Por uma economia dos refugiados

Com o colapso do auxílio financeiro às agências de ajuda humanitária, o setor privado precisa tomar a dianteira e investir em refugiados e em sua integração econômica. Três casos de sucesso oferecem modelos de estratégias de investimento

Ilustração abstrata em fundo degradê amarelo e verde. Uma grande forma composta por fragmentos geométricos coloridos — vermelhos, verdes, azuis, amarelos e pretos — atravessa uma estrutura de linhas verticais e horizontais. Três pequenas silhuetas humanas aparecem em diferentes alturas, interagindo com a estrutura e com a forma colorida.
Ilustração de Brian Stauffer

Em 1970, um grupo de soldados estadunidenses estacionados na então Saigon, hoje Cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã, organizou um evento inusitado: uma exposição de Ford Mustangs customizados. Os automóveis viajaram meio mundo para levantar o moral das tropas numa guerra que estava indo mal. Para a maioria dos vietnamitas, foi uma curiosidade. Para um garotinho em especial, foi uma revelação. Hau Thai-Tang tinha 5 anos de idade quando viu o carro pela primeira vez – o capô longo, as laterais parrudas, a definição de velocidade com o veículo ainda parado. Ele não tinha palavras para descrever a sensação, mas entendeu que aquele objeto carregava um significado. Décadas depois, ele diria que o carro representava a liberdade.

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Cinco anos após aquele encontro, Saigon foi capturada. A família Thai-Tang fugiu do caos em abril de 1975, a bordo de uma aeronave militar estadunidense com outros milhares de refugiados, levando consigo pouquíssimos pertences. Passaram por Guam e pela base de Camp Pendleton, na Califórnia, antes de pousar em Nova York. Eram estrangeiros em um país que demonstrava grande ambivalência quanto a sua chegada. Pesquisas do período mostraram que a maioria dos estadunidenses era contra receber refugiados vietnamitas. O Congresso debatia se o custo valia a pena.

Hau Thai-Tang acabou estudando engenharia mecânica na Universidade Carnegie Mellon, entrou para a Ford assim que concluiu o curso e, em 2005, liderou o redesenho do Ford Mustang. Ele foi o maior responsável por reimaginar um dos maiores ícones automobilísticos dos Estados Unidos. Estima-se que a geração de Mustangs criada sob sua liderança tenha rendido de US$ 60 bilhões a US$ 80 bilhões para a Ford. Mais tarde, ele se tornaria diretor de desenvolvimento de produtos e compras da companhia, gerindo gastos de mais de US$ 100 bilhões ao ano.

Essa história não é sobre a genialidade excepcional que supera as adversidades, embora também o seja. Ela fala do que acontece quando uma sociedade escolhe abrir suas portas. Do que se torna possível em termos econômicos, culturais e humanos quando se cria uma infraestrutura de acolhida. Fala dos retornos compostos advindos do pertencimento, medidos ao longo de décadas, de forma que planilha alguma captaria totalmente. 

Ao longo dos 50 anos seguintes à chegada de Hau Thai-Tang a Camp Pendleton, a população mundial de refugiados cresceu de cerca de 2,5 milhões para mais de 120 milhões de pessoas. O consenso político que permitiu sua realocação se erodiu de forma significativa. Nos Estados Unidos e em outros países, esse consenso foi substituído por políticas de restrição que tratam refugiados como um fardo a carregar, e não uma população com autonomia, talento e potencial econômico inexplorado.

Na última década, conduzimos trabalhos de campo em todos os continentes; conhecemos empreendedores resilientes, deslocados do Sudão do Sul, do Iraque, da Síria, da Ucrânia, da Venezuela e da República Democrática do Congo; aprendemos sobre as incríveis contribuições que deram a lugares como Quênia, Jordânia, Polônia, México e Ruanda. Quando têm oportunidade, pessoas deslocadas mostram ser engenhosos indutores de crescimento. 

Investir em empreendimentos liderados por refugiados, em empresas que os apoiam e nas comunidades que os recebem transforma a tragédia em ganho econômico e social para todos. Lançamos a Refugee Investment Network [Rede de Investimento em Refugiados, em tradução livre] para promover o investimento com foco em refugiados (inspirado no investimento com perspectiva de gênero) e incentivar investidores de impacto a usar seu capital para ajudar milhões de pessoas que fogem da guerra e da violência. Nosso novo livro Banking on Belonging: Why Investing in Refugee Entrepreneurs Benefits Everyone [“Apostar no pertencimento: por que investir em empreendedores refugiados beneficia a todos”, em tradução livre] conta dezenas de histórias de soluções transformadoras que podem ganhar escala. 

Microfinanças para empreendedores deslocados

As Nações Unidas definem um refugiado como alguém que teve de fugir de seu país por medo de perseguição ou violência. Mas os refugiados não são os únicos deslocados por conflitos que precisam de apoio. Na maioria das situações de conflito, muitas outras pessoas deixam suas casas para escapar da violência, mas acabam deslocadas internamente, permanecendo dentro das fronteiras de seus países, onde estão mais próximas dos combates e mais distantes da ajuda internacional. São chamadas de deslocados internos. Aqueles que viajaram para outro país e solicitaram o reconhecimento como refugiados e a consequente proteção internacional são chamados de requerentes de asilo. As pessoas dos três grupos estão fugindo para salvar a própria vida devido ao medo da violência, o que os diferencia dos migrantes em busca de oportunidades econômicas. 

A fim de entender melhor o setor e suas possibilidades, vamos examinar três casos que demonstram o poder do capital corajoso no apoio de larga escala a refugiados. São exemplos de diferentes partes do mundo que usam diversos modelos financeiros para alcançar um impacto sustentável. Trata-se de um trabalho realizado por inovadores sociais como os leitores desta revista – investidores de impacto, empreendedores sociais, empresários e agentes de mudança que se mobilizam diante da inação, ou mesmo da hostilidade, dos governos. É possível promover uma economia de inclusão, e não de exclusão, e todos podem fazer parte desse movimento.

