Como governos podem fazer o setor privado investir na natureza

O poder público precisa criar a estrutura de incentivos necessária para que o financiamento privado assuma a responsabilidade pela conservação da natureza 
Nowaczyk / Shutterstock

É fácil demonstrar a necessidade de financiar a conservação da natureza, além de simplesmente financiar a luta contra as mudanças climáticas. As populações de animais silvestres diminuíram 73% desde 1970, um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, e cientistas determinaram que o mundo já ultrapassou sete dos nove limites planetários. Segundo o Fórum Econômico Mundial, cinco dos 10 maiores riscos globais de longo prazo são ambientais, com a perda de biodiversidade e o colapso ecológico ocupando o segundo lugar entre todos os riscos para a economia global e a população. Além disso, financiar a biodiversidade é um investimento, não um custo: com mais da metade do PIB global dependente da natureza, uma transição para uma economia positiva para a natureza poderia, na verdade, gerar até US$ 10,1 trilhões [​​R$ 50,85 trilhões] em valor anual de negócios, criando 395 milhões de empregos globalmente até 2030.

Combater as mudanças climáticas e conservar a natureza não são objetivos opostos. A natureza será fundamental para resolver a crise climática: nem a perda de biodiversidade nem as mudanças climáticas serão efetivamente resolvidas a menos que ambas sejam enfrentadas em conjunto. Ainda assim, embora as soluções baseadas na natureza possam contribuir com cerca de um terço da mitigação das mudanças climáticas necessárias até 2030, a natureza recebe apenas 2% do financiamento climático total. Por que essa disparidade?

O problema é que esperamos que o financiamento privado assumisse esse fardo, e isso não aconteceu. Quando deixei o mundo do private equity para aplicar minhas habilidades financeiras à conservação da natureza, tive centenas de conversas com pessoas que usavam palavras da moda e expressões como “finanças inovadoras”, “soluções baseadas no mercado” e “investimento de impacto” para descrever seu objetivo de unir lucro e conservação. “Só precisamos construir um pipeline de projetos para investir” era uma frase que eu ouvia com frequência, e eles faziam parecer fácil salvar a natureza e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Quando fui verificar, porém, descobri que esse pipeline estava praticamente vazio, e assim permaneceu nos últimos dez anos. Todos concordam que o financiamento privado será essencial para fechar a lacuna anual de quase US$ 1 trilhão [R$ 5 trilhões] no financiamento da biodiversidade, mas 40 anos gerando “finanças inovadoras” e “soluções baseadas no mercado” ainda deixaram os governos responsáveis por mais de 80% do financiamento para a natureza.

O financiamento climático é frequentemente tomado como modelo para financiar a conservação da natureza, mas a economia por trás de cada um é fundamentalmente diferente. Em 2023, fontes privadas forneceram mais de US$ 1,2 trilhão [R$ 6,04 trilhão] em financiamento climático de um total de US$ 1,9 trilhão [R$ 9,6 trilhão], representando 66% do financiamento climático total. A participação do financiamento privado para o clima foi mais de quatro vezes superior à participação de 15% do financiamento privado para a natureza. A diferença é que o setor privado consegue gerar retornos financeiros atraentes investindo em coisas como energia renovável, veículos elétricos e melhorias de eficiência; essas oportunidades levaram a aumentos enormes nos investimentos privados voltados ao enfrentamento das mudanças climáticas. Oportunidades semelhantes de gerar receitas e retornos simplesmente não existem na conservação da natureza.

É importante lembrar que oportunidades atraentes de investimento climático não surgiram sozinhas nem por meio das forças de mercado. Governos implementaram políticas significativas que tornam lucrativo investir em soluções climáticas e, em alguns casos, também criaram desincentivos que tornam custoso contribuir para as mudanças climáticas. Por exemplo, na indústria solar, os Estados Unidos subsidiaram pesquisa e desenvolvimento para criar os primeiros painéis solares, as políticas industriais da China reduziram os custos de fabricação desses painéis, enquanto Alemanha, China, EUA, Japão e outros países subsidiaram a adoção da energia solar, tornando-a atraente para os consumidores instalarem. Mesmo agora que as renováveis são a forma mais barata de energia, elas continuam precisando de apoio de políticas governamentais para cumprir as metas climáticas do mundo.

A conservação da natureza precisará de níveis de apoio político e regulatório comparáveis aos destinados à agenda climática se quiser atrair capital privado na escala necessária para suprir o déficit de recursos para a biodiversidade.

Por que o financiamento privado para a natureza não ganhou escala?

