Na biblioteca delas, o futuro de todos

A iniciativa de um estado indiano para criar bibliotecas geridas por mulheres oferece a estudantes – especialmente meninas – um espaço seguro para estudar 

Foto de uma jovem usando roupa tradicional indiana na cor laranja, sentada em um escritório enquanto mexe no computador
Rina Kumari trabalha na biblioteca Didi ki no vilarejo de Kulharia, no distrito de Bhojpur, em Biar
Foto de Anuja

Rina Kumari, hoje com 31 anos, se casou apenas alguns dias após conhecer o resultado de suas provas do 10º ano [equivalente ao 9º ano do ensino fundamental no Brasil]. Ela queria continuar estudando, mas a saúde frágil do pai e o “fardo” de precisar casar as cinco filhas, como ele e outras pessoas se referiam, não lhe deixaram muita escolha além de aceitar o casamento. Isso a entristeceu, mas não a surpreendeu. Criada em um vilarejo no estado de Biar, no leste da Índia, ela vira muitas outras meninas abandonarem a escola cedo.

Quase 15 anos depois, seu passado transformou-se em seu propósito.

Depois de uma longa pausa, e com o incentivo do marido, Kumari concluiu os estudos e obteve um diploma de bacharelado. Também trabalhou em empregos informais para financiar a educação dos três filhos. Em 2016, passou a integrar um grupo local de ajuda mútua, o que a levou, em 2023, a um emprego de gestão em uma Biblioteca Didi ki (“biblioteca das irmãs”) no vilarejo de Kulharia, no distrito de Bhojpur, em Biar.

“Decidi cedo na vida que, se algum dia eu estivesse em uma posição que me permitisse ensinar crianças de graça, eu faria isso”, diz Kumari, vestida com um sari laranja, enquanto trabalha em seu laptop na biblioteca. “Os estudantes que vêm aqui me chamam de Vidya Didi [irmã do conhecimento], e isso me deixa muito orgulhosa.”

A iniciativa de bibliotecas Didi ki faz parte do Centro de Bibliotecas Comunitárias e Desenvolvimento de Carreira (CLCDC, na sigla em inglês), um programa do governo de Biar. A primeira biblioteca foi inaugurada em fevereiro de 2023, e agora já existem 117 delas em 33 distritos.

O programa CLCDC é implementado pelo Jeevika, um projeto de desenvolvimento rural apoiado pelo Banco Mundial que articula e administra mais de 1 milhão de grupos de ajuda mútua em Biar. As mulheres desses grupos, conhecidas localmente como Jeevika Didis, conceberam, desenharam e administram as bibliotecas.

Biar fica atrás de outros estados da Índia na maioria dos indicadores socioeconômicos, com baixas taxas de alfabetização e a maior pobreza multidimensional do país. A alfabetização melhorou nos últimos anos, mas a desigualdade de gênero na educação, especialmente nas áreas rurais, ainda é grande.

Nas zonas rurais, onde vive quase 84% da população do estado, a taxa de alfabetização masculina é de 81,5% e a feminina, de 65%. A forte estratificação de castas também prejudica estudantes de origens mais pobres e rurais.

A iniciativa Didi ki coloca as mulheres no centro da transformação de um setor no qual elas foram, historicamente, deixadas para trás. As bibliotecas gratuitas oferecem um espaço seguro de estudo, com acesso físico e digital ao conhecimento, orientação profissional por meio de webinars e interações com especialistas. 

As bibliotecas

Em um bairro tranquilo de Kulharia, há uma construção térrea pintada de rosa e janelas azuis, uma das muitas bibliotecas Didi ki de Biar. As bibliotecas geralmente são instaladas em prédios públicos ociosos. A unidade de Kulharia ocupa um espaço de dois cômodos, agora equipados com móveis, um laptop, uma impressora, acesso à internet e backup de energia.

A primeira sala tem fileiras de mesas e cadeiras para estudos, além de murais com os anúncios mais recentes de exames estudantis. A segunda abriga mais de 800 livros, jornais diários e revistas organizados em armários.

Na biblioteca Didi ki do vilarejo de Amhara, a bibliotecária Archana Kumari, de 34 anos, aponta com orgulho para um projetor na sala de leitura. A proximidade com Patna, capital do estado, e com um campus do Instituto Indiano de Tecnologia atrai muitos candidatos que se preparam para realizar provas e concursos.

Archana fala com desenvoltura sobre exames de admissão, processos seletivos para vagas de emprego e bolsas de estudo. Ela recebe essas informações por meio do sistema centralizado do Jeevika e as compartilha com os estudantes na biblioteca ou em grupos de WhatsApp que ela mesma criou. A bibliotecária dá atenção especial a programas para mulheres que retornam aos estudos após uma interrupção e para estudantes de origens desfavorecidas.

“Todos esses são programas governamentais existentes, e os estudantes podem preencher os formulários por conta própria”, diz Archana. “No entanto, para aqueles que são os primeiros da família a buscar educação formal e não têm ninguém para ajudar em casa, ter uma pessoa de referência como eu faz toda a diferença.”

Tanto Archana como Rina, responsáveis pela gestão dessas bibliotecas e que trabalham nelas desde 2023, recebem uma remuneração mensal de cerca de US$ 70 [R$ 360].

foto de uma porta de entraga em tons amarelos e laranja, com placas com dizeres em língua estrangeira
A entrada da biblioteca Didi ki no vilarejo de Amhara, no distrito de Patna, em Biar. Foto de Anuja

Cada biblioteca financiada pelo governo estadual custa cerca de US$ 6.700 [R$ 34 mil] para ser instalada; as primeiras cem foram parcialmente financiadas pelo Banco Mundial por meio do Jeevika. Os custos anuais de operação, de US$ 1.350 [R$ 7 mil] por biblioteca, são em geral cobertos por um fundo separado gerido pela comunidade.

