Quem organiza o que vai para o seu prato?

A decisão sobre o que comer parece pessoal, mas é moldada por fatores que começam antes da cozinha. Tempo disponível, orçamento doméstico, rotina de trabalho e preferências familiares influenciam o que chega à mesa. Uma pesquisa qualitativa realizada em cinco capitais brasileiras mostra como essas condições estruturam escolhas cotidianas – e por que informação sozinha não basta para sustentar uma alimentação saudável
Ilustração de Bárbara Quintino

O que está sobre a mesa

Famílias brasileiras sabem, em grande medida, o que significa comer bem: comida de verdade, mais frutas e verduras, menos ultraprocessados. O desafio é fazer esse ideal caber na vida real. Tempo escasso, orçamento apertado e o cansaço do dia organizam o que chega ao prato. Em lares com crianças, essa equação se torna ainda mais sensível – e revela por que promover alimentação saudável depende também de transformar os ambientes alimentares.


É meio que o refúgio para não morrer de fome… bolacha. Para mim, é para não passar mal.” A frase é de uma mãe que concilia trabalho e cuidado de dois filhos pequenos. Entre deslocamentos, filas e tarefas acumuladas, a refeição vira um pacote de biscoito comprado às pressas no caminho entre o trabalho e a casa.

Não se trata de falta de consciência. Trata-se do custo econômico e social de alimentar uma família. No outro extremo do mesmo cotidiano, pequenas reorganizações domésticas – adiantar preparos, porcionar e congelar – transformam comida de verdade em algo pronto ou quase pronto. Quando já está “encaminhada”, a comida saudável aparece na mesa com muito mais frequência. O saudável não precisa ser heroico – precisa estar ao alcance.

A constatação é desconfortável porque desmonta uma explicação fácil. Se as pessoas sabem o que é “saudável”, por que não conseguem sustentar essa escolha na prática? No debate público, a resposta costuma ser individual: falta de disciplina, de informação, ou de prioridade. O que emerge da escuta de famílias de diferentes faixas de renda e regiões do país, entretanto, diverge dessa explicação. A alimentação cotidiana se organiza como uma negociação permanente entre tempo, orçamento, praticidade, atratividade e saciedade, atravessada pelo cansaço, pela logística de trabalho, pelos deslocamentos, pela seletividade de crianças e pela necessidade de pequenas recompensas “saborosas” após rotinas intensas.

Quando a alimentação saudável é tratada apenas como um problema de informação, o alvo é perdido. A informação orienta, mas não planeja o cardápio, não cozinha, não entrega tempo, não muda o preço por porção nem enfrenta, sozinha, o marketing que disputa o desejo das crianças. Com frequência, as escolhas são definidas menos pelo ideal que se conhece e mais pelo que cabe na rotina concreta das famílias.

Para compreender como essas decisões se organizam no cotidiano, o Pacto Contra a Fome idealizou um estudo qualitativo voltado a mapear percepções, barreiras e facilitadores da alimentação saudável entre pessoas responsáveis pelas compras de alimentos no domicílio. Conduzida pelo Instituto Pensi, a pesquisa  buscou captar como fatores socioeconômicos, regionais, de gênero e faixa etária influenciam escolhas alimentares nas grandes cidades brasileiras. A intenção foi direta: entender como as decisões alimentares são tomadas quando o ideal não cabe na rotina. (Veja quadro “A pesquisa”, na p. 45.)

No Brasil, a insegurança alimentar e a má nutrição coexistem. Mais de 6 milhões de pessoas ainda enfrentam a fome, enquanto cresce o consumo de ultraprocessados e a obesidade entre adultos e crianças. É nesse paradoxo que a infância se torna fronteira crítica. As famílias querem proteger as crianças, mas o ambiente alimentar facilita a entrada de produtos ultraprocessados no cotidiano – em especial nos lanches e no período da noite.


