O som da doença 

Um aplicativo que analisa a tosse em dez segundos está ajudando a detectar tuberculose e outras doenças respiratórias na Índia
Técnico realiza teste com o aplicativo Swaasa em unidade móvel de saúde administrada pela Child Survival India no estado do Rajastão
Cortesia Swaasa

Enquanto os pacientes fazem fila do lado de fora de uma unidade móvel de saúde na região rural de Behror, estado indiano do Rajastão, o farmacêutico Pankaj Kumar Kakodia higieniza seu celular, ajusta a máscara cirúrgica e veste luvas descartáveis. Chama a primeira paciente, pede-lhe que se sente no banco e lhe entrega uma máscara. Após abrir no celular um aplicativo chamado Swaasa, ele faz algumas perguntas à paciente sobre seus sintomas e insere as respostas. Em seguida, pressiona um botão para gravar e a instrui: “Por favor, tussa de três a quatro vezes em dez segundos”. 

Em poucos minutos, o aplicativo indica se a paciente está sob risco de alguma doença respiratória. O profissional na unidade móvel de saúde, administrada pela organização sem fins lucrativos Child Survival India, revisa o relatório e prescreve outros exames diagnósticos.

“Se um paciente for identificado como de alto risco para tuberculose (TB), nós o encaminhamos para um exame de escarro e uma radiografia de tórax no hospital distrital”, diz Kakodia. “Se a doença for confirmada, ele é conectado ao programa governamental de eliminação da TB para tratamento conforme o protocolo. Caso a triagem indique asma, bronquite ou infecção respiratória, nossos médicos prescrevem a medicação apropriada.”

A cada ano, 2,5 milhões de pessoas são diagnosticadas com tuberculose na Índia, enquanto milhões de outras permanecem não detectadas

A Índia é o país que mais sofre com a tuberculose no mundo, respondendo por 27% de todos os casos e por quase um terço das doenças respiratórias crônicas. A cada ano, 2,5 milhões de pessoas são diagnosticadas com TB, enquanto milhões de outras permanecem não detectadas no país. Uma lacuna crítica permanece: a triagem e o diagnóstico precoce e acessível.

Narayana Rao Sripada, fundador e diretor de tecnologia da Salcit Technologies, sediada em Hyderabad, desenvolveu o Swaasa para preencher essa falha. Lançada em 2023, essa ferramenta de inteligência artificial (IA) está sendo adotada de forma gradual para triagens em hospitais, centros de saúde primária, instalações de telessaúde e organizações sem fins lucrativos que gerenciam programas de saúde.

Análise de sinal acústico

As origens do Swaasa remontam a 2015. Sripada, que então trabalhava no setor de tecnologia, atuava como consultor para instituições acadêmicas que trabalhavam em um projeto do governo para desenvolver uma solução de saúde acessível e em condições de ser ampliada. 

“O que começou como um assistente virtual foi se transformando em uma análise de sinal acústico para cuidados de saúde”, explica ele. Na mesma época, Sripada se deparou com pesquisas sobre o potencial diagnóstico da acústica, incluindo estudos que mostravam que sons do coração, dos pulmões e de tosses carregam informações valiosas.

“Pesquisas da Universidade de Queensland, por exemplo, usaram a tosse como um marcador para detectar pneumonia”, afirma. “Começamos então a coletar dados sobre tosse de faculdades de medicina na Índia, e nossa análise inicial sugeriu que a tosse de fato carrega características de várias doenças.”

Um encontro casual em 2017 com Anand Krishnan, professor de medicina comunitária no All India Institute of Medical Sciences (AIIMS), alertou Sripada sobre uma grave necessidade não atendida na triagem para doenças respiratórias, em especial em áreas rurais. A espirometria é difícil de ser implementada devido ao alto custo do equipamento e à necessidade de técnicos qualificados.