Embora existam razões convincentes para que o setor privado invista coletivamente na natureza, não há um argumento de negócios igualmente convincente para que qualquer empresa individual invista no que, em última instância, sempre será um bem público. E, por mais valor que a natureza forneça (e por mais que sua ausência venha a ser sentida se ela desaparecer), empresas e investidores não têm incentivo para internalizar suas externalidades, cujos custos serão arcados pela sociedade, mas não serão contabilizados nos demonstrativos financeiros individuais.

Não podemos culpar empresas, gestores ou investidores por essa falta de investimento; eles são incentivados a maximizar os lucros para seus acionistas (“Você não deve esperar comportamentos altruístas desnecessários dos capitalistas”, como disse Jeremy Grantham). Agir de outra forma coloca em risco seu bônus ou seu emprego como gestor e, se a empresa for de capital aberto, abre espaço para ataques de fundos ativistas (que também estão apenas fazendo seu trabalho dentro do sistema atual) à sua companhia – veja, por exemplo, o caso da Danone. Ser uma empresa privada, não sujeita às pressões do mercado público, não muda a estrutura de incentivos: há poucos imitadores da estratégia de Yvon Chouinard na Patagonia.

Vimos uma série de compromissos voluntários em relação ao clima por parte de grandes empresas de tecnologia e grupos de bancos, mas as empresas inevitavelmente priorizam os retornos aos acionistas acima de esforços voluntários de sustentabilidade. Portanto, vimos metas climáticas proeminentes no setor de tecnologia não serem cumpridas, promessas de combate ao desmatamento fracassarem, e coalizões como a Net-Zero Banking Alliance encerrarem suas operações.

Este é um exemplo clássico de falha de mercado que precisa ser enfrentada por meio de ação governamental. Os governos precisam reconhecer a biodiversidade como o bem público que ela é, como educação e ciência, saúde pública, infraestrutura e segurança, o tipo de bem público que deve ser financiado pelos governos ou incorporado à tomada de decisões de investimento privado por meio de políticas públicas, regulações e incentivos. O setor privado não vai se mobilizar e investir voluntariamente na natureza se isso não aumentar os retornos para os acionistas no curto prazo; não é assim que o jogo funciona. No entanto, como disse Tariq Fancy, ex-diretor de investimento sustentável da BlackRock, os governos podem “mudar as regras do jogo”.

Como mudar as regras

Os governos podem mudar as regras do jogo para o setor privado por meio de incentivos e regulações, e também podem arrecadar recursos do setor privado por meio de impostos, taxas e contribuições, que então podem ser usados para financiar diretamente investimentos na natureza – mecanismos que serão discutidos a seguir. “Para concretizar o potencial do investimento do setor privado na proteção e conservação da natureza”, como afirmou Hank Paulson, “os governos precisam implementar medidas de política pública – como incentivos fiscais, garantias de redução de risco e exigências regulatórias – que induzam o setor privado a investir.”

1. Incentivos

Os governos podem incentivar a proteção e a restauração da natureza por meio de uma variedade de mecanismos, incluindo subsídios governamentais, empréstimos, garantias e incentivos fiscais que estimulem atividades que gerem impactos positivos, ou reduzam impactos negativos, sobre a biodiversidade.

Por exemplo, o programa de pagamentos por serviços ecossistêmicos (PSE) da Costa Rica paga proprietários de terra pelos serviços ambientais (por exemplo, sequestro de carbono, conservação da biodiversidade e do solo, e purificação da água) fornecidos pela conservação e pelo reflorestamento de suas terras. Financiado por um imposto sobre combustíveis fósseis, o programa ajudou a Costa Rica a aumentar sua cobertura florestal de 21% no fim dos anos 1980 para mais de 50% hoje. Os Estados Unidos oferecem incentivos fiscais para estimular a conservação de terras privadas, que resultaram na conservação de mais de 61 milhões de acres de terras privadas, uma área maior do que todos os parques nacionais dos EUA somados. Um programa semelhante na África do Sul acrescentou mais de um milhão de acres à rede nacional de áreas protegidas.

Entidades apoiadas por governos, como a U.S. Development Finance Corporation, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial, têm oferecido garantias que atraem capital privado para operações de troca de dívida por natureza (debt-for-nature swaps), gerando novas fontes de financiamento de longo prazo para a conservação, que já somam US$ 1,7 bilhão. E o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês para Tropical Forest Forever Facility), lançado na COP30 no Brasil, é o mais recente esforço para oferecer incentivos ao investimento privado em conservação. O TFFF pretende levantar US$ 25 bilhões [R$ 125,74 bilhões] em financiamento governamental e usar isso para alavancar US$ 100 bilhões em financiamento privado. Os retornos dos investimentos desses fundos serão usados para pagar países tropicais pela conservação e restauração de suas florestas. As contribuições governamentais ocupam uma posição subordinada em relação às contribuições privadas ao fundo, reduzindo o risco do investimento para os investidores privados.