O primeiro caso é o World Refugee Fund da Kiva, uma plataforma de microempréstimos sem fins lucrativos que, em 2016, quando começamos a trabalhar juntos, já havia fornecido mais de US$ 1 bilhão em microcrédito a uma taxa de juros zero para empreendedores do mundo todo, entre os quais palestinos que vivem na Cisjordânia. O modelo da Kiva se vale da boa vontade de financiadores coletivos – cidadãos que contribuem com pequenas quantias, como US$ 25 ou US$ 100, para microempreendedores cujas campanhas de financiamento são quase sempre identificadas e avaliadas por parceiros confiáveis da Kiva, que atuam em diversos mercados emergentes ou carentes de serviços financeiros. A plataforma parecia tão promissora que, em 2014, fizemos uma TED Talk destacando alguns dos primeiros empréstimos para refugiados realizados pela organização.

Lev Plaves, que em 2016 era gestor de portfólio da Kiva no Oriente Médio, contou-nos que, embora os empréstimos na Cisjordânia estivessem dando certo, os parceiros de instituições de microfinanças (IMFs) em outros mercados continuavam descrentes. A maioria deles considerava muito arriscado emprestar para refugiados; afinal, essas pessoas, via de regra, não tinham histórico de crédito, garantias ou residência permanente. Os parceiros supunham que a maioria dos refugiados retornaria para casa em breve. “Por que eu vou emprestar dinheiro para um refugiado abrir seu negócio se ele vai voltar para casa antes de me pagar?”, era a pergunta que Plaves ouvia com frequência.

Assim como nós, Plaves sabia que essas percepções eram infundadas, mas, para mudar de ideia, os operadores de microfinanças precisariam de dados e evidências em contextos diferentes. Por isso ele propôs lançar um fundo maior de capital para microfinanças e estender os empréstimos com juros zero da Kiva a um portfólio de parceiros em vários países, com poucas ou nenhuma condição. Os parceiros de microfinanças teriam acesso a capital de pesquisa e desenvolvimento, livre de risco, para testar empréstimos a empreendedores deslocados. Se eles pagassem, as IMFs expandiriam seus programas de empréstimo, fornecendo à Kiva dados valiosíssimos sobre as taxas de pagamento dos refugiados. Era uma ideia inovadora e extremamente necessária. Mas será que a Kiva apoiaria a proposta de Plaves? Como ela a implementaria e como poderíamos contribuir para o seu sucesso?

Investir em empreendimentos liderados por refugiados, em empresas que os apoiam e nas comunidades que os recebem transforma a tragédia em ganho econômico e social

Em maio de 2017, Plaves conseguiu o apoio da plataforma. Combinamos que o começo oficial de nossa parceria seria o lançamento em 20 de junho, Dia Mundial do Refugiado, de uma campanha de financiamento coletivo da Kiva para apoiar refugiados. A Kiva já tinha garantido cerca de US$ 60 mil, disse Plaves, mas queria ter pelo menos US$ 250 mil em fundos, para igualar quaisquer empréstimos do público. Pensamos que essa contrapartida poderia ser distribuída entre os membros da Tent Partnership for Refugees, um novo grupo de empresas voltadas a apoiar refugiados e liderado pelo empresário turco Hamdi Ulukaya, da marca de iogurtes Chobani.

Ao se comprometerem com o fundo, empresas, fundações e filantropos podiam igualar qualquer empréstimo feito na plataforma Kiva.org para pessoas deslocadas e comunidades de acolhimento, do Líbano à Colômbia e a Ruanda. Plaves apresentou uma análise completa do histórico da Kiva até então, incluindo o fato de que a organização já havia tido sucesso em emprestar mais de US$ 2,6 milhões a refugiados e deslocados internos. Entre os primeiros apoiadores interessados, estavam a Tent e Anne-Marie Grey, diretora-executiva e CEO da USA for UNHCR, que arrecadava fundos nos Estados Unidos para o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, UNHCR no acrônimo em inglês), a agência da ONU para refugiados.

Graças à coragem desses apoiadores iniciais, conseguimos nossos parceiros de financiamento em poucas semanas. Em 20 de junho de 2017, a página de financiamento coletivo do World Refugee Fund da Kiva foi lançada. Na manhã seguinte, Plaves nos mandou uma mensagem dizendo que não apenas havíamos atingido nossa meta de US$ 500 mil em empréstimos, como a tínhamos dobrado. Em 24 horas, todos os empréstimos para refugiados e empreendedores deslocados internos na Kiva.org foram solicitados, somando mais de US$ 1 milhão em empréstimos concedidos. Esse sucesso foi o trampolim para logo iniciarmos uma campanha maior, que arrecadou US$ 9 milhões em capital para empréstimos de apoio a refugiados até o final daquele ano, ajudando a atender às necessidades de longo prazo das comunidades anfitriãs e de famílias deslocadas na maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, impulsionada pelos conflitos na Síria, no Sudão e no Afeganistão.

A campanha do Dia Mundial do Refugiado mostrou três coisas. A primeira foi que havia interesse de empresas e parceiros do setor privado em dar acesso a crédito e serviços financeiros a refugiados e outras pessoas deslocadas, o que poderia ajudar a criar empregos e melhores condições de vida. A segunda, e talvez ainda mais importante, foi que o mesmo valia para o público em geral. O modelo da Kiva já tinha provado que pessoas comuns podem fazer uma enorme diferença. Terceira, o experimento demonstrou que refugiados que tomam empréstimos são tão confiáveis ​​quanto microempreendedores tradicionais. Com os dados dos primeiros projetos-piloto, a Kiva conseguiu mobilizar ainda mais capital filantrópico – foram mais de US$ 20 milhões emprestados a dezenas de milhares de refugiados desde o início de 2016. A Kiva constatou que as taxas de adimplência dos refugiados são as mesmas que as dos não refugiados.