A pesquisa

Idealização: Pacto Contra a Fome

Apoio: Food and Land Use Coalition (FOLU)

Cofinanciamento: Fundação José Luiz Setúbal (via Instituto Pensi)

Execução: O Instituto Pensi (Fundação José Luiz Setúbal) estruturou o desenho metodológico e conduziu todas as etapas – executou a pesquisa (da construção e teste dos instrumentos à coleta e análise dos dados) – em governança conjunta com o Pacto, para garantir relevância prática dos achados.

Período: agosto a dezembro de 2025

Método: pesquisa qualitativa exploratória

Amostra:

  • 15 grupos focais
  • Mais de 140 adultos de 18 a 40 anos
  • Responsáveis pelas compras de alimentos no domicílio
  • Diferentes faixas de renda
  • Contexto urbano (cinco capitais brasileiras)

Locais: Belém, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre e São Paulo

Instrumentos utilizados:

  • Questionário prévio sobre hábitos alimentares
  • Dinâmicas de simulação (carrinho de compras com diferentes orçamentos)
  • Exercícios de leitura de rótulos
  • Teste de mensagens

Obs: Essa primeira fase do estudo tem caráter exploratório e foi construída para investigar percepções, barreiras e desafios no consumo alimentar, no contexto urbano das grandes cidades.


Entre o ideal e o concreto

Nos grupos, “alimentação saudável” surgiu como um ideal amplamente compartilhado: comida caseira, fresca e variada, com frutas, verduras e legumes, e menos frituras e ultraprocessados – a ideia de “comida de verdade”. Ao mesmo tempo, esse ideal é vivido como um padrão rígido e, muitas vezes, aspiracional. As pessoas sabem o que é considerado saudável e reconhecem sua importância, mas nem sempre conseguem sustentar essa escolha no cotidiano sem culpa. Não é apenas falta de informação: a rotina exige planejamento, tempo e energia – recursos escassos quando há cansaço, deslocamentos e sobrecarga de cuidado.

Nesse contexto, os ultraprocessados assumem um papel ambivalente: são reconhecidos como menos saudáveis, mas funcionam como atalhos de conveniência – de tempo e, em alguns casos, de preço –, além de oferecerem alívio e recompensa na rotina. As concessões variam por renda e cenário. Nas classes C e DE, aparecem com mais frequência como lanches rápidos e refeições na rua no dia a dia; na classe C, ganham força também no trabalho e em rotinas de turno; nos grupos AB, o atalho costuma vir na forma de conveniência paga (delivery e fast-food). A lógica é comum: quando o saudável é percebido como pouco prático, menos saboroso e menos saciante, ele perde espaço para escolhas que resolvem a vida real.

A infância é o ponto em que o sistema se torna mais visível: no pedido da criança no supermercado, na lancheira, na cantina, nas telas e nas embalagens. Por isso, os achados da pesquisa têm implicações diretas para quem atua na promoção da saúde infantil. Eles ajudam a entender por que o saudável perde espaço no cotidiano – e apontam alavancas concretas para transformar comportamento em escala por meio de políticas públicas que fortaleçam ambientes alimentares mais saudáveis e campanhas que dialoguem com as barreiras reais presentes nas escolas, no trabalho e dentro de casa.

A seguir, são apresentados seis achados. Ao final, o artigo propõe seis frentes de ação para quem atua com políticas públicas, filantropia e inovação em alimentação.

1. O “custo total” da alimentação: o que não aparece no preço da gôndola. O que pesa na decisão não é apenas o valor que aparece no caixa do mercado. É o “custo total” da alimentação: comprar, carregar, higienizar, preparar, armazenar e ainda convencer todos a comer. Quando alguém volta exausto do trabalho ou da rua, o tempo passa a valer mais do que o preço – e se torna o principal critério de escolha. 

Outro custo silencioso é a carga mental. Planejar o cardápio, lembrar o que falta, saber o que estraga rápido, acomodar preferências dos filhos e da família, e ainda tentar “fazer dar certo” quando o dinheiro acaba antes do mês. Esse trabalho invisível continua, majoritariamente feminino. 

