Meses atrás, conheci alguém que acabara de passar pela experiência terrível de perder uma familiar amada em um atentado a tiros de repercussão mundial. Na esteira da tragédia, ele escreveu uma declaração de propósito e valores para honrar a memória dela. Sua dúvida era como reverter as intenções em ação, em algo que perdurasse.
Essa declaração foi muito mais humana e admirável do que qualquer postagem viral no LinkedIn ou relatório estilizado de fundação – o que talvez não surpreenda. Ainda assim, me chamou atenção quão pouco sua visão e suas ambições, de caráter comunitário e humanitário, tinham a ver com escala, influência, poder, impacto coletivo ou qualquer outra tendência filantrópica ou palavra da moda do momento. Isso me abriu os olhos e enterneceu meu coração.
Entre as muitas qualidades da pessoa que ele amava estava sua bela disciplina do cuidado. Toda noite ela se perguntava “o que mais posso fazer por alguém?”, e então o fazia antes de ir se deitar. Inspirado por essa atitude, fiquei de enviar-lhe um e-mail até o final do dia seguinte. Prometi que faria uma lista de intenções filantrópicas para sua reflexão, delineando os diversos motivos pelos quais as pessoas doam e como noções distintas de sucesso orientam diferentes cartilhas de orientações para doação. Chegar a esse esboço foi mais difícil do que eu esperava. Supus que encontraria uma variedade de tipologias desse tipo, impressas ou online. No entanto, depois de passar a noite em claro pesquisando e de consultar colegas da teoria e da prática filantrópica, entendi que, se eu quisesse manter minha promessa, teria de criar uma do zero.
A declaração de propósito do meu novo amigo trouxe à tona uma maneira mais completa e instigante para se pensar sobre sucesso, seja o pretendido por doadores comuns ou por grandes fundações, embasada nas intenções que motivam o ato de doar. Essas intenções refletem impulsos humanos duradouros (as virtudes e as leviandades); nossas relações, comunidades e sentimentos de identidade; a riqueza e a diversidade de nossos preceitos culturais e tradições religiosas. A lente das intenções aplicada à doação espelha melhor como o mundo funciona e oferece uma visão mais coerente, ambiciosa e pluralista da filantropia, em um momento em que suas ideologias, teorias de impacto e – por que não? – deduções fiscais foram postas em xeque.
Ao pressionar o botão de “enviar”, pensei que nosso campo precisa urgentemente se fazer a mesma pergunta que havia motivado todo o exercício. Depois de um ano de profundas perturbações no setor sem fins lucrativos, agora é hora de perguntar: “O que mais podemos fazer?”.
Nossas muitas razões para doar
“Der mentsh trakht, un G-t lakht,” diz um ditado iídiche. “O homem faz planos e D’us ri.” Nos dias atuais, essa expressão de ironia e resiliência se encaixa bem a fundações, instituições sem fins lucrativos e ONGs nos Estados Unidos. Muitos de nossos mais detalhados planos e teorias de mudança ruíram à medida que o governo federal se tornava um parceiro instável, paulatinamente retirando seu apoio. Organizações sem fins lucrativos enfrentam agora uma crise financeira, o setor vê as demissões se espalharem e as comunidades estão vulneráveis.
Diante dessa dura realidade, fica mais difícil seguir com a abordagem de mudança social que, por uma geração, dominou o pensamento de muitos financiadores: o modelo de transferência de programas ao governo para ganhar escala. A essência dessa metodologia é simples: a filantropia semeia a inovação; o governo a faz crescer. Quando funciona, é uma solução elegante. Vacinas alcançam milhões de pessoas, a fome é aliviada, amplia-se a educação pré-escolar, e iniciativas antes dependentes de doações se tornam serviços públicos. Mas se o governo abandona o barco, o modelo desmorona, e resta às organizações sem fins lucrativos e comunidades remediar os danos.
Para os críticos, pode ser tentador culpar a arrogância: fundações pensam saber o que funciona e têm a audácia de usar milhões de dólares para tentar reorientar (“alavancar”) fundos públicos da ordem de bilhões. Há uma linha tênue, porém, entre a arrogância e o otimismo impaciente. Em áreas como a saúde universal, a expansão por meio do setor público ou privado continua sendo um objetivo crucial. (A ciência já estabeleceu que quanto mais crianças se vacinarem contra a poliomielite, melhor.) O modelo não é equivocado em si, mas o fato é que ele gerou uma monocultura moral que equipara “fazer o bem” a “ganhar escala” e “maximizar o impacto”. Escolas de pensamento inteiras, incluindo vários defensores do altruísmo eficaz, argumentam que esse não é apenas um objetivo louvável da filantropia, mas o único realmente defensável. O problema é que monoculturas são frágeis quando há mudança de condições e vulneráveis a choques como o que estamos vivendo.
