Mapear para proteger

Indicadores tradicionais registram a crise quando ela já está instalada. Nos territórios indígenas, os sinais de risco aparecem antes – na roça, no rio, no calendário das chuvas. Uma matriz construída com validação técnica e escuta comunitária transforma saberes territoriais em base para decisões públicas mais precoces e eficazes
Ilustração de Bárbara Quintino

O que está sobre a mesa

A insegurança alimentar entre populações indígenas no Brasil é multifatorial e mais grave do que a média nacional. Conflitos fundiários, degradação ambiental, mudanças climáticas e alterações no padrão alimentar se combinam. Ainda assim, o país carece de instrumentos para monitorar essa complexidade nos territórios. A Matriz Diagnóstica de Sistemas Alimentares Indígenas surge para preencher essa lacuna e orientar ações mais coordenadas.


A garantia da segurança alimentar e nutricional de povos indígenas começa pelo reconhecimento de que seus sistemas alimentares não podem ser fragmentados. Território, biodiversidade, água, clima, modos de produção, circulação e consumo formam um conjunto inseparável, culturalmente referenciado. Quando o olhar sistêmico está ausente, a ação pública tende a chegar tarde: responde à fome apenas como carência imediata, mas não enfrenta os determinantes que a produzem – conflitos territoriais, degradação ambiental, desestruturação de práticas tradicionais e a crescente dependência de mercados externos e de alimentos ultraprocessados no dia a dia dos povos indígenas. Compreender como cada comunidade organiza sua alimentação e quais pressões atravessam esse ciclo é condição para antecipar riscos, orientar decisões intersetoriais articuladas e integradas e proteger, simultaneamente, a vida, a cultura e a autonomia desses povos.

O Brasil abriga uma diversidade indígena singular: são 391 etnias, falantes de 295 línguas, distribuídas pelos seis biomas e mais de 8,5 mil localidades indígenas, concentradas majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste (75,7% do total), com mais da metade da população vivendo na Amazônia Legal. Quase 2/3 vivem em área rural, mas pouco mais de 1/3 em terras indígenas oficialmente delimitadas. É uma população mais jovem do que a média nacional: 56,1% têm menos de 30 anos, e a idade mediana em áreas rurais e em terras indígenas é de 18 anos.1 

A insegurança alimentar e nutricional entre os povos indígenas é complexa, multifatorial e historicamente mais grave do que na população brasileira em geral, envolvendo a violação de direitos constitucionais, especialmente o direito à terra e o direito humano à alimentação adequada. Ainda assim, o país dispõe de poucos dados capazes de orientar respostas preventivas e territorializadas. O último levantamento específico sobre segurança alimentar e nutricional (SAN) em populações indígenas data de 1994. À época, o Mapa da Fome entre Povos Indígenas no Brasil alcançou 128 terras indígenas (27,5% do total) e identificou que 28,3% da população residente enfrentava “dificuldade em alcançar com segurança um bom padrão alimentar e de saúde”.2 Estudos posteriores reforçaram o quadro de iniquidades: indicadores de desnutrição infantil medidos por altura por idade e peso por idade podem ser, respectivamente, de 8,2 e 9,4 vezes superiores aos da média nacional.3

Evidências mais recentes consolidam um cenário alarmante e multifacetado. Uma publicação de 2024 da Universidade Federal de Viçosa (UFV)4 indica que a desnutrição infantil entre povos indígenas chegou a ser 20 vezes superior à observada em crianças não indígenas, com o dobro de mortes. Ao mesmo tempo, a insegurança alimentar e nutricional não se manifesta apenas pela fome e desnutrição grave – como visto na crise Yanomami –, mas também por carências nutricionais como anemia, hipovitaminose A e, em muitos casos, pelo excesso de peso e obesidade, associado à substituição da alimentação tradicional por ultraprocessados. A privação no acesso a alimentos adequados e saudáveis atinge com maior intensidade as regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Dados do Sistema de Atenção à Saúde Indígena mostram que, em 2024, entre as 92.389 crianças com menos de 5 anos acompanhadas, 7,8% apresentaram déficit de peso para a idade (7.243 crianças) – percentual que, entre crianças Yanomami, alcançou 49,9%. No mesmo período, a prevalência de excesso de peso foi de 12% (11.047 crianças), com variação entre 4,6% e 23,5%.5 Esses números permitem acompanhar tendências e priorizar territórios, mas ainda não contemplam variáveis e indicadores que possibilitem diagnosticar, de forma sistemática, as causas da má nutrição associadas aos sistemas alimentares nos territórios indígenas. 