Diante de jornadas extensas de trabalho, cansaço crônico, sobrecarga do cuidado – especialmente entre as mulheres –, o tempo acaba sendo o principal limitador e as pessoas comem como é possível. Nesse contexto, “comida feita em casa” vira o principal sinal de saudabilidade. Mas cozinhar em casa é, ao mesmo tempo, o que está ao alcance e o que mais exige tempo e energia mental. Por isso, dizer “coma mais frutas e verduras” não basta, principalmente se o caminho para isso demanda mais gestão e planejamento. 

Se quisermos que frutas, legumes e preparações caseiras ganhem espaço no cotidiano, será preciso tratar a praticidade como atributo de saúde. Prático e saudável não podem ser categorias opostas. Enquanto o “prático” continuar associado quase exclusivamente ao ultraprocessado, o saudável seguirá em desvantagem.

2. Saciedade como critério das escolhas no cotidiano. Em vários grupos, alimentos saudáveis foram descritos como “leves”, “que não enchem a barriga” ou “que dão fome mais cedo”. Em contrapartida, preparações mais calóricas ganham valor por “segurar” até a próxima refeição, especialmente em dias de trabalho intenso.

Esse aspecto raramente aparece em campanhas de alimentação saudável. Falamos de nutrientes, de vitaminas, de “comer colorido”. Mas para quem vive na corda bamba do orçamento e do cansaço, a pergunta central é mais pragmática: isso vai me sustentar? O padrão que se repete é claro: o saudável é percebido como menos saboroso e menos saciante. Quando isso acontece, sabor e saciedade ganham peso relativo maior frente à saudabilidade. É um ajuste racional.  

O tradicional prato feito (PF) segue como a base da alimentação. Contudo, os ultraprocessados entram de forma intermitente, com maior força em lanches e à noite, além de funcionarem como substitutos mais baratos da carne na composição do PF para as classes mais baixas. Nesse contexto, o problema não é só abandonar em algumas refeições alimentos tradicionais como arroz e feijão, mas sim o que entra para fechar a conta quando o orçamento aperta: substituições por produtos mais baratos e, em geral, menos saudáveis.

Um dos exercícios da pesquisa deixou esse raciocínio mais concreto. Em uma dinâmica de “carrinho de compras”, participantes montaram a compra da semana com orçamentos diferentes. Com menos dinheiro para gastar, o padrão se repetia: manter a base e priorizar proteínas acessíveis e alimentos que “rendem”. Ovos e frango aparecem como campeões, junto de frutas mais baratas como banana e mamão, alguns legumes, pão ou tapioca. Arroz e feijão, quando possível, são comprados em quantidade maior para “segurar o mês”.

Quando o orçamento dobra, o carrinho cresce em duas direções. A primeira é a da variedade e qualidade: entra carne bovina ou peixe, mais frutas e itens que agilizam a cozinha. A segunda inclui o que muitos chamaram de “mimos”: chocolate, salgadinho, sobremesa, refrigerante. O consumo de ultraprocessados responde a uma busca por prazer, recompensa e, em muitos casos, faz parte do lazer.

Essa leitura muda o foco da intervenção, porque existe uma pergunta mais urgente no cotidiano das famílias: “Isso vai me sustentar até amanhã?”. As mensagens com mais chance de funcionar são as que reposicionam o saudável como algo que sustenta, dá prazer, cabe no tempo disponível e no bolso.

3. O bolso, as promoções e a engenharia doméstica para “fazer render”. Se o tempo é o preço invisível na gôndola do mercado, o bolso é o preço explícito. E ele não define apenas o que entra ou não no carrinho. Define o ritmo das compras, a estratégia de abastecimento da casa e o repertório de substituições possíveis.