“Mais de 50% dos pacientes que visitam esses centros têm algum tipo de problema respiratório”, diz Sripada. “O dr. Krishnan recomendou o desenvolvimento de uma tecnologia simples que pudesse ser usada com facilidade por profissionais de saúde da linha de frente, não fosse invasiva e detectasse risco moderado a grave de doenças respiratórias.”

Esse insight levou Sripada a trabalhar com pneumologistas para construir o primeiro protótipo do Swaasa em 2018. Para desenvolver a ferramenta, sua empresa, a Salcit Technologies, recebeu 40 milhões de rúpias indianas (cerca de R$ 2,3 milhões) do Ministério de Eletrônica e Tecnologia da Informação e do Departamento de Biotecnologia do país, junto com apoio financeiro da hoje extinta Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês) e do Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento do Reino Unido.

Técnico realiza teste com o aplicativo Swaasa em unidade móvel de saúde administrada pela Child Survival India no estado do Rajastão. Foto: Cortesia Swaasa

Diversos ensaios clínicos, conduzidos em colaboração com centros de pesquisa médica na Índia e no exterior, avaliaram como o aplicativo poderia distinguir sons respiratórios normais de anormais e identificar condições obstrutivas e restritivas. Ferramentas de diagnóstico são medidas quanto à precisão, sensibilidade (eficácia na detecção de um caso positivo de doença) e especificidade (eficácia na identificação de um caso negativo – ou seja, de uma pessoa que não tem a doença).

“Para detectar sons normais versus anormais, nossa precisão é de cerca de 90%, com 92% de sensibilidade e 85% de especificidade”, diz Sripada. “No que se refere a condições obstrutivas, a precisão é de cerca de 85%, com 80% de sensibilidade e 75% de especificidade. E, quando se trata de identificar especificamente a tuberculose pulmonar, nossa sensibilidade é de cerca de 80%, com especificidade em torno de 65%.”

Depois que o Swaasa obteve validação científica e casos de uso, sua expansão exigiu uma equipe e infraestrutura mais robustas. Em maio de 2020, Manmohan Jain chegou para liderar as operações e Venkat Yechuri se juntou à empresa como diretor-executivo. A empresa Zensark Technologies investiu US$ 1,2 milhão para ajudar na disseminação do produto. Durante a pandemia de covid-19, a ferramenta foi adaptada para triagem por algumas operadoras privadas de saúde.

Em 2023, o Swaasa obteve aprovação regulatória e foi lançado de forma oficial com apoio financeiro do India Health Fund e da ACT for Health. O aplicativo já testou mais de 400 mil pessoas, em sua maioria em áreas semiurbanas e rurais, e revelou uma economia de custos de 50% a 60% e um tempo de resposta 40% a 50% mais rápido em comparação aos métodos tradicionais de triagem. Com modelos de precificação baseados em assinatura e pagamento por uso, que mantêm os custos do teste entre 100 e 350 rúpias (R$ 5,70 a R$ 20,20), no momento está sendo utilizado em centros de saúde em Deli, Bihar, Uttar Pradesh, Odisha, Andhra Pradesh, Telangana e Karnataka. A Salcit também afirma possuir o maior banco de dados de tosse do mundo e está colaborando em pesquisas com a Universidade da Califórnia em San Francisco e em Irvine, e a Universidade St. Francis Xavier, no Canadá. Em 2024, também fez uma parceria com a Google para expandir seu modelo de IA a fim de melhorar a precisão e a capacidade de expansão. 

Mais encaminhamentos

O sucesso do Swaasa depende de sua ampla aplicabilidade e flexibilidade em campo. “Fizemos parceria com diversas organizações – companhias farmacêuticas, hospitais, ONGs, centros de bem-estar, seguradoras, centros de pesquisa e desenvolvimento, empresas e unidades habitacionais”, diz Nyamat Bindra, responsável pela implementação e pelas operações no norte da Índia. “Também capacitamos regularmente trabalhadores de campo, agentes comunitários de saúde e médicos para o uso do aplicativo. O modelo é ágil e está disponível em vários idiomas, o que facilita sua adoção.” 