Não é à toa que a ideia de “aumentar a escala” atrai grandes financiadores: com grandes riquezas vêm grandes responsabilidades. Se seus recursos podem bancar uma solução plausível para “resolver” a pobreza, a malária ou a fome, mas você apenas estampa seu nome em alas de museus (com direito a renúncia fiscal), talvez pudesse fazer melhor com sua doação e esteja ignorando um valor moral significativo. Argumentos semelhantes já apareceram em debates sobre doar para cozinhas comunitárias locais em vez de empregar recursos na distribuição de mosquiteiros contra a malária, ou para instituições de caridade religiosas em vez de movimentos populares.
A melhor forma de lidar com as muitas visões acerca da ação moral em uma democracia é aceitar que a nossa pode não ser a melhor e nos ajustarmos de acordo com as circunstâncias. Isso pode não ser fácil para quem entra no setor de impacto social
Mas vale refletir sobre os pressupostos embutidos nessa vertente de pensamento: sobre “resolver” problemas globais, doar em vez de acumular riqueza, o valor das instituições culturais e religiosas, a natureza da ação moral. É um bocado meshugá [maluco, em iídiche] pensar que existe um único jeito certo de fazer diferença. Segundo Moisés Maimônides, rabino e filósofo do século 12, há múltiplos tipos de tzedaká (caridade/justiça social). Os mais elevados são a doação anônima e formas de apoio que possibilitem a autossuficiência. É provável que nenhum deles tenha muito espaço em boa parte do discurso atual sobre mudança social, mas são centrais para a tradição judaica. Com todo o respeito a muitos amigos e colegas, acredito que nossa sabedoria moral não seja superior à de Immanuel Kant, Martin Luther King Jr., Confúcio, Jesus, Buda ou Maimônides, e essas tradições morais não estão aqui para tais classificações de poder.
O teólogo estadunidense Reinhold Niebuhr sugeriu que, em uma democracia, a melhor forma de lidar com as muitas visões acerca da ação moral é aceitar que a nossa pode não ser a melhor e nos ajustarmos de acordo com as circunstâncias. Isso pode não ser fácil para quem entra no setor de impacto social com fortes convicções sobre o que é certo e bom. Na ausência da moderação do pluralismo – no sentido de reconhecer e aceitar as diversas intenções morais de outras pessoas –, pode acontecer (e acontece com frequência) de nos transformarmos em um bando de detratores e críticos moralistas. Não é uma boa imagem e, como mostram manchetes recentes, também não tem sido inteligente e eficaz. Podemos melhorar.

Uma tipologia das intenções
Nos últimos anos, um movimento filantrópico influente vem ressaltando a construção e a partilha do poder, promovendo conceitos como “decolonização da riqueza” e práticas como grantmaking participativo e filantropia baseada em confiança. A intenção é (simplificando muito) transferir poder e recursos dos financiadores para os grupos e comunidades que, hoje ou historicamente, os perderam ou nunca os tiveram, de modo a permitir que definam as próprias prioridades e seu futuro. Sucesso, portanto, não se resume a alcançar uma determinada escala de impacto mensurável – depende de como o trabalho é feito e quem decide o quê.
Essa abordagem transformou campos como o desenvolvimento comunitário, em que os moradores estão em posição privilegiada para definir suas prioridades e necessidades quando se trata de ativos do bairro ou de segurança pública. Mas a mesma lógica sugere outra rota se a meta for desenvolver uma vacina para conter uma pandemia, caso em que o conhecimento científico e a rapidez são vitais. O ponto é que não há abordagem intrinsecamente certa ou errada. A tática adequada e a definição de sucesso dependem das intenções que norteiam a doação.