Tendo demonstrado a viabilidade dos empréstimos, a Kiva desenvolveu um novo fundo de investimentos, com finalidade lucrativa – o primeiro do gênero – de modo a ampliar seus programas de crédito para refugiados mundo afora. O Kiva Refugee Investment Fund foi lançado como um fundo fechado de US$ 32,5 milhões, com duração de cinco anos, composto de US$ 20 milhões em dívida da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USDFC), com uma taxa de retorno fixa de 2,5%, e US$ 10 milhões em capital próprio com uma taxa de retorno variável projetada entre 5,5% e 6,5%. Em junho de 2024, o fundo havia investido US$ 40,7 milhões e alcançado mais de 51,4 mil tomadores de empréstimo. Entre os investidores que participaram estavam o family office Ceniarth; as Irmãs Missionárias do Sagrado Coração e o Mercy Partnership Fund, ambas instituições religiosas; o Fundo Soros para o Desenvolvimento Econômico, que forneceu um investimento inicial de US$ 5 milhões; e a USDFC.

A lição que fica desse caso é importante: o investimento inicial de capital corajoso pode ser um catalisador. O compromisso assumido pela Kiva, pela Tent e pelo USA for UNHCR foi além de dar apoio direto a empreendedores deslocados, melhorando visivelmente a vida deles e capacitando-os a serem protagonistas de seu próprio destino. Também deu início a um novo modelo, que gerou novos dados e mostrou a viabilidade de investir em refugiados para gerar impacto em larga escala. 

Investimentos em pequenas e médias empresas

A segunda história de investimento pioneiro corajoso em projetos voltados para refugiados vem da Acumen. A organização global sem fins lucrativos fundada por Jacqueline Novogratz em 2001 atingiu renome no combate à pobreza investindo em líderes, ideias e negócios sustentáveis. Novogratz difundiu sua ideia de “capital paciente” em uma TED Talk muito popular. O conceito oferece um caminho intermediário entre o retorno zero das doações filantrópicas e os lucros exorbitantes esperados nos investimentos tradicionais. O capital paciente investe em empresas de impacto social a longo prazo, apoiando-as para que tenham sucesso, cresçam e ampliem seu impacto.

Nas últimas duas décadas, a Acumen angariou centenas de milhões de dólares em capital filantrópico e investiu em startups cujos produtos e serviços permitem a pessoas em situação de pobreza transformar suas vidas. A organização também criou a Acumen Academy, a fim de capacitar empreendedores sociais. Por fim, depois de comprovar a eficácia de seu modelo, lançou a Acumen Capital Partners, uma subsidiária com fins lucrativos, para fundos que buscam impacto e retorno financeiro. Essa subsidiária realiza investimentos para expandir empresas catalisadoras que atuam no combate à pobreza e, por meio dela, a Acumen mobilizou centenas de milhões de dólares extras em capital de impacto.

A Acumen Accelerators combina educação, mentoria, networking e investimento para apoiar empreendedores e startups em estágio inicial. A Acumen estabeleceu diversos tipos de aceleradoras projetadas para abordar questões e regiões geográficas específicas: Agricultura no Paquistão, Crescimento Verde, Equidade e Avanço de Gênero, entre outras. Essas aceleradoras ajudam a refinar modelos de negócios, intensificar o impacto social, obter feedback de colegas e da equipe da Acumen e construir relacionamentos com inovadores sociais que compartilham da mesma visão. Em 2022, a Acumen lançou sua aceleradora para empreendimentos que atendem pessoas deslocadas, com o objetivo de aprimorar e desenvolver modelos de negócios capazes de ganhar escala, que promovam meios de subsistência sustentáveis ​​para populações deslocadas na África Oriental. Foram selecionadas 14 equipes da região para a aceleradora. Em conjunto, elas empregaram 819 pessoas e trabalharam com 86 mil deslocados forçados (75% dos quais eram mulheres) e 38,5 mil membros das comunidades anfitriãs (cerca de 71%, mulheres) no Quênia, em Uganda e na Etiópia.

Em 2020, a Refugee Investment Network fez uma parceria com a Acumen para analisar e entender melhor a dimensão dos investimentos já feitos com foco em refugiados na África Oriental. Descobrimos que a Acumen era líder nesse setor antes mesmo de o termo “investimento com foco em refugiados” existir. Seu portfólio na região incluía diversas empresas que apoiavam comunidades deslocadas por meio da prestação de serviços e da geração de empregos.

Impulsionadas por esse mapeamento, a Refugee Investment Network e a Acumen se uniram no segundo semestre de 2022 para organizar a primeira Cúpula Global de Investimento com Foco em Refugiados, em Nairóbi, no Quênia. O evento recebeu 100 participantes de 68 organizações representativas do ecossistema emergente de investimento com foco em refugiados na África Oriental. A lista incluía empresas sociais, investidores de impacto, fundações filantrópicas, governos doadores e especialistas humanitários e técnicos. Cerca de um terço dos participantes eram empresas de investimento com foco em refugiados, 40% eram investidores ou financiadores e o restante vinha de organizações do ecossistema.

Joy Gikandi, coordenadora do programa na Acumen Academy da África Oriental, ajudou a apresentar o trabalho de alguns dos empreendedores da aceleradora, como William Tinyefuza, cofundador e diretor de operações da Turaco Valley Foods. Ele contou a história de sua empresa, um empreendimento social que investia em pequenos agricultores de áreas que acolhem refugiados. A empresa oferece consultoria agrícola gratuita por celular, distribui fertilizantes e sementes e ensina as melhores práticas agronômicas em sua própria fazenda, no assentamento de refugiados de Rwamwanja, em Uganda. A Turaco Valley Foods garante que 70% de sua matéria-prima venha diretamente de agricultores refugiados e 30% de comunidades anfitriãs, pagando entre 5% a 10% acima do preço de mercado. Esse é apenas um caso entre dezenas de empreendimentos sociais sustentáveis ​​apresentados no evento.