Em um grupo, a frase “Vou em três [mercados] procurando o jornalzinho” apareceu como estratégia de sobrevivência. As famílias descrevem compras grandes no “atacarejo” no início do mês e complementos semanais guiados por promoções. Congelam alimentos quando “compensa”, estocam café, compram proteína no dia da promoção do açougue. É uma espécie de engenharia doméstica para fazer o dinheiro render – um trabalho constante de cálculo e adaptação que raramente aparece nas políticas públicas, mas que define, na prática, o que vai para o prato.

O preço define também o que sai primeiro do carrinho quando o “dinheiro aperta”. Na maioria dos relatos, saem as proteínas mais caras, laticínios e “besteirinhas” industrializadas. Fica o básico: arroz, feijão, macarrão, ovos, frango barato. Frutas e verduras entram quando cabem, muitas vezes compradas ao longo da semana para evitar desperdício. E, mesmo assim, a sensação recorrente é de aperto e restrição.

Um ponto importante para a agenda de alimentação saudável é este: quando o orçamento diminui, as famílias não desistem automaticamente de comer melhor. Muitas tentam manter o que consideram essencial e cortar supérfluos. A questão é que, em um orçamento já restrito, o essencial deixa pouco espaço para variedade. E é justamente a variedade que garante micronutrientes, fibra e repertório alimentar, favorecendo uma alimentação saudável.

Há também um efeito emocional. Quando o orçamento restringe outras formas de descanso, celebração e convivência, alguns ultraprocessados tornam-se uma recompensa acessível – especialmente nas rotinas com crianças. Isso não é um “desvio” individual; é um sinal de que prazer e alívio também entram na conta das escolhas alimentares.

4. Três perfis de decisão, uma equação comum. Uma tentação ao falar de alimentação no Brasil é imaginar que existe um único “consumidor”. A pesquisa mostra algo distinto. Existem perfis diferentes de decisão, que variam por renda, repertório culinário e acesso. O que se repete entre eles é a equação tempo, orçamento familiar e saciedade.

Entre pessoas de renda mais alta, a leitura de rótulos aparece com mais frequência. Checam lista de ingredientes, sódio, açúcar e gordura, e tendem a desconfiar de alegações como “fit”, “natural” e “zero”. Ao mesmo tempo, relatam maior uso de conveniência paga, como delivery, refeições prontas e produtos que economizam tempo. O paradoxo é que, mesmo com mais informação e mais acesso, a rotina ainda empurra para atalhos. Já nas famílias de renda intermediária, a compra é descrita como um exercício de comparação, troca e substituição. Promoções, atacarejo e congelamento entram como estratégia. O saudável se mistura com o possível. Uma pessoa disse com clareza: “Se sustenta e é mais barato, a gente troca”. A lógica não é “o ideal”, é “o que resolve sem estourar o mês”.

Para as famílias de renda mais baixa, o preço e a saciedade pesam ainda mais, e o sinal de saudável tende a ser “comida de casa”. Alimentos ultraprocessados entram como solução rápida em dias de muito cansaço ou pouco dinheiro. A compra de um alimento ao qual a família não se adaptou ou de uma fruta que estraga rápido vira desperdício. Isso reforça escolhas mais previsíveis. Esses perfis mostram que não existe uma mensagem única e uma solução única. Existe, sim, um conjunto de alavancas que precisa ser calibrado para públicos diferentes.

5. Infâncias no centro: proteção, concessões e o papel do ambiente alimentar. Embora a pesquisa não tenha sido centrada em crianças, elas aparecem o tempo todo como prioridade moral, força de negociação e termômetro do ambiente alimentar. De um lado, há esforço consciente de proteção. Em famílias com orçamento restrito, o relato recorrente é garantir arroz, feijão e proteína para os “pequenos”, enquanto os adultos improvisam. De outro lado, acumulam-se concessões: lanches prontos para “não passar mal”, alimentos ultraprocessados por praticidade e recompensas no fim de semana para aliviar culpa e cansaço dos responsáveis.