A filantropia estadunidense é movida por ao menos 13 intenções, cada uma com sua própria visão de sucesso e sua lógica moral a respeito do que é o bem. Depois de ter submetido várias versões dessa tipologia a profissionais da prática e da academia, cada intenção descrita se mostrou genuinamente distinta e universal o suficiente para ser relevante. Gostaria de ter chegado a uma lista menor, mas ao tentar combinar intenções, alguma coisa importante sempre acabava de fora.
Listei as 13 intenções, com suas definições, exemplos, estratégias e visões de sucesso, em um quadro (veja nas p. 44-45). Elas estão agrupadas em quatro famílias, que ilustram suas conexões: comunitária, transformativa, declarativa e humanitária. Percebi que essa classificação é melhor do que “instrumental” (tentar fazer algo) versus “expressiva” (tentar dizer algo), já que todo ato de doar possui ambas as dimensões, apenas em proporções diferentes. Não se trata de encaixar todo ato de doar em uma só categoria, mas de reconhecer a gama de intenções que impulsionam a doação – e apenas algumas delas conectam sucesso à escala.
É claro que as pessoas podem ter também motivações individualistas: enriquecimento pessoal, satisfação hedônica, favorecimento, relações públicas, limpar a reputação, até interesse próprio esclarecido. Um cínico até diria que essas são as intenções mais comuns. E talvez isso seja verdade. Mas pouquíssimas pessoas doam sem alegria, e “sucesso”, nesses casos, é algo bem simples e transparente, então preferi não me alongar aqui sobre esse ponto.
As 13 intenções da filantropia
A lista divide as intenções que orientam a filantropia nos Estados Unidos em quatro famílias: comunitária, transformativa, declarativa e humanitária.
Comunitária | “Queremos…”
1. Fortalecimento comunitário: Doar como forma de aumentar o pertencimento, a solidariedade e para uma identidade, religião, geografia ou experiência compartilhada.
2. Retribuir ou eternizar: Doar por gratidão, legado, memória ou para garantir que algo (um projeto, evento, lugar, princípio ou uma organização) perdure no futuro.
3. Construir e sustentar bens comuns: Doar para criar e preservar infraestrutura compartilhada, seja ela física (espaços públicos, instituições, bens culturais) ou relacional (confiança, normas, diálogo). O foco é gerenciar bens compartilhados (materiais, culturais ou cívicos) para ajudar as pessoas a viverem, crescerem e progredirem juntas.
4. Compartilhar alegria e celebração: Doar para impulsionar prazer, beleza, orgulho e celebração; menos motivada por crises ou por senso de justiça do que pelo impulso de viver a vida com alegria (mesmo em tempos difíceis).
Transformativa | “Esperamos…”
5. Acelerar avanços: Doar para impelir avanços (científicos, culturais, econômicos), resolver desafios técnicos estabelecidos ou abrir novas fronteiras de descoberta.
6. Enfrentar um grande problema: Doar para ajudar a enfrentar questões significativas, quase sempre sistêmicas, de amplo interesse e impacto (regional, nacional ou global). É onde as grandes fundações “tradicionais” costumam se concentrar.
7. Promover o florescimento humano: Doar em benefício da sociedade como um todo, impulsionando pesquisa, descoberta e criatividade nas ciências, nas artes, na cultura e/ou em outras empreitadas humanistas. Tem mais a ver com atividade e estímulo constantes do que com resultados quantitativos.
Declarativa | “Sentimos que devemos…”
8. Elevar valores: Doar para promover determinados princípios, valores, normas e mensagens culturais, morais ou profissionais, habitualmente por meio da celebração da excelência, identificando figuras exemplares e tecendo narrativas.
9. Construir poder: Doar para impulsionar quem tem voz, agência e influência em decisões e recursos fundamentais (quase sempre pensando em comunidades historicamente excluídas do poder).
10. Tomar posição: Doar para expressar convicções morais, mesmo que o “sucesso” sistêmico possa ser incerto ou improvável, promovendo solidariedade, consciência e presença.
Humanitária | “Somos chamados a…”
11. Responder a uma crise: Doar para prover alívio imediato e/ou reconstrução de longo prazo durante e após desastres naturais, guerras, pandemias e outras catástrofes.
12. Estender a mão: Doar como expressão de humanidade compartilhada, amor e empatia, comumente diante do sofrimento . É a “caridade” em sua essência, motivada por múltiplos impulsos (humano, religioso, ético).
