O investimento de impacto representa uma oportunidade para que recursos públicos e privados apoiem mercados emergentes que não dispõem do capital necessário para crescer e reduzir a pobreza. No entanto, suas bases começam a vacilar. A ilusão coletiva sobre o verdadeiro impacto dos investimentos pode comprometer um instrumento essencial para o desenvolvimento global. O paradigma atual, baseado em modelos lineares e simplistas de causa e efeito, corre o risco de distorcer mercados e direcionar capital para investimentos que talvez não sejam eficazes.
Já vimos algo semelhante acontecer. A crise de confiança nos mercados voluntários de carbono foi provocada, em grande parte, pela percepção dos compradores de que não estavam recebendo o retorno não financeiro prometido sobre seus investimentos. Como resultado, o preço dos créditos caiu 87% ao longo de dois anos.
Se continuarmos fingindo que os investimentos geram impacto quando isso não acontece, ou de maneiras que não correspondem à realidade, estaremos a poucos passos de enfrentar uma crise de confiança semelhante. Para melhorar, é necessário compreender como os investimentos de impacto funcionam atualmente e quais são suas limitações. Em seguida, é preciso examinar como uma abordagem sistêmica, mais condizente com as dinâmicas do mundo real, pode melhorar a alocação, a gestão e a mensuração do capital, permitindo que o investimento atinja o seu potencial.
Como fingimos que os investimentos geram impacto
Impacto pode significar muitas coisas para diferentes pessoas, mas os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ou ODS, são um bom ponto de partida para começar. Apesar das falhas já documentadas nos investimentos de impacto, inclusive nas páginas da SSIR (Viglialoro et al, Bildner, Foroughi, Starr), e das tentativas de promover mudanças, a prática predominante continua sendo: 1) gestores de ativos identificam uma oportunidade de investimento dentro da faixa de taxa interna de retorno pretendida e de outros parâmetros do fundo, como o setor de atuação; 2) a “equipe de impacto” associa o trabalho da empresa a um ODS e desenvolve uma tese de impacto, usada para sustentar a decisão de investimento; 3) as atividades da empresa ou do negócio são mensuradas para avaliar o impacto. No espectro intermediário, as abordagens variam de investidores ativistas a investidores passivos, mas normalmente o ativismo está voltado ao desempenho financeiro ou à conformidade regulatória (compliance), especialmente em relação às práticas ESG e à prestação de contas.
Por exemplo, investimos em uma fábrica de processamento agroindustrial que cresce, contrata dez pessoas e, então, informamos que foram criados dez novos empregos. Ou investimos em um novo produto de serviços financeiros digitais que reduz o tempo de deslocamento dos usuários, incorpora 100 mil novos clientes e contribui para diversos ODS. Ou ainda investimos em uma empresa de energia solar residencial que vende equipamentos para um milhão de domicílios e amplia o acesso à energia limpa.
Do ponto de vista da mensuração, existem, evidentemente, problemas relacionados às metodologias e à confiabilidade desses dados, e diversas iniciativas já tentaram enfrentar essas dificuldades. No entanto, o principal desafio não está na mensuração. Essa questão aparece mais adiante. O problema central está nos mecanismos pelos quais o investimento gera impacto, uma área onde o setor possui um ponto cego significativo.
Como os investimentos realmente geram impacto
As empresas existem dentro de mercados. Esses mercados incluem clientes, fornecedores, concorrentes, órgãos reguladores e outras funções, redes e comportamentos formais e informais que influenciam seu sucesso ou fracasso. O verdadeiro impacto de um investimento depende de como ele afeta o mercado, e não apenas de como afeta uma empresa. Retomemos criticamente os exemplos anteriores.
- Os dez trabalhadores contratados pela fábrica de processamento agroindustrial trabalhavam antes em uma fábrica vizinha. Essa outra fábrica acabou fechando porque não conseguiu obter um empréstimo bancário comercial, enquanto o capital concessional fornecido à empresa investida criou uma concorrência desigual.
- A empresa de serviços financeiros digitais incorporou os novos usuários, mas eles não tiveram acesso a informações sobre como usar os produtos. Além disso, a rede de estabelecimentos comerciais necessária para viabilizar as transações não se desenvolveu no mesmo ritmo, então as contas permaneceram sem uso.