O compilado da UFV sistematiza um conjunto de fatores que afetam, direta e indiretamente, os sistemas alimentares indígenas e elevam o risco de insegurança alimentar nos territórios. Entre eles estão conflitos territoriais e fragilidade na demarcação, desestruturação de práticas tradicionais, mudanças no padrão alimentar e maior exposição à sazonalidade e eventos extremos associados às mudanças do clima. Soma-se a isso a limitada capacidade de coordenação e resposta do poder público. Esses determinantes evidenciam que a insegurança alimentar e nutricional não resulta apenas da escassez imediata de alimentos, mas de uma combinação de pressões territoriais, ambientais e institucionais.

As vulnerabilidades tornam-se ainda mais evidentes nos depoimentos das comunidades indígenas participantes do processo de construção e validação da Matriz Diagnóstica de Sistemas Alimentares Indígenas, instrumento desenvolvido para apoiar diagnósticos territorializados.6 Nas oficinas realizadas em comunidades indígenas, a crise climática foi descrita a partir da alteração de sinais ancestrais – padrões de chuva, comportamento de animais, ciclos de floração e frutificação – que historicamente orientam o tempo de plantar, colher, caçar e pescar. Hoje, esses referenciais são menos previsíveis e nem sempre capturados pelos indicadores usuais da ciência e da gestão. A crise climática desajustou os calendários ancestrais. Como descreveu um ancião no Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Juruá: “Antigamente, o canto de um pássaro ou a floração de uma árvore indicava o tempo de plantar. Hoje, a natureza parece estar confusa”.

A gravidade da insegurança alimentar e nutricional indígena não é apenas estatística: ela atravessa dimensões sensoriais, culturais e espirituais. Durante as oficinas uma fala sintetizou a urgência de olhar para o território e para os modos de viver dos povos originários: “O fogo faz comida, almoço, janta; o fogo alegra o dia, sem fogo somos tristes”. A frase revela que, para esses grupos, a fome não é apenas ausência de alimento, mas ruptura de seus modos de bem viver – dimensões que a Matriz Diagnóstica busca tornar visível para orientar ações de proteção e cuidado.

As evidências e as vozes do território indicam que garantir a segurança alimentar e nutricional exige, além de respostas emergenciais quando necessárias, ações estruturais que reconheçam e fortaleçam a cultura e a soberania alimentar indígena. Não se trata apenas de assegurar a disponibilidade de alimentos, mas de criar condições para que as comunidades mantenham, recuperem e reproduzam seus próprios sistemas alimentares, com autonomia sobre o território, incluindo suas águas, e os modos de produzir, processar e consumir. A relação dos povos indígenas com a terra é constitutiva de sua cultura, hábitos e modo de viver: a terra é base legítima e inerente de organização para manter e perpetuar sua herança cultural, espiritual e material. Seus saberes são intrinsecamente relacionados à natureza, à terra, aos seus costumes e rituais, à culinária, suas vestimentas e valores.7 É nesse contexto que surge a Matriz Diagnóstica de Sistemas Alimentares Indígenas: uma ferramenta concebida para apoiar diagnósticos territorializados e culturalmente referenciados, capazes de orientar decisões intersetoriais articuladas e integradas antes que vulnerabilidades se convertam em crises.

A construção da Matriz Diagnóstica

O estado brasileiro ainda carece de dados territoriais e de ferramentas específicas capazes de identificar precocemente sinais de risco de insegurança alimentar e nutricional em terras indígenas. A emergência sanitária e humanitária na Terra Indígena Yanomami, que levou à decretação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) em 2023,8 tornou essa lacuna evidente. A desassistência prolongada, somada à destruição das florestas e à contaminação dos rios decorrentes da invasão garimpeira, expôs a fragilidade dos mecanismos de monitoramento e resposta. O episódio demonstrou que agir apenas diante da crise é insuficiente: é necessário dispor de ferramentas que permitam antecipar riscos e orientar intervenções antes que a insegurança alimentar e nutricional se agrave.