13. Promover o potencial: Doar para apoiar desenvolvimento e possibilidades individuais, investindo para ajudar estudantes, artistas, líderes, pensadores e agentes de mudança a expandir seus horizontes, manter sua atuação, amplificar seu alcance ou alcançar seu potencial.
Veja a quadro completo com exemplos, estratégias e definição de sucesso nas páginas 44 e 45 da edição 16 da SSIR Brasil.
O que é ser “eficaz”
O quadro de tipologias não só esclarece e decodifica abordagens filantrópicas, mas também serve para entender melhor e avaliar a “eficácia”. Ele sugere que o termo “eficaz” depende do contexto e ajuda a evitar o erro de impor a visão de sucesso de uma categoria de intenções a outra. Assim, o melhor meio de julgar a eficácia de um ato de serviço ou de filantropia é perguntar por que ele foi realizado e o que ele buscava alcançar.
Ganhar escala, por exemplo, é um imperativo quando se quer erradicar a tuberculose ou aumentar o acesso a água potável (Intenção 6: Enfrentar um grande problema). Mas não está no radar de doadores que queiram homenagear vítimas de uma tragédia e garantir que suas lições nunca sejam esquecidas (Intenção 2: Retribuir ou eternizar), financiadores de associações de bairro que pretendam construir coesão e resiliência na comunidade (Intenção 1: Fortalecimento comunitário), apoiadores de pesquisas que buscam desvendar os mistérios do universo (Intenção 5: Acelerar avanços) ou pessoas que doam tempo e dinheiro ao banco de alimentos local para expressar solidariedade e humanidade (Intenção 12: Estender a mão). Classificar essa generosidade como “subaproveitada” ingora por completo a intenção – a motivação para doar.
Algumas das contribuições filantrópicas mais importantes e memoráveis do século passado seguem essa lição. Nenhum dos três exemplos a seguir foi motivado por um cálculo quantificável de escala ou de impacto, mas todos foram transformadores.
1. O apoio da Fundação Ford ao movimento em prol dos direitos civis nos Estados Unidos | Entre 1960 e 1968, a fundação aumentou a parcela de financiamento de grupos de direitos civis de 2,5% para 36,5% do total de suas doações anuais, apoiando assim o trabalho histórico de grupos como a NAACP, o Fundo de Defesa Legal e a Liga Urbana Nacional. Não dá para entender esses investimentos sem levar em conta o desejo da fundação de se posicionar em relação aos direitos civis (Intenção 10: Tomar posição) e fortalecer grupos minoritários (Intenção 9: Construir poder). Tentar quantificar a contribuição relativa da Fundação Ford para o sucesso transformador dessas organizações é tolice e totalmente irrelevante.
Há outros indicadores de sucesso melhores. Anos atrás, passeando pela Feira de Livros Antigos de Nova York, encontrei um folheto do Conselho de Cidadãos da Grande Nova Orleans convocando “todos os cidadãos brancos” a pararem de comprar produtos da Ford para “cortar ao menos uma fonte do dinheiro que está sendo usado para destruir nosso modo de vida sulista”. Achei um artefato notável de impacto filantrópico e enviei uma foto para um amigo na Fundação Ford. Minutos depois, recebi uma ligação de um número desconhecido. Era Darren Walker, então presidente da fundação, que estava a caminho da feira e queria saber onde encontrar o folheto – que está pendurado na sede da fundação até hoje.
2. As escolas de Julius Rosenwald e Booker T. Washington no Sul dos Estados Unidos | O empresário e filantropo Julius Rosenwald se uniu ao educador e líder do movimento por direitos civis Booker T. Washington para construir mais de 5 mil escolas no começo do século 20, a fim de apoiar estudantes negros no Sul segregado. Essa parceria se tornou uma pedra angular da filantropia estadunidense. A fundação de Rosenwald exigia contrapartidas das comunidades, refletindo o desejo de estabelecer bens cívicos duradouros por meio da propriedade comunitária (Intenção 3: Construir e sustentar bens comuns) e de promover o potencial de milhares de crianças e jovens adultos que, de outra forma, seriam excluídos da educação pública (Intenção 13: Promover o potencial). Para Rosenwald e Washington, o sucesso não se limitava ao número de escolas ou alunos (embora essas cifras fossem muito importantes); tratava-se também de dignidade, autonomia, potencial, investimento comunitário e, em última análise, de mudar uma realidade injusta. Seus esforços representam o melhor da filantropia estadunidense, mesmo sem um cálculo de otimização de impacto.