- Os consumidores compraram os equipamentos de energia solar residencial, mas não havia serviço de manutenção. Os equipamentos quebraram e era mais vantajoso para a empresa vender novas unidades do que realizar reparos. Assim, os consumidores acabaram ficando em situação financeira pior ao precisar comprar equipamentos de reposição.
Esses exemplos demonstram como as práticas atuais não captam o impacto real e adicional em cenários negativos, mas o mesmo é possível sob uma ótica mais positiva:
- A empresa de processamento agroindustrial usou os recursos para adotar uma tecnologia inédita no setor. À medida que se tornou mais competitiva, seus concorrentes passaram a reproduzir essa inovação e também cresceram. Os dez empregos criados diretamente pela empresa foram acompanhados pela geração de muitos outros postos de trabalho entre os concorrentes e pelo aumento do número de propriedades comerciais e de pequenos agricultores necessários para abastecer o setor.
- A empresa de serviços financeiros digitais desenvolveu um caso de uso que levou à realização de investimentos em infraestrutura em áreas rurais. Esses investimentos possibilitaram muitos outros usos, que contribuíram para os ODS, incluindo a oferta de serviços de educação e saúde por meio da mesma rede.
- Os equipamentos de energia solar residencial mostraram-se muito mais úteis para pequenos agricultores, que passaram a usar sistemas de armazenamento refrigerado e, com isso, aumentaram a receita obtida com suas colheitas.
Em síntese, para compreender o verdadeiro impacto, precisamos responder às seguintes questões:
- Adicionalidade de impacto: o que teria acontecido sem o nosso investimento? Qual foi o efeito líquido do investimento sobre os indicadores de impacto, considerando também os demais atores relevantes do sistema de mercado?
- Adicionalidade financeira: por que o nosso capital era necessário? Que outras fontes de financiamento estavam disponíveis? Que impacto o nosso investimento teve sobre essas outras fontes de capital, tanto para a empresa do portfólio quanto para outros agentes do mercado?
- Adicionalidade de gestão: além do capital, houve alguma outra contribuição decorrente de nosso investimento que tenha ajudado a gerar impacto?
- Sustentabilidade das mudanças: as mudanças de práticas que ocorreram e contribuíram para o impacto foram apenas respostas formais às condições impostas pelo investimento ou permaneceram depois que essas condições deixaram de vigorar, a dívida foi quitada ou encerramos nossa participação acionária?
Como gerar impacto sistêmico
Um número crescente de investidores têm explorado o uso de uma perspectiva sistêmica para gerar impacto. Alcançar impacto sistêmico por meio de investimentos significa produzir um efeito líquido adicional, claramente definido, para um grupo específico de pessoas, em determinado contexto, em decorrência do investimento realizado e da forma como ele foi administrado. A adicionalidade precisa considerar o cenário contrafactual, incluindo outras mudanças ocorridas tanto no sistema financeiro quanto na economia real. Já o impacto líquido deve levar em conta as consequências positivas e negativas do investimento para além da empresa, incluindo seus compradores, fornecedores, concorrentes, prestadores de serviços e outros atores do ambiente que a sustenta.
A busca por impacto sistêmico começa com perguntas sobre o que não está funcionando, de que maneira e por quais razões, para avaliar se e quais investimentos financeiros e não financeiros podem solucionar essas questões. Em seguida, os gestores de ativos desenvolvem estratégias de investimento direcionadas e atuam em conjunto com o investimento para influenciar comportamentos dentro e fora da empresa investida.
Usamos o termo sistemas enxutos (lean systems) para designar uma abordagem voltada à geração de impacto sistêmico que prioriza as formas mais eficientes de alcançá-lo. Essa abordagem se baseia no pragmatismo e na aplicabilidade prática e vem sendo testada há oito anos, apoiando-se em várias décadas de aprendizado acumulado na prática do desenvolvimento internacional. Não se trata de estabelecer padrões de mensuração impossivelmente elevados. Com recursos infinitos, seria possível fazer infinitas coisas. O objetivo é usar essa perspectiva para apoiar decisões de maior impacto ao longo de todo o ciclo de investimento.
É fundamental que uma abordagem baseada em sistemas enxutos também esteja alinhada aos incentivos e às capacidades dos proprietários de ativos, dos gestores e das empresas do portfólio. Os proprietários de ativos optam por investir em impacto em vez de simplesmente maximizar retornos. Eles precisam saber se esse impacto está de fato ocorrendo, mas não dispõem de tempo, recursos ou, em alguns casos, conhecimento técnico para realizar essa avaliação. Portanto, não podem assumir sozinhos a responsabilidade de prospectar, gerir e mensurar investimentos com foco em impacto sistêmico.
