Peça à maioria dos profissionais da conservação que fale sobre seu impacto, e você ouvirá histórias de florestas protegidas, espécies salvas ou novas tecnologias fazendo a diferença. Mas, se dermos um passo atrás em relação a esses resultados, veremos que a conservação sempre esteve ligada às pessoas e ao seu comportamento, às escolhas que todos nós fizemos e que nos levaram à crise de biodiversidade que enfrentamos hoje. Por isso, a mudança de comportamento é essencial para o trabalho de quem atua na conservação: afastar as pessoas de ações que impulsionam a perda de biodiversidade e aproximá-las daquelas que sustentam a natureza. E é preciso reconhecer: apesar de conquistas importantes, ainda não conseguimos promover mudanças de comportamento na escala ou na velocidade que a crise exige.
Como campo de atuação, a conservação há muito tempo recorre às ciências naturais para orientar estratégias e definir quais comportamentos precisam de mudança. No entanto, tem sido mais lenta em incorporar plenamente o que a ciência comportamental ensina sobre como transformar comportamentos de maneira consistente e eficaz. A razão disso não tem a ver com a ineficiência da ciência comportamental. Ao contrário: ela vem transformando a saúde pública, as finanças e até a ação climática, com resultados mensuráveis. Mas os profissionais da conservação enfrentam um conjunto particular de obstáculos que torna especialmente difícil aplicar a ciência comportamental na prática: medir resultados pode demandar mais recursos do que em outras áreas; efeitos relacionados à biodiversidade podem ser difíceis de comprovar e levam tempo para aparecer; e as oportunidades de financiamento, assim como os incentivos do setor, nem sempre estão alinhados com a maximização desses impactos.
Ainda assim, a dificuldade de aplicar a ciência comportamental à conservação não pode servir de desculpa para deixar de fazê-lo. Se há uma conclusão evidente, é que seria imprudente não fazê-lo. E essa visão vem sendo cada vez mais reconhecida em diferentes frentes. A boa notícia é que outras áreas podem nos ensinar lições valiosas sobre como superar esses obstáculos. Se estivermos dispostos a aprender com esse acúmulo de experiência, poderemos começar a reduzir essa defasagem.
A solução? Precisamos mudar o nosso próprio comportamento. Aqui estão quatro ações que, como campo, já podemos começar a adotar hoje:
1. Tirar a ciência comportamental do isolamento
O trabalho de conservação – seja o de comunicar o valor da natureza a formuladores de políticas públicas, fortalecer comunidades por meio de campanhas de marketing social ou fiscalizar áreas protegidas – é um trabalho de mudança de comportamento.
Ainda assim, apesar desse reconhecimento por parte de grandes organizações de conservação e do número crescente de equipes especializadas que vem surgindo nessas instituições, ainda tendemos a tratar a mudança de comportamento como uma instância estruturalmente separada. Isso significa que, mesmo quando as organizações contam com especialistas em comportamento em suas equipes ou trabalham diretamente com consultores externos, esses profissionais costumam ser chamados tardiamente no desenvolvimento dos projetos, em vez de participarem de todo o processo. A expertise em mudança de comportamento também pode acabar competindo com prioridades centrais de entrega (por exemplo, ao defender pesquisas prévias à intervenção quando o cronograma apertado não previu essa etapa) devido à ausência, desde o início, de um mandato formal e consolidado. O resultado é um atrito previsível, que muitas vezes limita os cientistas comportamentais a fazer ajustes periféricos em projetos ou programas mais amplos.
Quanto antes passarmos a enxergar todos os aspectos do nosso trabalho pela lente da mudança de comportamento, mais rapidamente poderemos fazer essa transição. Um exemplo é o Ministério do Meio Ambiente de Aotearoa, Nova Zelândia: em 2021, o órgão criou uma equipe de mudança sistêmica e desenvolvimento de capacidades para incorporar a ciência comportamental a seus fluxos de trabalho. Em outras palavras, buscou criar as condições para que todo o ministério se entendesse como uma organização voltada à mudança de comportamento, e não como uma organização que, entre outras atividades, conduz projetos de mudança comportamental.
