Se você já comprou uma barra de chocolate, um hambúrguer (de carne bovina ou de soja) ou um frasco de xampu, provavelmente teve contato com uma cadeia de suprimentos ligada ao desmatamento de florestas tropicais. Há anos, grandes empresas dos setores de alimentos e bens de consumo prometem eliminar o desmatamento das suas cadeias de suprimentos, mas acompanhar ou documentar esse progresso continuava sendo uma tarefa difícil. Um passo fundamental para essas empresas é obter uma visão clara dos impactos ambientais da produção e, mais especificamente, saber se a Amazônia ou outros biomas sensíveis foram desmatados durante o processo. Antes, as empresas podiam alegar de forma plausível que desconheciam o problema: muitas vezes, era impossível determinar os riscos associados às suas cadeias de suprimentos. Isso mudou com o surgimento do Global Forest Watch e, posteriormente, do Global Forest Watch Pro (GFW Pro), uma ferramenta de monitoramento florestal e avaliação de riscos desenvolvida para empresas e instituições financeiras.
Com poucos cliques, responsáveis pela sustentabilidade ou profissionais envolvidos nas compras podiam cruzar alertas baseados em imagens de satélite com regiões de fornecimento e listas de fornecedores. Pela primeira vez, a empresa passava a ter uma visão confiável e quase em tempo real dos pontos onde o desmatamento poderia estar adentrando sua cadeia de suprimentos. A ferramenta não apenas ajudava a evitar riscos – também permitia agir. Uma empresa podia ajustar suas práticas de aquisição, sinalizar fornecedores que não estivessem em conformidade e examinar mais atentamente aqueles que despertassem preocupação. A plataforma tornou-se um componente discreto, porém essencial, da estratégia de sustentabilidade ambiental e governança (ESG) das companhias.
Uma transformação semelhante está em curso na interseção entre os setores de frutos do mar e de seguros. Uma seguradora marítima global, cética quanto à sua exposição a sinistros relacionados à pesca ilegal, participou de um projeto-piloto do Vessel Viewer, plataforma que usa dados do Global Fishing Watch para ajudar seguradoras a avaliar o risco de oferecer cobertura a embarcações envolvidas em pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (conhecida pela sigla IUU, em inglês). De repente, a seguradora passou a ter acesso fácil a informações sobre o risco de pesca IUU, por meio da integração de dados sobre a movimentação das embarcações, atividades portuárias e práticas suspeitas de registro de navios. Para algumas empresas, a plataforma tornou-se uma ferramenta importante para agilizar os processos de subscrição de seguros e, ao mesmo tempo, alinhá-los aos compromissos corporativos com a sustentabilidade e a governança dos oceanos.
Com o passar do tempo, cresceu o ceticismo em relação aos compromissos empresariais com a sustentabilidade e o ESG, impulsionado, em parte, por preocupações com greenwashing, alegações enganosas e a distância entre intenção e ação. No centro de muitas dessas preocupações estão questões relacionadas à confiabilidade dos dados e às dificuldades de mensuração. Até o momento, os dados de ESG têm sido fornecidos voluntariamente, muitas vezes pelas próprias empresas, e são difíceis de medir. Embora ferramentas como o GFW Pro, o Vessel Viewer e outras não sejam uma solução perfeita, muitas delas preenchem lacunas importantes de dados, oferecem métricas padronizadas e favorecem a transparência.
Esse tipo de infraestrutura de sustentabilidade está se tornando indispensável para empresas que fazem alegações ambientais baseadas em evidências. No entanto, as ferramentas que possibilitam essas alegações não foram desenvolvidas pelo setor privado. Elas foram concebidas, cultivadas e ampliadas por fundações filantrópicas e organizações não governamentais. À medida que as empresas passam a depender cada vez mais dessas plataformas para fins de marketing, conformidade regulatória e mitigação de riscos, surge uma questão fundamental: quem deve pagar pela infraestrutura de sustentabilidade que as empresas usam para medir, melhorar e divulgar seu desempenho em ESG – e é possível fazer isso de maneira financeiramente sustentável para os desenvolvedores das ferramentas, preservando, ao mesmo tempo, a objetividade sobre a qual elas foram construídas?