Os gestores atuam em um ambiente competitivo, na disputa por oportunidades e capital. Eles não podem elevar excessivamente seus custos administrativos por meio da criação de processos adicionais em excesso. A adoção de uma abordagem sistêmica e sua defesa perante investidores deve tornar os gestores de ativos mais competitivos (tanto na prospecção quanto na captação de recursos), ao permitir que demonstrem um impacto genuíno e em maior escala, desde que a abordagem seja implementada corretamente.
Para as empresas investidas, receber capital de impacto muitas vezes representa um ônus, marcado por exigências burocráticas, demonstrações performáticas de impacto e pesadas obrigações de conformidade. Um princípio fundamental da abordagem de sistemas enxutos é que a responsabilidade pelo impacto não deve recair sobre a empresa do portfólio, mas sobre o gestor de ativos. Sem deixar de adotar medidas de mitigação de riscos ESG, os gestores devem investir em uma empresa quando o sucesso de seu modelo de negócio contribuir para superar barreiras sistêmicas à geração de determinado impacto de desenvolvimento. A empresa deve concentrar-se em fazer aquilo que já faz, em maior escala e com melhor desempenho. Nesse modelo, um impacto maior está associado a um retorno financeiro maior, beneficiando as empresas do portfólio, os gestores e os proprietários de ativos.
A adoção de uma abordagem de sistemas enxutos resulta em mudanças substanciais, embora não necessariamente caras, ao longo de todo o ciclo de investimento: melhor prospecção, melhor gestão e melhor mensuração. Veja como isso funciona na prática:
Melhor prospecção
Adotar uma visão sistêmica do impacto leva a uma prospecção mais qualificada de investimentos capazes de gerar impacto genuíno, adicional e sustentável. Compreender como as empresas avaliadas se inserem nos mercados em que atuam e de que forma um investimento pode, ao mesmo tempo, enfrentar restrições da empresa e do próprio mercado permite aos gestores de ativos tomar decisões melhores.
- A estratégia de investimento e de impacto passa a ser orientada pela análise de mercado, e não apenas pela análise financeira e pela triagem ESG. A análise de mercado identifica as principais restrições de capital e não relacionadas a capital que afetam a capacidade das empresas investidas de alcançar o impacto de desenvolvimento pretendido. Também permite identificar as mudanças necessárias na prestação de serviços ou no comportamento do mercado para que os resultados sejam duradouros e, a partir disso, determinar a forma mais eficaz de combinar capital e apoio não financeiro. Essa análise pode ser realizada no nível de um país, de um setor ou de um investimento específico. Ela ajuda a contextualizar de maneira mais abrangente as trajetórias de impacto, isto é, os vínculos causais entre os aportes financeiros e não financeiros e os diferentes resultados produzidos.
- A avaliação dessas trajetórias nas etapas preliminares e formais de devida diligência deve ser mais abrangente e concentrar-se na maximização da criação de valor, e não apenas na mitigação de riscos. A devida diligência passa a identificar riscos e oportunidades sistêmicos na cadeia de suprimentos, na prestação de serviços associados a funções de apoio essenciais, nas normas sociais e nas regulações formais que influenciam a probabilidade de o investimento gerar impacto.
- As considerações sobre adicionalidade financeira e adicionalidade de impacto são priorizadas. Os gestores de ativos reúnem informações suficientes sobre outras fontes de capital disponíveis, bem como sobre a necessidade e a relevância daquele investimento específico, para avaliar sua adicionalidade financeira. Ao mesmo tempo, o potencial de contribuição do gestor de ativos é analisado à luz dos indicadores-chave de desempenho de impacto, da linha de base e do histórico de crescimento, de modo a permitir uma avaliação significativa da adicionalidade de impacto.
