Quando Ruha Shadab começou a trabalhar como médica em um hospital público de Nova Déli, em 2015, ela viu de perto a escassez de recursos do sistema público de saúde. Mas o que mais a impressionou, ao atender pacientes muçulmanas, foi a falta de autonomia e o pouco poder daquelas mulheres para tomar decisões sobre a própria vida.
“Se falávamos com elas sobre planejamento familiar, por exemplo, elas hesitavam e diziam: ‘meu marido não vai permitir’”, lembra Shadab.
Essa realidade motivou-a a mudar de rumo. “Eu desejava promover uma mudança sistêmica e focar no empoderamento econômico das mulheres muçulmanas”, diz ela. Shadab então conquistou uma bolsa Fulbright para estudar políticas públicas na Harvard Kennedy School. Números contundentes reforçavam sua resolução. Apenas 15% das mulheres muçulmanas na Índia participam da força de trabalho (ou seja, estão empregadas ou em busca de emprego) e cerca de 5% têm empregos formais. Já a taxa geral de participação feminina no mercado de trabalho é de 34,9%. “As mulheres muçulmanas poderiam ser um importante motor de crescimento para o nosso país”, observa Shadab. “Não estamos investindo os recursos necessários para aproveitar esse potencial.”
Ela transformou essa convicção em ação em 2019, quando foi selecionada para a Cheng Fellowship, da iniciativa Social Innovation + Change da Harvard Kennedy School, e recebeu US$ 30 mil em financiamento inicial para criar a Fundação Led By, uma organização de desenvolvimento profissional voltada para mulheres muçulmanas indianas.
“Eu queria ajudar mulheres muçulmanas a desenvolver habilidades, conseguir emprego e permanecer nele”, conta Shadab. Com tal objetivo, criou um braço de pesquisa dentro da Led By para examinar práticas de contratação e retenção de funcionárias nos locais de trabalho. Um estudo da organização sobre vieses na contratação constatou que as muçulmanas recebiam cerca de metade dos retornos de empregadores em comparação com mulheres hindus. Nascida em uma família muçulmana, Shadab havia enfrentado preconceitos semelhantes, inclusive na escola, e compreendia o que significava fazer parte de uma minoria social.
A primeira turma da Led By começou em 2020. “Lembro-me de esperar que 20 mulheres muçulmanas se inscrevessem”, diz Shadab. “Acabamos recebendo 200 inscrições em duas semanas. Então, logo de cara, nossa taxa de seleção foi de 10%. No ano seguinte, tivemos cerca de 1.500 inscrições. Começamos com 20 mulheres e hoje acolhemos 400 por ano. Existe uma demanda enorme para se tornar esse potencial motor de crescimento para o país.”
Ao longo de sete anos, a fundação capacitou mais de 1.200 mulheres muçulmanas indianas entre 18 e 35 anos, vindas de áreas metropolitanas de 25 estados e territórios do país. “Buscamos mulheres para se inscreverem em nossos programas por meio de ações de divulgação, redes sociais, workshops em universidades e boca a boca”, explica Shadab.
O que começou como esforço de uma única mulher cresceu e se tornou uma equipe de seis integrantes, com gestoras de programas, associadas, apoio de marketing e uma chefe de gabinete, além de estagiárias e voluntárias, todas trabalhando remotamente. Várias membras da equipe são ex-alunas da Led By.
Até recentemente, Shadab liderava a fundação e ao mesmo tempo trabalhava em tempo integral como consultora e estrategista de saúde pública na McKinsey & Company. Em março, deixou a consultoria para se concentrar na expansão das operações da Led By, que entra agora em uma nova fase: ampliar o acesso, oferecer programas bilíngues, fortalecer o suporte tecnológico, impulsionar iniciativas de capacitação e construir uma comunidade mais sólida para mulheres muçulmanas.
Autonomia a longo prazo
A organização atualmente conduz três programas de formação profissional e mentoria online, com alguns workshops presenciais especializados e eventos de net-working. O Led By Accelerator Program apoia recém-formadas que estão começando no primeiro emprego e mulheres que estão voltando ao mercado de trabalho. O Corporate Leaders Fellowship busca acelerar a trajetória de mulheres muçulmanas para posições de liderança, enquanto o Shepreneurs Program é voltado para empreendedoras em estágio inicial que desejam expandir seus negócios. Diversas empresas líderes de diferentes setores agora recrutam seus profissionais entre as mulheres formadas pela Led By.
Cada programa atende entre 25 e 75 mulheres por ano, distribuídas em várias turmas. Os programas têm duração de seis meses, com encontros virtuais realizados todos os fins de semana pela equipe, junto com facilitadoras e mentoras de diversas áreas. As participantes precisam dedicar várias horas durante a semana a atividades e tarefas. Há também mentoria individual, coaching executivo e painéis de discussão com líderes de distintos setores. O currículo, que abrange comunicação, resolução de problemas, networking, marca pessoal, feedback, negociação e pensamento estruturado, é aprimorado a cada ano. Neste ano, por exemplo, a equipe introduziu sessões sobre o uso de inteligência artificial no ambiente de trabalho para fortalecer perfis profissionais.
“Não se trata apenas de qualificação para o mercado de trabalho, mas da conquista de uma autonomia duradoura. Somos uma plataforma para desenvolver capacidades”, afirma a gerente de programas da Led By, Anam Farzeen, formada em 2022 pelo Accelerator Program e cofundadora da plataforma de comércio eletrônico Islamic Shop. “Quando entrei na Led By como participante, eu estava em busca de uma comunidade. As mentoras eram modelos de referência, do tipo que eu não tive enquanto crescia. Agora, cada mulher que entra na Led By tem sobrinhas, irmãs e filhas que vão se espelhar em nós”, comemora.