O caso da Acumen traz ensinamentos valiosos para outras fundações, investidores de impacto e agentes de mudança. Em primeiro lugar, mostra que quem investe pode já estar direcionando recursos com foco em refugiados sem perceber, especialmente se atua em mercados emergentes. Revisar o portfólio à luz da lente dos refugiados é um bom primeiro passo para investidores interessados ​​nesse trabalho. Em segundo, mostra que modelos e estruturas que já funcionaram bem para sua organização podem ser aplicados ao contexto de deslocamento. E em terceiro, que é possível tentar alcançar diferentes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ao apoiar proativamente as pessoas deslocadas como tomadoras de empréstimo, empresas do portfólio, fornecedoras e/ou funcionárias. Você pode promover impacto positivo em qualquer questão fundamental do seu interesse – equidade de gênero, inclusão financeira, mudanças climáticas, educação infantil ou agricultura regenerativa –, além de melhorar de forma palpável a vida de pessoas deslocadas devido à violência. Na maioria dos casos, injetar propósito e incentivos financeiros voltados para o impacto nas empresas de seu portfólio pode servir para levar serviços essenciais a clientes refugiados. 

Integração de refugiados ao mercado de trabalho

Nosso terceiro estudo de caso nos leva a Massachusetts, estado dos Estados Unidos que em 2017 enfrentava um dilema comum a muitos governos: como integrar os milhares de imigrantes e refugiados que chegavam a cada ano à região de Boston sem arriscar os escassos recursos públicos em programas sem eficácia comprovada. Os estrangeiros representavam um potencial significativo e inexplorado no mercado. Muitos tinham experiência profissional e sólida ética de trabalho, mas se defrontavam com barreiras linguísticas para obter empregos compatíveis com suas capacidades. Programas tradicionais de capacitação tinham dado resultados inconsistentes e, diante das restrições orçamentárias estaduais, as autoridades hesitavam em expandir os serviços sem evidências claras de impacto. 

O Jewish Vocational Service, ou JVS, um dos maiores provedores comunitários de educação profissional e para adultos de Boston, tinha desenvolvido uma abordagem inovadora, mesclando ensino integrado de inglês com assistência e orientação para a busca de emprego. O governo do estado, porém, não estava disposto a fazer o investimento inicial para a expansão do programa sem que sua eficácia fosse comprovada.

A tensão entre a necessidade de integrar os imigrantes e a incerteza fiscal originou uma abordagem diferente: financiamento baseado em resultados, vinculando o pagamento público a resultados mensuráveis. A CEO da Social Finance, Tracy Palandjian, e sua equipe estruturaram uma solução que alinhou os incentivos das partes interessadas de uma forma que o financiamento tradicional por meio de subsídios jamais conseguiria. O projeto Massachusetts Pathways to Economic Advancement implementou um modelo de “pagamento por sucesso”, também conhecido como “títulos de impacto social”, que mudou de forma significativa quem assumia o risco financeiro e quem se beneficiava do sucesso. Nesse modelo, os investidores privados antecipam o capital de risco, sendo reembolsados ​​apenas quando resultados predeterminados e mensuráveis ​​são alcançados.

Nesse caso, o funcionamento foi o seguinte: investidores de impacto forneceram capital inicial ao JVS a fim de implementar seu programa English for Advancement [“Inglês para o progresso”, em tradução livre] para cerca de 2 mil pessoas com proficiência limitada no idioma, ao longo de seis anos. O JVS uniu aulas de inglês profissionalizante e assistência na busca de emprego, orientação profissional e contatos com empregadores, ajudando os participantes na transição para o mercado de trabalho e para empregos com salários mais altos. Uma empresa independente, a Economic Mobility Corporation, avaliou o crescimento salarial por meio de um ensaio clínico randomizado – foi o primeiro estudo rigoroso de um programa do gênero. O acordo era que Massachusetts só reembolsaria os investidores se os participantes obtivessem ganhos salariais mensuráveis.

Foi uma estrutura inovadora: em vez de pagar por atividades ou resultados (como o número de pessoas atendidas ou aulas concluídas), o estado pagava por impactos – nesse caso, o aumento salarial. Se o programa não atingisse os resultados esperados, os investidores absorveriam o prejuízo. Se fosse bem-sucedido, o estado pagaria pelo impacto comprovado e os investidores receberiam retornos proporcionais ao valor social gerado pelo programa. A inovação foi além da engenharia financeira, criando uma relação diferente entre governo, prestadores de serviços e investidores. Os incentivos, para cada grupo, se alinhavam em torno de uma métrica só: melhoria salarial para os trabalhadores imigrantes.

Filantropos e fundações deveriam adotar a lente dos refugiados ao realizar investimentos, usando seus recursos filantrópicos como capital catalítico para destravar novos investimentos privados

Para a administração pública, a estrutura de pagamento por resultados resolveu um problema político e fiscal: ela podia ampliar os serviços de capacitação profissional para pessoas que não falavam inglês sem risco orçamentário inicial. Se o programa funcionasse, pagaria por resultados concretos – aumentos salariais que gerariam receita tributária e reduziriam a necessidade de assistência social. Se não funcionasse, o estado não perdia nada. Contratos baseados em resultados criam responsabilidade de uma forma inalcançável com subvenções tradicionais. Os prestadores de serviços – sejam empresas sociais ou organizações sem fins lucrativos – têm incentivos para repetir e aprimorar processos, em vez de apenas gastar a verba. Os investidores, da mesma forma, têm incentivos para apoiar a eficácia do programa.

