As ruas estreitas de Fundão têm um ar de antiguidade. Durante décadas, essa pequena cidade de 27 mil habitantes no centro de Portugal passou por um declínio gradual. Desde 1960, sua população foi reduzida quase pela metade, à medida que moradores partiam para cidades maiores em busca de trabalho, um padrão que reflete tendências nacionais. Entre 2010 e 2020, a população de Portugal caiu de cerca de 10,6 milhões para 10,4 milhões, marcando a primeira queda significativa desde o fim do regime autoritário, na década de 1970.
Fundão, no entanto, traçou um caminho diferente. No centro de apoio a migrantes localizado nos arredores da cidade, a diretora Filipa Batista explicou como as autoridades locais passaram a encarar a migração não como um fardo, mas como parte de uma estratégia mais ampla para recuperar áreas agrícolas abandonadas. Essa mudança veio acompanhada de investimentos em infraestrutura de ordenamento territorial. Sem manejo adequado das terras, aumenta o risco de incêndios florestais, um perigo intensificado pelos eventos climáticos extremos dos últimos anos.
Batista já seguiu a trajetória migratória que hoje ajuda a coordenar. Ela cresceu em Fundão, depois foi cursar universidade e trabalhar em Lisboa e passou dois anos em Barcelona. Foi atraída de volta à cidade natal para ajudar a liderar o centro de migração ao lado do prefeito de longa data de Fundão, Paulo Fernandes.
Fernandes, de 54 anos, tem sido uma força progressista na política local desde que entrou na vida pública, em 2002. Antes de integrar a câmara municipal, cofundou uma associação de produtores florestais voltada ao desenvolvimento integrado. “Cada vez mais, as questões são decididas em múltiplas escalas: local, regional, nacional, europeia e global”, diz ele. A formação em relações internacionais reforçou sua convicção de que políticas eficazes precisam estar enraizadas nas especificidades de cada lugar. Em Fundão, ele tem lutado por preços justos para os produtores de cerejas da região e defendido a imigração como um componente central do futuro da cidade.
Em 2016, Fundão começou a engajar trabalhadores sazonais e moradores locais em prol da premissa de que sustentar a renomada produção de cerejas da cidade – responsável por metade da colheita de frutas de caroço de Portugal – exigia não apenas alta produtividade agrícola, mas também práticas trabalhistas justas e oportunidades educacionais. Para isso, uma associação agrícola firmou parceria com autoridades locais para desenvolver e implementar boas práticas.
Dois anos depois, em 2018, a cidade ampliou essa abordagem em resposta a uma crise humanitária no mar. Naquele verão, o Aquarius, um navio de busca e salvamento operado pelas organizações SOS Méditerranée e Médicos Sem Fronteiras, resgatou 629 migrantes no mar Mediterrâneo, mas teve a entrada negada pela Itália e por Malta. A Espanha permitiu que o navio atracasse, e Portugal se ofereceu para receber algumas dezenas das pessoas que estavam a bordo. No mesmo ano, a Organização Internacional para as Migrações registrou mais de 2 mil mortes de migrantes nas rotas do Mediterrâneo em direção à Europa.
Em uma medida pouco usual, Fundão foi além, firmando um acordo bilateral com a ilha de Lampedusa, na Itália, um dos principais pontos de chegada de migrantes na Europa. Fundão tornou-se uma das primeiras cidades em Portugal a aderir à Carta de Lampedusa, iniciativa local que defende o “direito de migrar” dos refugiados e a descriminalização da migração. A cidade também estabeleceu um centro de migração no antigo campus do Seminário Menor do Fundão, uma instituição católica que encerrou suas atividades em 2014. O local tem capacidade para até 230 residentes de curto prazo e funciona como um polo de integração na comunidade local. Como afirmou o prefeito, qualquer pessoa que chega a Fundão torna-se um fundanense – um local.