Para antecipar riscos e qualificar decisões públicas, foi desenvolvida a Matriz Diagnóstica de Sistemas Alimentares Indígenas em cooperação técnica intersetorial coordenada pela Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan), do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, com o propósito de fortalecer diagnósticos territorializados e culturalmente referenciados. Seu objetivo é apoiar a análise local dos sistemas alimentares em territórios indígenas, integrando dimensões como produção, disponibilidade, acesso e consumo de alimentos, ambiente, modos de produzir e gerar renda, e interface com políticas públicas. Ao organizar tais informações de forma estruturada, a Matriz Diagnóstica oferece base técnica para intervenções mais precoces, coordenadas e alinhadas às realidades do território. 

Trata-se de um instrumento inovador orientado à soberania e à autonomia alimentar que permite identificar fatores que afetam os sistemas alimentares nos territórios – da produção ao consumo, água e energia, geração de renda, mudanças climáticas e interface com programas públicos. Sua construção combinou validação técnica, contribuições de especialistas e oficinas presenciais de escuta em comunidades indígenas, com revisões sucessivas do instrumento. Ao adotar essa metodologia, a Matriz Diagnóstica rompe com a lógica de diagnósticos padronizados “de cima para baixo” e transforma conhecimentos do território em informação estruturada para orientar políticas públicas.

Um levantamento da literatura e de experiências documentadas em âmbito nacional e internacional indicou a ausência de instrumento com esse propósito e com aderência aos modos de viver e produzir dos povos originários. A Matriz Diagnóstica foi concebida para preencher essa lacuna, apoiando a identificação de demandas territoriais e a articulação de ações intersetoriais voltadas à proteção, promoção e garantia da segurança alimentar e nutricional dos povos indígenas brasileiros. Seu diferencial está na capacidade de antecipar riscos e reduzir a probabilidade de emergências que comprometam vida, saúde, nutrição e modos de viver, a partir do monitoramento situacional sistemático e do conhecimento, manutenção, preservação e recuperação dos sistemas alimentares locais.

O desenho metodológico da Matriz Diagnóstica combinou revisão de evidências científicas e normativas, validação técnica e escuta direta em territórios indígenas. O processo foi conduzido de forma participativa e iterativa, com revisões a partir das contribuições técnicas e territoriais das comunidades indígenas ouvidas. Essa combinação permitiu alinhar técnica analítica e aderência cultural, ampliando a capacidade do instrumento de refletir realidades diversas e orientar decisões intersetoriais. (Veja quadro abaixo)


Como foi construída a Matriz Diagnóstica de Sistemas Alimentares Indígenas

1. Validação interna da versão inicial 

A primeira versão foi elaborada com base na literatura científica disponível e em documentos normativos, sendo revisada pelas equipes técnicas dos ministérios signatários do Acordo de Cooperação Técnica (ACT)*. A revisão foi guiada por três eixos – estrutura, conteúdo e linguagem.

Ao final dessa etapa, a Matriz Diagnóstica foi organizada em seis blocos temáticos alinhados às dimensões clássicas da segurança alimentar e nutricional (SAN) – configuração inicial que seria posteriormente ampliada e reorganizada à luz das contribuições técnicas e territoriais incorporadas nas etapas seguintes:

  • (i) caracterização da comunidade/aldeia/território; 
  • (ii) produção e disponibilidade de alimentos;
  • (iii) processamento e conservação;
  • (iv) distribuição;
  • (v) preparação e consumo;
  • (vi) acesso e participação em programas sociais.

2. Qualificação e validação com colaboradores externos

A etapa foi precedida por chamamento público. Houve 166 inscritos, dos quais 68 colaboradores foram selecionados. A seleção priorizou a autoidentificação étnica indígena (17 indígenas selecionados), vínculo com territórios indígenas e atuação em áreas correlatas (SAN, pesquisa acadêmica ou programas institucionais).

O processo incluiu etapa eliminatória (incongruências cadastrais, falta de declaração de ausência de conflito e informações incompletas) e etapa classificatória baseada em pontuação de vivências e experiências com povos indígenas (morar/viver em territórios indígenas, pesquisar e atuar nos territórios), além da análise da carta de intenções apresentada.

Participaram efetivamente da validação 55 colaboradores, sendo 17 indígenas.

