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Ron Gonen

Há oportunidades para soluções inovadoras em todos as partes da cadeia de valor, incluindo o design, as tecnologias da cadeia de suprimentos e a reciclagem molecular.

Por Ron Gonen

A indústria da moda nem sempre cresceu – ou apresentou a pegada ambiental – no ritmo que conhecemos atualmente. Nos anos 1940, meu avô era alfaiate em Tel Aviv, e a ideia de alguém se desfazer de uma peça de roupa de estimação era impensável, quase como ser convidado a ir à casa de um amigo para jantar e, depois do jantar, jogar seu prato chique fora. O que hoje consideramos ideias circulares – reparo, reutilização e reciclagem, bem como a utilização de uma roupa até que ela acabe – não eram nada de inovador no tempo do meu avô, apenas práticas triviais.

Hoje em dia, porém, a mentalidade de valorizar a qualidade e a longevidade é completamente estranha à indústria da moda. Não vemos nada de mais em nos desfazer de uma peça depois de usá-la algumas vezes. Na verdade, o americano médio descarta mais de 35 quilos de roupa por ano, e os custos financeiros e ambientais desse desperdício tornaram-se inaceitáveis.

O artigo de Ken Pucker mostra a pegada descomunal do setor da moda, que faz dele um dos maiores contribuidores para a poluição e a degradação do meio ambiente – emissões de gás de efeito estufa, desperdício de água, consumo de energia, uso de pesticidas e muito mais. Ademais, o setor demonstra falta de transparência na cadeia de valor e na cultura de subcontratação no estágio de fabricação, além de exigir receitas a curto prazo para os acionistas. Isso tudo dificulta sua capacidade (e seu desejo) de reduzir a pegada da indústria. Por fim, a total ausência de restrições regulatórias permite que, ano após ano, o setor planeje crescimento sem se responsabilizar pelos efeitos que este provoca nas pessoas e no planeta.

Consumidores e empresas não estão mais dispostos a tolerar os danos ambientais e sociais generalizados da indústria da moda. Felizmente, estamos começando a testemunhar algumas mudanças, catalisadas, em grande parte, pela crescente atenção negativa na imprensa e por críticas feitas por pessoas do setor, como Pucker. Existem oportunidades para soluções inovadoras em todas as áreas, incluindo design, tecnologias de cadeia de suprimento e reciclagem molecular. Esse cenário de soluções emergentes fez do mundo da moda um pilar importante da nossa estratégia de investimento na Closed Loop Partners, onde temos como objetivo capitalizar soluções para a economia circular.

As empresas de nosso portfólio nos dão esperança de que a indústria da moda está levando a sério a transição em direção a um futuro com menos resíduos. Entre elas estão a Browzwear, que desenvolveu uma ferramenta virtual em nuvem que eliminou a necessidade de produtos “demo” físicos nos estágios iniciais de desenvolvimento; a Algaeing, equipe multidisciplinar de cientistas que inventou uma fibra biodegradável à base de algas; e a Dimpora, empresa de materiais que criou uma membrana biodegradável para substituir materiais carregados de produtos químicos presentes em nossos vestuários para atividades ao ar livre. Algumas das empresas do nosso portfólio se concentram no fim do ciclo do produto, incluindo a Evrnu, de inovação têxtil, que criou materiais reutilizáveis por meio da reciclagem molecular.

Concordo com Pucker que uma colaboração pré-concorrencial é fundamental – nesse âmbito, nosso trabalho com outros setores também rendeu frutos. Em nosso centro de inovação, um grupo de empresas trabalha na iniciativa Beyond the Bag, para desenvolver uma alternativa à sacola de plástico descartável. Nosso consórcio de marcas e fabricantes da indústria alimentícia visa eliminar embalagens de produtos de fast food descartáveis. A indústria de embalagens ainda tem um longo caminho até a circularidade plena, mas está 20 anos à frente da indústria da moda e pode servir de exemplo para a implementação de práticas e modelos de negócio.

As empresas de moda devem adotar o compartilhamento de conhecimento e perceber que ninguém se beneficia encontrando soluções de forma isolada. Ao adotar modelos e formas de trabalhar baseados em estratégias de reutilização e reparo, as empresas podem tanto obter lucros como ajudar o meio ambiente. Alguns exemplos de práticas de circularidade incluem a preservação de matéria-prima para reutilização, redução da perda de clientes por meio da recompra do produto, participação no mercado de revenda e incentivo à devolução de produtos. As em- presas podem puxar a mudança de mentalidade do consumidor – para que seja como era na geração do meu avô, que valorizava qualidade e longevidade.

O AUTOR

Ron Gonen é fundador e CEO da Closed Loop Partners.



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