Os dados do questionário ajudam a dimensionar isso. Entre as crianças que vivem em domicílios com renda de até um salário mínimo, observa-se o consumo diário de feijão em 64% e de carne em 73%. Entretanto, apenas 45% consomem frutas frescas e 27% consomem verduras e legumes diariamente. Nesse mesmo grupo, macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote ou biscoitos salgados são consumidos pelo menos três vezes por semana por aproximadamente 55% das crianças, e todos os dias por 18% delas. Além disso, o consumo diário de biscoito recheado, doces ou guloseimas aparece para ~18%, enquanto ~41% consomem pelo menos três vezes por semana. Esses dados ilustram padrões de consumo e não têm como objetivo traçar um perfil nacional da frequência alimentar, nem medir insegurança alimentar com base em porções. 

Quando ampliamos o olhar para outras faixas de renda, a mensagem fica ainda mais clara. Frutas e verduras seguem um gradiente de acesso: entre crianças de famílias com dois a quatro salários mínimos, 57,5% consomem frutas e 35% consomem verduras e legumes diariamente. Já em famílias com cinco ou mais salários mínimos, esses percentuais sobem para 78,3% e 60,9%, respectivamente.

A presença de “doces e guloseimas” se mantém alta em todas as faixas de renda. Há uma diferença importante de acesso a frutas e verduras entre elas, mas doces e ultraprocessados permanecem socialmente normalizados como lanche, recompensa e conveniência. Isso ajuda a explicar por que o problema não se resolve apenas aumentando renda: é preciso também mudar os ambientes alimentares que oferecem, promovem e facilitam essas escolhas.

Um ponto decisivo nesse jogo é a escola. Onde a alimentação escolar é forte e planejada para priorizar a alimentação saudável, ela funciona como proteção e apoio para as famílias. Onde é frágil, insuficiente ou substituída por cantinas e vendas informais, deixa de proteger e pode reforçar o consumo de ultraprocessados, como bolachas e bebidas açucaradas. Soma-se a isso o papel das telas: a exposição a propagandas e redes sociais leva crianças e adolescentes a pedirem marcas específicas de biscoito, cereal matinal, iogurte, refrigerante e fast-food. O lar vira o lugar onde a restrição precisa ser negociada e, muitas vezes, se perde.

Aqui, a lente do “Uma Só Saúde” (One Health) – abordagem integrada que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental – amplia o quadro de análise. Quando o alimento mais acessível é o ultraprocessado, cria-se um problema em cadeia: mais doenças crônicas, maiores custos para os sistemas de saúde, mais resíduos de embalagens e cadeias de produção frequentemente desconectadas das economias locais, de sistemas alimentares sustentáveis e da cultura alimentar regional. Proteger a infância, portanto, não é apenas uma agenda de saúde; é também uma agenda de desenvolvimento.

6. A lupa compete com o verde: informação existe, mas o sinal é fraco. O Brasil avançou com a rotulagem nutricional frontal, que utiliza o símbolo de uma lupa para indicar quando o produto é “alto em” açúcar adicionado, sódio e gordura saturada. Nos grupos focais, esse recurso foi reconhecido como um passo importante para a alimentação saudável. Ainda assim, sua força no momento da compra é limitada. Um dos motivos é simples: o supermercado é um campo de batalha visual. A lupa é pequena e a promessa na embalagem de um alimento “fit”, “natural” ou “caseiro” aparece grande, colorida e emocional. Uma participante descreveu assim: “Sempre que eu vejo branco e verde, está escrito ‘fit’, um monte de coisas, eu olho e digo que é mais saudável”.

Uma confusão recorrente sobre categorias como “diet”, “light” e “zero” também apareceu nos grupos focais. Para algumas pessoas, esses termos são associados a restrição médica. Para outras, soam como sinônimo de “química” e, portanto, de algo menos saudável. O resultado é uma ambivalência: ao mesmo tempo que cresce o desejo de reduzir o açúcar e o sódio, os sinais disponíveis no ponto de venda não são consistentes o suficiente para transformar intenção em escolha.

