O fim da poluição plástica nos oceanos

Pesquisadores desenvolveram um plástico que se dissolve em água salgada e que pode chegar ao mercado em breve

foto de uma colher contendo pequenos pedaços de plástico colorido
Microplásticos contaminaram os oceanos e os animais marinhos. O plástico solúvel pode ser uma solução
Comissão Europeia (Lucasz Kobus) - Wikicommons

Estima-se que 171 trilhões de pedaços de plástico estejam à deriva nos oceanos, e a produção de plástico deve triplicar até 2060. Esse crescimento pode resultar no aumento significativo de resíduos plásticos, que ameaçam a vida marinha e contaminam peixes e frutos do mar com microplásticos. A Grande Mancha de Lixo do Pacífico, uma área no oceano Pacífico onde as correntes convergem e acumulam resíduos plásticos, já tem o dobro do tamanho do estado do Texas, nos Estados Unidos.

Contudo, e se em vez de permanecer por até 450 anos no oceano, o plástico se dissolvesse ao entrar em contato com a água salgada?

Graças a pesquisas do RIKEN Center for Emergent Matter Science e da Universidade de Tóquio, plásticos tão resistentes, estáveis e versáteis quanto os mais usados atualmente, mas dissolúveis em água salgada e que não geram microplásticos, podem chegar em breve às prateleiras dos supermercados.

Os pesquisadores criaram os novos plásticos usando química supramolecular, conectando dois monômeros iônicos por meio de interações reversíveis. Um dos monômeros é um aditivo alimentar comum; o outro é usado em fertilizantes e condicionadores de solo. Ambos são metabolizáveis por bactérias, o que garante a biodegradabilidade do material depois que o plástico se decompõe. Para dissolver o novo plástico supramolecular, basta arranhar sua camada protetora biodegradável e colocá-lo em contato com água salgada. Ele leva cerca de dez horas para desaparecer.

“Bloqueamos esse processo reversível para que, uma vez formado esse tipo de polímero, ele seja muito estável e resistente”, explica Takuzo Aida, principal pesquisador do projeto de plásticos solúveis no RIKEN. “Depois destravamos esse processo para torná-lo reversível novamente, usando o ambiente natural como chave.”

À medida que os pesquisadores passaram a compreender e comunicar melhor as ameaças da poluição plástica nos últimos anos, Aida se interessou por retomar trabalhos anteriores do cientista holandês Bert Meijer. Professor na Universidade de Tecnologia Eindhoven, em 1997 Meijer patenteou um plástico formado a partir de pequenas moléculas, em vez das macromoléculas que normalmente compõem os plásticos.

Na época, desenvolver um material semelhante ao plástico a partir de pequenas moléculas era uma “curiosidade científica”, diz Meijer. A indústria não considerou o protótipo um possível substituto para outros plásticos, pois ele não possuía certas propriedades mecânicas necessárias para torná-lo atraente às empresas que usam plásticos para produzir embalagens, têxteis e em outras aplicações.

Aida e Meijer começaram a trabalhar juntos em 2019 para resolver esse problema. O plástico supramolecular é a resposta encontrada por eles. O novo produto, cujos detalhes foram publicados pela primeira vez na revista Science em novembro de 2024, é resistente e representa uma alternativa viável a outros tipos de plástico. “Esse material é extremamente estável, assim como os plásticos convencionais, até o momento em que entra em contato com o sal”, diz Meijer.

A UTokyo IPC, uma empresa de investimentos vinculada à Universidade de Tóquio, financiou uma startup para introduzir o plástico solúvel no mercado. A empresa já estabeleceu contato com mais de 40 fabricantes interessados no novo material. Segundo Aida, para que haja um impacto significativo na questão da poluição plástica global, consumidores e governos precisarão pressionar empresas menos inovadoras que estejam hesitantes em romper com o modelo atual e investir no novo produto.

“O avanço é enorme, mas também representa um desafio gigantesco”, diz Meijer. “Ainda assim, é difícil acreditar que isso não acabará chegando ao mercado.”

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