Um reflexo do Brasil para o setor social

Uma ampla pesquisa sobre os valores dos brasileiros convida atores do campo de impacto socioambiental a confrontar pressupostos e repensar estratégias de atuação

Boa parte do trabalho do investimento social privado, da filantropia e de outros atores dedicados ao impacto socioambiental positivo no Brasil repousa sobre uma premissa tácita: a de que existe uma trajetória histórica dos nossos valores rumo a mais tolerância, mais confiança mútua e maior adesão a soluções coletivas, e que cabe ao setor social acelerá-las. Ao ler Brasil no espelho, livro de Felipe Nunes, podemos testar essa premissa – e o resultado é que muito do que a obra expõe contraria o que o campo do impacto social presume. 

O livro parte de uma pesquisa encomendada pela TV Globo e realizada em 2023 pela Quaest, empresa brasileira de inteligência de dados e pesquisa de opinião. Foram entrevistadas 9.994 pessoas em 340 municípios, em todas as unidades federativas. Para entender o perfil dos brasileiros, Nunes e sua equipe criaram um “mapa de valores, atitudes e percepções” com 37 índices divididos em 11 dimensões: religiosidade, família, identidade nacional, honestidade, meritocracia, discriminação, sexualidade, insegurança, confiança, comportamento social e ideologia. O propósito da pesquisa foi colocar o brasileiro diante de um espelho para que ele próprio elaborasse a interpretação. Essa ambição de neutralidade é a maior força retórica do livro, e também seu ponto mais discutível.

O autor tem lastro para a empreitada. Nunes é doutor em ciência política e mestre em estatística pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, professor da Fundação Getulio Vargas e sócio-fundador da Quaest. Também é coautor do livro Biografia do abismo (com Thomas Traumann, HarperCollins, 2023), semifinalista na categoria Não Ficção – Biografia e Reportagem do Prêmio Jabuti 2024. A trajetória do autor se reflete no livro, que traz rigor estatístico para responder a uma pergunta: quando o Brasil se encara de frente, que imagem aparece?

Convém registrar o que a obra não problematiza sobre a própria origem, apenas citando-a no início. Nunes dirige a Quaest, empresa responsável pela pesquisa; é comentarista de política no grupo Globo, que a encomendou; e presta consultoria a governos, bancos e empresas. Assim, o livro funciona também como demonstração pública da capacidade analítica de um produto que o autor comercializa. Isso não compromete a qualidade técnica do levantamento, mas matiza a metáfora central: se um espelho se apresenta como reflexo neutro, este foi concebido, financiado e narrado por atores com interesse em exibir o próprio alcance. 

O leitor do campo social, treinado para interrogar a procedência dos dados que usa, faz bem em estender esse rigor à obra. Não para desqualificá-la, mas para lê-la pelo que ela é: ciência de excelente qualidade, produzida dentro de uma cadeia de incentivos que deve ser nomeada.

Implicações para o campo social

Três achados do livro desafiam o senso comum do setor social brasileiro. O primeiro é o que chamarei de retrocesso. Em comparação com a edição de 2018 da World Values Survey (pesquisa global que desde 1981 investiga como valores, crenças e atitudes variam entre países e mudam ao longo do tempo), no Brasil de 2023 eram mais fortes “os valores tradicionais da religião, a valorização da família acima de tudo, a preservação de um pensamento estereotipado sobre o papel dos homens na sociedade, com uma aceitação moderna e conflitiva do papel das mulheres dentro e fora de casa”, escreve Nunes. A ideia de progresso de valores como movimento linear – um percurso inevitável em direção a posturas mais “avançadas” ou “modernas” como mais preocupação ambiental, mais igualdade de gênero, mais participação cidadã –, embutida em tantos planejamentos de impacto socioambiental, não encontra respaldo no que a pesquisa encontrou. 

O segundo achado é o da recusa à redistribuição. Mais da metade dos brasileiros acredita que os pobres não se esforçam para mudar de vida, e 71% julgam que programas de transferência de renda desincentivam o trabalho – entre os próprios beneficiários desses programas, o percentual sobe para 73%. O país é, a um só tempo, um dos mais desiguais do mundo e majoritariamente resistente às políticas de enfrentamento a essa desigualdade. 

Para o investimento social orientado à equidade, esse paradoxo precisa ser considerado. A maioria das pessoas, inclusive entre a população mais vulnerável, não compartilha da ideia de que a desigualdade socioeconômica no Brasil é estrutural e não resultado de falta de esforço individual, e que erradicá-la demanda ação coletiva e redistributiva do Estado e da sociedade – diagnóstico que move o setor social. 