A conclusão é evidente: conhecimento ajuda, mas não vence sozinho a arquitetura do ambiente alimentar. A educação alimentar e nutricional brasileira reconhece que escolhas alimentares são influenciadas por questões sociais e econômicas. Na implementação de políticas públicas e campanhas, porém, essas dimensões nem sempre são devidamente incorporadas, sobretudo quando a intervenção foca na mudança de comportamento individual. Se quisermos aproximar escolha e intenção, será preciso fortalecer a sinalização no ponto de venda e estabelecer regras firmes para alegações enganosas e embalagens apelativas, em especial nos produtos para o público infantil. 

Os achados da pesquisa indicam que promover uma alimentação saudável depende menos de convencer indivíduos e mais de reorganizar os ambientes que moldam as escolhas cotidianas. Entre as frentes prioritárias estão ampliar o acesso a alimentos frescos, valorizar preparações que sejam saborosas e saciantes, proteger a infância com ambientes escolares mais coerentes e fortalecer a informação ao consumidor. Também se destacam o apoio prático a quem cozinha no dia a dia e a integração entre saúde, produção local e sustentabilidade. Em conjunto, essas ações apontam para um mesmo princípio: tornar o saudável a escolha mais fácil (ver quadro abaixo).


Seis frentes para tornar o caminho saudável mais fácil

CONHEÇA AS PROPOSTAS DE seis frentes de ação voltadas a governos, filantropia e organizações da sociedade civil (OSCs).

1. Reduzir o custo da estrutura social para a alimentação

O que fazer:

  • Fortalecer a produção da agricultura familiar e ampliar seu acesso aos mercados pode fazer com que mais alimentos frescos e nutritivos passem, progressivamente, a aparecer em feiras e pontos de venda locais próximos às famílias. Esse movimento gera um duplo efeito: amplia a renda dos produtores e aumenta a oferta de alimentos variados, regionais, sustentáveis e saudáveis nas cidades. Cria-se, assim, uma cadeia de valor virtuosa. Agricultores com melhor renda podem investir em produção de melhor qualidade. Com maior oferta de alimentos frescos, os preços tendem a se tornar mais acessíveis ao longo do tempo. Também é fundamental ampliar a disponibilidade de alimentos saudáveis nos territórios. Isso inclui hortas comunitárias, feiras, sacolões e mercados populares em bairros de menor renda, funcionando em horários compatíveis com a jornada de trabalho das famílias. Equipamentos públicos – como refeitórios populares e cozinhas solidárias – podem facilitar o acesso a comida de verdade, barata e pronta para o consumo.
  • Outra frente é apoiar iniciativas de capacitação e ensino sobre pré-preparo de alimentos caseiros diretamente nos territórios e nas rotinas já existentes. Oficinas e atividades podem ser integradas a equipamentos públicos e programas locais – como SUS, Pnae, creches, escolas, cozinhas comunitárias e OSCs – para ensinar técnicas de congelamento, porcionamento e aproveitamento integral dos alimentos, sem exigir tempo adicional das famílias, especialmente das mulheres. A comunicação pública precisa reforçar que alimentação saudável não é “cozinhar do zero” todos os dias. Significa tornar o comer bem mais viável no cotidiano – com estratégias como adiantar preparo, cozinhar em lote, congelar porções e usar equipamentos comuns (panela de pressão, liquidificador, processador e freezer) para reduzir tempo e esforço.

Por que isso funciona:

O acesso facilitado aos alimentos e o pré-preparo apareceram como um facilitador real. “Chegando das compras, deixo frutas e legumes higienizados e deixo opções congeladas para facilitar”, contou uma participante. Ela não está “cozinhando mais”, mas sim reorganizando o sistema doméstico para que o saudável caiba no cansaço.