O acordo envolveu 40 investidores, entre os quais Maycomb Capital, Living Cities Blended Catalyst Fund, Prudential Financial, Barbara Bush Foundation for Family Literacy, Blue Haven Initiative, The Boston Foundation, Boston Impact Initiative, ImpactAssets, além das fundações Inherent, Kresge, Shapiro e Sorenson Impact. A tese de investimento era simples: se o treinamento linguístico integrado e a colocação profissional pudessem aumentar de forma comprovada os salários dos imigrantes, Massachusetts reembolsaria o capital principal, além de um retorno que refletisse a criação de valor financeiro e social.

Com a lente dos refugiados, esses investidores viram uma dimensão extra. Não se tratava só de capacitação de mão de obra, mas também de criar uma infraestrutura de integração econômica que estimulasse a contribuição plena de refugiados e imigrantes. Vários desses investidores apoiavam refugiados empreendedores em outros contextos, mas esse acordo trouxe uma meta de intervenção diferente: ajudar os refugiados a seguir caminhos profissionais que correspondessem às suas habilidades.

Para o JVS, a estrutura baseada em desempenho transformou as operações. O financiamento tradicional paga pelas atividades, independentemente dos resultados. O novo modelo exigiu que o JVS se concentrasse no que funcionava, acompanhando o progresso dos participantes, aprimorando seus currículos e estratégias de colocação profissional e trabalhando estreitamente com os empregadores, a fim de garantir que os candidatos recebessem o tipo de treinamento necessário para ter sucesso nos novos empregos. O JVS integrou a seu modelo três elementos que raramente andam juntos: ensino de inglês contextualizado (por meio de cenários do ambiente laboral), treinamento para o mercado de trabalho e conexões diretas com empregadores. Os participantes adquiriram habilidades de comunicação específicas, requeridas para empregos que tinham potencial real de conseguir, e em seguida receberam treinamento e apoio de recolocação profissional a fim de conquistar essas vagas. O programa foi muito além do simples ensino do idioma.

A avaliação final da Economic Mobility, seis anos após o lançamento da iniciativa, validou o modelo com evidências criteriosas. Após dois anos, o programa English for Advancement gerou um aumento de 7% na renda dos participantes em geral e de 13% para aqueles que não foram atingidos pelas perturbações no mercado no início da pandemia de covid-19. Mais especificamente, a média anual dos rendimentos aumentou em US$ 1.175 para todos os participantes e em US$ 2.478 para aqueles que completaram o programa antes de a covid-19 atingir os postos de trabalho. Massachusetts pagou os investidores com base nesses resultados, com retornos que refletiram tanto o valor financeiro como o social gerados pelo programa.

Mas o resultado mais significativo veio depois do pagamento aos investidores. As evidências eram tão convincentes que o governo do estado firmou um novo contrato baseado em resultados com o JVS para estender o programa além do período inicial. O orçamento complementar designou US$ 10 milhões adicionais em financiamento para serviços de recolocação rápida prestados pelo JVS, e o sucesso do projeto levou o estado a adotar mais amplamente contratos com pagamento por resultados para capacitação laboral.

O programa “terminou” em 2023, se considerarmos que o acordo inicial se encerrou. Mas o modelo foi tão eficaz que o estado o incluiu em suas políticas permanentes e expandiu o financiamento. Esse é o tipo de mudança sistêmica que financiamentos baseados em resultados procuram alcançar. 

O caso do programa de Massachusetts demonstra quatro pontos fundamentais quanto à integração econômica de refugiados e imigrantes. Primeiro, que o financiamento baseado em resultados pode mobilizar capital de um modo que o financiamento por subsídios não consegue. O estado não queria arriscar recursos públicos sem evidências. Investidores de impacto assumiram essa missão, permitindo que o JVS ampliasse seus serviços enquanto o estado esperava pelas evidências. Exatamente como aconteceu com a Kiva, assim que os ganhos de salário se concretizaram, veio mais financiamento – nesse caso, do setor público. Em segundo lugar, avaliações rigorosas mudam políticas. O estudo randomizado gerou evidências que transformaram a forma como Massachusetts passou a abordar o desenvolvimento da força de trabalho para aprendizes da língua inglesa. Quando formuladores de políticas públicas podem apontar para um aumento salarial de 13% decorrente de uma intervenção específica, fica mais fácil justificar a alocação de recursos orçamentários. Em terceiro, acordos iniciais modestos catalisam uma adoção mais vasta. O projeto Pathways começou atendendo 2 mil imigrantes. Ele estabeleceu um modelo que a administração pública – e outros agentes – podem replicar e expandir. O acréscimo subsequente de US$ 10 milhões e a ampliação da adoção do modelo de contrato demonstram como projetos-piloto podem gerar efeitos multiplicadores. Em quarto, o sucesso depende do alinhamento entre os stakeholders. O acordo funcionou porque todas as partes se organizaram em torno dos resultados salariais: o estado pagava pelos resultados, os investidores obtinham retorno pelo impacto, o JVS contava com incentivos para o desempenho e os participantes eram beneficiados.

Um modelo para economias de pertencimento

Os três casos ilustram como a integração mais ampla de refugiados e deslocados internos representa uma enorme oportunidade de investimento para o setor privado, de maneiras que beneficiem a todos. Nossa pesquisa revelou um modelo para a construção de economias inclusivas que permitirão ao setor avançar, superando governos que se mostrem ambivalentes, impeditivos ou hostis em relação às pessoas deslocadas. 