O terceiro achado é o da desconfiança. Apenas 6% dos brasileiros concordam que se pode confiar na maioria das pessoas, patamar que beira o piso internacional e contrasta com mais de 70% na Dinamarca e na Noruega, o topo global. Apoiado nas ideias do cientista político estadunidense Robert Putnam e na literatura sobre capital social, o autor lembra que baixa confiança interpessoal caminha junto com instituições mais frágeis, menor crescimento econômico e maior desigualdade. 

Para o campo de impacto social que opera essencialmente por colaboração, articulação, rede e ação coletiva, trata-se de substrato adverso, raramente entendido como obstáculo de partida. Construímos coalizões e parcerias sobre um terreno em que 94% da população desconfia das outras pessoas.

Os três achados não são paralelos; encadeiam-se. A maior preocupação nacional é a segurança – violência, crime e tráfico lideram a lista, à frente de economia e desigualdade. Desse medo coletivo, o autor extrai o circuito mais revelador do livro: “o medo gera a desconfiança, a desconfiança alimenta o punitivismo e o punitivismo promete uma ordem que raramente se cumpre”. Esse ciclo penaliza de forma desproporcional mulheres, pessoas negras e as mais pobres, além de corroer o debate público, a convivência cidadã e a democracia.

Tal retrato da população brasileira deve ser considerado no planejamento das ações do campo social. Por exemplo, investir em prevenção, mediação ou justiça restaurativa, eixos de uma abordagem integrada de cultura de paz e enfrentamento à violência, pode significar remar contra uma maioria que acredita na punição severa como única medida eficaz contra o crime. A agenda que o autor esboça ao fim do capítulo – converter segurança em confiança e confiança em futuro – é, no vocabulário do nosso setor, uma agenda de coesão social e capital relacional. O entrave é que grande parte da população do país parece não reconhecê-la como a melhor forma de enfrentar a violência.

Esse encadeamento se conecta a um quarto achado: os brasileiros tendem a se enxergar de modo distorcido. Dois em cada cinco entre os mais ricos do país se declaram de classe baixa ou média baixa. “Rico é sempre o outro”, escreve Nunes. Para o setor social, aqui está outra barreira: uma população que subestima a própria posição relativa na pirâmide socioeconômica também subestima a desigualdade, o que ajuda a explicar a resistência a políticas redistributivas. Não se trata de egoísmo, mas de uma percepção deformada da realidade do país.

Uma contribuição durável da obra não está no diagnóstico, e sim na ferramenta. Ao recusar a média (que, segundo o autor, sofre de viés e apaga a diversidade de um país continental como o Brasil), Nunes segmenta os brasileiros em nove grupos identitários: conservador cristão, dependente do Estado, agro, progressista, militante de esquerda, empresário, liberal social, empreendedor individual, extrema direita. Conforme a classificação do autor, conservadores cristãos (27%) e dependentes do Estado (23%) somam metade do país. Progressistas (11%) e militantes de esquerda (7%) somam 18%, e são esses – mais parte dos 5% dos liberais sociais – que costumam elaborar as ações do setor social no Brasil. A tabela é um espelho dentro do espelho: revela o tamanho real da audiência que já compartilha de nossas premissas e a distância que nos separa do restante. Talvez estejamos cometendo um erro ao planejar como se os 18% de progressistas e militantes de esquerda fossem o país inteiro.

Soma-se a essa ferramenta a reclassificação geracional da população brasileira, um mérito da obra: gerações Bossa Nova (nascidos entre 1945 e 1964), Ordem e Progresso (1965-1984), Redemocratização (1985-1999) e Geração.com (2000-2009), que substituem o calendário importado dos baby boomers e das gerações X, Y e Z por marcos da nossa própria história. Essa divisão ancora a mudança de atitudes nas experiências que formaram cada coorte brasileira, da ditadura à vida nativa digital, em vez de importar rótulos com pouco lastro local.

Questão em aberto

O livro tem fragilidades. A densidade de percentuais nos capítulos iniciais prejudica a fluidez da leitura. O texto é por vezes repetitivo, resgatando com frequência insights já apresentados. E a natureza transversal da pesquisa – uma fotografia de 2023 cotejada com ondas anteriores – autoriza afirmar que houve retrocesso nos valores da população, mas não estabelece seu ritmo nem sua duração provável. A questão que permanece em aberto é saber se essas mudanças representam uma transformação permanente ou são uma oscilação provocada pelas circunstâncias daquele momento, como a forte polarização política, os efeitos da pandemia de covid-19 ou a transição de governo. 

