Um fundo para agitar o debate climático 

O Climate Emergency Fund apoia ações de ativismo disruptivo para aumentar a conscientização sobre a crise climática

Protesto do grupo Rising Tide bloqueou o porto de Newcastle, um dos maiores pontos de escoamento de carvão da Austrália, em 30 de novembro de 2025
Foto de Lee Illfield

Em 2022, duas manifestantes entraram na National Gallery, em Londres, e jogaram sopa no vidro que protegia a obra Girassóis (1888), de Vincent van Gogh, uma pintura avaliada em US$ 95 milhões. As ativistas faziam parte do Just Stop Oil, grupo de resistência civil não violenta notório por ações de grande repercussão, como bloqueios de estradas, pichações em jatos particulares, interrupções de eventos esportivos ao vivo e o lançamento de pó laranja no Stonehenge, monumento neolítico ao sul da Inglaterra.

Extinto em 2025, o Just Stop Oil pertencia à ala mais radical do movimento climático, que usa formas provocativas de resistência civil não violenta para chamar atenção para a crise climática. O grupo foi um dos principais beneficiários do Climate Emergency Fund, organização sem fins lucrativos fundada em 2019 para apoiar ações climáticas disruptivas. Outros beneficiários incluem Extinction Rebellion, Climate Defiance e Scientist Rebellion.

A teoria de mudança do Climate Emergency Fund sustenta que “movimentos sem um elemento disruptivo são facilmente ignorados”. Nessa perspectiva, a resistência civil não violenta funciona como uma ferramenta estratégica para conquistar cobertura da imprensa e influência política, ainda que gere controvérsias.

Hoje, um número crescente de pesquisas documenta os impactos das mudanças climáticas, que, segundo estimativas, provocam milhões de mortes por ano. Um relatório do Fórum Econômico Mundial projeta que as mudanças climáticas poderão causar 14,5 milhões de mortes até 2050 em decorrência de eventos climáticos extremos como enchentes, secas, ondas de calor, incêndios florestais e elevação do nível do mar. Diante desse cenário, ativistas recorrem a protestos disruptivos para pressionar por mudanças. 

Bagunçando o coreto

O Climate Emergency Fund não participa de protestos nem orienta as ações de seus beneficiários, mas fornece os recursos que tornam o trabalho deles possível. “Temos um papel muito específico no ecossistema do movimento, que é fornecer recursos financeiros a esses grupos”, diz Margaret Klein Salamon, presidente do conselho da organização. 

O que é exatamente um protesto disruptivo? “Basicamente, significa interferir, de alguma forma, no funcionamento normal das coisas”, explica Salamon. Fazer uma manifestação com faixas e cartazes ou interromper um discurso político com palavras de ordem são exemplos desse tipo de protesto – vale qualquer ação não violenta capaz de “invadir o ecossistema midiático” para direcionar a atenção pública a acontecimentos e questões que, de outra forma, seriam ignorados.

Para Salamon, o protesto disruptivo é essencial para o ativismo climático contemporâneo. “Esse tipo de protesto faz algo que outras formas de ação não conseguem fazer: define a agenda política, determina sobre o que vai se falar – quais são os temas que os políticos e a mídia vão passar a abordar”, diz.

“Por exemplo, o protesto da sopa, que foi muito controverso. Muitas pessoas me perguntaram: ‘Por que o Just Stop Oil atacou uma pintura? Por que não miraram na infraestrutura de combustíveis fósseis?’”, diz Salamon. “Era muito frustrante ouvir essa pergunta, porque eles já haviam sido presos centenas de vezes por bloquear infraestruturas ligadas aos combustíveis fósseis.”

O Climate Emergency Fund apoia grupos que conduzem campanhas eficazes de conscientização sobre as mudanças climáticas, distribuindo cerca de US$ 4 milhões em subsídios por ano. Os financiamentos variam entre US$ 50 mil e US$ 100 mil e podem cobrir de 50% a 100% do financiamento total das organizações apoiadas. Segundo Salamon, os recursos costumam ser usados na compra de materiais artísticos, em viagens, treinamentos, seguros, contabilidade e até contratação de equipes em tempo integral para coordenar o movimento.

Embora os protestos disruptivos costumem provocar reações negativas da opinião pública, os grupos apoiados pelo Climate Emergency Fund conquistaram vitórias significativas. É difícil comprovar uma atribuição direta por esses resultados, mas suas campanhas ajudaram na aprovação de uma lei que prevê investimentos em energia renovável nos Estados Unidos; levaram o aeroporto Schiphol, em Amsterdã, a proibir jatos particulares; e garantiram a principal reivindicação do Just Stop Oil: o fim de novas licenças para exploração de petróleo no Mar do Norte.

O fundo monitora menções na mídia e constatou que os grupos que financia respondem por 5% de toda a cobertura jornalística sobre clima, diz Salamon. Philip Eubanks, diretor-executivo do fundo, estima que o valor publicitário equivalente dessa exposição chegue a US$ 4 bilhões – um retorno extraordinário para um investimento de US$ 12,8 milhões, o que evidencia o potencial de impacto da iniciativa.

Foco na emergência climática

O Climate Emergency Fund foi fundado por Aileen Getty, filantropa voltada às causas climática e ambiental e herdeira da fortuna petrolífera Getty; Rory Kennedy, documentarista e filha do ex-senador estadunidense Robert F. Kennedy; Sarah Ezzy, vice-presidente da Aileen Getty Foundation e diretora do Global Philanthropy Group; Trevor Neilson, empreendedor e CEO da WasteFuel; e a já falecida Ethel Kennedy, defensora dos direitos humanos, mãe de Rory Kennedy e viúva do senador Robert Kennedy. 