A seguir, apresentamos cinco estratégias para que investidores de impacto e profissionais de inovação social construam economias de pertencimento:

1. Estabelecer uma colaboração entre redes de investimento de impacto para destravar investimentos privados com foco nos refugiados. Todos os anos, redes influentes reúnem investidores comprometidos com propósitos sociais em encontros globais para difundir estratégias, ferramentas e estruturas voltadas a ampliar seu impacto. Acreditamos que levar iniciativas de investimento com foco em refugiados a esses encontros pode ajudar a educar os investidores sobre esse poderoso instrumento de impacto e fomentar colaborações para mobilizar novos e significativos volumes de capital para a questão.

2. Mobilizar capital catalítico proveniente da filantropia. Nos últimos 15 anos, o investimento de impacto tem crescido entre grandes fundações privadas, que reconhecem que, ao se limitarem a doações anuais derivadas de 5% de seus fundos patrimoniais, deixam de gerar bilhões de dólares em impacto potencial por não alocarem esses recursos de outras formas. Filantropos e fundações que apoiam pessoas deslocadas deveriam adotar a lente dos refugiados ao realizar investimentos, usando seus recursos filantrópicos como capital catalítico para destravar novos investimentos privados, capazes de beneficiar as pessoas deslocadas e as comunidades que as acolhem. 

Explicamos: cada vez mais, fundações privadas e comunitárias sentem-se compelidas a ir além das doações sem retorno financeiro, destinando parte de seus recursos filantrópicos a investimentos em empreendimentos sociais. Assim, além de cumprir sua missão, conseguem recuperar o capital para reinvesti-lo em novas iniciativas de impacto. Tais investimentos são conhecidos como PRIs [sigla em inglês para investimentos relacionados a programas], pois usam a parcela de 5% dos recursos tradicionalmente destinada a programas, mas permitem o reembolso – seja sem juros (como um subsídio recuperável) ou com algum nível de remuneração, em geral apenas o suficiente para cobrir a inflação e garantir a preservação do capital.

A demanda dos consumidores gera um impulso no mercado. Quando clientes optam por comprar de empresas que buscam incluir refugiados, elas tendem a responder a essa demanda

As fundações também vêm recorrendo aos seus fundos patrimoniais e, em vez de investir apenas em ações negociadas publicamente e por meio de grandes gestoras de ativos, têm alocado parte de seu capital em investimentos de impacto. Trata-se dos chamados MRIs [sigla em inglês para investimentos com foco na missão]. Grandes fundações e family offices privados com tradição de apoio a refugiados e a pessoas deslocadas têm uma enorme oportunidade de usar e promover PRIs e MRIs em operações de investimento com foco na causa.

Além disso, fundações privadas e comunitárias perceberam que podem gerar impacto expressivo combinando subsídios filantrópicos e PRIs de juros baixos com capital a taxas de mercado. O financiamento misto (blended finance) consiste no uso de capital catalítico proveniente de fontes públicas ou filantrópicas para ampliar o investimento do setor privado em projetos de desenvolvimento econômico. Por exemplo, um empreendimento de habitação popular em uma comunidade que acolhe uma grande população de refugiados seria um caminho para fundações catalisarem a participação de credores mais avessos ao risco, como bancos ou investidores do setor privado. Estabelecendo parcerias com líderes globais em financiamento misto, as fundações poderiam criar plataformas para conectar atores, promover articulações e estruturar negócios. A Convergence, uma rede global de blended finance que atua para aumentar o investimento privado em mercados emergentes e economias em desenvolvimento, pode desempenhar um papel fundamental nesse contexto.

Quem trabalha no campo deveria privilegiar investidores de impacto ligados a crenças religiosas. A história do investimento de impacto nasce com esses financiadores. Quacres – membros do grupo cristão protestante Sociedade Religiosa dos Amigos – escolheram não investir no tráfico e no transporte de pessoas escravizadas nos séculos 18 e 19. Protestantes decidiram não investir em “ações do pecado”, como apostas, bebidas alcoólicas e prostituição. Há anos, freiras católicas, congregações luteranas e fundos de investimento de impacto alinhados com valores judaicos têm direcionado seus recursos para causas que correspondam às suas convicções.

“Ajudar o próximo” é um conceito fundamental na tradição judaico-cristã e em outras tradições religiosas. Em 2018, por exemplo, o Vaticano organizou uma conferência de investimento de impacto durante a qual pudemos aprender muito sobre investidores religiosos que, mundo afora, têm alinhado seus portfólios e fundos de pensão aos seus valores. Refugiados eram um dos quatro campos temáticos centrais. Convidamos outros grupos de investidores ligados a crenças religiosas a iniciar conversas sobre como podem usar seus meios para apoiar pessoas deslocadas de maneiras conectadas aos seus valores. 

3. Capacitar credores comunitários para atender empreendedores refugiados. Nos Estados Unidos, instituições financeiras de desenvolvimento comunitário (CDFIs, na sigla em inglês) já atuam para ampliar oportunidades financeiras em comunidades de baixa renda, oferecendo acesso a produtos e serviços financeiros a moradores e empresas locais em parceria com fundações comunitárias e outros prestadores de serviços como bancos, cooperativas de crédito, fundos de empréstimo e empresas de capital de risco. As CDFIs costumam ajudar famílias a financiar a casa própria, apoiam moradores que estejam iniciando negócios e investem em centros de saúde, escolas ou centros comunitários locais. Empenham-se em gerar oportunidades econômicas e revitalizar bairros. 

Assim, as CDFIs teriam a infraestrutura requerida para contribuir para a ponta final do processo de integração econômica dos refugiados. Elas já atuam nas comunidades onde eles se instalam e conhecem as condições locais. No entanto, a maioria delas não mira especificamente empreendedores refugiados, por não dispor dos dados e das ferramentas que justifiquem essa abordagem. Um pouco de proatividade e iniciativas de aproximação seriam significativas para conectar essas instituições aos recém-chegados, ajudando-os a abrir negócios, adquirir a casa própria e começar a formar patrimônio, tudo isso como um desdobramento de seu portfólio e de sua missão atuais. As organizações de apoio a refugiados teriam a chance de estabelecer conexões com novos parceiros, como instituições de crédito locais, para construir economias baseadas no sentimento de pertencimento. 