Uma ponte para migrantes
A imprensa portuguesa descreveu o acordo de Fundão com Lampedusa como uma ponte entre a “porta da Europa” e o “coração do interior”. Nessa interpretação, a migração era um processo compartilhado por ambas as extremidades dessa ponte. A mídia italiana apresentou a iniciativa como um possível projeto-piloto para a Europa em geral, destacando a rara disposição de Fundão em se afastar da retórica predominante da “fortaleza Europa”.
Sob o acordo, autoridades de Fundão visitaram Lampedusa para estudar técnicas de atendimento inicial, enquanto seus equivalentes italianos foram a Fundão para analisar seu modelo de integração de longo prazo. Entre 2018 e 2025, o programa recebeu refugiados de mais de 70 países, ajudando-os a obter moradia, emprego, capacitação e a documentação necessária para participar do que as autoridades descrevem como um “ecossistema saudável”. Até o final de 2025, Fundão havia auxiliado cerca de 4 mil pessoas, ou quase 20% da população da cidade.
Em maio de 2025, Batista me mostrou o centro de apoio a migrantes, que na época abrigava uma dúzia de recém-chegados. Perguntei se havia resistência por parte dos moradores locais. “Não, as pessoas aceitam”, respondeu ela. “Precisamos de pessoas.” Como exemplo, citou a casa de repouso para idosos da cidade: de toda a equipe do turno da noite, apenas um trabalhador era português. “Eles têm enfermeiros, médicos e assistentes sociais de várias nacionalidades”, disse. “Nós precisamos deles.”
Os serviços de acolhimento são abrangentes. Um programa chamado “Bem-vindos à escola!” ajuda novas famílias a se estabelecerem e suas crianças a se adaptarem ao ambiente escolar. Gerido pelo Serviço de Psicologia e Orientação, o programa tem como objetivo fortalecer habilidades sociais e interpessoais, a fim de reduzir o isolamento e incentivar a participação ativa. Segundo Batista, o Ministério da Educação reconheceu a iniciativa como uma boa prática em escolas de todo o país e o incorporou à rede Portugal Inovação Social, um projeto governamental para promover a inovação social em nível nacional.
Outra iniciativa capacita servidores municipais que lidam com recém-chegados em serviços sociais e financeiros, educação e saúde. Mesmo que você fale apenas português, mas queira ajudar migrantes, “nós temos um processo”, diz Batista. Lançado em 2024, um curso oferecido em parceria com uma universidade próxima fornece informações jurídicas e ferramentas de tradução prontas para uso. Parte de um programa-piloto regional de dois anos, o curso havia treinado cerca de 200 funcionários públicos até o início de 2026. Ex-alunos criaram um grupo no WhatsApp para apoiar servidores em 20 municípios, do sul ao norte de Portugal. “Todos os dias nos conectamos uns com os outros”, conta Batista. “Imagine alguém no Algarve pedindo ajuda a alguém no Porto.”
Conexões rurais sem fio
Nos arredores de Fundão, em frente ao antigo seminário transformado em centro de migração, fileiras de cerejeiras se estendem em espaldeiras. Pedro Fians, consultor de agrotecnologia, chama atenção para elas. “Somos o maior produtor de cerejas do país, então queríamos plantar cerejas aqui por causa da sua importância”, diz. O local também exibe equipamentos com sensores para monitorar pragas e a saúde das plantas.
Embora as cerejas sejam motivo de orgulho local, elas continuam ameaçadas pela escassez de trabalhadores rurais e pela intensificação das mudanças climáticas.
Sara Otero, responsável por programas rurais da Fundação Aga Khan, pontua a dimensão dos desafios rurais de Portugal. Desenhando rapidamente um mapa, indica a região central do país, uma faixa longa e pouco povoada que se estende de norte a sul. Nas últimas décadas, “perdemos 60% das pessoas nessa região”, conta. O resultado é um mosaico de terras abandonadas e registros de propriedade fragmentados. Áreas florestais sem manejo acumulam uma vegetação rasteira que se torna combustível para incêndios. Com as mudanças climáticas, apenas alguns dias extras de calor e seca por ano são suficientes para aumentar o risco de incêndios incontroláveis.