Infelizmente, essa abordagem promissora foi interrompida por uma mudança de governo antes de amadurecer plenamente. Ainda assim, esse tipo de integração é precisamente o que Michael Hallsworth, cientista-chefe da Behavioural Insights Team, defende ao discutir a próxima geração da ciência comportamental aplicada. Em vez de construir uma única “sala sofisticada”, (isto é, uma unidade especializada em ciência comportamental dentro das organizações), deveríamos modernizar “a fiação da casa inteira”. Quando a ciência comportamental é incorporada ao núcleo da estrutura organizacional, ela gera benefícios mesmo diante de mudanças de prioridade. Isso significa menos reformulações de última hora, expectativas mais claras de mensuração e de sucesso, e uma cultura institucional na qual promover mudanças de comportamento eficazes passa a ser parte da rotina.
Organizações de conservação como a nossa também podem atuar dessa forma. Na Rare, a expertise em mudança de comportamento está integrada aos diferentes programas, enquanto a ONG mantém o Center for Behavior and the Environment como um polo central de conhecimento. A TRAFFIC adota abordagem semelhante: sua equipe de mudança social e comportamental dá suporte a profissionais que contribuem com conhecimento local em países estratégicos, todos voltados à promoção de comportamentos favoráveis à biodiversidade. Esse movimento vem ganhando força até entre grandes financiadores, como o Global Environment Facility, que agora exige que os projetos incorporem a mudança de comportamento em toda a sua atuação.
2. Padronizar as ferramentas e a linguagem
A conservação atrai cientistas comportamentais de diversas áreas: psicologia, economia, marketing social, sociologia, entre outras. Essa diversidade enriquece nossa compreensão, mas a terminologia própria de cada disciplina também cria barreiras fundamentais de comunicação. Basta pensar nas muitas formas de descrever a dificuldade de transformar boas intenções em ação: falamos em “lacuna entre intenção e ação”, “lacuna entre atitude e comportamento”, “lacuna entre valores e ação” ou “lacuna entre conhecimento, atitude e prática”?
Quando observamos outros campos nos quais a ciência comportamental aplicada prospera, há um elemento em comum: uma linguagem compartilhada em torno dos modelos e marcos analíticos usados para compreender o comportamento, assim como das ferramentas empregadas para transformá-lo. Por exemplo, a maioria dos cientistas comportamentais conhece o modelo COM–B (Capability, Opportunity, Motivation–Behavior; em português, Capacidade, Oportunidade, Motivação–Comportamento), que surgiu na saúde pública antes de se disseminar para finanças, desenvolvimento, clima e outros campos. Dispor de um modelo integrador, que permita tanto o raciocínio dedutivo comoo indutivo dentro de uma linguagem comum, ajuda as pessoas a aprender umas com as outras e a desenvolver o que já vinha sendo feito.
Em contraste, a conservação ainda carece de marcos amplamente adotados, em escala setorial, para orientar a mudança de comportamento. Organizações desenvolvem seus próprios modelos e processos, reinventando a roda em vez de convergir para abordagens diagnósticas comuns, taxonomias de intervenção ou metodologias de avaliação compartilhadas. Essa fragmentação nos afastou dos avanços mais amplos das ciências comportamentais e fez com que continuássemos recorrendo a teorias como a Teoria do Comportamento Planejado, que tem dificuldade para explicar por que pessoas com boas intenções ainda assim deixam de agir. Sem referenciais comuns que nos conduzam do diagnóstico à intervenção, muitas vezes trabalhamos de trás para frente: escolhemos ferramentas já conhecidas, como campanhas de marketing social ou oficinas, antes de compreender o que de fato está impulsionando o comportamento que queremos transformar. E, quando as intervenções fracassam, temos dificuldade para entender o porquê, já que nos faltam medidas padronizadas capazes de identificar quais fatores realmente predizem a mudança de forma consistente.