A versão do instrumento foi disponibilizada por formulário eletrônico. Após sistematização das respostas, realizou-se oficina on-line para alinhamento de controvérsias e esclarecimento de pontos, utilizando metodologias participativas conduzidas por especialista.

A validação de conteúdo foi conduzida por meio do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), aplicado a cada questão, e por escala do tipo Likert para avaliação dos blocos temáticos e do instrumento de forma global. Todas as questões e blocos permitiam contribuições escritas e sugestões voltadas à qualificação temática e à adequação de linguagem, abordagem e terminologia.

Os resultados superaram 80% de aprovação, e a avaliação global do instrumento somou 88%.

As principais críticas apontaram:

  • necessidade de adaptação cultural da abordagem, incluindo a própria concepção de “sistema alimentar”;
  • simplificação da linguagem e incorporação de termos e conceitos indígenas;
  • percepção de abordagem etnocêntrica/eurocêntrica;
  • ausência de questões territoriais e aspectos simbólicos;
  • ausência de questões sobre mudanças climáticas e seus impactos.

A última lacuna foi sanada por meio de questionário complementar enviado aos colaboradores.

3. Validação territorial com comunidades indígenas 

A validação em campo ocorreu por meio de oficinas presenciais em três comunidades indígenas, com o objetivo de promover escuta ativa e incorporar saberes tradicionais relacionados ao cuidado com a terra, ao meio ambiente e à manutenção e reprodução dos modos de viver. Lideranças (caciques, cacicas, pajés) e outros representantes indicados pelas próprias comunidades foram convidados a participar.

A seleção das comunidades tomou por base a organização territorial da atenção à saúde dos povos indígenas – os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) – e adotou uma matriz de critérios composta por:

  • (i) inclusão de comunidades em diferentes regiões do país e em diferentes biomas;
  • (ii) situação fundiária das terras indígenas (regularizadas, homologadas e declaradas – IBGE, 2022);
  • (iii) estado nutricional de crianças indígenas com menos de 5 anos (Siasi/MS).

Para o terceiro critério, utilizaram-se percentuais de déficit de peso e de excesso de peso por Dsei, organizados em quartis de prevalência. Em razão das prevalências extremamente elevadas de desnutrição, o Dsei Yanomami foi excluído da amostra inicial, considerando que sua inclusão poderia distorcer a distribuição dos dados, especialmente após a decretação da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) em 2023.

As oficinas reuniram entre 20 e 30 participantes indígenas por território:

  • Dsei Cuiabá – Aldeia Davi (Comodoro/MT): 25 indígenas da etnia Nambiquara (biomas Amazônia, Pantanal, Cerrado);
  • Dsei Alto Rio Juruá – Aldeia Morada Nova (Feijó/AC): 20 indígenas de diferentes etnias – Ashaninka, Madijá, Kaxinawá, Shanenawa, entre outras (bioma Amazônia);
  • Dsei Ceará – Aldeia Lagoa dos Tapebas (Caucaia/CE): 30 participantes de diferentes polos-base, majoritariamente indígenas trabalhadores da saúde (bioma Caatinga).

As oficinas foram realizadas ao longo de três dias e combinaram plenárias e trabalho em grupos. As metodologias participativas buscaram:

  • (a) compreender como as comunidades conceituam sistemas alimentares e SAN a partir de sua própria alimentação;
  • (b) explicitar a finalidade de um diagnóstico de sistemas alimentares e a importância de sua construção com o olhar e os saberes indígenas;
  • (c) testar o instrumento por meio de aplicação simulada, avaliando cada bloco temático, pergunta e alternativas quanto ao sentido, clareza e objetividade.

Algumas falas registradas ilustram o protagonismo indígena no processo:

“É uma oportunidade de colocar a nossa realidade e os nossos anseios no papel.”

“Eu achava que não ia falar nada, que era só para ouvir, mas participei bastante.”

O protocolo de aplicação da Matriz Diagnóstica propõe que o diagnóstico seja respondido coletivamente por pessoas-chave das comunidades, detalhamento previsto para a etapa subsequente do projeto.

4. Revalidação com colaboradores externos

Após a validação territorial, a Matriz Diagnóstica foi revisada e reapresentada aos colaboradores externos por meio de formulário eletrônico e oficinas online.