3. O “Grande Acordo” de Detroit | A recuperação de Detroit, após décadas de despovoamento e desinvestimento, ficou por um fio depois de o município pedir falência, em 2013. Credores avaliaram todos os bens municipais, uma lista que incluía até Homer, a preguiça do zoológico; aposentados tiveram suas pensões reduzidas drasticamente; bens inestimáveis do Instituto de Arte de Detroit foram postos à venda; e o município corria o risco de enfrentar um longo litígio, que prejudicaria qualquer recuperação econômica.
Uma coalizão de financiadores e organizações sem fins lucrativos se formou e reuniu mais de US$ 800 milhões para ajudar a cidade, em troca da proteção às pensões e bens insubstituíveis. Essa parceria foi motivada pelo desejo de cada financiador apoiar uma comunidade de Detroit com a qual tinha uma ligação especial (Intenções 1: Fortalecimento comunitário e 2: Retribuir ou eternizar), bem como proteger ativos cívicos e contratos sociais (Intenção 3: Construir e sustentar bens comuns) em meio a uma crise sem precedentes em uma grande cidade nos Estados Unidos (Intenção 11: Responder a uma crise).
Na época, perguntei ao presidente de uma das fundações parceiras, cujas contribuições representaram a maior doação de sua história, as questões óbvias de precedente e custo de oportunidade. Como ele responderia a um apelo semelhante, digamos, do município de Stockton, Califórnia? Ou às críticas de quem apontava quanto US$ 800 milhões ajudariam a combater a fome global?
“Não estou preocupado com precedentes. Temos uma obrigação especial com esse lugar. É de onde viemos e uma grande parte do motivo pelo qual [esta fundação] existe”, ele respondeu. E ressaltou que a questão da fome não era necessariamente passível de ser zerada e que era, além do mais, falaciosa, pois pressupunha que todos os participantes tivessem se concentrado nela, ou se unido em torno dela, da mesma forma como fizeram para enfrentar uma crise ímpar em sua cidade natal.
Os três casos foram tanto singulares em termos de efeitos como universais em termos de intenções. Motivações semelhantes animaram muitos dos momentos mais representativos da filantropia estadunidense, desde o trabalho pioneiro de Clara Barton, filantropa e fundadora da Cruz Vermelha Americana, até o papel fundamental das sociedades de ajuda mútua na Ferrovia Subterrânea [rede clandestina de rotas de fuga para pessoas escravizadas nos Estados Unidos no século 19]. Também estão por trás da maioria das doações cotidianas. Não são, portanto, melhores ou mais eficazes do que outras motivações para doar, nem os exemplos estão isentos de críticas. Pode acontecer (e acontece com frequência) de uma intenção ser perseguida de forma desajeitada e enviesada, e infelizmente não são poucos os movimentos em nosso campo que acreditam que seu método é o único certo para exercer a filantropia. Mas somente uma câmara de eco monocultural sustentaria que as intenções que inspiraram tais atos históricos transformadores são, de alguma forma, menos “eficazes” do que suas próprias maneiras de agir.
A tipologia em ação
A tipologia também pode ser vista como uma caixa de ferramentas, uma vez que um padrão semelhante se estende do “por quê” ao “como”: os objetivos e as estratégias empregadas pelos doadores. O quadro ilustra como cada intenção tende a inspirar determinadas formas de doação. Por exemplo, financiadores que desejam promover valores essenciais ou uma visão de excelência no trabalho, na vida ou na arte, muitas vezes gravitam em torno de prêmios como o Nobel (Intenção 8: Elevar valores). Se bem concebidos e executados, prêmios são extraordinários para atrair atenção e impulsionar narrativas, demonstrando o que significa excelência. Mas, em geral, são menos úteis para sustentar bens cívicos compartilhados, como parques e bibliotecas (Intenção 3: Construir e sustentar bens comuns).
A ideia fundamental não é nova: escolher a ferramenta certa para o trabalho exige clareza sobre o que se quer alcançar e por quê. Doadores que desejam compartilhar alegria e celebração (Intenção 4) e promover o florescimento humano (Intenção 7) costumam recorrer ao comissionamento de obras artísticas e a bolsas e programas de renda básica universal nas artes e na cultura. As artes são, sem dúvida, o motor mais poderoso de mudança, significado e propósito em nossa vida e na história de comunidades e civilizações. Contudo, é improvável que um ensaio clínico randomizado consiga capturar ou quantificar esse impacto, de modo a garantir um retorno específico pelo investimento. Nem por isso é certo concluir que esse apoio é desperdiçado, pois o impacto atribuível não é o objetivo, e sim o sentido, a beleza e o florescimento humano.
