Dados abertos fortalecem comunidades na defesa ambiental
Comunidades ao redor do mundo estão usando a tecnologia para romper o monopólio de informação do setor de petróleo e gás em prol da defesa ambiental
Por Mitchelle De Leon
Q uando foi anunciado o projeto do Oleoduto de Petróleo Bruto da África Oriental, planejado para cruzar Uganda e Tanzânia, ativistas locais recorreram ao Fossil Fuel Atlas, um portal global de mapeamento, para ilustrar os possíveis impactos dessa iniciativa. Sem a capacidade de demonstrar a destruição ambiental prevista pelo oleoduto, os alertas dos grupos ambientais locais eram vistos como teóricos e difíceis de explicar. No entanto, essas organizações uniram forças para criar mapas que evidenciavam claramente como o empreendimento prejudicaria o lago Vitória, o maior da África, atravessaria uma zona sísmica e violaria a Convenção de Ramsar – tratado intergovernamental que visa a conservação e o uso sustentável de áreas úmidas. Essas visualizações fortaleceram o movimento contra o projeto, ajudando a alertar investidores internacionais, comunidades locais e formuladores de políticas.
Enquanto isso, nas Filipinas, o Center for Energy Ecology and Development (CEED) tem trabalhado para proteger o Triângulo dos Corais, um hotspot de biodiversidade marinha conhecido como a “Amazônia dos mares”. A região sofre com a poluição causada por vazamentos de poços de petróleo, naufrágios de petroleiros e despejo de água de lastro por embarcações em trânsito – uma contaminação que, sem tecnologias avançadas de monitoramento, permaneceria praticamente invisível no vasto oceano. O CEED fechou uma parceria com a Earth Insight e o Cerulean, uma ferramenta de inteligência artificial (IA) da SkyTruth que rastreia a poluição marinha por petróleo, para analisar os riscos da expansão dos combustíveis fósseis na região. O estudo revelou que 16% das mais de 600 áreas marinhas protegidas se sobrepõem a blocos de petróleo e gás, a maioria ainda na fase de exploração. A análise mostrou como o aumento do tráfego de petroleiros e o risco de vazamentos de óleo poderiam devastar a vida marinha e os meios de subsistência locais, fortalecendo os esforços para impedir novos projetos de extração de petróleo e gás.

Por décadas, a indústria de combustíveis fósseis investiu enormes quantias de capital para ter acesso às melhores tecnologias da informação, contando com um exército de lobistas, agências de relações públicas, consultores de gestão e advogados. Isso colocou o setor em uma posição significativamente vantajosa em relação ao movimento ambientalista – como ocorreu na campanha de desinformação sobre a crise climática que durou dezenas de anos. Hoje, no entanto, um movimento crescente de fornecedores de dados e tecnologia está impulsionando a ação climática, responsabilizando os poluidores e tornando problemas ambientais antes invisíveis não apenas visíveis, mas também passíveis de ação. E, ao contrário dos dados controlados e mantidos em sigilo pela indústria de combustíveis fósseis, essas informações, que vão desde vazamentos de petróleo até emissões de metano, são disponibilizadas gratuitamente, juntamente com orientações sobre como usá-las para gerar o maior impacto possível. O movimento ambientalista jamais terá o mesmo poder financeiro que a indústria dos combustíveis fósseis. No entanto, à medida que satélites e IA aprimoram de maneira significativa o monitoramento das operações de petróleo e gás, investimentos filantrópicos e avanços na coleta e análise de dados estão promovendo uma transparência sem precedentes, reduzindo a vantagem tecnológica e informacional da indústria.
Revelando a poluição oculta
Detectar manualmente um único vazamento de petróleo no oceano costumava levar dias, ou até semanas, para especialistas. Hoje, a identificação de vazamentos provenientes de operações offshore de petróleo e gás pode ser quase instantânea. O Global Fishing Watch (GFW), por exemplo, está mapeando toda a atividade humana no mar, incluindo infraestruturas offshore e petroleiros, permitindo que usuários do Cerulean, da SkyTruth, localizem rapidamente as fontes de vazamento com base nos dados do GFW. Grupos de advocacy, como a Oceana, utilizam essas ferramentas para fortalecer seus esforços jurídicos e de mobilização, destacando os riscos da perigosa expansão da indústria de petróleo e gás.
Da mesma forma, embora o metano seja responsável por aproximadamente 30% do aumento das temperaturas globais, ele é invisível, inodoro e extremamente difícil de monitorar. No entanto, satélites recém-lançados pelo Carbon Mapper e pelo MethaneSAT estão revelando vazamentos ocultos de metano provenientes de operações de petróleo e gás ao redor do mundo, identificando os chamados super emissores, responsáveis por uma enorme parcela das emissões globais. O MethaneAIR, um projeto de coleta de dados por meio de aeronaves, já expôs uma contradição alarmante em relação às alegações da indústria de combustíveis fósseis, que afirma que as emissões de metano estão sob controle ou que está reduzindo essas emissões significativamente.