Nesta etapa, o Índice de Validade de Conteúdo (IVC) superou 95%, indicando ótima avaliação do instrumento. Participaram 30 colaboradores, número inferior ao da rodada anterior, atribuído ao intervalo de oito meses entre as sondagens.

As principais recomendações referiram-se à metodologia de aplicação: reforço da proposta de aplicação coletiva (rodas de conversa) e uso de recursos visuais – fotos de alimentos, mapas do território e calendários sazonais – para estimular memória e participação durante o diagnóstico.

* Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Ministério da Saúde (MS), Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) formalizaram o Acordo de Cooperação Técnica em novembro de 2024.


A organização temática da Matriz Diagnóstica

Ao final do processo de validação, a Matriz Diagnóstica ficou sistematizada em oito blocos temáticos, totalizando 112 perguntas (abertas e fechadas). A estrutura foi organizada para captar, as dinâmicas do sistema alimentar, abrangendo desde produção, processamento e consumo até condições ambientais e da água, geração de renda e interfaces com políticas públicas. O resultado é um instrumento diagnóstico capaz de apoiar a gestão intersetorial e fortalecer a governança intersetorial nos territórios. Essa lógica final de organização reflete diretamente as contribuições incorporadas nas oficinas com as comunidades indígenas.

Bloco 1 – Identificação: Registra as informações sobre o local de aplicação da matriz, os povos presentes no território e o perfil dos respondentes representantes da comunidade. Concede mais legitimidade do diagnóstico ao permitir a construção comunitária, com participação de lideranças, pajés, caciques e cacicas, agentes ambientais e de saúde, produtores e produtoras indígenas, entre outros, assegurando que os dados reflitam a visão coletiva do território.

Bloco 2 – Alimentação: Caracteriza o padrão alimentar da comunidade: o que se consome no dia a dia; como os alimentos são acessados, as comidas de festa, as comidas dos antigos; o que ainda comem e o que deixaram de comer; como a alimentação varia ao longo do ano, entre outras informações. O bloco busca compreender as dinâmicas da transição alimentar e nutricional, especialmente a tensão entre as práticas tradicionais e a entrada crescente de alimentos ultraprocessados nas aldeias. As lideranças associam esse avanço ao enfraquecimento físico e identitário. Algumas falas dos indígenas expressam isso: “A comida do antigo dava força. A comida que vem de fora deixa a gente fraco e doente”; “Nossas crianças hoje pedem bolacha e refrigerante em vez de comer a macaxeira e o peixe que a gente traz da mata”. Outro relato evidencia a dependência crescente do mercado: “A gente fica dependente do dinheiro do auxílio para comprar comida na cidade, e quando o dinheiro não dá, a fome aparece de um jeito que não aparecia quando a roça era farta”. A Matriz Diagnóstica busca mapear as dinâmicas que podem causar impacto sobre a alimentação tradicional.

Bloco 3 – Mudanças climáticas e outros desafios socioambientais: Investiga como fatores socioambientais têm afetado o sistema alimentar das comunidades e como elas vêm respondendo a isso. O bloco examina impactos decorrentes do agronegócio, do garimpo e eventos climáticos extremos – que alteram os ciclos de produção e exigem novas estratégias de adaptação. A crise climática é interpretada a partir de sinais que a ciência ocidental muitas vezes ignora. Um indígena expressou o desafio de plantar em tempos de instabilidade: “Antigamente, o canto de um pássaro ou a floração de uma árvore indicava o tempo de plantar. Hoje, a natureza parece estar confusa”. Outro relato diz que o sol “está mais quente”, impedindo o trabalho na roça em horários que antes eram produtivos, o que força as comunidades a buscar novas estratégias de sobrevivência.

Bloco 4 – Produção de alimentos: Identifica os alimentos produzidos pela comunidade – na roça, na criação de animais ou obtidos diretamente da natureza por meio de coleta, pesca e caça –,
bem como as técnicas utilizadas, o uso das sementes e mudas, a organização do trabalho e as necessidades de apoio. O foco recai sobre a manutenção das roças, da caça, pesca e coleta (produção tradicional), visando o fortalecimento dessas práticas como caminho para a soberania e autonomia alimentar e a redução da dependência de auxílios externos emergenciais. Como expressou uma liderança: “A floresta continua sendo o nosso supermercado, mas agora o clima mudou e a fartura do passado já não é a mesma”.