4. Envolver parceiros corporativos em iniciativas de contratação, cadeias de suprimentos e acesso a mercados. Líderes empresariais devem considerar formas de integrar refugiados e empresas de refugiados a suas cadeias de suprimentos, bem como a seus serviços, produtos e operações globais. Grandes empresas podem gerar grande impacto. Associações setoriais e comerciais que representam grandes empresas poderiam se comprometer a apoiar pessoas deslocadas por meio do setor privado. Em junho de 2016, o governo de Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, iniciou esse trabalho com o lançamento da Partnership for Refugees, iniciativa público-privada destinada a ajudar refugiados no mundo todo. Já durante o primeiro mandato de Donald Trump, atual presidente estadunidense, a Tent Partnership for Refugees deu continuidade a esse trabalho, ampliando os compromissos assumidos por empresas em diversos países. Neste momento, seria bem-vinda uma nova série de compromissos públicos por parte dos principais CEOs globais. 

Pequenas empresas podem dar passos menores, como contratar um funcionário refugiado, ter empresas de pessoas deslocadas como fornecedoras ou direcionar serviços para suas comunidades. Organizações como a Global Chamber – uma rede de câmaras de comércio presente em 525 regiões metropolitanas ao redor do mundo [inclusive em cidades brasileiras, como São Paulo e Joinville] – poderiam incentivar campanhas voltadas para essas finalidades. A demanda dos consumidores gera um impulso no mercado. Quando os clientes optam ativamente por comprar de empresas que buscam incluir refugiados, elas tendem a responder a essa demanda. É uma oportunidade para todos nós fazermos parte da solução.

O engajamento corporativo cria caminhos para o emprego e o acesso ao mercado em grande escala, coisa que o capital, por si só, não consegue fazer. Quando uma única empresa – como Starbucks, Hilton ou Chobani – se compromete a contratar refugiados, o impacto abrange milhares de pessoas. A integração à cadeia de suprimentos proporciona clientes e receitas estáveis aos empreendedores refugiados, fazendo com que seus negócios sejam mais atraentes para investidores. A adaptação de produtos permite aproveitar o poder de compra dos refugiados, um grupo que, coletivamente, representa um mercado enorme, ainda pouco atendido. Empresas privadas podem ser uma força poderosa para a integração de pessoas deslocadas.

5. Mobilizar instituições de financiamento ao desenvolvimento como investidores-âncora. Todos os países do G7 possuem instituições de financiamento ao desenvolvimento (DFIs, na sigla em inglês) que investem em projetos de desenvolvimento do setor privado, empresas e infraestrutura em países em desenvolvimento. Entre elas estão a USDFC (Estados Unidos), a British International Investment (Reino Unido), a Proparco (França), a DEG (Alemanha) e a FinDev (Canadá). Muito mais do que outras instituições, as DFIs podem catalisar investimentos com foco na questão dos refugiados em grande escala. Essas e outras entidades bilaterais e multilaterais de financiamento ao desenvolvimento deveriam se unir para mobilizar um montante inicial de US$ 1 bilhão para investimentos voltados a refugiados ao longo de três anos, começando com um compromisso de US$ 100 milhões da USDFC. 

Quando a USDFC atuou como investidora-âncora no fundo de refugiados da Kiva, indicou para outros investidores que aquela era uma oportunidade confiável e viável. As DFIs investem em regiões e contextos onde investidores comerciais não entrariam sozinhos. Elas já têm áreas voltadas para a integração econômica de refugiados – setores de resposta a situações de deslocamento, de investimentos em Estados frágeis e de desenvolvimento sustentável. Elas não precisam de autorização para isso; precisam só agir nessa direção.

Um compromisso explícito do G7 criaria o foco institucional e a responsabilidade necessários para transformar acordos pontuais em implementação sistemática. As DFIs deveriam estabelecer, em seus portfólios já existentes, mandatos específicos para investimentos voltados a refugiados, criar veículos de coinvestimento que combinem capital das DFIs com o de investidores privados e realizar investimentos-âncora que indiquem ao mercado a credibilidade das iniciativas, como a USDFC fez com a Kiva. O desafio proposto ao G7 gera responsabilidade e impulso. A meta de US$ 1 bilhão é ambiciosa, porém alcançável, considerando os balanços combinados das DFIs e seus mandatos existentes relacionados a fragilidade, deslocamento e desenvolvimento econômico. Parceiros globais de advocacy e de mídia – como Global Citizen, Global Refugee Forum, Clinton Global Initiative e Concordia – poderiam atuar como plataformas para alavancar um compromisso dessa magnitude junto ao investimento privado.

Criando um movimento

Nos últimos 15 anos, nosso trabalho com o deslocamento forçado em massa nos trouxe histórias incríveis de resiliência, esperança e beleza. Também testemunhamos as facetas mais violentas e desoladoras da humanidade. Como disse o presidente Obama em seu discurso de vitória após a eleição de 2012, “o progresso nem sempre segue uma linha reta”. Construir o setor de investimentos voltados a refugiados vai levar tempo, mas nossas recomendações baseiam-se em iniciativas que já se mostraram eficazes. A Kiva provou que o capital catalítico gera dados que destravam investimentos comerciais em larga escala. A Acumen mostrou que investidores de impacto já realizam investimentos com foco na realidade dos refugiados. Direcionar o foco faz com que essas iniciativas sejam ampliáveis ​​e replicáveis. Massachusetts comprovou que o financiamento baseado em resultados pode servir para alinhar os incentivos de municípios, investidores e prestadores de serviços em torno de benefícios mensuráveis. 

