A Terra enfrenta hoje o que César Rodríguez-Garavito, diretor do programa More-Than-Human Life (Moth), chama de “tripla crise planetária do clima, da biodiversidade e da poluição”.
Com bilhões de toneladas de dióxido de carbono liberados na atmosfera todos os anos como resultado da atividade humana, as temperaturas globais estão aumentando e as espécies desaparecem a uma taxa mil vezes maior que há 60 milhões de anos, antes da existência dos seres humanos. Para ajudar a enfrentar esses problemas, o Moth de Rodríguez-Garavito, um esforço de pesquisa jurídica e advocacy, propõe estender marcos legais criados para proteger pessoas, como os direitos humanos e de propriedade intelectual, à teia de vida “mais que humana”.
Desde seu lançamento em 2022, como uma iniciativa da Clínica de Pesquisa e Ação pelos Direitos da Terra e do Centro para Direitos Humanos e Justiça Global da Faculdade de Direito da Universidade de Nova York (NYU), o Moth moveu um processo judicial para estabelecer os direitos criativos de uma floresta, investigou as possibilidades legais e éticas de traduzir a comunicação das baleias por meio de inteligência artificial e apoiou a implementação de uma decisão judicial histórica que concedeu direitos à natureza no Equador. Além de liderar ações como essas, o programa oferece treinamentos para profissionais interessados em defender o mundo “mais que humano”. Também promove um festival público anual na NYU e um simpósio anual apenas para convidados que reúne cientistas, filósofos, juristas, lideranças indígenas, defensores ambientais e jornalistas de todo o mundo para definir a agenda do programa.
O conceito de mundo “mais que humano” tem origem no filósofo estadunidense David Abram, que cunhou o termo para romper as divisões entre a humanidade e outras formas de vida na Terra. O movimento para reconhecer os direitos da natureza remonta a 1972, quando Christopher D. Stone, professor de direito da Universidade do Sul da Califórnia, escreveu um artigo defendendo que “objetos naturais” deveriam ter direitos legais. Desde 1990, cerca de 500 iniciativas que reconhecem os direitos da natureza foram realizadas em dezenas de países e em instâncias internacionais, como as Nações Unidas. Rodríguez-Garavito afirma que optou pela expressão direitos “mais que humanos” em vez de direitos da natureza para enfatizar que os seres humanos e seus direitos não estão separados da natureza, mas inseridos nela.
Na sede do Moth na NYU e durante seus encontros anuais – realizados em Nova York em 2022, no Chile em 2023 e nas terras do povo indígena Sarayaku, na floresta amazônica do Equador, em 2024 –, Rodríguez-Garavito e uma equipe de pesquisadores e funcionários oferecem um espaço de articulação para um movimento crescente em defesa dos direitos da natureza. “Todos estão em busca de novas ferramentas para defender e proteger a natureza porque, claramente, as que temos apresentam limitações”, diz Rodríguez-Garavito.
Merlin Sheldrake, biólogo inglês e autor do livro A trama da vida – Como os fungos constroem o mundo, diz que os encontros do Moth são eventos que mudam paradigmas. “Os desafios atuais exigem que pensemos além das fronteiras disciplinares, e tem sido maravilhoso ver novas ideias e projetos surgirem das constelações incomuns de pessoas e perspectivas que esses encontros possibilitam.”
O evento de 2025 aconteceu na Ilha Cortes, no Canadá, e teve como foco os direitos dos oceanos e da vida marinha. O tema está alinhado aos esforços contínuos do Moth para explorar as implicações jurídicas da tradução da linguagem animal, uma iniciativa realizada em parceria com o Projeto Ceti (sigla em inglês para Iniciativa de Tradução de Cetáceos).
O Moth planeja lançar novos cursos e treinamentos para artistas, cientistas, juristas e jornalistas. “Estamos em um momento cultural em que pessoas de todas as áreas buscam estruturas que ofereçam uma forma de se reconectar com a natureza”, diz Rodríguez-Garavito. “Os direitos da natureza e o trabalho do Moth são uma dessas formas.”
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