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Modos de vencer as fake news

Um estudo internacional sugere que soluções para a desinformação online, como avisos de precisão e crowdsourcing, são amplamente eficazes em todas as culturas e nações

Por Chana R. Schoenberger

(Ilustração de Eric Nyquist)

A desinformação se espalha rapidamente pelas redes sociais, afeta as eleições, gera insegurança e suscita uma pergunta: “é possível resolver esse problema em diferentes países?”.

Um grupo de acadêmicos de instituições do mundo todo, incluindo a Google, resolveu estudar que aspectos levam as pessoas a acreditar em inverdades online e como fazer com que sejam mais seletivas quanto a confiar em notícias na internet.

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O estudo analisou a probabilidade de indivíduos acreditarem em informações falsas sobre a covid-19 em 16 países: Reino Unido, Brasil, Itália, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Espanha, Filipinas, Argentina, México, Rússia, Egito, Nigéria, China, Arábia Saudita e Índia.

“Em todos participantes com um estilo cognitivo mais analítico e mais motivados pela precisão foram mais bem-sucedidos em separar o verdadeiro do falso”, escrevem os autores. “A valorização da democracia também aparece associada a maior discernimento, enquanto a visão de que responsabilidade individual vem acima do apoio ao governo se associa negativamente à percepção da verdade, na maioria dos países.”

Os pesquisadores testaram várias intervenções para combater a desinformação. “Induzir as pessoas sutilmente a pensar sobre precisão teve, em geral, um efeito positivo sobre a veracidade das notícias que elas estavam dispostas a compartilhar. Dicas mínimas de alfabetização digital tiveram igual efeito.”

A pesquisa realizada em 2021 teve uma amostra de 2.000 pessoas com contas ativas nas mídias sociais, em cada país. Os participantes foram apresentados a 20 manchetes sobre a covid-19, metade verdadeiras, metade falsas. Em seguida, cada um devia dizer se considerava a manchete verdadeira ou qual a probabilidade de compartilhar o artigo. Parte dos participantes foi exposta, antes a uma manchete não relacionada ao assunto. Outro grupo recebeu uma série de dicas sobre alfabetização digital desenvolvidas originalmente pelo Facebook.

Embora algumas pessoas tivessem dificuldade de afirmar qual manchete era verdadeira, em grupo se saíam melhor. Segundo os pesquisadores, a somatória da pontuação dos participantes não especialistas “permitiu separar as manchetes falsas das verdadeiras com alta precisão em todos os países graças à ‘sabedoria das multidões’”.

Os pesquisadores estavam interessados na desinformação devido às graves consequências para a saúde pública de conteúdo online desaconselhando a vacinação contra a covid-19, observa David Rand, coautor do estudo e professor de ciência da gestão e cérebro e ciências cognitivas do MIT.

“Nossos dados, confirmados por vários outros estudos, sugerem que as pessoas não são tão suscetíveis à desinformação”, salienta Rand. “Ou seja, a maioria delas não acredita na maior parte das notícias falsas. No entanto, a simples exposição a elas pode aumentar sua plausibilidade. Por isso é tão importante evitar sua disseminação.”

Outro resultado interessante da pesquisa foi a similaridade de comportamentos observados em diferentes países e culturas do mundo. Segundo os pesquisadores, “padrões consistentes sugerem que os fatores psicológicos inerentes à questão da desinformação são similares em diferentes regiões e que soluções parecidas podem ser eficazes em grande escala”. O resultado foi surpreendente, pois eles esperavam variações regionais, observa Rand.

“Em certo sentido, o principal resultado do artigo foi mostrar que a psicologia de crer e espalhar desinformação foi muito similar nos 16 países estudados. O pensamento crítico e a predisposição à verdade, por exemplo, foram consistentemente associados à menor crença em notícias falsas. Além disso, todas as intervenções que testamos foram, de modo geral, eficazes em todos os países.”

O artigo é importante porque, diferentemente de muitos estudos, testa várias formas de combater a desinformação online no mundo todo, avalia Brendan Nyhan, professor do governo no Dartmouth College e conhecido crítico da desinformação e propaganda política. “É encorajador saber que muitas dessas descobertas se generalizam além dos Estados Unidos, onde a base de evidências é mais forte.”

Andrew Guess, professor de política e relações públicas em Princeton, diz que o artigo é importante porque demonstra de forma conclusiva que os mecanismos psicológicos subjacentes à crença e engajamento na desinformação espalhada pelas mídias sociais são similares no mundo todo”. O mesmo vale, ressalta, para as reações mais promissoras a estímulos de atenção, dicas de alfabetização em mídias digitais e respostas colaborativas – “o que é uma boa notícia para as plataformas que procuram ampliar o alcance de suas soluções”.

Antonio A. Arechar, Jennifer Allen, Adam J. Berinsky, Rocky Cole, Ziv Epstein, Kiran Garimella, Andrew Gully, Jackson G. Lu, Robert M. Ross, Michael N. Stagnaro, Yunhao Zhang, Gordon Pennycook, David G. Rand, “Understanding and Combatting Misinformation Across 16 Countries on Six Continents,” Nature Human Behaviour, vol. 7, setembro 2023.

A AUTORA

Chana R. Schoenberger é jornalista, escreve sobre negócios, finanças e pesquisas acadêmicas. Mora em Nova York e pode ser encontrada no X como @cschoenberger.



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