Desde a eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos, muitas organizações filantrópicas no país têm investido na promoção da democracia, com iniciativas para fortalecer o engajamento cívico, aumentar a transparência governamental e estimular a participação popular na formulação de políticas públicas. Esses programas têm objetivos louváveis: combater a polarização, reduzir a desconfiança social e enfrentar o isolamento social generalizado.
O trabalho realizado até agora, embora importante, não conseguiu reverter essas tendências. Temos de fazer mais para aproximar os cidadãos e promover a reconstrução do tecido social.
Precisamos encontrar as pessoas onde elas estão, em seu cotidiano, de modo que se sintam convidadas a participar da vida cívica, criando espaços de convivência e encontro. Em 2016, um grupo de financiadores, entre eles a Knight Foundation e a Kresge Foundation, uniu-se para criar a Reimagining the Civic Commons, iniciativa dedicada à transformação de espaços públicos em cidades estadunidenses. O projeto apoia equipes lideradas pelas próprias comunidades, compostas por gestores públicos, representantes de organizações sem fins lucrativos e moradores, que investem em espaços públicos e os administram para promover engajamento cívico.
Espaços públicos são representações físicas do governo local. Quando os bens cívicos são de alta qualidade, despertam uma nova valorização daquilo que é público e reforçam a importância da participação ativa na vida cívica. Por ser visível e tangível, o espaço público consegue engajar pessoas que talvez se desconectem de discussões mais abstratas sobre política ou sobre o próprio conceito de democracia.
Por meio desse trabalho, nós, financiadores, temos nos perguntado continuamente: investimentos em espaços públicos podem aumentar a confiança, estimular a participação mais ativa das pessoas em suas comunidades e aproximar indivíduos de diferentes origens? Acreditávamos nisso naquela época e, agora, sabemos que esses investimentos podem ajudar a reverter o cenário de desconfiança atual.
Construção de comunidades
Nos últimos dez anos, algumas cidades participantes da iniciativa – incluindo nossas cidades de origem: Detroit, no estado do Michigan, e Akron, em Ohio – monitoraram e divulgaram seu progresso. Nessas comunidades, mais pessoas passaram a visitar espaços públicos e a fazê-lo com maior frequência. Também foi relatado um aumento das conexões entre pessoas de diferentes faixas de renda e grupos raciais, da participação em atividades comunitárias e dos níveis de confiança entre moradores, nas instituições e no governo locais.
Esses resultados devem encorajar organizações filantrópicas que queiram construir comunidades mais vibrantes, seguras e prósperas como meio de fortalecer a democracia. Nosso trabalho demonstra como criar as bases de uma sociedade civil saudável: confiança, conexão e colaboração em prol do bem comum. Aqui estão cinco lições que aprendemos ao longo dessa trajetória:
1. Estabelecer objetivos compartilhados que cultivem a confiança. | Conexão social, confiança e esperança são os alicerces de uma sociedade democrática forte. Para construí-las nas comunidades, o primeiro passo é assumir o compromisso de medir resultados relacionados ao trabalho com espaços públicos.
Nossa iniciativa requer que as cidades participantes se comprometam com metas que incluem engajamento cívico e integração socioeconômica – ou seja, ações que agreguem pessoas de diferentes grupos socioeconômicos. Alcançar esses resultados exige que financiadores e profissionais no território façam perguntas novas e diferentes sobre seu trabalho: Como os espaços públicos podem gerar mais capital social? Como podem fortalecer a confiança entre pessoas com diferentes origens e experiências?
Para responder a essas perguntas, profissionais do campo devem adotar novas formas de mensurar seu trabalho. Em vez de apenas registrar o número de visitantes – em geral o único dado usado para avaliar espaços públicos –, as equipes da Reimagining the Civic Commons realizam pesquisas porta a porta e entrevistam frequentadores para ouvir suas experiências e percepções sobre os espaços públicos. Eles respondem a perguntas sobre confiança e conexão social, incluindo quanto socializam com vizinhos, se conheceram alguém pela primeira vez em um espaço público e se confiam nas pessoas e no governo local. As equipes também observam os espaços públicos para entender quem os frequenta e como essas pessoas se comportam – por exemplo, se elas se aproximam o suficiente para interagir. Ao longo do tempo, esse monitoramento permite compreender avanços em indicadores como confiança e capital social.
Em Detroit, nosso projeto no bairro Fitzgerald, de maioria negra, incluiu a criação de um novo parque, uma via verde e a transformação de um corredor comercial, tudo desenhado em parceria com a comunidade. Os dados mostram que o projeto está funcionando como planejado: 82% das pessoas que frequentam o parque conheceram alguém novo, os moradores passaram a socializar mais com seus vizinhos e o percentual de residentes que afirmam que a maioria das pessoas é confiável cresceu de 13% para 34%.