Também há um enorme potencial para que os governos mudem os incentivos redirecionando subsídios governamentais de atividades que prejudicam a natureza para atividades que a conservam e restauram. Atualmente, governos fornecem US$ 2,6 trilhões [R$ 13,09 trilhões] em subsídios ambientalmente prejudiciais aos setores de combustíveis fósseis, agricultura, silvicultura, construção, pesca e outras indústrias – cerca de três vezes o montante necessário para fechar a lacuna de financiamento da biodiversidade. No Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, concordaram em reformar US$ 500 bilhões [R$ 2,5 trilhões] desses subsídios até 2030.

2. Regulações

Os governos podem exigir o aumento do investimento privado na natureza por meio da implementação de regulamentações que determinem mudanças nas atividades do setor privado que impactam a natureza, bem como investimentos para implementar essas mudanças.

Exemplos incluem a Lei do Ar Limpo e a Lei da Água Limpa dos Estados Unidos, que estabeleceram limites para a poluição do ar e da água, geraram trilhões de dólares em investimento privado e resultaram em impactos positivos significativos sobre a biodiversidade e a saúde humana. O Reino Unido também está instituindo uma nova regulação que exige que empreendimentos gerem um ganho líquido de biodiversidade de 10%. O objetivo é garantir que o desenvolvimento resulte em habitats naturais mais extensos ou de melhor qualidade do que aqueles existentes antes da intervenção. O Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento exige que as empresas provem que seus produtos não têm origem em terras recentemente desmatadas nem contribuíram para a degradação florestal.

3. Impostos, taxas e contribuições

Além de incentivos e regulações, governos podem gerar recursos do setor privado por meio de impostos, taxas e contribuições, que então podem usar para investir diretamente em biodiversidade.

A Colômbia, por exemplo, implementou um imposto sobre carbono que gera US$ 100 milhões [R$ 503,30 milhões] anualmente e usa 80% da arrecadação para financiar investimentos na natureza. O Fundo de Conservação de Terras e Águas dos EUA usa receitas de arrendamentos de petróleo e gás offshore para financiar a conservação estadual e federal de terras e águas, e já forneceu mais de US$ 22 bilhões [R$ 110,73 bilhões] até hoje. As taxas de áreas protegidas de Botsuana geram US$ 8 milhões [R$ 40,26 bilhões] por ano. Belize cobra uma taxa de conservação de US$ 20 [R$ 100,66] de todos os turistas, que financia diretamente seu Fundo de Conservação de Áreas Protegidas. O estado do Havaí está avaliando uma “Taxa Verde” sobre turistas, que deve gerar US$ 100 milhões [R$ 503,44 milhões] por ano para investir em seus recursos naturais. E minha cidade natal, Boulder, no estado do Colorado, foi a primeira cidade dos Estados Unidos a implementar um imposto para conservar terras, resultando na proteção de mais de 45 mil acres (mais de 70% da cidade) e ajudando a torná-la uma das melhores cidades para se viver no país.

Também há iniciativas em andamento para desenvolver e implementar contribuições globais sobre itens como combustíveis fósseis, aviação, transporte marítimo e transações financeiras para gerar mais recursos. E os governos precisam financiar pesquisa e desenvolvimento relacionados à natureza (como fizeram em energia renovável) em áreas como a agricultura sustentável, que ajudarão a desenvolver novas tecnologias que reduzam custos e levem a resultados positivos para a biodiversidade.

O que precisamos agora

A natureza está em crise, e precisamos de menos “especialistas em finanças” e esforços voluntários complexos, e de mais foco em gerar vontade política. Precisamos abraçar a ironia de que, para fazer o setor privado investir na natureza, temos primeiro de nos concentrar no setor público. Líderes de todos os setores que se comprometeram com o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e o Acordo de Paris precisam mobilizar financiamento privado mudando as regras do jogo.


*Texto publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “Business Won’t Save Nature (Until Governments Change the Rules of the Game)”.

Autor(a)

Mark Opel

Mark Opel é o líder de finanças da Campaign for Nature, uma campanha global para proteger pelo menos 30% das terras e oceanos do mundo até 2030. Seus 30 anos de experiência no setor privado incluem cargos executivos em private equity, conservação de energia e energia renovável.