2. Tratar saciedade e prazer como atributos de saúde

O que fazer:

  • Desenhar campanhas e materiais que mostrem, de forma simples e concreta, que comida saudável também “sustenta” e dá satisfação – valorizando preparações com alimentos in natura e minimamente processados como opções “de sustância”, gostosas e compatíveis com a rotina (o que evita o estereótipo do “leve” que não mata a fome). 
  • Nos programas públicos de segurança alimentar, reforçar o cumprimento dos marcos que já orientam a oferta de combinações completas e acessíveis – como feijões, ovos e tubérculos, sempre acompanhados de verduras e legumes – com atenção ao custo por porção. Para iniciativas privadas ou filantrópicas, estabelecer critérios claros de composição e valor nutricional, alinhados ao Guia alimentar para a população brasileira.
  • Outra frente é trabalhar com influenciadores locais, cozinheiros comunitários e serviços de alimentação para valorizar o sabor do saudável com repertório cultural, não com moralismo.

Por que isso funciona:

Os grupos mostram que, quando o saudável é percebido como “leve” e pouco prazeroso, ele perde força na decisão. Para competir, comida de verdade precisa ser comunicada e oferecida como “de sustância”: saborosa, saciante e socialmente desejável – sem moralismo.

3. Proteger a infância com ambientes alimentares mais coerentes

O que fazer:

  • Fortalecer a alimentação escolar como política estruturante, com oferta regular de alimentação saudável e educação alimentar que envolva a família e o território.
  • Revisar regras para cantinas e para venda de ultraprocessados em torno de escolas, alinhando o entorno com o que a escola ensina.
  • Investir em habilidades culinárias e autonomia alimentar desde cedo, com projetos de hortas e cozinhas pedagógicas.
  • Apoiar iniciativas de advocacy por regulação de marketing infantil, por transparência em produtos direcionados a crianças e para o cumprimento da legislação de não inclusão de ultraprocessados na merenda escolar.

Por que isso funciona:

A infância é um ponto de inflexão no qual se formam paladar, hábitos e normas sociais. Quando o ambiente escolar e o entorno empurram para ultraprocessados, o lar vira palco de conflito. Quando o ambiente escolar protege, a casa ganha reforço.

4. Fortalecer a rotulagem e reduzir a poluição de “alegações saudáveis”

O que fazer:

  • Ampliar a comunicação sobre a lupa nutricional e o que ela significa, com exemplos simples e repetidos no ponto de venda.
  • Testar sinalizações complementares em varejo e em aplicativos de compra, como selos que destacam alimentos in natura e minimamente processados.
  • Apoiar pesquisas e coalizões para revisar o uso de termos como “fit”, “natural” e “caseiro” em ultraprocessados, reduzindo enganos por design.
  • Criar materiais sucintos para ajudar famílias a usar duas regras práticas úteis: olhar a lupa e ler os itens da lista de ingredientes.

Por que isso funciona:

A lupa é uma política inteligente, mas ainda frágil diante das campanhas de marketing da indústria alimentícia. Fortalecer o sinal e reduzir ruído é uma estratégia de proteção coletiva.

5. Apoiar quem cozinha e transformar saúde em habilidade praticável

O que fazer:

  • Levar oficinas breves e práticas para escolas, unidades de saúde e territórios, com demonstrações culinárias de preparo prático, rápido e barato, e com foco em aproveitamento integral. Fundamental é que possam incluir pessoas fora de sua jornada de trabalho e que sejam oficinas atraentes e não somente a apresentação de técnicas.
  • Criar redes de apoio e troca de receitas e atalhos, valorizando repertórios locais e soluções simples.
  • Incorporar a pergunta “Quem faz a comida e com que tempo?” no desenho de programas, para evitar soluções que aumentem a carga mental sobre mulheres.
  • Engajar o setor privado para tornar a escolha saudável a opção mais fácil no dia a dia de trabalho: estimular empresas a oferecerem infraestrutura e condições mínimas para refeições adequadas – como refeitórios com espaço para sentar e comer com calma, geladeira e micro-ondas para viabilizar a marmita e opções simples de lanche (ex.: frutas) –, a fim de reduzir barreiras práticas sem exigir mais tempo, esforço ou custo das pessoas.

Por que isso funciona:

As pessoas não precisam de mais uma lista de proibições. Elas precisam de repertório e de suporte para transformar intenção em rotina.