Melhor gestão
Adotar uma visão sistêmica do impacto deve ajudar os gestores de ativos a compreender que tipos de contribuição são necessários para maximizar os retornos financeiros e de impacto. Em alguns casos, o blended finance pode ter um papel importante. A assistência técnica costuma ser usada de forma linear, simplista e excessivamente centrada na empresa, por exemplo, para elaborar documentos, assegurar conformidade e realizar pesquisas de mercado. Ajustar esse apoio a uma visão sistêmica do impacto pode permitir que investimentos relativamente pequenos catalisem mudanças mais amplas. Esses investimentos podem estar além do apetite de risco de um gestor de ativos ou de uma empresa do portfólio, mas ainda assim favorecer uma adoção mais disseminada de inovações. No entanto, a contribuição da abordagem de sistemas enxutos para uma melhor gestão dos investimentos não se limita às estruturas de assistência técnica. Seu objetivo é assegurar que todas as formas de apoio oferecidas pelo gestor à empresa do portfólio, além do capital, estejam alinhadas à maximização do retorno de impacto. Exemplos de diferenças práticas incluem:
- O apoio às empresas investidas e a assistência técnica concentram-se na maximização da criação de valor no mercado, e não apenas no aprimoramento dos sistemas internos da empresa do portfólio (como gestão financeira, governança, inclusão nas posições de liderança e políticas internas). Embora essas medidas possam fortalecer a capacidade da empresa de gerar impacto, essa relação raramente é validada.
- O papel do gestor de ativos nos esforços de criação de valor é reconhecido de forma explícita. O acordo de investimento não deve impor à empresa do portfólio exercícios meramente formais de cumprimento de requisitos, mas prever atividades relevantes, alinhadas às trajetórias de impacto e implementadas conjuntamente.
- O gestor de ativos e a empresa do portfólio se relacionam com atores de mercado que estão além da empresa, mas são relevantes para as trajetórias de impacto específicas. Dependendo de sua função na geração do impacto sistêmico pretendido, esses atores podem incluir fornecedores, prestadores de serviços, órgãos reguladores ou associações setoriais. Por exemplo, uma empresa do portfólio que atua no processamento de alimentos pode pressionar o governo pela redução da tarifa de importação de fertilizantes, ainda que não use diretamente esse insumo. A medida pode ser importante para pequenos produtores rurais, que são fundamentais para a rentabilidade da empresa e para sua teoria da mudança orientada ao impacto. Essa não é uma ação que beneficia diretamente a empresa, muito menos de forma preferencial em relação aos concorrentes. Ainda assim, se bem-sucedida, pode fazer sentido econômico para a empresa ao mesmo tempo que gera impacto em toda a cadeia de suprimentos e também nas cadeias de outras empresas do setor.
Melhor mensuração
Adotar uma visão sistêmica do impacto significa concentrar-se em adicionalidade, sustentabilidade e escala. Os métodos variam e devem ser adequadamente dimensionados: quanto maior a alegação de impacto, maior deve ser o ônus da prova. O mais importante, porém, é olhar para além da empresa e formular as perguntas corretas. Na prática, isso pode incluir:
- Registrar mudanças tanto no nível da empresa do portfólio como no sistema mais amplo. Isso permite avaliar a validade e a relevância do impacto observado na empresa e identificar mudanças positivas e negativas mais amplas desencadeadas pelo investimento.
- Definir uma teoria da mudança bem articulada, que estabeleça uma relação clara entre entregas (como acesso), resultados (como uso e mudança de comportamento), e impacto (entendido como benefício). Essa teoria também deve demonstrar como as atividades específicas realizadas pela empresa do portfólio e pelo gestor de ativos contribuíram para essas mudanças, com medidas que permitam avaliar adicionalidade e atribuição. Por exemplo, um fundo pode investir em uma plataforma de dinheiro móvel que incorpora novos usuários. Uma teoria da mudança sistêmica deve examinar se essas pessoas efetivamente usaram a plataforma e que benefícios obtiveram com isso. Qual foi o impacto sobre os comerciantes, que agora contam com uma nova base de clientes, e sobre seus fornecedores, cujas vendas aumentaram em consequência disso? De que maneira outras plataformas de serviços financeiros móveis e provedores tradicionais de serviços financeiros foram afetados positivamente?
- Reduzir a dependência de dados autodeclarados pelas empresas do portfólio e introduzir mecanismos de triangulação por meio de fontes secundárias e do diálogo com atores mais amplos do mercado. Por exemplo, caso seja realizado um investimento na primeira plataforma de ensino superior a distância de um país voltada a áreas rurais, o fundo pode acompanhar o surgimento de outras plataformas semelhantes e investigar se existem relações plausíveis entre esses movimentos. Considerando um cenário negativo para o mesmo investimento, se o crescimento da plataforma e a chegada de novos estudantes tiverem provocado o fechamento de plataformas concorrentes em proporção equivalente, o benefício será marginal, e não absoluto. Nesse caso, é preciso perguntar: o que esses estudantes passaram a receber que não obtinham nas plataformas anteriores?
