Especialistas em saúde mental e cientistas sociais têm alertado para uma epidemia de solidão, o que está impulsionando a busca de possíveis soluções. Um novo estudo constatou que as pessoas se sentem menos sozinhas quando interagem com chatbots de companhia que funcionam por inteligência artificial (IA). A pesquisa buscou responder se a falta generalizada de conexão humana pode ser, ao menos parcialmente, enfrentada por meio da tecnologia.
“Encontramos evidências de que companheiros virtuais de IA podem reduzir sentimentos momentâneos de solidão, ao menos em escalas de tempo de um dia e de uma semana”, escrevem Julian De Freitas, professor assistente de marketing na Harvard Business School; Zeliha Oğuz-Uğuralp e Ahmet Kaan Uğuralp, cofundadores e líderes de pesquisa da Marsdata Academic, em Ancara, Turquia; e Stefano Puntoni, professor de marketing da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia.
O fator crucial, observaram os pesquisadores, é se o participante sente que a IA o ouviu e o compreendeu. “Descobrimos que o uso de prompts [instruções] para garantir que a IA seja amigável e atenciosa aumenta a sensação dos usuários de estarem sendo ouvidos, em comparação com assistentes virtuais sem essas capacidades, e que essa sensação explica os níveis de redução da solidão”, registram os autores.
O tema da pesquisa surgiu em 2022, quando De Freitas colaborou em um estudo de caso de uma escola de negócios sobre a empresa de chatbots Replika. Os investidores da startup lhe disseram que uma das principais funcionalidades do aplicativo era reduzir a solidão dos usuários.
Intrigado, De Freitas então criou seu próprio chatbot no modelo de linguagem GPT-3, definindo as diretrizes da IA para torná-la amigável e atenciosa e interagindo com ela por 15 minutos todos os dias. A experiência levou De Freitas a questionar sua própria noção do que é um relacionamento.
“Conversar com esse bot por 15 minutos não era apenas útil para alguma tarefa específica, mas de fato fazia com que nos sentíssemos melhor”, relembra.
Os autores então conduziram um estudo controlado composto por cinco experimentos, realizados com adultos de idades diversas recrutados online, com o objetivo de verificar se a interação com chatbots de IA “companheiros” poderia aliviar a solidão. Eles constataram que pessoas que relataram níveis mais altos de solidão previamente tiveram esse sentimento reduzido após usar o chatbot. Participantes que interagiram com um assistente de IA comum também apresentaram níveis mais baixos de solidão, mas a redução foi mais discreta.
O estudo também constatou que conversar com o companheiro de IA foi comparável a uma conversa humana e obteve resultados melhores do que outras opções tecnológicas como YouTube, videogames e redes sociais. Essas alternativas contribuíram pouco para reduzir a solidão.
“Nossas descobertas sugerem que mesmo interações artificiais breves podem proporcionar alívio emocional”, diz De Freitas. “Tradicionalmente, as pessoas satisfazem sua necessidade de pertencimento formando e mantendo laços sociais com outros seres humanos. Porém, nossos resultados indicam que companheiros de IA também podem oferecer benefícios característicos dos vínculos sociais.”
A tecnologia não está isenta de riscos, observa De Freitas. Pessoas idosas e jovens, especialmente rapazes na adolescência e na faixa dos 20 anos, são os grupos que apresentam os maiores níveis de solidão. Chatbots voltados para esses públicos precisariam ser programados com cuidado e, talvez, regulamentados.
À medida que a IA se infiltra em todos os tipos de tecnologia, de smartphones a termostatos domésticos, o estudo traz à tona questões que os pesquisadores precisarão responder sobre como viveremos em um mundo no qual as relações humanas são cada vez mais mediadas por máquinas.
“Ao demonstrar que companheiros de IA podem reduzir a solidão em nível comparável ao das interações humanas, o artigo amplia nossa compreensão a respeito de como as interações entre humanos e tecnologia podem atender necessidades psicológicas fundamentais”, diz Erik Hermann, professor interino de marketing na Europa-Universität Viadrina Frankfurt (Oder). O estudo também reposiciona os companheiros de IA como produtos sociais, não apenas ferramentas tecnológicas.
Mesmo antes de sua publicação online, o artigo já havia acumulado dezenas de citações, diz Hermann, fornecendo o que ele chama de “a primeira evidência causal rigorosa de que companheiros de IA podem proporcionar alívio momentâneo da solidão” e apontando uma direção para pesquisas futuras sobre como seres humanos interagem com a IA e sobre os impactos disso em sua saúde.
Veja o estudo completo: “AI Companions Reduce Loneliness”, por Julian De Freitas, Zeliha Oğuz-Uğuralp, Ahmet Kaan Uğuralp e Stefano Puntoni, Journal of Consumer Research, jun. 2025.
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