Agindo a partir de dados e tecnologias
Somente dados e tecnologia, isolados, não garantem impacto, é claro. Para liberar todo o seu potencial, fornecedores de dados e tecnologia estão voltando seu foco para a sensibilização, o fortalecimento de capacidades e parcerias que apoiem ativistas, especialmente em comunidades de linha de frente desproporcionalmente afetadas pelas atividades de petróleo e gás. Essas comunidades – frequentemente de baixa renda e marginalizadas – enfrentam um duplo fardo: são as mais impactadas pela degradação ambiental e, ao mesmo tempo, têm menos acesso a recursos para reagir.
Para tornar esses recursos acessíveis, em primeiro lugar é necessário garantir que os ativistas das comunidades afetadas saibam que eles existem. A sensibilização e as parcerias com organizações comunitárias são fundamentais, pois muitas dessas comunidades desconhecem as ferramentas e dados disponíveis para apoiar seus esforços. Os fornecedores devem se engajar ativamente com essas comunidades, assegurando que as ferramentas sejam acessíveis, fáceis de usar e disponibilizadas em formatos que atendam a diferentes necessidades. Isso pode incluir o desenvolvimento de plataformas otimizadas para dispositivos móveis, suporte multilíngue ou a reformulação de interfaces para acomodar conexões limitadas à internet – medidas que reduzem barreiras de acesso e amplificam as vozes daqueles mais afetados.
Mesmo quando os dados são acessíveis, interpretá-los pode ser um grande desafio. Por décadas, informações sobre operações de petróleo e gás ficaram enterradas em registros regulatórios, avaliações ambientais e relatórios técnicos. Transformar esses dados em informações úteis e aplicáveis muitas vezes exige orientação especializada e prática. Campanhas e ativistas se beneficiam do apoio direto para interpretar conjuntos de dados complexos e traduzir essas informações com precisão em ações concretas. Esse suporte deve ser culturalmente sensível e específico para cada comunidade, valorizando o conhecimento e a experiência locais. A vivência das comunidades fornece um contexto essencial para a interpretação dos dados – percepções que nenhum satélite ou algoritmo pode capturar completamente. Transformar dados em narrativas envolventes é outro passo crucial para impulsionar mudanças. Estatísticas abstratas e mapas, por si só, raramente inspiram ação. No entanto, quando traduzidos em narrativas envolventes e visualizações impactantes – com o apoio de jornalistas, comunicadores e líderes comunitários –, os dados podem se tornar ferramentas poderosas de mobilização. Investir em dados e ferramentas de acesso livre e garantir a interoperabilidade entre diferentes plataformas pode ajudar ativistas a conectar diversos conjuntos de dados – como imagens de satélite, detecções de vazamento de metano e registros de derramamento de óleo – para criar uma visão abrangente dos impactos das operações de petróleo e gás.
Por fim, a democratização dessas tecnologias oferece uma oportunidade de transferir poder para as comunidades impactadas. No entanto, desenvolver ferramentas de forma isolada ou exclusivamente em círculos tecnológicos pode, sem querer, replicar as mesmas dinâmicas prejudiciais das indústrias que buscamos responsabilizar. A consulta genuína às comunidades afetadas, aliada a parcerias que valorizam o conhecimento local, garante que essas ferramentas realmente empoderem aqueles que mais sofrem com os danos ambientais.
Desafios e decisões para o futuro
O governo Trump está promovendo um retrocesso destrutivo nas proteções ambientais, enquanto a produção de combustíveis fósseis está prevista para mais que dobrar os níveis necessários para limitar o aquecimento global a 1,5°C até 2030. No entanto, a ação climática veio para ficar, o que significa que o movimento ambiental precisará de ferramentas precisas e de acesso livre para expor e enfrentar os danos causados pela indústria dos combustíveis fósseis. Filantropias ambientais bem financiadas, ONGs e especialistas em tecnologia devem priorizar investimentos em dados e tecnologias gratuitas e acessíveis; garantir que essas ferramentas cheguem às mãos dos defensores ambientais que mais precisam delas; investir em especialistas para interpretar os dados com precisão; e transformar essas informações em ações eficazes dentro de estratégias regulatórias, jurídicas e de advocacy.
Ao ampliar o acesso a informações cruciais, estamos equilibrando o jogo e fortalecendo as comunidades para que assumam o controle de seu futuro. Neste momento decisivo, devemos usar todos os recursos disponíveis para permanecer vigilantes, confrontar as autoridades com a verdade e exigir que os poluidores prestem contas.
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