Monoculturas filantrópicas podem inverter essa lógica, oferecendo martelos em busca de pregos. Alguns financiadores tentam maximizar os anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs, na sigla em inglês), enquanto outros conduzem processos de grantmaking participativo com uma postura agnóstica perante as questões em jogo. Isso muitas vezes é perfeitamente defensável. Mas é uma proposta difícil de vender para quem se importa profundamente com um lugar ou problema específico, ou que se sente compelido a doar por outros motivos. Por isso tantas fundações, nos últimos anos, têm se deparado com dificuldades para encontrar coinvestidores para suas causas usando seus instrumentos e estratégias preferidos. Parecem acreditar que onde e como as pessoas doam não tem a ver com o porquê de elas doarem. Como em tantas outras situações, se você não entende (ou não tenta entender) os “porquês” das pessoas e não vai ao encontro delas nesses termos, provavelmente não vai influenciar o “como” delas. Vocês acabam falando idiomas diferentes.
Na prática, as intenções podem se confundir e se sobrepor. É comum doadores serem movidos por mais de uma intenção e apoiarem as mesmas causas e organizações por diferentes motivos. Afinal, a maioria das organizações sem fins lucrativos alega múltiplas motivações em seu trabalho. O mesmo vale para coalizões: a maioria desmoronaria, ou nem mesmo se formaria, se as intenções sobrepostas não prevalecessem sobre as discordâncias e outros objetivos. Essa sobreposição é uma característica da tipologia, não uma falha. Ela reflete como as doações de fato funcionam.

Programas de desenvolvimento para jovens ilustram bem esse aspecto. Um financiador pode bancar bolsas para combater desigualdades na educação (Intenção 6: Enfrentar um grande problema), manter um programa que mudou sua própria vida (Intenção 2: Retribuir ou eternizar) ou expandir os horizontes de um grupo de estudantes (Intenção 13: Promover o potencial) – ou pelos três motivos ao mesmo tempo. Todas são motivações fortes para doar e podem ficar evidentes em uma única doação; ainda assim, cada uma se liga a uma visão diferente, ainda que complementares, do que é sucesso.
Assim como indivíduos costumam mesclar intenções, o setor de impacto social depende de doadores buscando intenções combinadas – muitas vezes sem o saber. Dito de outra forma, o sucesso (qualquer que seja a intenção) quase sempre depende do trabalho de pessoas com outras motivações e munidas de táticas muito diversas.
Qualquer pessoa que tenha passado meros cinco minutos em círculos de altruísmo eficaz deve ter ouvido fortes argumentos sobre o ótimo custo-benefício da compra de mosquiteiros contra a malária em comparação, por exemplo, ao treinamento de cães-guia. Mas o que acontece se a criança que recebe um mosquiteiro é picada por um mosquito a caminho da escola? Onde e como ela consegue medicação? Quem vai tratar dela? E, no fim das contas, você se importa com essa criança em particular ou não? Porque outras pessoas se importam. Os familiares e a comunidade dela, além de, claro, financiadores locais (Intenção 2); ainda, ONGs globais que trabalham para melhorar o sistema de saúde do país dessa criança (Intenção 6); doadores que apoiam tanto o desenvolvimento dos mosquiteiros com dupla camada de inseticida que você espera distribuir, como a pesquisa de novos tratamentos (Intenção 5). Seu avanço em DALYs deve muito a doadores com intenções, estratégias e métricas de sucesso completamente diferentes.