O padrão de investimento de impacto sistêmico
A última coisa de que o investimento de impacto precisa é de mais um padrão, princípio, diretriz ou norma. Ainda assim, foi exatamente isso que criamos, de forma consciente e com um propósito claro.
O Padrão de Investimento de Impacto Sistêmico (ou SIIS, da sigla em inglês para Systemic Impact Investing Standard) desenvolvido pela Agora Global e pelo Bertha Centre da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, coloca o impacto sistêmico no centro e oferece um padrão passível de auditoria para avaliar em que medida a prospecção, a gestão e a mensuração realizadas por um gestor de ativos estão alinhadas à geração desse impacto. Em cada uma dessas áreas, avalia-se se as práticas do gestor demonstram esse alinhamento por meio do compromisso inicial assumido (propósito), das medidas práticas adotadas para colocá-lo em funcionamento (processos) e das evidências de que esses processos foram implementados de forma eficaz (comprovação).
- Propósito: definido, por exemplo, nas estratégias de investimento.
- Processos: a forma como são desenvolvidas as oportunidades de investimento, como são geridas as empresas do portfólio e quais práticas de mensuração são adotadas.
- Comprovação: evidências de que esses processos foram implementados e estão gerando impacto sistêmico.
O trabalho de padronização realizado nos últimos dez anos no ecossistema das finanças sustentáveis e do investimento de impacto concentrou-se na gestão de riscos ambientais, sociais e de governança, como no caso do ISSB; na orientação sobre como integrar o impacto ao longo do processo de investimento, como nos Princípios Operacionais para a Gestão de Impacto; na classificação harmonizada dos impactos, como propõe a Impact Frontiers; ou no enfrentamento de questões específicas, como diversidade, por meio do 2X Challenge, e mudanças climáticas, por meio da TCFD e da SBTi. Outras iniciativas ofereceram orientações para mensuração, com catálogos de métricas harmonizadas, como o IRIS+, ou abordagens de modelagem, como o Joint Impact Model. Embora esses instrumentos sejam úteis, existem vários problemas em sua finalidade e em sua implementação que os tornam inadequados para a geração de impacto sistêmico. Os padrões e, sobretudo, as normas procuram, por definição, promover melhorias graduais em práticas amplamente difundidas. Gerar impacto sistêmico exige uma mudança de paradigma, além de mecanismos para auditar e reconhecer aqueles que investem na transformação desse paradigma.
Conclusão
Retomamos a preocupação apresentada no início: como o campo do investimento de impacto pode evitar um desastre? O primeiro passo é tratar o impacto com honestidade. O segundo é reconhecer e colocar em prática o papel dos diferentes atores em sua geração. Os proprietários de ativos precisam ser criteriosos ao decidir onde alocar seus recursos, de modo a criar incentivos para uma geração de impacto mais eficaz. Talvez também precisem aceitar custos mais elevados, taxas de gestão maiores ou riscos adicionais, mas não sem considerar o nível de impacto genuíno produzido. Por fim, podem ter de desempenhar um papel de articulação, reunindo outros atores do ecossistema, inclusive para o desenvolvimento de instrumentos de blended finance.
Os gestores de ativos precisam responder aos incentivos criados pelos proprietários de ativos. Devem reconhecer que seu papel não é exclusivamente fiduciário e adaptar suas práticas, desde a prospecção até a mensuração, para gerar impacto sistêmico. Já as empresas do portfólio precisam concentrar-se naquilo que fazem melhor: criar e ampliar modelos de negócio inovadores capazes de enfrentar desafios de desenvolvimento em larga escala.
É necessário mudar as práticas: prospectar oportunidades melhores e de maior impacto; gerir ativamente tanto o impacto quanto o desempenho financeiro; e mensurar aquilo que realmente importa, com atenção à adicionalidade e às externalidades. Tudo isso exige uma perspectiva de impacto sistêmico, capaz de analisar os investimentos e o impacto que produzem no contexto dos sistemas em que as empresas do portfólio operam.
*Texto publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “Why Impact Investing Might Collapse and How to Stop It”.