Tomados em conjunto, esses casos – e dezenas de outros analisados ​​em nosso livro – demonstram que a integração econômica de refugiados representa uma oportunidade de mercado viável para investimentos, limitada apenas pela assimetria de informações e pelo desalinhamento de incentivos. Ambos os problemas têm solução. Os modelos funcionam tanto no contexto estadunidense como internacional, em cenários de escassez ou de excedente de mão de obra e com diferentes configurações de stakeholders e estruturas de financiamento. Eles exigem foco consciente, um desenho baseado em evidências e compromisso institucional.

A comunidade de inovação social vive um momento raro de alinhamento. Temos 120 milhões de deslocados forçados em todo o mundo. Redes de investimento de impacto gerenciam trilhões de dólares em ativos. Os balanços e as diretrizes de instituições financeiras de desenvolvimento vão no sentido desse trabalho. Dispomos de modelos comprovados que geram retornos, tanto financeiros como sociais. Instituições financeiras de desenvolvimento comunitário, empresas e fundações estão em boa posição para agir.

Diante de governos negligentes, é preciso construir um movimento para apoiar as pessoas mais vulneráveis ​​do mundo. Precisamos nos mobilizar para eleger governantes que façam um trabalho melhor. Ao assumirmos as rédeas da construção de economias de pertencimento, podemos transformar histórias de resiliência e esperança em sistemas sustentáveis ​​de prosperidade compartilhada. Cada um de nós tem um papel a desempenhar.

*Os autores são coautores do livro Banking on Belonging: Why Investing in Refugee Entrepreneurs Benefits Everyone (Columbia University Press, 2026).

Nota

Em nosso livro Banking on Belonging, discutimos outras estratégias para soluções políticas duradouras. Mesmo os esforços mais dedicados em investimento de impacto podem ser desmantelados em meses, no quadro atual, com a destruição de avanços conquistados por refugiados nos Estados Unidos, em Gaza, no Sudão e em outras regiões.


Iniciativas de inclusão produtiva de refugiados no Brasil

A Plataforma Refugiados Empreendedores, lançada em fevereiro de 2021 pelo Acnur e pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil, reúne mais de 200 empreendimentos liderados por pessoas refugiadas no Brasil. O instrumento busca conectar os empreendimentos a consumidores e empresas interessadas em incluir esses negócios em suas cadeias de fornecedores; oferecer recursos de capacitação, como cursos gratuitos, materiais de apoio e mentoria; facilitar o acesso a serviços financeiros, reunindo informações sobre instituições que oferecem crédito para refugiados; e inspirar e informar, compartilhando casos de sucesso para refugiados que desejam iniciar ou fortalecer seus negócios no país.

Os negócios registrados na plataforma são liderados por refugiados de 19 nacionalidades – 60% são mulheres – espalhados por 48 cidades de 17 estados brasileiros e que empreendem em diversas áreas, principalmente gastronomia, artesanato, design e arte. 

165.774 pessoas foram reconhecidas como refugiadas no Brasil entre 2010 e 2025
80% das solicitações de refúgio no Brasil são de pessoas de Venezuela, Cuba, Haiti e Angola

Fonte: Relatório Refúgio em Números 2026.

O Fórum Empresas com Refugiados, também uma iniciativa do Acnur e do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, foi lançado em junho de 2021 para engajar o setor privado na inclusão de pessoas refugiadas e migrantes no mercado de trabalho formal no Brasil. O Fórum reúne 160 empresas e organizações empresariais comprometidas com a troca de experiências sobre contratação e inclusão de pessoas refugiadas, o desenvolvimento de ações de capacitação e empregabilidade voltadas a essa população e o compartilhamento de boas práticas de diversidade, equidade e inclusão nos ambientes de trabalho. 

Em cinco anos, o Fórum facilitou a contratação de quase 17 mil refugiados, 98% deles em regime CLT. O monitoramento de 2025 da iniciativa constatou que 43% das empresas que contratam têm pessoas refugiadas e migrantes em cargos de liderança, e 70% das empresas disseram que as pessoas refugiadas contratadas ganham, em média, de dois a três salários mínimos. Segundo as empresas, essas contratações contribuem para ambientes de trabalho mais inclusivos e eficientes e preenchem lacunas em funções técnicas e em regiões com falta de profissionais.

Uma parceria do Acnur com o Banco Pérola e o Banco do Povo Crédito Solidário ofereceu mais de R$ 1,5 milhão em crédito a cerca de 600 empreendedores refugiados e migrantes em 12 estados brasileiros desde 2020. Os empréstimos vão de R$ 500 a R$ 7 mil e, além dos juros baixos (cerca de 3% ao mês), entre as facilidades oferecidas estão a menor burocracia para a contratação, mais opções de garantias que podem ser apresentadas pelo contratante e opções de pagamento de acordo com a possibilidade do empreendedor (semanal, quinzenal ou mensal).

Fontes: Acnur e Pacto Global da ONU – Rede Brasil.

Os Autores(as)

John Kluge Jr.

John Kluge Jr. é cofundador da Refugee Investment Network, primeira iniciativa colaborativa de investimento em blended finance dedicada a criar soluções de longo prazo para a migração forçada global. Ele também fundou ou colaborou na fundação de outros fundos de investimento e empreendimentos sociais, como a Thistlerock Mead Company, que atua com foco na causa dos refugiados combinando práticas ancestrais de fermentação de hidromel e agricultura regenerativa moderna.

Christine Mahoney

Christine Mahoney é diretora de inovação e professora de políticas públicas e ciência política na Frank Batten School of Leadership and Public Policy da Universidade da Virgínia. É autora de Brussels Versus the Beltway: Advocacy in the United States and the European Union e de Failure and Hope: Fighting for the Rights of the Forcibly Displaced, obra que inspirou a criação da Refugee Investment Network.