Em última análise, podemos e devemos aceitar que outras intenções são úteis e válidas e que entendem o sucesso de modos diferentes, mesmo que nos importemos profundamente com as nossas próprias intenções. O canadense Charles Taylor, filósofo do pluralismo, captou essa relação dialógica no livro A ética da autenticidade: “Apenas se existo em um mundo no qual a história, ou as demandas da natureza, ou as necessidades de meus pares seres humanos, ou as obrigações da cidadania, ou o chamado de Deus, ou alguma outra coisa dessa ordem importa crucialmente, eu posso definir uma identidade para mim que não é banal. A autenticidade não é inimiga das demandas que emanam além do self; ela supõe tais demandas”.1
Uma das questões mais importantes que os financiadores precisam se colocar é “por que eu me importo?”. Mas a credibilidade deles também depende de como seu trabalho é conduzido e, claro, dos resultados. Portanto, é mais do que apropriado discordar sobre o “quê” e o “como” – sobre quais seriam as melhores maneiras de perseguir uma intenção. Cada intenção contém muitas possíveis teorias da mudança, cronogramas implícitos (ou explícitos) e estratégias disponíveis. O campo só tem a ganhar com debates como: qual é o melhor caminho para impulsionar um avanço científico, lançar um prêmio ou apoiar cientistas iniciantes? Qual política pública tem mais chance de melhorar a educação básica e fundamental? Como ampliar o acesso e a distribuição de óculos de grau: usando mecanismos de mercado ou transferindo um programa para o governo?
Pluralista, não desapaixonada
Aplicar essa tipologia não é uma receita para um setor sem paixão, mas sim para um setor mais explicitamente pluralista. Embora eu tenha me concentrado nos princípios que fundamentam essa proposta, também há razões pragmáticas para sermos mais abertos a diferentes “sabores” de filantropia.
Mais cestas para os ovos | Uma fragilidade do modelo de transferência para o governo é sua vulnerabilidade à política. Não porque as fundações sejam excessivamente ideológicas (embora em alguns momentos isso não tenha ajudado), mas porque as prioridades de uma administração cada vez mais se tornam os alvos da administração seguinte.
Concentramos a aposta nesse modelo justamente quando a volatilidade política se tornou a norma. Não se trata apenas de minimizar riscos, mas de reconhecer que a durabilidade exige diversidade de abordagens. Uma monocultura nos deixa vulneráveis, e as organizações sem fins lucrativos e as comunidades por elas atendidas acabam arcando com as consequências.
Linhas de defesa mais fortes | Nosso setor tem se justificado recentemente por meio de intenções comunitárias e humanitárias mais próximas das realidades locais. “Organizações sem fins lucrativos atendem os estadunidenses mais vulneráveis”, escreveu Diane Yentel, do National Council of Nonprofits, em resposta a relatos de que o governo Trump iniciaria investigações criminais contra a Open Society. “Elas são essenciais para nossas comunidades, pois conectam vizinhos a abrigos seguros, refeições balanceadas, cuidados de saúde fundamentais e muito mais.” Sua entidade emitiu uma nota conjunta com o Council on Foundations, o Independent Sector e o United Philanthropy Forum defendendo que ideias e informações devem “se desenvolver livres da interferência do governo” – um princípio pluralista por excelência.
Há tantas maneiras de doar bem quanto de desperdiçar dinheiro. O verdadeiro teste passa pelas intenções para a doação, e não por uma teoria particular a respeito de como a filantropia deveria funcionar
O setor se defende usando a linguagem comunitária e pluralista, ao passo que líderes de fundações seguem teorias de mudança de sistemas em escala nacional e global. E tudo bem. Nós mesmos podemos nos sentir motivados a construir poder, acelerar uma descoberta, otimizar os DALYs por dólar ou buscar justiça, em vez de fazer caridade. Mas seria bom recordar que a caridade é o bastião do apoio público ao setor. É por meio dela que a maioria dos estadunidenses pratica, experimenta e entende a filantropia. Sei por fontes confiáveis (e por experiência própria) que até executivos de fundações tendem a ser motivados por intenções “caritativas” ao fazer suas doações pessoais. Isso não é hipocrisia. É a prova de que a coexistência de intenções é vital e legítima; apenas criamos normas profissionais e bolhas de informação que fingem crer no contrário.
Levar o cotidiano em conta | Por fim, seria desejável que as normas do setor guardassem ao menos alguma semelhança com a prática cotidiana. Considere: por que executivos de fundações fazem doações pessoais de maneiras diferentes das organizações que lideram? Pode ser pela mesma razão pela qual tantas fundações mudam de rumo depois que seus mantenedores morrem ou quando seus conselhos se profissionalizam: porque não é o dinheiro deles, e por conta de pressupostos que acabam por limitar a gama possível de intenções. É muito fácil ceder à razão e perder de vista o coração.