Do investimento filantrópico à infraestrutura de ESG
O GFW Pro e o Vessel Viewer não surgiram da noite para o dia. Eles são o resultado de anos de investimento e aperfeiçoamento feito por organizações orientadas por uma missão, que buscavam responder a desafios globais e preencher uma lacuna na responsabilização das empresas.
O World Resources Institute (WRI) lançou o Global Forest Watch em 2014, com o objetivo de oferecer monitoramento florestal de acesso aberto baseado em imagens de satélite. A ferramenta foi concebida para fornecer dados sobre áreas críticas de desmatamento a organizações não governamentais, jornalistas e governos. À medida que aumentava a pressão para que as empresas agissem contra o desmatamento, o WRI percebeu que elas precisavam de ferramentas adaptadas às suas necessidades e lançou o GFW Pro em 2019. Desenvolvido com base nos mesmos dados fundamentais, o GFW Pro permite que as empresas monitorem o desmatamento em áreas de fornecimento personalizadas e avaliem riscos com segurança, sem expor informações confidenciais sobre suas cadeias de suprimentos.
A Fundação Gordon e Betty Moore, o governo da Noruega e outras entidades filantrópicas privadas apoiaram inicialmente o desenvolvimento do GFW, por acreditarem que dados abertos e independentes poderiam mudar o comportamento das empresas. Posteriormente, o projeto recebeu financiamento da hoje extinta Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês), do UK Aid (ajuda internacional do governo britânico), da GIZ (principal agência de desenvolvimento da Alemanha) e do GEF (um fundo ambiental multilateral).
O uso da plataforma é gratuito, e as informações são disponibilizadas publicamente – uma escolha deliberada para incentivar sua adoção e promover uma responsabilização mais ampla, por meio da pressão da sociedade civil. Antes, quando questionadas sobre o desmatamento associado a determinada cadeia de suprimentos, as empresas muitas vezes podiam afirmar, de maneira legítima, que “não tinham como saber”. O surgimento dessas ferramentas de transparência tornou essas informações subitamente públicas, tanto para as empresas quanto para as organizações preocupadas com a destruição ambiental.
A trajetória do Vessel Viewer, desenvolvido pelo Global Fishing Watch e apoiado por fundações como a Fundação Gordon e Betty Moore, a Bloomberg e a Oceankind, seguiu um caminho semelhante. O Vessel Viewer converte dados complexos de monitoramento de embarcações em indicadores simples de risco, adaptados às necessidades dos subscritores de seguros – um público que, até então, ainda não havia sido mobilizado na luta contra a pesca IUU.
Nos dois casos, as ferramentas foram inicialmente concebidas não como produtos comerciais, mas como bens públicos. Seu objetivo era ampliar a transparência, fortalecer a atuação de organizações fiscalizadoras e permitir que agentes públicos e privados tomassem decisões melhores. Agora, porém, empresas e outros usuários comerciais representam um público cada vez maior, à medida que procuram lidar com novas obrigações regulatórias e com sua exposição a riscos.
A trajetória da sustentabilidade empresarial
O desenvolvimento de ferramentas de monitoramento e divulgação de informações de ESG acompanha a evolução mais ampla da sustentabilidade empresarial ao longo das últimas duas décadas.
- Inovação financiada por fundações: Investimentos filantrópicos viabilizaram ferramentas como o GFW Pro e o Vessel Viewer, que ajudaram a traduzir os desafios ambientais em termos compreensíveis para as empresas: risco financeiro, danos à reputação e exposição regulatória. As organizações não governamentais desempenharam um papel duplo: responsabilizar as empresas e, ao mesmo tempo, oferecer ferramentas para ajudá-las a melhorar.
- Adoção voluntária pelas empresas: As primeiras empresas a adotar essas ferramentas, geralmente detentoras de marcas voltadas ao consumidor ou submetidas à pressão de investidores, começaram a usá-las para estabelecer e monitorar compromissos ambiciosos de sustentabilidade. A adoção foi motivada pela pressão, mas também pela utilidade das ferramentas.
