Alicia estava dormindo quando agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos detiveram sua mãe em frente à casa da família, em San Francisco, no estado da Califórnia. Quando acordou na manhã seguinte, a jovem de 20 anos se viu responsável por si mesma e por duas irmãs mais novas, de 10 e 14 anos. Sem a renda da mãe para suprir as necessidades familiares, Alicia recorreu a uma organização sem fins lucrativos local para receber uma pequena ajuda financeira que permitisse manter comida na mesa.
“Há muitas pessoas que estão vivenciando a mesma situação”, conta ela.
Uma investida do governo estadunidense contra imigrantes separou jovens como Alicia de seus pais e cortou a renda das famílias da noite para o dia. O medo entre as comunidades de imigrantes levou algumas pessoas a evitar dirigir, fazer compras e até ir ao médico. Outras hesitam em procurar trabalho, temendo ser expostas. Casos como o de Alicia estão acontecendo em todos os condados da região da Baía de San Francisco, onde um terço da população nasceu fora dos Estados Unidos.
Em setembro de 2025, frente à crescente necessidade de apoio às famílias imigrantes, a San Francisco Foundation (SFF) e uma coalizão de prefeitos da região, grupos comunitários e líderes religiosos estabeleceram uma colaboração sem precedentes. A coalizão lançou o Stand Together Bay Area Fund para fornecer apoio financeiro e solidariedade a famílias que, de repente, enfrentam detenção, risco de deportação, perda de emprego e rupturas na vida cotidiana.
O fundo arrecadou US$ 1,9 milhão nas primeiras semanas, e Judith Bell, diretora de impacto da SFF, acredita que a meta de US$ 10 milhões será alcançada. Em janeiro de 2026, já haviam chegado a US$ 2,8 milhões em doações e compromissos. “Criamos uma plataforma para que indivíduos possam contribuir”, diz Bell, enfatizando que muitos moradores da região disseram se sentir impotentes diante da repressão do governo federal. “Isso dá às pessoas algo que elas podem fazer – algo concreto para aliviar, ainda que um pouco, esse peso.” Até o momento, as doações variaram de US$ 5 a US$ 300 mil.
Abordagem regional
A necessidade desse apoio ficou evidente depois que Bell e seus colegas conversaram com representantes das organizações beneficiárias da SFF e do Latine Kitchen Cabinet, grupo de líderes latinos de organizações sem fins lucrativos que assessora a fundação sobre questões importantes para as comunidades latinas da região. Eles fizeram os primeiros alertas sobre a gravidade da crise.
“Há um medo inacreditável de ser detido a qualquer momento”, comenta Bell. “Os pais se preocupam ao deixar os filhos na escola. As pessoas estão receosas de ir ao supermercado ou à igreja. Elas têm medo de sair de casa.” Até mesmo colegas de Bell que são cidadãos estadunidenses e pertencem a minorias étnicas têm carregado seus passaportes consigo como medida de precaução, já que as políticas de fiscalização de imigração têm se baseado em grande parte em perfis raciais e religiosos.
Bell conta que sua equipe na SFF sentiu-se compelida a organizar diferentes formas de arrecadar e distribuir recursos rapidamente. Um dos fatores-chave para o sucesso do programa é que ele abrange várias cidades. A iniciativa Stand Together foi projetada como um esforço conjunto nos seis condados centrais da região da Baía de San Francisco: San Francisco, Marin, Alameda, Contra Costa, Santa Clara e San Mateo. O fundo recebe contribuições de indivíduos, fundações filantrópicas, parceiros corporativos e instituições públicas.
“As pessoas se identificam como residentes da Baía”, diz Bell. “Essa é uma forma de dizer que somos uma região. São nossos amigos, nossos vizinhos, nossas famílias, e queremos apoiá-los.”
A equipe de Bell direciona os recursos para organizações comunitárias de confiança – como Faith in Action, San Francisco Interfaith Council e bancos de alimentos locais – que já estão integradas às comunidades e têm capacidade de proteger a identidade dos beneficiários e oferecer assistência rápida a quem mais precisa. “Estamos escolhendo grupos que já fizeram isso antes”, diz Bell.