Bloco 5 – Processamento de alimentos: Examina como os alimentos são preparados, conservados e eventualmente comercializados na comunidade: farinha de mandioca ou de milho, beiju, moqueado de peixe, polpas de fruta, uso do sal e outras técnicas tradicionais de conservação. As falas revelam mudanças nas práticas e nas condições ambientais: “Antigamente não tinha sal, era tudo natural. A “geladeira” era o sal e a terra nos dava tudo. Hoje, a gente olha para a roça e vê que o tempo está diferente”.

Bloco 6 – Água e energia: Mapeia as fontes de água e energia disponíveis, sua qualidade, as formas de uso e a relação com o sistema alimentar da comunidade. As mudanças climáticas impactam o ciclo das águas, o que interfere na produção de alimentos: “O rio não sobe mais como antes, ou sobe demais e leva tudo. A gente perde a plantação porque a cheia vem na hora errada”; “Antigamente havia um calendário que a gente conhecia. Hoje, nem sempre o que está planejado se concretiza porque os rios não se comportam mais como antes”. Além disso, há relatos de contaminação de águas: “As fazendas nas cabeceiras estão sujando a nossa água. O desejo da comunidade era ter um açude para peixe porque o rio já não é mais o mesmo de antes”.

Bloco 7 – Geração de renda: Aborda as atividades de geração de renda na comunidade, relacionadas ao sistema alimentar ou não, incluindo informações sobre venda e transporte dos alimentos que são produzidos no território, organização dos produtores etc. Aqui também há manifestação de desejos ou necessidades das comunidades indígenas: “Quantos alimentos a gente compra hoje que poderíamos estar produzindo aqui na nossa terra?”.

Bloco 8 – Assistência alimentar e programas de governo: Investiga os benefícios e programas de governo aos quais a comunidade tem acesso; a percepção das comunidades sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), o recebimento de cestas de alimentos, entre outros. Algumas manifestações dos indígenas refletem a importância de se conhecerem essas percepções, o que traria informações capazes de nortear as ações da gestão pública coordenadas nos territórios: “A gente quer que a merenda escolar respeite o que os alunos gostam e o que a terra produz. Todo ano os alunos deveriam escolher o que querem comer”.

Ecos do chão: aprender com as vozes do território

Uma das principais lições aprendidas no processo foi reconhecer que as dimensões clássicas da SAN – produção, disponibilidade e acesso, e consumo – nem sempre dialogam com a realidade cultural indígena. A escuta direta das comunidades foi determinante para ajustar termos e linguagem, redefinir a lógica de organização do instrumento e, sobretudo, o “como perguntar”. Os participantes foram enfáticos ao afirmar que a ferramenta precisa “falar a língua do território” e fortalecer o protagonismo indígena, de modo a traduzir realidades e significados que não cabem em categorias externas: “Não queremos apenas responder perguntas; queremos que essa matriz ajude o governo a entender que a nossa terra é a nossa mesa”; “É preciso que o questionário use termos que a gente entenda aqui na aldeia, respeitando o nome que damos para cada alimento e cada rito”.

 A inovação da proposta reside justamente na construção participativa. A metáfora da coruja, utilizada por um indígena ao avaliar o processo, sintetiza o encontro entre saberes: “A coruja usa a técnica da sabedoria para dar os primeiros passos para entrar na sabedoria dos brancos”. A imagem reforça que a Matriz Diagnóstica não é uma imposição externa, mas um diálogo do conhecimento ancestral com a técnica estatal, com a finalidade de produzir proteção e cuidado. As oficinas também evidenciaram que os povos indígenas não são apenas destinatários de políticas ou “vítimas” de crises, mas agentes de solução, mobilizando estratégias próprias de resistência, resiliência e solidariedade que sustentam o bem viver e oferecem caminhos concretos de adaptação: “Estamos voltando a plantar as sementes que os nossos avós guardavam, porque elas aguentam mais o tempo seco”; “Quando uma aldeia perde a produção por causa da chuva, a outra aldeia divide o que tem. É assim que a gente sobrevive”.