Na linhagem dos grandes retratos do país, de Sérgio Buarque de Holanda a Roberto DaMatta, Brasil no espelho troca o ensaio interpretativo pela amostra representativa. Assim, ganha em verificabilidade o que perde em densidade teórica. Trata-se de uma troca honesta, desde que o leitor saiba que a está fazendo desde o início. A obra não substitui a interpretação, mas oferece a base sobre a qual interpretar. E o faz com originalidade ao apresentar a reclassificação geracional e a segmentação em nove grupos, instrumentos que sobreviverão à conjuntura que os gerou.

Para o campo da filantropia e do impacto social, a lição final é menos sobre o Brasil e mais sobre o próprio setor. Trabalhamos, com frequência, para um país que projetamos – mais coletivista, mais confiante, mais redistributivo – e não para o país que os dados descrevem. O Brasil no espelho de Nunes tem traços que desafiam narrativas otimistas de mudança: orgulha-se da natureza e se envergonha do próprio povo, reconhece o racismo na sociedade enquanto o nega em si mesmo e combina conservadorismo moral com expectativa de um Estado provedor. 

Caminhar sem conhecimento da distância entre o Brasil idealizado e o Brasil real pode prejudicar os esforços do setor social. Reconhecê-la não é um convite ao desânimo, mas sim uma condição madura de qualquer estratégia que pretenda funcionar fora da bolha de quem a concebe. Significa abandonar a pregação para convertidos e construir pontes com segmentos cujos valores divergem dos nossos. É isso ou financiar projetos tecnicamente impecáveis que grande parte da população brasileira rejeita por princípio. 

O mérito de Felipe Nunes é tornar a distância entre os dois Brasis mensurável. O trabalho de encurtá-la continua sendo nosso, atores do campo da filantropia, do investimento social e do impacto social. 

Brasil no espelho: Um guia para entender o Brasil e os brasileiros

por Felipe Nunes 

Globo Livros, 2025, 224 págs., R$ 69,90


VITRINE

Outros títulos que ajudam a refletir sobre o campo

A educadora e pesquisadora Mariane Santana questiona a lógica produtivista que ultrapassa o campo profissional e se transforma em valor pessoal. Em Quem dá conta de tudo não dá conta de si mesmo: Como o antiprodutivismo pode revolucionar nossos modos de vida, trabalho e afeto, ela propõe o antiprodutivismo como uma recusa a viver exclusivamente para produzir. A autora discute como a intensificação do trabalho e a gestão permanente de si converteram o descanso em luxo e defende a construção de outras formas de existência. (Planeta, 2026, 176 págs., R$ 56,90)


Organizado pela ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, do Supremo Tribunal Federal, e pelas pesquisadoras Heloisa M. Starling e Nayara Corrêa Henriques Pinto, Pela mão do povo – Voto e democracia no Brasil percorre a trajetória das eleições e das leis eleitorais no país, dos períodos de autoritarismo aos processos de redemocratização. Com pesquisas de estudiosos ligados ao Projeto República, da Universidade Federal de Minas Gerais, a obra destaca ainda as disputas pela inclusão de grupos historicamente afastados da cidadania plena, como mulheres, pessoas negras, indígenas e analfabetos. (Bazar do Tempo, 2026, 448 págs., R$ 104)


Nos últimos 25 anos, a classe C passou por transformações econômicas, sociais e culturais que também alteraram sua influência sobre o consumo e a política brasileira. Em Brasil da maioria: 25 anos de classe C, Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, analisa a trajetória dessa parcela da população desde a expansão econômica, do crédito e das políticas de inclusão da primeira década dos anos 2000 até as frustrações e reinvenções dos anos seguintes. Com base em sua experiência à frente de mais de mil pesquisas, o autor apresenta uma classe média mais escolarizada, conectada e exigente e argumenta que compreender suas aspirações, valores e escolhas é fundamental para empresas e atores políticos. (Record, 2026, 168 págs., R$ 59,90)


A inteligência artificial (IA) costuma ser apresentada ora como promessa de progresso, ora como ameaça inevitável. Em A máquina e nós: Promessas e armadilhas da inteligência artificial, a matemática e filósofa Tatiana Roque procura escapar dessa oposição para discutir de maneira acessível como as novas tecnologias estão transformando a sociedade e quais escolhas podem orientar seu desenvolvimento. A autora sugere caminhos concretos para pensar nossa relação com a IA e ampliar a capacidade coletiva de decidir sobre seus usos e impactos. (Todavia, 2026, 208 págs., R$ 89,90)