A boa notícia? Essa lacuna finalmente começa a ser reconhecida. Já vemos surgir ferramentas e referenciais mais padronizados. Recentemente, a IUCN SSC–CEC Behaviour Change Task Force concluiu uma avaliação global de necessidades para identificar onde e como poderia acelerar a adoção da ciência comportamental no trabalho voltado à biodiversidade, e organizações como a IUCN e a Conservation Measures Partnership estão em posição ideal para liderar a construção de taxonomias compartilhadas em todo o campo. Entidades profissionais, como a Society for Conservation Biology e a Institution of Environmental Sciences, também são fundamentais para aproximar pesquisadores e profissionais da prática. A convergência em torno de referenciais comuns e a articulação de nossas redes fragmentadas podem contribuir para trazer mais clareza, comparabilidade e rigor ao nosso trabalho.
3. Tornar a avaliação inegociável
Em áreas como finanças comportamentais, saúde pública e até desenvolvimento, a avaliação rigorosa é inegociável. As intervenções não são consideradas concluídas até que seus resultados sejam medidos e compreendidos. Métricas claras (como gastos, lucros ou vidas salvas) orientam incentivos para reduzir custos e maximizar benefícios, com pouca margem para suposições sobre impacto.
Na conservação, em contraste, muitas vezes o trabalho se encerra na entrega de atividades ou ações de sensibilização, porque essa é a estrutura de incentivos que temos: os financiadores tendem a dar mais ênfase à execução de atividades e de iniciativas de engajamento do que ao impacto efetivamente alcançado por elas. Como resultado, monitoramos exaustivamente os produtos gerados (oficinas realizadas, materiais distribuídos), mas raramente medimos se alguém de fato mudou de comportamento.
Mas a conservação está entrando em sua própria “revolução causal”: cada vez mais iniciativas vêm realizando avaliações de impacto experimentais ou quase experimentais. Um estudo recente ilustra por que isso importa. Pesquisadores testaram, por meio de um ensaio controlado randomizado, se pagar pescadores da Indonésia para soltar tubarões ameaçados capturados acidentalmente reduziria a mortalidade desses animais. O monitoramento tradicional sugeria sucesso: centenas de tubarões estavam sendo devolvidos ao mar. Mas, quando os dados foram comparados a um contrafactual relevante, surgiu a realidade: o programa, na verdade, aumentou em 44% a mortalidade de tubarões-martelo. Sem querer, os pagamentos criaram um incentivo para que os pescadores capturassem mais tubarões a fim de receber pelo ato de soltá-los. Eles estavam soltando mais porque também estavam capturando mais ativamente. Sem um desenho experimental, esse incentivo perverso teria passado despercebido.
É exatamente esse tipo de acerto de contas honesto que o nosso trabalho exige. Não se trata de dizer que programas de incentivo não possam funcionar; trata-se de reconhecer que precisamos de métodos rigorosos para entender em que circunstâncias uma intervenção como essa ajuda ou atrapalha. Ainda assim, a avaliação costuma ser descartada como gasto desnecessário ou perda de tempo, e muitos projetos alegam não ter orçamento para uma avaliação complexa. Precisamos reformular esse raciocínio: avaliação é um investimento, porque evita o desperdício de recursos já escassos em intervenções que não produzem efeito algum ou que, no pior dos casos, causam danos.
Além disso, se incorporarmos desde o início a cada orçamento uma avaliação robusta, orientada a resultados e adequada ao método empregado, poderemos abrir novas oportunidades de financiamento. Um exemplo são os mecanismos de financiamento atrelados a resultados, que vinculam o pagamento à comprovação de resultados verificados. Historicamente, esses mecanismos têm evitado iniciativas de mudança de comportamento, por considerá-las difíceis demais de mensurar. Mas o problema não é a mudança de comportamento em si, mas fragilidades das práticas de avaliação no nosso campo. Ao demonstrarmos resultados claros e mensuráveis com base em métodos contrafactuais, poderemos acessar esses mecanismos inovadores de financiamento, algo que já acontece com resultados de natureza mais palpável, como hectares preservados ou carbono sequestrado.
4. Olhar para as origens do sistema
O comportamento individual importa, mas não existe no vácuo. Com frequência, depositamos sobre as comunidades na linha de frente (pescadores, agricultores, populações que dependem da floresta) a expectativa de mudar de comportamento, enquanto deixamos intocados os sistemas que restringem suas escolhas. Um pescador não pode adotar métodos sustentáveis se o mercado só recompensa práticas destrutivas. E, mesmo quando indivíduos conseguem mudar apesar dessas barreiras, é pouco provável que essas mudanças persistam ou ganhem escala sem uma reforma sistêmica.
