unidades (76% do total da cidade), já ter registrado a existência de unidades “mamadeira zero” (14%), para bebês amamentados e também para aqueles que tomam fórmula artificial.
As alternativas preferidas para oferecer leite aos bebês, de acordo com a pesquisa, são o copinho (do tipo “copo de pinga”), colher simples, copo de transição com bico rígido, colher dosadora (uma espécie de mamadeira com uma colher na ponta) e caneca, nessa ordem. Mas ainda há muito a evoluir: 59% das unidades disseram utilizar mamadeira para todos os bebês.
A orientação da secretaria é que o leite seja entregue na creche já congelado, um potinho por mamada. “Uma mãe que disse que não poderia fazer isso, pois não tinha geladeira em casa. Então, quando ela entregava a criança, já amamentava e fazia aqui a extração do leite, que guardávamos”, conta Cristina Sernaglia. Romanelli diz que em muitas unidades há campanhas para arrecadar potes adequados (de vidro, com tampa plástica) e até doação de bolsa térmica e bomba extratora de leite.
Apesar dos esforços, ainda há bastante a melhorar. De acordo com a sondagem feita pela secretaria em 2025, um dos instrumentos de monitoramento do programa, só cerca de 40% das unidades dizem receber leite materno congelado. E na maioria delas (58%), apenas um bebê é alimentado dessa forma. Em 69% das unidades, há crianças sendo amamentadas dentro da creche, mas, mesmo em unidades de referência, como o CEI Nair Salgado, o número costuma ser pequeno: dos cerca de 150 alunos de 0 a 3 anos matriculados, quatro estavam sendo amamentados nas dependências do centro infantil em março de 2026.
Ambiente e acolhida
“Minha filha entrou na creche com 4 meses. Trabalho aqui perto e venho sempre à uma da tarde dar a amamentação. Estou amando, nos recebem maravilhosamente bem”, diz Cristiana Aparecida dos Santos Pereira da Silva, mãe da pequena Noemi. Mães como Cristiana podem ser vistas dando o peito dentro da sala de aula, ou nos tradicionais bancos formados por lápis coloridos na entrada das unidades, ou ainda no parque, sob a sombra das árvores, assistindo à brincadeira das crianças mais velhas.
“Quando iniciamos a formação, dez anos atrás, as equipes falavam: ‘Não temos dinheiro para comprar poltrona’”, relata Kátia Romanelli. “E nós explicávamos que em São Paulo existe uma lei que permite a amamentação em qualquer lugar, público ou privado”, diz, referindo-se à Lei 16.047, de 2015, promulgada depois dos “mamaços” em protesto a episódios de repressão ao aleitamento em público.
Embora muitas unidades tenham criado uma sala especial, o mais frequente é existir um “cantinho do aleitamento”, em local aberto, muitas vezes exibindo orgulhosamente na parede o selo CEI Amigo do Peito. E o que acontece na prática, conta Romanelli, é que a maioria das mães prefere dar o peito ao ar livre, ou então conversando com alguém. “Muitas mães aqui são jovens, e vêm até com grupo de amigas. Achamos bonito, porque é uma forma de incentivarmos essas meninas para amamentar quando elas tiverem seus próprios filhos”, afirma a coordenadora pedagógica Cristina Sernaglia.
Entre os outros requisitos para ser um CEI Amigo do Peito estão informar as famílias, desde a entrevista inicial, sobre o incentivo e o direito ao aleitamento no local, e abordar os benefícios da amamentação em encontros de pais, mesmo que às vezes isso tenha de ser feito em outros idiomas, devido à presença de pais e mães imigrantes. A unidade também precisa mostrar disposição para adaptar seus horários. Quanto ao ambiente, não é obrigatório ter uma sala exclusiva, mas sim oferecer espaços em que os pais se sintam confortáveis, ainda que seja a sala da direção, se se tratar de alguém que prefira privacidade.
No CEI Nair Salgado, famílias novas são convidadas a folhear uma pasta bem organizada. Sob o plástico que protege as folhas, surgem imagens de bebês mamando no peito, mães sorridentes, um bebê tomando o leite na colher, intercaladas com fotos da participação da equipe em jornadas pedagógicas, recebendo visitas de pessoas que queiram se informar sobre a iniciativa Amigo do Peito, e profissionais emocionadas ao ganhar uma homenagem especial por terem recebido todos os selos da campanha, desde 2018.
As fotos são um instrumento de engajamento da comunidade escolar. “Gosto muito do registro fotográfico, nada de foto posada. Todas têm a devida autorização, e as meninas gostam de se ver. A pasta mostra que estamos todos trabalhando juntos no território. Ela guarda nossa história, é como se fosse uma carta pedagógica da amamentação na unidade”, diz Sernaglia, virando as páginas.
Nas últimas imagens, aparecem crianças maiorzinhas, com bonecas. No peito. Brincando de amamentar. Sinal de que, além de acolher as famílias, a unidade está transmitindo a cultura da amamentação para a próxima geração.