No lançamento da iniciativa em setembro, os prefeitos de San Francisco, Oakland e San Jose estiveram ao lado de líderes de organizações sem fins lucrativos e entidades religiosas.
“O fundo é uma solução para um problema muito real enfrentado por nossos vizinhos”, disse o prefeito de San Jose, Matt Mahan, na ocasião. “Mas não se trata apenas de dinheiro: é um lembrete para nossas famílias imigrantes, que fizeram da região da Baía de San Francisco o que ela é hoje, de que estamos ao lado delas.”
Ação direta
Os colegas de Bell na SFF estão confiantes de que podem fazer a diferença, considerando seu sucesso na gestão de fundos coletivos de alto impacto durante a pandemia de covid-19 e no apoio a operações locais. O primeiro grande beneficiário foi o Mission Asset Fund (MAF), uma organização de crédito comunitário reconhecida nacionalmente, sediada no Mission, bairro de San Francisco. O MAF desenvolveu ferramentas financeiras culturalmente relevantes para imigrantes de baixa renda: empréstimos, poupança e crédito, sem que precisem recorrer a agiotas. Os recursos ajudam as pessoas a pagar despesas com moradia, imigração e abertura de negócios, além de facilitar a aprovação para apartamentos, cartões de crédito e empregos.
Durante a pandemia, o MAF distribuiu mais de US$ 70 milhões em auxílio emergencial, e essa experiência eficiente e prática agora fortalece a iniciativa Stand Together. “Vamos transferir o dinheiro arrecadado diretamente para as pessoas que estão enfrentando algum impacto relacionado às ações do ICE”, diz o fundador e CEO do MAF, José A. Quiñonez.
A assistência não se limita às pessoas detidas ou deportadas. Muitas famílias imigrantes enfrentam dificuldades financeiras porque têm medo de ir ao trabalho, evitam levar os filhos à escola ou buscar atendimento médico, ou sofrem os efeitos psicológicos da incerteza constante. Dependendo da situação, as famílias podem receber auxílios de US$ 1 mil a US$ 3 mil para pagar o aluguel, as contas de serviços públicos e assistência jurídica em questões migratórias.
A família de Rosa, por exemplo, já fazia malabarismos com cada dólar antes de seu marido ser detido e deportado. Da noite para o dia, o orçamento doméstico de seu apartamento em San Francisco ficou ainda mais apertado, já que ela sustentava a irmã, seus três filhos e sua sobrinha de 5 anos de idade. Agora, como principal provedora da casa, ela faz faxinas quando aparece trabalho, e por meses gastou cada centavo antes mesmo de ganhá-lo. Um auxílio de US$ 3 mil financiado pelo MAF ofereceu um alívio, permitindo que ela utilizasse o salário para o pagamento do aluguel.
“Senti esse apoio [do MAF] rapidamente, e fez uma grande diferença”, diz ela. Rosa espera que, em um ano, consiga oferecer aos filhos um lar estável, embora o temor ainda persista.
Quiñonez faz questão de destacar que iniciativas semelhantes não devem ter exatamente o mesmo formato em todos os lugares dos Estados Unidos. “Precisamos permitir que outros modelos sejam criados, porque as realidades variam de cidade para cidade”, diz. Ele cita esforços emergenciais liderados por organizações em Chicago e pela California Community Foundation, em Los Angeles, que reagiram à sua maneira, especialmente à medida que as operações do ICE se intensificaram nessas regiões. As pessoas não estão esperando para ser salvas, acrescenta Quiñonez. “Elas estão se organizando e reagindo.”
O que talvez possa ser replicado, porém, é a lição sobre infraestrutura. Bell afirma que apenas algumas instituições têm capacidade de reunir doações de governos, fundações privadas e indivíduos e, em seguida, fazer esse dinheiro chegar depressa a quem precisa. “É necessário ter experiência e relações de confiança”, explica ela. Fundações comunitárias e algumas grandes organizações sem fins lucrativos estão especialmente preparadas e são essenciais para esse trabalho.
“É possível reunir pessoas do setor público, do setor privado, do terceiro setor e da filantropia”, diz Bell. “Podemos unir esses atores e dar esse passo significativo em meio à crise que estamos enfrentando.”
Leia também: Moradia acessível para imigrantes latinos