A ideia do fundo surgiu quando Rory Kennedy entrou em contato com Trevor Neilson no contexto de um incêndio florestal ocorrido na Califórnia em 2018 para discutir formas de ampliar a conscientização sobre a crise climática. “O que percebemos é que não havia mudanças sociais ou políticas significativas sem que as pessoas fossem às ruas ou houvesse algum nível de agitação social”, diz Kennedy. Os dois levaram a ideia à cofundadora e primeira financiadora do projeto, Aileen Getty, que compartilhava das mesmas preocupações em relação ao planeta e se comprometeu a doar US$ 600 mil para iniciar a organização. “Naquela época, lembro de ler e pesquisar muito sobre clima e me sentir muito angustiada diante do futuro que antevia para mim, meus filhos e minhas netas”, recorda Getty.

Getty e a cofundadora Sarah Ezzy trabalhavam juntas havia muitos anos na área climática e estavam “empenhadas em encontrar maneiras de gerar o maior impacto possível”, conta Ezzy. Nesse processo, o Climate Emergency Fund identificou uma lacuna no movimento climático – que recebia apenas 2% do financiamento filantrópico – e criou uma forma de financiadores apoiarem o ativismo climático de maneira indireta.

“De certa forma, protegemos os financiadores e, ao mesmo tempo, fazemos a seleção das organizações, garantindo que as pessoas que apoiamos continuem seguindo certas regras e não recorram à violência”, diz Rory Kennedy.

O Climate Emergency Fund já apoiou 158 organizações, treinou mais de 100 mil ativistas climáticos e gerou mais de 170 mil menções na mídia. Dois de seus beneficiários de maior destaque – Climate Defiance e Just Stop Oil – receberam da organização cerca de 90% de seu financiamento no primeiro ano e 50% no segundo.

Em 2019, o movimento climático ganhava força: a Extinction Rebellion pressionou com sucesso o Parlamento do Reino Unido a declarar emergência climática, enquanto Greta Thunberg discursou na Cúpula do Clima da ONU e foi escolhida Pessoa do Ano pela revista estadunidense Time. “Muita coisa estava acontecendo, então parecia a causa certa a apoiar naquele momento”, pondera Ezzy. A Extinction Rebellion foi um dos primeiros grupos financiados pelo Climate Emergency Fund. Ezzy observa que ela e Getty “não concordavam com tudo o que o grupo fazia”, mas ficaram impressionadas com os resultados obtidos no Parlamento britânico.

Embora a Extinction Rebellion tenha sido um beneficiário crucial para a iniciativa, o Climate Emergency Fund não limitou seu apoio a ativistas da ala mais radical; também patrocinou formas mais amplas de ativismo climático. “Movimentos como a Extinction Rebellion eram muito visíveis e, especialmente no Reino Unido, estavam realmente produzindo algum impacto, então queríamos ajudar no que fosse possível nesse campo. Mas também estávamos olhando para mães preocupadas com o futuro de seus filhos, entre muitos outros grupos”, diz Ezzy.

Para Getty, o fundo tinha como objetivo apoiar manifestações disruptivas não violentas, e qualquer comício organizado nas ruas poderia ser considerado uma forma de protesto não violento. “O que realmente buscávamos era mobilizar as pessoas”, afirma ela.

Contudo, quando o fundo começou a focar em certos aspectos do ativismo, “deixou de estar alinhado com meus valores”, revela Getty, destacando uma mudança de direção que parece ter contribuído para que ela e Ezzy deixassem o conselho da organização em 2023.

Essa tensão evidencia um dos principais desafios do protesto disruptivo: formas mais radicais de ativismo podem, em alguns casos, desencorajar uma participação pública mais ampla. Ezzy observa que o fundo carecia de um “planejamento colaborativo”. Embora isso fosse útil para manter distância de ações promovidas por terceiros, também resultava em iniciativas com efeitos imprevisíveis. O Climate Emergency Fund não sabia que o infame episódio do lançamento de sopa iria acontecer, diz Ezzy.

Por um movimento climático internacional

O Climate Emergency Fund parece preparado para ampliar seu apoio ao ativismo climático em 2026 e nos próximos anos. Sua maior iniciativa, a Climate Resistance Incubator, foi inspirada no modelo de incubadoras de startups e reúne especialistas em filantropia para apoiar iniciativas climáticas emergentes.

“É um grupo de especialistas que oferece orientação, mentoria e um processo de incubação no qual serão reunidos núcleos de ativistas para construir o DNA do que esperamos que seja o próximo grande movimento climático nacional ou internacional”, diz Salamon. A incubadora oferecerá esse acompanhamento de forma gratuita para reunir e fortalecer grupos de ativistas e fomentar um movimento climático coordenado em nível nacional e internacional.

O projeto busca oferecer orientação estratégica e financiamento para ativistas mais jovens, ajudando-os a conduzir campanhas de forma mais eficaz. Segundo Salamon, a incubadora cria um caminho para a “transferência intergeracional de conhecimento” entre ativistas experientes e manifestantes climáticos iniciantes.

Eubanks também demonstra interesse em expandir o Climate Emergency Fund. “Operamos com um orçamento anual de cerca de US$ 5 milhões. Segundo uma análise que realizamos no ano passado, alcançar US$ 20 milhões anuais poderia de fato ajudar a construir um movimento climático em escala global”, anuncia. “Não queremos apenas lançar um novo grupo. Queremos ver múltiplos grupos surgindo, com muita diversidade, com a cara dos Estados Unidos e com os quais pessoas comuns consigam se identificar.” 

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Autor(a)

Tim Keary

Tim Keary é jornalista e escritor que cobre tecnologia, sustentabilidade e inovação social.