Programas anteriores da Fundação Aga Khan em Portugal ajudaram comunidades migrantes a acessar educação infantil e serviços de saúde, estabelecendo as bases para uma abordagem de revitalização rural centrada nas pessoas, e não apenas na terra, diz Otero. Ao ampliar o acesso a esses serviços, o programa incentiva os recém-chegados a abraçar a vida no campo.
Fundão combinou essa abordagem focada nas pessoas com investimentos em tecnologia e gestão territorial. Fians descreveu uma iniciativa, como a rede wi-fi aberta para todos no município. A rede de longo alcance oferece conectividade confiável e de baixo consumo energético em uma área de 700 quilômetros quadrados. Embora não seja projetada para uso intensivo de dados, como compartilhamento de imagens, ela conecta de forma eficiente usuários a sensores e sistemas de irrigação espalhados pelo terreno montanhoso.
A rede wi-fi também dá suporte à pecuária. Fians mostrou uma coleira verde projetada para se ajustar levemente ao pescoço de uma cabra. “Todas elas se conectam ao wi-fi local, em vez de os pastores precisarem pagar a operadora de telefonia”, explicou. As coleiras coletam informações de saúde e monitoram a ingestão de pastagem, fornecendo aos produtores dados em tempo real sobre seus animais.
Enquanto subíamos uma encosta íngreme até o pasto municipal em sua caminhonete, Fians descrevia o programa de capacitação para queijeiros. Fundão fez parceria com a Fundação Aga Khan para revitalizar as tradições locais de pastoreio, ao mesmo tempo que introduz métodos atualizados de manejo de áreas de pastagem natural, técnicas de produção e gestão de negócios. Queijos locais premiados, como o Castelo Branco – feito com uma mistura de leite de ovelha e de cabra –, contam com certificação de Denominação de Origem Protegida (DOP) desde 1996. O programa de capacitação busca atrair novo ânimo de migrantes e recém-formados e é chamado de Pastores Queijeiros 4.0, nome que soa mais como uma startup do que como uma iniciativa de capacitação rural.
Com um subsídio da União Europeia, o Programa de Transformação da Paisagem ajudou gestores a acabar com a monocultura de pinheiro intercalando as plantações com vinhedos, campos de morango e oliveiras. Uma vez que o fogo se propaga mais facilmente em culturas homogêneas, as plantações mistas funcionam como “lombadas” naturais, retardando o avanço das chamas.
No topo da montanha, Fians me apresentou aos membros do rebanho municipal de cabras e ao cão de pastoreio. Quando o primeiro grupo de aprendizes de queijeiro concluiu o curso de dois meses naquele verão, cada um dos seis formandos recebeu algumas cabras para começar.
Fernandes deixou o cargo de prefeito no final de 2025, após atingir o limite legal de mandatos, embora seu partido ainda tenha vencido a eleição. Mas a onda anti-imigração em toda a Europa também chegou a Portugal. Em janeiro de 2026, Batista informou que o protocolo de Lampedusa não estava mais em vigor, já que Portugal optou por “contribuir financeiramente em vez de realocar solicitantes de asilo” no âmbito do Pacto da União Europeia sobre Migração e Asilo. Por meio de um mecanismo de “solidariedade” para o compartilhamento de responsabilidades entre os Estados-membros, Portugal pagaria 8,44 milhões de euros (R$ 50 milhões) em vez de acolher 420 requerentes de asilo.
No segundo semestre de 2025, eventos climáticos extremos castigaram a região, provocando incêndios florestais perigosos, seguidos por inundações severas em dezembro. Batista me enviou uma mensagem informando que o centro de migração estava servindo refeições, oferecendo abrigo e apoiando as pessoas deslocadas.
Depois de uma década, Otero vê a abordagem dupla de Fundão – que concilia gestão migratória e territorial – como um modelo para respostas nacionais e internacionais às mudanças climáticas. A comunidade representa um microcosmo do sul da Europa, adotando novas maneiras de lidar com esses desafios.
“Isso é muito importante”, insiste Otero. “Juntos, sabemos que somos capazes de fazer isso, e essa iniciativa pode se espalhar ainda mais pelo mundo.”