Uma nova forma de fazer política pública

A matriz diagnóstica é uma tecnologia social com potencial de ir além da coleta de dados estatais. Ao mesmo tempo que qualifica a capacidade do poder público de monitorar riscos, priorizar territórios e orientar ações intersetoriais, ela pode ser apropriada pelas próprias comunidades e organizações indígenas como instrumento de gestão do território, inclusive em contextos de baixa presença do Estado. Sua construção não representa o fim de um processo, mas o início de uma forma distinta de fazer política pública voltada para povos indígenas, baseada na escuta, na intersetorialidade e, acima de tudo, no respeito à autodeterminação dos povos originários. O êxito da ferramenta será medido pela capacidade de as comunidades caminharem autonomamente. Como afirmou uma liderança: “Autonomia: quem manda no território somos nós… [queremos] caminhar com os próprios pés e não depender tanto do governo”.

Além da continuidade de diálogo com indígenas e suas organizações, as novas fases visam ao empoderamento local para uso da Matriz Diagnóstica, à realização do diagnóstico em comunidades indígenas e à proposição de planos intersetoriais de ação local que busquem superar os problemas identificados e propor formas de agir e intervir que se coadunem com os modos de vida e de produção dessas populações. O desafio central é transformar diagnóstico em governança e ação, com protagonismo indígena e efetividade institucional.

Notas

1. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022: quilombolas e povos indígenas. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.

2. Verdum, R. Mapa da fome entre os povos indígenas no Brasil (I): uma contribuição à formulação de políticas de segurança alimentar. Brasília, DF: Inesc, jul. 1994.

3. Brasil. Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan). Mapeamento da Insegurança Alimentar e Nutricional com foco na Desnutrição a partir da análise do Cadastro Único, do Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) e do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (Siasi) – 2016. 2018. Disponível em: Estudo Técnico CAISAN MapaInsan versao 05_11(2).pdf. Acesso em: 22 jan. 2026.

4. Morais, D. de C. et al. (orgs.). Insegurança alimentar e nutricional em grupos vulneráveis: agricultores familiares, indígenas, quilombolas, população em situação de rua, população ribeirinha, imigrantes e refugiados, LGBTQIA+. Viçosa, MG: UFV, IPPDS, 2024. 196 p. E-book. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/17K_rljDmp1iSo3iVS_EpNhqBCKwn4AHp/view. Acesso em: 22 out. 2025.

5. Ministério da Saúde. Secretaria de Saúde Indígena (Sesai). Sistema de Atenção à Saúde Indígena (Siasi): distribuição do estado nutricional de crianças indígenas menores de 5 anos. Brasília, DF: MS, 2024.

6. Brasil. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Matriz Diagnóstica de Sistemas Alimentares Indígenas: versão final. Brasília, DF: MDS, 2024.

7. Brasil. Ministério da Saúde. Plano Nacional de Saúde (PNS) 2024-2027. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/gestao-do-sus/instrumentos-de-planejamento/pns/plano-nacional-de-saude-pns-2024-2027/view. Acesso em: 22 out. 2025.

8. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 28, de 20 de janeiro de 2023. Declara Emergência em Saúde Pública de importância Nacional (Espin) em decorrência de desassistência à população Yanomami. Brasília, DF: MS, 2023. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2023/prt0028_20_01_2023.html. Acesso em: 22 out. 2025.

Leia também: Além da fome

Os Autores(as)

Maria de Fátima Carvalho

Maria de Fátima Carvalho é nutricionista, servidora pública da carreira de Ciência & Tecnologia do Ministério da Saúde, mestre em nutrição humana e especialista em saúde coletiva, ambos pela Universidade de Brasília (UnB). Coordena o Projeto Sistemas Alimentares Indígenas na Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Combate à Fome e Família (CGSAU/Sesan/MDS).

Gisele Ane Bortolini

Gisele Ane Bortolini é nutricionista, coordenadora-geral de promoção da alimentação adequada e saudável no Sesan/MDS, servidora pública da carreira de Analista Técnico de Políticas Sociais, doutora em nutrição humana.

Milena Serenini

Milena Serenini é nutricionista, servidora pública da carreia de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, atualmente no CGSAU/Sesan/MDS. É doutora em ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Patrícia Chaves Gentil

Patrícia Chaves Gentil é nutricionista, diretora do Departamento de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável no CGSAU/Sesan/MDS, mestre em nutrição humana pela UnB.

Lilian Rahal

Lilian Rahal é graduada em ciências sociais, mestre em sociologia e servidora pública federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, integrante do Sesan/MDS.

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