Educação midiática funciona

Crianças podem aprender a identificar informações falsas sobre saúde na internet, e esses benefícios podem se estender aos seus pais

Ilustração de uma homem com uma lupa diante dos olhos
Ilustração de Miguel Porlan

Crianças em idade escolar podem aprender a avaliar informações que encontram online e levar esse conhecimento a seus pais? Um estudo em escolas indianas concluiu que um currículo voltado a capacitar alunos no combate à desinformação sobre saúde não apenas ajudou-os a distinguir o que era verdadeiro ou falso, mas também beneficiou seus familiares. 

A desinformação online é um problema crescente em todo o mundo. Influenciadores digitais, grupos apoiados por governos e atores não estatais inundam as redes sociais com publicações que podem facilitar a disseminação de doenças e incitar a violência. Na Índia, boatos nas redes têm alimentado episódios letais de violência entre grupos religiosos e étnicos.

Priyadarshi Amar, pesquisador de pós-doutorado em ciências sociais na Universidade Carlos III de Madri; Sumitra Badrinathan, professora assistente de política, governança e economia na American University; Simon Chauchard, professor associado de ciências sociais da Universidade Carlos III; e Florian Sichart, doutorando em política na Universidade Princeton, conduziram um experimento em Bihar, um dos estados mais pobres da Índia. Em colaboração com o governo estadual, levaram um programa de quatro meses a 13.500 adolescentes em 583 escolas para ensiná-los a avaliar informações sobre saúde.

“Os participantes do treinamento apresentaram melhora significativa no discernimento entre verdadeiro e falso, mudaram suas preferências em relação aos cuidados com a saúde, passaram a confiar mais na ciência e reduziram sua dependência de fontes de notícias pouco confiáveis”, relatam os autores.

Os pesquisadores entrevistaram os adolescentes quatro meses após o fim do treinamento e descobriram que eles continuavam a usar as habilidades desenvolvidas, além de estenderem seu conhecimento a afirmações falsas sobre temas políticos. O experimento também mostrou que os pais dos estudantes tinham mais probabilidade de detectar desinformação, evidência de que os efeitos se disseminavam para as famílias.

Segundo Badrinathan, os pesquisadores traçaram seu projeto motivados pela existência de uma desconexão entre a literatura acadêmica e o mundo real. Embora haja financiamento para programas escolares que ajudam crianças a pensar de forma crítica sobre a mídia, a eficácia desses cursos prolongados não vem sendo avaliada. Em vez disso, os estudos focam em medir intervenções de curto prazo.

“Queríamos saber se um programa contínuo de aulas poderia mudar a forma como os jovens interpretam informações em um contexto em que a desinformação tem consequências sociais e políticas reais”, diz ela.

Badrinathan afirma que a conclusão mais importante do estudo foi que o apoio oficial do governo ao programa estimulou os pais a mandar seus filhos às aulas e incentivou os estudantes a levá-las a sério. O modelo de implementação fez diferença.

Uma descoberta surpreendente do estudo foi que os meninos que participaram do curso mostraram-se mais propensos do que as meninas a dizer que se manifestariam em público contra a desinformação, embora ambos os gêneros tenham apresentado melhorias na capacidade de distinguir dados verdadeiros de falsos. A hipótese dos pesquisadores é que essa diferença não ocorre porque as meninas tenham menos interesse ou habilidade, mas sim porque as expectativas de gênero locais as inibem.

“Em muitas partes do mundo, os custos sociais de se manifestar são diferentes para as meninas, e isso serviu como um lembrete de que melhorar o conhecimento e as habilidades é uma coisa, enquanto mudar o espaço que as pessoas têm para aplicá-los é outra”, diz Badrinathan.

“Mesmo que praticamente impor a educação midiática aos estudantes pareça uma solução óbvia, ver que isso de fato funciona representa um avanço importante”, diz John Marshall, professor associado de ciência política na Universidade Columbia.

Combater a desinformação é difícil: seja para convencer as pessoas a participar de treinamentos de educação midiática, para conseguir que plataformas de redes sociais incorporem ferramentas que ajudem os usuários a perceber o que é verdadeiro, ou para refutar afirmações específicas, afirma Marshall. O estudo faz o campo avançar ao provar a utilidade do letramento midiático nas escolas, que tem, segundo ele, “o maior potencial que já vi para combater a desinformação – não apenas de imediato, mas também contra futuras ondas de desinformação”.

A pesquisa levanta duas preocupações para o futuro, diz Marshall: convencer governos a instituir o currículo nas instituições de ensino, mesmo quando os próprios políticos geram desinformação ou se beneficiam dela, e encontrar formas de levar esse aprendizado a adultos que já não estão na escola.

O próximo passo da pesquisa é um estudo complementar em escolas públicas brasileiras, comparando dois modelos de letramento midiático. “O projeto nos ajuda a ir além da pergunta ‘Programas de educação midiática funcionam?’ para responder a uma questão mais complexa: ‘Quando funcionam, por que isso acontece, e que tipo de abordagem pedagógica os torna mais eficazes?’”, diz Badrinathan.

Veja o estudo completo: “Countering Misinformation Early: Evidence from a Classroom-Based Field Experiment in India”, por Priyadarshi Amar, Sumitra Badrinathan, Simon Chauchard e Florian Sichart, American Political Science Review, publicado online em 9 out. 2025.