Muitos grandes doadores têm ótimos motivos para se concentrar em grandes problemas globais (Intenção 6) e promover avanços (Intenção 5) – de fato, fizeram contribuições transformadoras nesse sentido. Essas motivações explicam em grande parte a minha entrada na filantropia. Mas há muitas outras formas de ação significativas. Na última década, por exemplo, vimos muitos grandes financiadores institucionais criarem fundos “discricionários” e “de oportunidade” para retribuir às suas comunidades de origem ou para se posicionarem sobre questões fora de suas áreas de atuação habituais. Esses não são lapsos, mas exemplos de como estão adotando outros modos de fazer a diferença. Fundações costumam ver suas doações como portfólios temáticos; elas poderiam também considerar construir esses portfólios com base em intenções.
Para os demais, sejamos pequenos doadores ou mantenedores, há tantas maneiras de doar bem quanto de desperdiçar dinheiro. O verdadeiro teste passa pelas intenções para a doação, e não por uma teoria particular a respeito de como a filantropia deveria funcionar. Todos doarmos da mesma forma é em parte o que levou o setor ao caos atual. Abraçar a diversidade de intenções e de abordagens dá força e resiliência ao setor, além de orientar nossa comunidade no sentido do pluralismo, em um momento que requer mais solidariedade do que moralismo.
Fazer a pergunta
Em 2025, até organizações sem fins lucrativos e seus líderes que fizeram tudo certo e seguiram criteriosamente o modelo impulsionado pelo governo dos Estados Unidos acabaram tendo dificuldades. A reação natural dos financiadores que os incentivaram é apontar o dedo para o atual governo e torcer para que este período seja apenas uma transição no caminho de volta à normalidade.
Mas e se não for? E se estivermos vivendo um novo normal? Guiados por nossa missão, temos a obrigação de reavaliar nossas teorias de mudança social. Pensar nas intenções é um bom ponto de partida, mesmo que isso nos proponha abordagens fora da zona de conforto – como apostar na ampliação de escala impulsionada pelo mercado, e não pelo governo, aumentar gastos para financiar nossa própria expansão (em vez de tentar “alavancar” outros) ou diversificar nossos objetivos para ir além da escala. Estamos aprendendo dolorosamente o que acontece quando uma teoria de impacto única entra em colapso.
Perguntar “o que mais podemos fazer?” aponta para um futuro mais pluralista e resiliente, porque mesmo se pudéssemos esperar isso passar, o último ano nos revelou a fragilidade da monocultura filantrópica. O remédio não é abandonar a ambição, mas reconhecer que “fazer o bem” e “ganhar escala” não são sinônimos e que um setor com intenções e horizontes morais variados é, em si, uma forma de seguro social que nos prepara melhor para qualquer situação. Pluralismo é força; é uma barreira contra a arrogância, os choques e a paralisia. A saúde do campo e de nossa vida cívica depende de formas variadas de doar.
A pergunta sugere respostas distintas para diferentes financiadores. Grandes fundações podem construir portfólios baseados em intenções, não só em temas. Doadores individuais podem começar por suas próprias intenções, inclusive as mais viscerais, humanas, em vez de esquemas rígidos sobre como doar “bem”. E todos nós podemos pôr em prática o lema de Ted Lasso, da série de TV, e sermos curiosos em vez de julgar ao nos depararmos com formas de doar diferentes das nossas próprias.
Cheguei à conclusão de que, na filantropia, a questão fundamental nem sempre é como causar o maior impacto possível, mas sim como causar um impacto significativo. Meu amigo compreendeu isso intuitivamente. Após a tragédia, ele não se perguntou: “Como posso ampliar impacto e escala?”. Ele quis honrar a memória e os valores da pessoa amada, incluindo a disciplina de se perguntar: “O que mais posso fazer?”. Essa pergunta, que nasce do amor, e não da busca de vantagens, traz ensinamentos para nossa área como um todo. Pensar “o que mais podemos fazer?” vai além de parcerias público-privadas ou DALYs. Tem a ver, também, com ser leal à memória, à comunidade e à humanidade que compartilhamos. Quanto mais honrarmos essa pergunta e suas implicações, mais o futuro da filantropia será digno do seu nome: amor à humanidade.
Nota
1 Tradução de Talyta Carvalho. São Paulo: Realizações Editora, 2011. p. 55.
Leia também: Coragem e colaboração para construir o futuro