Diante de barreiras sistêmicas, muitas vezes as tratamos como algo fixo e seguimos trabalhando com as comunidades locais para obter qualquer mudança possível dentro dessas limitações. Mas sistemas não são imutáveis. Eles são feitos de pessoas tomando decisões. O formulador de políticas que redige normas para a pesca, o comprador que estabelece padrões de aquisição, o banqueiro que aprova empréstimos agrícolas – todos contribuem para as restrições que lamentamos. Como as comunidades com as quais trabalhamos, eles também são movidos por incentivos, influenciados por pressões sociais e sujeitos a vieses cognitivos. Isso significa que também podemos desenhar intervenções voltadas a esses atores.
Na conservação, isso pode significar aplicar conhecimentos da ciência comportamental para alinhar o voto de parlamentares às prioridades de seus eleitores, tornar mais transparentes e visíveis para todos as condutas dos atores que operam nas origens do sistema, ou até ajudar os próprios profissionais da conservação a lidar com seus vieses de decisão. Também pode significar atuar em múltiplos níveis de um sistema ao mesmo tempo: na Tanzânia, esforços para enfrentar a crise da carne de animais silvestres combinaram reforma de políticas públicas, fortalecimento da fiscalização da cadeia de valor entre vendedores e engajamento comunitário em um único programa. O resultado foi uma redução significativa da caça ilegal, com mudanças mais duradouras. O trabalho da Rare com pescadores de pequena escala também exemplifica essa abordagem: além de atuar diretamente com os pescadores para promover práticas sustentáveis, a organização colabora com lideranças locais na defesa dos direitos desses trabalhadores e com instituições financeiras e o setor privado para fortalecer sua resiliência econômica.
Um olhar mais amplo, orientado pelo pensamento sistêmico, pode ajudar os profissionais da conservação a identificar todos os pontos de alavancagem que moldam o comportamento antes de saltar diretamente para as intervenções. O mapeamento de sistemas comportamentais é particularmente útil nesse processo, pois permite mapear resultados atuais e esperados, os diferentes atores envolvidos, barreiras e motivadores, bem como os instrumentos de intervenção à disposição das equipes de modo que possamos identificar onde as intervenções de mudança de comportamento podem gerar maior impacto.
Saber não basta
A conservação chegou a um ponto de inflexão. Vimos a ciência comportamental transformar outros campos com resultados mensuráveis, enquanto nós temos dificuldade para demonstrar seu impacto – o que enfraquece tanto nossa credibilidade como nossa eficácia. Mas o caminho adiante é claro, delineado por soluções concretas que outros setores já colocaram em prática.
O desafio é que conhecer essas soluções não basta. A própria ciência comportamental nos lembra que boas intenções não se convertem automaticamente em ação – é preciso criar as condições para a mudança. Na conservação, isso começa pela responsabilização. Hoje, o sucesso é definido menos pela eficácia com que protegemos a natureza e mais pela nossa capacidade de captar recursos. Isso precisa mudar. Se levamos o impacto a sério, os incentivos precisam direcionar recursos para intervenções que funcionam e afastá-los daquelas que não funcionam, como já ocorre no setor privado e em outros campos nos quais a ciência comportamental prospera.
Redefinir o sucesso significa recompensar projetos que maximizem o impacto no mundo real, corrigir a rota quando necessário e interromper intervenções que não estão funcionando. Podemos fazer isso incorporando a ciência comportamental em toda a estrutura das organizações, fazendo com que pesquisadores e profissionais adotem referenciais comuns capazes de se apoiar mutuamente, exigindo dos financiadores que a avaliação seja inegociável e, por parte de todos nós, olhando para os sistemas que estão na origem do comportamento.
Há algo de irônico – e apropriado – no fato de que a chave para fortalecer a ciência comportamental na conservação seja, antes de tudo, mudar o nosso próprio comportamento. Mas a conservação sempre foi a respeito das pessoas e das decisões que elas tomam. E isso também nos inclui.
*Artigo publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “Making Behavioral Science Work for Conservation”.
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