As participantes são estudantes, recém-formadas, donas de casa, jovens mães e profissionais em atividade, todas lidando com desafios familiares, sociais, religiosos e patriarcais. “Existem múltiplas camadas de realidade e não buscamos uniformidade”, diz Farzeen. “Se você usa hijab ou não, ninguém vai questionar isso. Embora o foco seja o empoderamento de mulheres muçulmanas, o currículo não tem natureza religiosa.” Ao mesmo tempo, sessões abertas dão espaço para que as participantes discutam questões sensíveis, como a vivência da identidade muçulmana no ambiente de trabalho.
Em um domingo de manhã, em fevereiro de 2026, a equipe da Led By deu as boas-vindas a uma nova turma do Accelerator Program em uma orientação virtual. “Este é um espaço para mulheres muçulmanas indianas onde diferentes partes da sua identidade se sentem em casa”, anunciou Shadab às participantes. “Nossa missão é criar mais modelos de referência visíveis. Então, aproveitem ao máximo este programa.” A equipe incentivou a turma a inspirar a próxima geração de mulheres muçulmanas e se tornarem embaixadoras da iniciativa em suas cidades.
Resham Fatma, de 28 anos, sobrevivente de um ataque com ácido e ex-aluna da Led By, tornou-se embaixadora em Ranchi, capital do estado de Jarcanda. “O programa me abriu para novas perspectivas e oportunidades. Antes, eu considerava me formar em jornalismo porque tinha interesse em mulheres e política. Mas quando entrei na Led By, percebi que poderia fazer um trabalho mais especializado e começar minha própria fundação. Então, decidi seguir outro caminho. Isso me deu confiança para dizer não a oportunidades injustas. Percebemos que as mulheres muçulmanas são extremamente capazes. Não se trata apenas do programa de seis meses; vai além disso. É uma tribo para a vida toda”, diz Fatma. Após se formar, ela fundou a Ebrah, uma organização que trabalha com escolas questões de gênero e dos direitos das mulheres.
O coração do programa da Led By é a mentoria especializada, oferecida por facilitadores, consultores e coaches de várias partes do mundo que se voluntariam para desenvolver e liderar módulos específicos. Esse grupo rotativo de mentores, composto por lideranças corporativas, acadêmicas e profissionais de consultoria, é formado por meio de indicações e redes de contato. “Temos profissionais associados a empresas como McKinsey & Company e Bain & Company, além de professores das universidades Harvard e Columbia e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts”, conta Shadab.
Entre eles está Anita Guha, líder de recursos humanos e ex-executiva da IBM que liderou iniciativas de diversidade na empresa. “Percebi que as participantes da Led By têm muito a oferecer, mas nem sempre tiveram a oportunidade ou a confiança para se expressar plenamente”, diz Guha. “Os workshops da Led By ajudam a desenvolver esse aspecto, incluindo a capacidade de se articular, se posicionar e se apresentar. Elas se beneficiam especialmente do apoio em questões como marca pessoal
e na superação da síndrome da impostora”, afirma.
Confiança crescente
Dada a diversidade de cada turma, as participantes levantam uma variedade de inquietações: Por onde começar? Como aperfeiçoar o que posso oferecer? Como pedir o que preciso, da forma certa? E se eu me deparar com um obstáculo? Fazer networking pode parecer algo interesseiro, então como lidar com isso?
Sajjad Ahmed Shaik, diretor global de aprendizagem para insights e dados na Capgemini, lidera um módulo de networking na Led By. Ele começa desmistificando o que significa networking, tanto online como offline. “Depois, falamos sobre barreiras pessoais e encontramos soluções práticas em conjunto”, explica. Shaik apresenta um modelo estruturado que cobre como abordar pessoas, manter relacionamentos, permanecer relevante e construir proximidade em espaços profissionais, incluindo o fortalecimento da presença no LinkedIn e a redação de mensagens diretas eficazes. “Depois das sessões, vejo uma mudança visível nos níveis de confiança”, afirma. “Da primeira turma até agora, a transformação foi enorme.” As participantes são incentivadas a manter contato e a recorrer aos mentores sempre que enfrentarem um obstáculo.
As bolsas da Led By são financiadas por meio de subsídios e incubadoras, como a Echoing Green, que concedeu US$ 80 mil à organização. “O apoio adicional vem de doadores individuais de alto patrimônio na Índia e de um modelo crescente de contribuição contínua de ex-alunas, com aportes recorrentes de até 3 mil rúpias [R$ 160]”, diz Shadab. Os resultados até agora têm sido encorajadores. Entre 2020 e 2025, as mais de 1.200 formadas da fundação registraram um aumento cumulativo de renda superior a US$ 5 milhões. Em média, a renda de uma graduada da Led By dobra após a conclusão do programa, segundo Shadab, com uma taxa de empregabilidade de 95% entre as turmas e uma transição de carreira em até três meses após o término.
Tania Alam, gerente de produto em uma empresa do setor financeiro que ingressou no Corporate Leadership Program em 2024, descreve sua experiência na Led By como “transformadora”.
“Nunca vou esquecer a facilitadora que nos ensinou estratégia de negociação. Em um ano, consegui um emprego melhor, um salário maior e melhores benefícios, e me mudei de uma cidade pequena para Mumbai”, conta Alam. Pequenas mudanças transformaram sua trajetória profissional. “As sessões sobre empatia e comunicação foram muito úteis. Aprendi como ser gentil, mas direta, como lidar com conflitos de forma respeitosa e como ser uma boa líder sem precisar ser agressiva.”
Ela considera o acesso contínuo a referências dentro de sua própria comunidade uma de suas maiores conquistas. “Não quero replicar a trajetória delas. Quero me inspirar e me motivar com suas experiências e criar a minha própria história.”