- Alinhamento regulatório: À medida que os governos adotam normas de devida diligência, como o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento ou o Acordo de Medidas de Port State sobre o setor pesqueiro, essas ferramentas tornaram-se essenciais para o cumprimento das exigências regulatórias. O que começou como uma infraestrutura de uso voluntário está se tornando obrigatório.
- Oportunidade de mercado: Com as ferramentas ocupando agora uma posição central na conformidade regulatória e na gestão de riscos, cresce o interesse por sua comercialização. Algumas ferramentas apoiadas por organizações não governamentais lançaram modelos freemium, oferecendo gratuitamente as funcionalidades básicas e cobrando das empresas por recursos avançados, acesso a grandes volumes de dados ou suporte para integração. Muitas enfrentam agora a concorrência de startups financiadas por capital de risco, que prometem soluções de ESG sofisticadas e voltadas às necessidades empresariais, baseadas em cálculos proprietários.
A comercialização dessas ferramentas representa uma oportunidade singular de criar uma fonte de financiamento sustentável e alinhada à missão das organizações. As empresas reconhecem o valor das informações oferecidas e estão dispostas a pagar por elas. Para as organizações não governamentais, isso pode representar uma forma de escapar das dificuldades normalmente associadas ao financiamento do terceiro setor: recursos de doações restritivos e burocráticos, que muitas vezes destinam pouco dinheiro a custos administrativos e estão sujeitos a mudanças conforme as fundações alteram suas estratégias e prioridades, geralmente em ciclos de aproximadamente cinco anos.
O risco da comercialização e o custo da inação
Embora a oportunidade de gerar receita com a infraestrutura de ESG pareça evidente, o caminho está repleto de tensões.
Grande parte da credibilidade dessas ferramentas decorre de seu caráter independente, transparente e orientado por uma missão. O acesso aberto aos dados é fundamental para sua eficácia – não apenas para as empresas, mas também para organizações não governamentais, entidades fiscalizadoras, jornalistas e consumidores, que dependem da transparência pública para responsabilizar os diferentes agentes. A adoção de um modelo exclusivamente pago poderia comprometer esse papel. Hoje, as informações disponíveis ao público sustentam todo um ecossistema de responsabilização e benefício público. Caso as plataformas migrem para um modelo em que “a empresa paga”, as empresas pagarão apenas pela parcela que usam? Ou seria possível estruturar esse modelo de modo a preservar também o apoio ao interesse público?
Há ainda o risco de conflitos de interesse, reais ou percebidos. Se as empresas pagarem pelas ferramentas que avaliam seu desempenho em sustentabilidade, ainda será possível confiar nos resultados?
Ao mesmo tempo, justamente as empresas que mais se beneficiam dessas ferramentas por vezes demoram a adotá-las, mesmo quando são gratuitas. A introdução de cobranças, sem um retorno sobre o investimento claramente demonstrado ou sem exigências regulatórias, poderia reduzir a adesão em um momento decisivo. Em outros casos, porém, um produto gratuito pode apresentar uma adoção mais lenta entre as empresas por não ser percebido como algo de valor. Estabelecer um preço pode, em determinadas situações, acelerar a adesão.
O ambiente competitivo também está mudando. Startups do setor privado estão desenvolvendo ferramentas de ESG visualmente atraentes, financiadas por capital de risco e direcionadas aos mesmos usuários empresariais. No entanto, essas ferramentas podem recorrer a dados sem comprovação, não usar métodos submetidos à revisão por pares e não apresentar o alinhamento com missões sociais e ambientais oferecido pelas plataformas desenvolvidas por organizações não governamentais.
Projetos-piloto e modelos emergentes
Tanto o GFW Pro quanto o Vessel Viewer estão testando modelos que preservam a transparência e, ao mesmo tempo, geram receita.