Himanshu Sharma, CEO do Jeevika e funcionário público sênior, afirma que o impacto real das bibliotecas está em combinar espaço físico de aprendizagem com acesso à informação digital. Segundo ele, a maioria dos estudantes de áreas rurais não tem mentores e, apesar da vontade de estudar, muitas vezes não sabe qual caminho profissional seguir.

“Se os estudantes tiverem bons mentores e orientação, a tomada de decisões se torna mais fácil e sua capacidade de assumir riscos também aumenta”, diz ele. “Isso, considero, é a maior mudança que essas bibliotecas trouxeram. Estudantes, especialmente meninas de áreas rurais, estão nutrindo aspirações maiores e ganhando confiança para ter um bom desempenho.”

Os estudantes

Segundo dados do Jeevika de outubro de 2025, as bibliotecas têm mais de 123 mil membros registrados, sendo 61% mulheres, e um fluxo diário de 5 mil a 7 mil estudantes. Mais de 15 mil receberam orientação profissional.

Várias estudantes dos vilarejos de Kulharia e Amhara disseram que suas famílias “permitem” que estudem na biblioteca Didi ki porque fica perto de casa, é gratuita e administrada por mulheres, o que a torna, aos olhos delas, um “espaço seguro”.

Lakshmi Kumari, estudante da 12ª série [equivalente ao 3º ano do ensino médio no Brasil], mora em uma casa de três quartos com 16 familiares. “Minha casa é sempre barulhenta. Não importa onde eu sente para estudar, é sempre muito barulho, até mesmo no terraço”, conta Lakshmi, que soube da biblioteca por meio de uma professora de sua escola. “Quando você vê todo mundo estudando aqui, não tem outra opção a não ser estudar também.”

Sua colega de classe, Urmila Kumari, conta que a mãe administra uma pequena loja de cosméticos no quintal de casa. “Sempre que estudo em casa, minha mãe me chama para ajudá-la na loja. É impossível me concentrar, então venho aqui com frequência”, diz ela. Urmila, que se descreve como uma estudante “abaixo da média”, afirma que suas notas melhoraram significativamente desde que começou a usar a biblioteca. Ambas frequentam a biblioteca administrada por Rina em Kulharia.

“Essa iniciativa combate dois obstáculos fundamentais na educação: a ausência de uma rede forte de colegas e a falta de um espaço seguro”, afirma Nishith Prakash, professor de políticas públicas e economia na Universidade Northeastern, em Boston, nos Estados Unidos. “Vejo isso como um começo. Os estudantes agora têm um lugar para estudar ao lado de colegas motivados, e minha esperança é que essa aspiração compartilhada leve muitos deles à universidade. Se esse esforço for sustentado, devemos ver efeitos claros no capital humano nos próximos anos.”

Prakash, que é de Biar, visitou uma biblioteca Didi ki no ano passado e ficou “agradavelmente surpreso” com o que encontrou.

Impacto e expansão

O principal objetivo do programa CLCDC é usar a educação para quebrar o ciclo de pobreza intergeracional nos lares vinculados aos grupos de ajuda mútua. Para isso, as bibliotecas oferecem webinars, workshops, treinamento de conversação em inglês e apoio para exames de seleção a empregos e ao ensino superior.

Três anos depois, os resultados começam a aparecer. Segundo o Jeevika, 174 estudantes foram admitidos em instituições de ensino superior de destaque, incluindo a Universidade de Déli, e 146 foram selecionados para vagas de emprego, como cargos na força policial do estado.

Prakash observou que falta na iniciativa um acesso mais regular a especialistas e pesquisadores que compreendam as realidades locais do mercado de trabalho e possam oferecer orientação profissional formal.

“A expansão com mais orientadores de carreira e educacionais será desafiadora, principalmente por restrições financeiras”, comenta ele. “No entanto, muito pode ser resolvido com o uso estratégico da tecnologia, e eles já começaram a fazer isso.”

Biar tem quase 8 mil gram panchayats, ou conselhos comunitários, e Sharma afirma que o objetivo é, no futuro, ter pelo menos uma biblioteca Didi ki em cada um deles.

“Nossa maior limitação é que temos apenas 117 no momento. Nossos recursos financeiros, entre outros obstáculos, são um desafio importante. Fornecer recursos educacionais de alta qualidade é, por si só, um grande desafio”, diz ele. Sharma acrescenta que há planos em andamento para expandir os recursos digitais, realizar webinars regulares com especialistas e garantir mais financiamento.

As bibliotecas também promovem a educação de mulheres vinculadas aos grupos de ajuda mútua, em parceria com instituições de ensino aberto e a distância, ajudando aquelas que abandonaram os estudos a retornar ao sistema educacional formal.

Um exemplo é Neelam Devi, de 41 anos. Ela visitou a biblioteca de Amhara para pedir informações sobre um programa do governo estadual que poderia ajudá-la a concluir os estudos, quase 24 anos depois de ter abandonado a escola.

“Parei de estudar porque me casei. Agora meus filhos estão indo para a faculdade. Será que eu deveria me sentar ao lado deles e preencher formulários? Quero concluir meus estudos, mas não estou muito confiante”, revela Devi, olhando esperançosa para Archana.

“Não precisa se preocupar: estamos aqui para te ajudar em todas as etapas. A conclusão dos estudos é uma conquista importante. Você precisa atravessá-la para ver como é a vida do outro lado”, responde Archana com um sorriso, conduzindo-a até um laptop para preencher um formulário.

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Autor(a)

Anuja

Anuja é jornalista independente, baseada em Nova Déli. Cobre políticas públicas, migração, trabalho, gênero e economia informal.

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