2. Investir em mudanças concretas que melhorem a vida cotidiana das pessoas. | Ações de fortalecimento da democracia podem parecer distantes da realidade diária da população. Investir em espaços públicos é uma forma de tornar a democracia mais visível e tangível. A transformação do bairro Summit Lake, em Akron, é um exemplo poderoso disso.
Antes um lago glacial negligenciado, o Summit Lake é hoje um espaço público que oferece pesca, canoagem e caiaque, hortas comunitárias, programação cultural, área com churrasqueiras, espaço para piquenique, feira de produtores locais, centro de educação ambiental e trilha recreativa. O projeto, iniciado em 2017, foi concebido em colaboração com a comunidade. Moradores do bairro relataram um aumento de 22% na socialização com vizinhos pelo menos uma vez por semana, e quase um quarto deles disse interagir com vizinhos diariamente. Também registraram um aumento de 28% na confiança nas instituições locais para agir em benefício da comunidade.
3. Reconhecer o valor singular daquilo que é público. | Os Estados Unidos têm uma longa tradição de criação de espaços públicos vibrantes, mantidos pelo poder público e abertos a todos. No início do século 20, o presidente Theodore Roosevelt convenceu os estadunidenses a preservar algumas das paisagens naturais mais belas do país em parques, florestas e monumentos públicos. Hoje, porém, com frequência permitimos que aquilo que é “público” seja negligenciado. Perdemos a noção de que o que é público também pode ser extraordinário.
O parque Lock 3, no centro de Akron, exemplifica como um espaço público pode atender tanto pequenos grupos em busca de lazer cotidiano como grandes multidões durante as noites e fins de semana. Por décadas, o parque foi um gramado aberto que atraía milhares de pessoas para eventos especiais, mas os moradores da região não se sentiam atraídos a frequentá-lo durante o dia.
Há alguns anos, moradores, empresas e outros atores da comunidade se uniram para repensar o parque. Os responsáveis pelo projeto buscaram entender o que as pessoas mais apreciavam naquele espaço e propuseram estruturas e atividades capazes de revitalizá-lo. O parque passou a contar com pista de patinação no gelo e um moderno pavilhão para apresentações. Jardins exuberantes, áreas sombreadas para descanso e obras de arte públicas tornaram o espaço acolhedor durante todo o ano.
4. Apoiar iniciativas locais autênticas e sustentar o compromisso ao longo do tempo. | Embora a Reimagining the Civic Commons seja uma iniciativa nacional, o trabalho é inerentemente local. O financiamento flexível permitiu que a equipe de cada cidade definisse quais espaços públicos seriam priorizados e desenvolvesse estratégias em parceria com membros da comunidade.
Em Detroit, foi formada uma coalizão multissetorial que trabalha junto para melhorar a qualidade de vida, ampliar o engajamento cívico e fortalecer a confiança pública. O compromisso com uma estrutura de equipe compartilhada entre as organizações resultou na formação de uma rede de parceiros próximos e de uma nova geração de lideranças engajadas. Nove anos depois, essas organizações seguem em colaboração para transformar o bairro Fitzgerald em benefício de seus moradores.
5. Conectar redes de pessoas entre cidades para acelerar o aprendizado e fortalecer a resiliência. | Em paralelo aos investimentos nas equipes de cada cidade, a Reimagining the Civic Commons apoia a conexão entre os grupos intersetoriais locais que lideram esse trabalho. Ao promover encontros presenciais três vezes por ano e reuniões virtuais mensais, a iniciativa ajudou a construir vínculos sólidos entre diferentes cidades e áreas de atuação, formando uma rede que fortalece a resiliência e gera ideias capazes de influenciar políticas públicas. O Summit Lake, em Akron, por exemplo, foi inspirado por ações desenvolvidas em outras cidades da rede, como o Bartram’s Garden, na Filadélfia, e o Tom Lee Park, em Memphis. O aprendizado sobre esses espaços públicos influenciou as estratégias de engajamento comunitário adotadas pela equipe de Akron e os investimentos realizados em melhorias permanentes de infraestrutura.
Como financiadores, sabemos que proteger a democracia está entre os trabalhos mais vitais e importantes que realizamos. Após dez anos de nossa iniciativa, acreditamos que fortalecer a sociedade democrática requer que a filantropia apoie pessoas trabalhando juntas para reconstruir a vida cívica. Esse trabalho pode ser realizado em parques, bibliotecas, trilhas e praças públicas que sejam compartilhados, gratuitos e acolhedores para todos.
*Ambos os autores são membros do comitê diretor da Reimagining the Civic Commons.