A questão central é estimular os encaminhamentos dos pacientes, garantir o acompanhamento dos casos e ajudar a quebrar o estigma a respeito da TB, afirma Bindra. “Se identificamos, por exemplo, maior prevalência de determinadas doenças respiratórias em uma comunidade, ampliamos o número de triagens naquele local”, explica. “Mesmo em territórios difíceis e contextos de poucos recursos, o Swaasa pode ser usado sem internet. Sempre deixamos claro aos pacientes que não estamos substituindo os médicos, mas apoiando o trabalho deles.”

O Swaasa tem grande aceitação entre os pacientes porque é uma ferramenta simples, de baixo custo, integrada a smartphones e não invasiva. “Tem sido útil para rastrear pacientes precocemente, para que possíveis casos não passem despercebidos e se espalhem nas famílias”, diz Deepa Bajaj, diretora-executiva da Child Survival India, que apoia programas de saúde para comunidades vulneráveis.

“Fizemos triagens usando o Swaasa por mais de 14 meses, inclusive para caminhoneiros em Maharashtra, já que estão expostos a fumaça e poluição e, portanto, são vulneráveis a doenças respiratórias, e também em vilarejos por todo o Rajastão com nossas unidades móveis de saúde”, conta Bajaj. “Muitas vezes, é difícil convencer os pacientes a se submeterem a radiografias de tórax, mesmo quando apresentam sintomas. Porém, quando o Swaasa os identifica como ‘alto risco’ para TB, é mais fácil aconselhá-los e encaminhá-los para exames confirmatórios e vinculá-los ao sistema governamental a fim de garantir tratamento e monitoramento adequados.”

Médicos que usaram o aplicativo relatam que ele pode ser especialmente útil em ambientes ambulatoriais, onde os profissionais de saúde estão em geral com o tempo apertado, ou em contextos comunitários nos quais exames diagnósticos avançados não estão disponíveis. “Descobrimos que a ferramenta é bastante sensível – cerca de 75% a 80% durante nosso estudo com mais de 6 mil pacientes em vários locais na Índia”, diz Rakesh Kumar, epidemiologista e professor no AIIMS. “O fator mais importante que impede a Índia de eliminar a TB é a lacuna diagnóstica. Uma tecnologia como o Swaasa funciona bem para identificar pacientes que precisam de mais exames.”

Um desses pacientes é Siraj (nome alterado para proteger sua identidade), mecânico de 22 anos que vive em Faridabad, subúrbio de Nova Déli. “Eu estava com uma tosse persistente havia semanas e que não passava, mesmo depois de consultar um médico particular”, conta. Então, ele foi a um posto de triagem do Swaasa e descobriu que estava com alto risco de TB. Os médicos o orientaram a manter distância da família e o encaminharam a um hospital público, onde teve seu diagnóstico confirmado, recebeu tratamento e se recuperou por completo. “Felizmente, minha família ficou protegida da doença porque soubemos quais cuidados adotar assim que fui diagnosticado”, diz.

Com a crescente adoção de IA na área da saúde, outras organizações na Índia também estão experimentando modelos baseados na tosse para detectar doenças respiratórias. O Swaasa detém uma vantagem por ter sido o primeiro a garantir aprovação regulatória e um amplo banco de dados de tosse. O foco atual é uma integração mais profunda ao ecossistema de saúde indiano, tanto na saúde pública como na privada, diz a equipe.

“Mesmo quando usado em hospitais como ferramenta de triagem, o principal desafio é incorporá-lo à rotina de exames, pois é uma inovação disruptiva”, alerta Sripada. A Salcit trabalha agora em novas parcerias com governos estaduais numa corrida para ampliar seu alcance – e evitar que mais casos de TB passem despercebidos. 

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