O WRI passou a cobrar pelo uso intensivo e lançou modalidades de associação para o GFW Pro. O modelo preserva o acesso gratuito e aberto aos dados e às funcionalidades essenciais para participantes menores das cadeias de suprimentos, ao mesmo tempo que oferece serviços adicionais aos usuários de escala empresarial. Entre eles estão a automação por meio de interfaces de programação de aplicações (APIs), o acesso antecipado a novos recursos para o envio de comentários e sugestões e a possibilidade de hospedar sub-redes de associados. O modelo permite que as empresas paguem pelos serviços, enquanto assegura que os dados subjacentes continuem disponíveis ao público.
O Vessel Viewer adotou uma abordagem semelhante. A plataforma continua gratuita para jornalistas investigativos e organizações não governamentais, mas oferece pacotes de assinatura personalizados para seguradoras e outros usuários comerciais, com funcionalidades adicionais e suporte direto. A receita financia a manutenção da ferramenta e assegura que o produto possa ganhar escala para atender à demanda crescente. O Vessel Viewer também oferece uma opção de integração direta de dados por API, permitindo que as informações sejam incorporadas às plataformas já usadas pelos clientes. A plataforma planeja implementar uma oferta freemium, na qual o modelo básico seria gratuito, com a possibilidade de migração para uma versão paga, dotada de recursos adicionais. Essa mudança decorre da dificuldade de licenciar o acesso a uma ferramenta que está disponível gratuitamente.
Essas ferramentas também estão evoluindo em suas estruturas internas. Profissionais que antes se dedicavam exclusivamente à pesquisa ou à defesa de causas agora estão aprendendo a prestar serviços a clientes, administrar contas e realizar integrações de dados. As organizações responsáveis pelas ferramentas estão se transformando em entidades híbridas – em parte organizações sem fins lucrativos orientadas por uma missão, em parte prestadoras de serviços de padrão empresarial.
Outros modelos em estudo no ecossistema da infraestrutura de sustentabilidade incluem o financiamento conjunto por coalizões de empresas, acordos de licenciamento e a integração a pacotes de software corporativo. Cada um apresenta vantagens e desvantagens. Todos, porém, apontam para a mesma realidade: as ferramentas precisam evoluir para continuar sendo confiáveis, acessíveis e financeiramente sustentáveis.
Quem paga pela infraestrutura de ESG?
Na última década, as fundações arcaram com grande parte do ônus financeiro da infraestrutura que sustenta a sustentabilidade empresarial, financiando discretamente os sistemas que hoje servem de base para alegações e classificações de ESG avaliadas em bilhões de dólares. Agora, as organizações não governamentais que desenvolvem essas ferramentas estão pedindo que as empresas assumam uma parcela maior dessa responsabilidade. Até o momento, isso tem ocorrido principalmente por meio de doações empresariais ou investimentos conjuntos. Algumas organizações estão conduzindo projetos-piloto de modelos freemium, como os descritos neste artigo. Este, porém, é apenas o início da busca por soluções de financiamento de longo prazo.
Ao final de nossa história, voltamos a uma empresa internacional do agronegócio que contribuiu para uma avaliação de mercado do GFW Pro. Quando perguntado se a empresa estaria disposta a pagar para continuar tendo acesso à ferramenta, um responsável pela área de sustentabilidade respondeu sem hesitar:
“Ter o nome de uma instituição do setor público associado ao monitoramento da conformidade é fundamental. De que outra forma investidores ou clientes poderiam saber se os números que divulgamos são confiáveis? Há um elemento de confiança ligado ao reconhecimento do nome, e saber que você está fazendo algo de maneira transparente reduz a suspeita de greenwashing… É a transparência proporcionada por um padrão setorial e pela confiança.”
Essa percepção reflete uma compreensão cada vez mais difundida: a infraestrutura de ESG é, ao mesmo tempo, um bem público e uma necessidade empresarial. O desafio agora é criar modelos de pagamento que reflitam esse valor sem comprometer a transparência e a independência que, desde o início, conferiram credibilidade a essas ferramentas.
*Texto publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “Who Should Pay for ESG Infrastructure?”.