6. Conectar saúde e sustentabilidade nas soluções alimentares

O que fazer:

  • Integrar compras públicas e programas de abastecimento a cadeias locais com a agricultura familiar, de modo a aproximar produção e consumo e reduzir a dependência de ultraprocessados.
  • Apoiar feiras, mercados e arranjos de distribuição que reduzam preços e aumentem o acesso a frutas e verduras em territórios periféricos.
  • Medir o impacto de programas alimentares em três dimensões: saúde, equidade e sustentabilidade ambiental.
  • Difundir informações sobre o impacto ambiental da alimentação.

Por que isso funciona:

Uma agenda de saúde e nutrição integrada às dinâmicas cotidianas não trata apenas de calorias ou do aspecto clínico da saúde. Ela trata de sistemas e conversa com os aspectos ecossistêmicos da abordagem “Uma Só Saúde” (One Health). Tornar o saudável acessível também pode reduzir desperdício, encurtar cadeias, diminuir custos logísticos e fortalecer economias locais.


O que ainda precisamos descobrir

Este estudo tem limites importantes que merecem ser explicitados. Ele foi desenhado para aprofundar o entendimento sobre as percepções e mecanismos de decisão, não para estimar prevalências nacionais ou definir um perfil aplicável para o contexto brasileiro como um todo. A amostra se concentrou em adultos jovens em capitais nas cinco regiões brasileiras e se baseia em autorrelatos. Parte da riqueza dos grupos focais está na diversidade de narrativas, mas isso também significa que cada citação deve ser lida como ilustração de padrões observados – e não como regra geral.

Se você trabalha com impacto social em alimentação, vale questionar se a sua solução contribui como uma alternativa saudável ao alimento ultraprocessado em três dimensões decisivas – tempo, custo da estrutura social e saciedade. Essa pergunta ajuda a transformar uma recomendação bem-intencionada em prática e desloca o foco da responsabilidade individual para uma questão coletiva e sistêmica.

A saúde infantil é um bom ponto de partida porque cria consenso e urgência. Mas o caminho é sistêmico. Precisamos de políticas e inovações capazes de reduzir o custo da estrutura social e aumentar o prazer de comer bem. Só assim o saudável deixará de ser definido apenas por restrições para se afirmar como uma experiência positiva, desejável e possível. O que está em jogo não é apenas a próxima refeição. É o futuro de uma geração e a capacidade do país de alinhar saúde, equidade e sustentabilidade no mesmo prato.

Leia também: A arquitetura do consumo

Os Autores(as)

Claudia Cheron König

Claudia Cheron König é administradora, com pós-doutorado em transições sustentáveis pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). É pesquisadora principal no Instituto Pensi, onde lidera o Laboratório de Estratégia, Governança e Filantropia para Transições Sustentáveis.

Renan Rosolem Machado

Renan Rosolem Machado é advogado e mestrando na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA-USP). É pesquisador no Lab de Estratégia do Instituto Pensi.

Bruno Valim Magalhães

Bruno Valim Magalhães é internacionalista e doutorando em saúde coletiva na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). É pesquisador e assessor no Lab de Estratégia do Instituto Pensi e membro do Consórcio de Pesquisa da Coalizão Global de Alimentação Escolar e do Observatório Científico do Conselho de Segurança Alimentar de São Paulo (Comusan).

Bruna Liria Avelhan

Bruna Liria Avelhan é administradora e doutora em administração na área de Organizações e Estratégia em Cadeias Produtivas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). É pesquisadora associada do Lab de Estratégia do Instituto Pensi.

Sulamita Oliveira de Santana

Sulamita Oliveira de Santana é comunicadora social pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e coordenadora de inteligência do Pacto Contra a Fome. 

Ricardo Jerônimo Mota

Ricardo Jerônimo Mota é economista pela Pontifícia Universidade Católica da São Paulo (PUC-SP) e gerente de inteligência do Pacto Contra a Fome.

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