O Problema do Benefício Social

O Problema do Benefício Social

Os economistas têm se preocupado com a questão das externalidades negativas, mas políticas públicas também podem gerar impactos positivos. Deveríamos considerar como aproveitá-las para o bem comum.
Por Frank Nagle
Os economistas usam o termo “externalidades” para definir casos em que as ações de um agente impactam outro sem sua permissão ou seu consentimento. As externalidades podem ser negativas ou positivas, depende de o impacto causado gerar um prejuízo ou um benefício a quem é afetado. Por exemplo, se uma pessoa polui a fonte de água de outra sem que esta tenha permitido, quem é atingido vivencia uma externalidade negativa. No caso de alguém plantar muitas árvores e melhorar a qualidade do ar de outras pessoas sem seu consentimento, os beneficiados experimentam uma externalidade positiva.
Os economistas teorizaram sobre diversas maneiras de lidar com as externalidades de forma que o agente que as cria “internalize” os custos ou os benefícios gerados, aí incluídos impostos, regulamentações e negociações diretas entre as partes envolvidas. Por exemplo, o governo poderia impor uma taxa ou regulamentação de poluição que fizesse com que o poluidor pagasse pelo impacto negativo sobre a fonte de água (e, assim, internalizasse a externalidade negativa). Ou, no caso da plantação de árvores, o semeador poderia ser pago diretamente para plantar árvores adicionais (e assim internalizar a externalidade positiva).
Os criadores de políticas públicas vêm trabalhando arduamente para reduzir externalidades negativas, mas dão pouca atenção a encorajar externalidades positivas. Essa discrepância provavelmente ocorreu devido a várias razões, apesar de duas serem especialmente relevantes. Primeiro, as pessoas preferem evitar perdas a obter ganhos comparáveis por causa do que os economistas comportamentais Amos Tversky e Daniel Kahneman chamam de “aversão à perda” – a ansiedade que a perspectiva de perder 10 dólares provoca em mim supera a felicidade que sinto pela possibilidade de ganhar 10 dólares. De modo similar, o prejuízo que pressinto por minha água se tornar poluída é maior que o benefício que espero de um aumento comparável na melhoria da qualidade da minha água. Assim, reduzir externalidades negativas chama mais a atenção do que encorajar externalidades positivas. Segundo, e relacionado a isso, normalmente é mais fácil precificar um prejuízo que um ganho. Se minha água deixou de ser potável, meu prejuízo é o custo de purificá-la ou conseguir água em outro lugar. Mas se minha água ficar mais limpa (e se já era potável), precificar essa melhoria não é fácil.
Quaisquer que sejam as causas, economistas, governos e indivíduos têm se concentrado em reduzir externalidades negativas em vez de encorajar externalidades positivas. De fato, o foco em lidar com externalidades negativas (entre muitas outras contribuições importantes) ajudou Ronald Coase a ganhar em 1991 o Prêmio Nobel de Economia. Em seu artigo seminal de 1960, “O Problema do Custo Social”, Coase discutiu como ineficiências do mercado podem levar a uma criação excessiva de externalidades negativas – incluindo o uso exagerado de fontes naturais e a poluição (atmosférica, sonora, etc.) – e argumentou em favor do aumento de soluções baseadas no mercado (em vez de intervenções governamentais) em contextos variados.
O potencial das externalidades positivas, contudo, continuou pouco explorado por Coase e definhou na economia convencional. Ainda nesse contexto, existe uma questão similar ao quebra-cabeça de 1960 de Coase: o problema do benefício social. Ineficiências do mercado levaram à baixa oferta de externalidades positivas em questões de bem-estar social. A seguir, tentarei retificar essa negligência considerando o lado positivo do argumento de Coase e como ele pode oferecer um peso adicional às demandas pelo aumento de ações coletivas e suporte a várias inovações sociais para ajudar a lidar com os desafios globais.

Subsídios pigouvianos


Para melhor compreender o problema do benefício social, analisemos uma breve história do pensamento econômico sobre o assunto. A análise premiada de Coase baseou-se em e então refutou argumentos anteriores de Henry Sidgwick, Alfred Marshall e Arthur Pigou, que discutiram externalidades negativas e positivas em seu trabalho. O ano de 2020 marcou o 100.º aniversário do livro de Pigou, The Economics of Welfare [A economia do bem-estar], em que ele formalizou o conceito de externalidades e argumentou em favor da implementação do que se tornou conhecido como imposto pigouviano, pelo qual o governo taxa aqueles que criam externalidades negativas e usa os recursos para compensar os impactos negativos para o público geral. Esses impostos têm o apoio de uma longa lista de economistas – um grupo que Greg Mankiw, da Harvard University, chamou de Clube do Pigou.
Em um clássico exemplo do imposto pigouviano, governos impõem taxas de carbono a emissores de gases de efeito estufa, cujos recursos serão usados para compensar os impactos do aquecimento global (ao mesmo tempo que diminuem a emissão de dióxido de carbono por torná-la mais cara aos produtores). Esses impostos forçam a parte geradora da externalidade negativa (por exemplo, o dióxido de carbono) a internalizar ao menos alguns dos prejuízos que a sociedade como um todo pagou antes. Coase argumenta em seu trabalho que tais impostos (ou outros tipos de intervenção governamental) são desnecessários se ambas as partes (no caso, o emissor de gases de efeito estufa e aqueles impactados pelo aquecimento global) puderem simplesmente negociar diretamente e, da mesma forma, chegar a um acordo para que um compense o outro sem intermediários. Claro que esse argumento é prejudicado pelo fato de que o poluidor é uma entidade e aqueles impactados negativamente são inúmeros indivíduos dispersos. Os custos de transação dessa negociação direta são altos demais na maioria dos casos (um ponto reconhecido por Coase). Por essa razão, surgiram soluções não ligadas ao mercado.
A importância de lidar com os impactos não internalizados de externalidades negativas e desencorajá-los – seja por taxação, regulamentação ou negociação direta – se tornou um tópico perene na economia e nas políticas públicas. Contudo, as potenciais oportunidades de estimular externalidades positivas têm sido constantemente negligenciadas, pelas razões acima mencionadas. Em particular, têm sido limitados sistemas para ajudar empresas ou organizações a receber alguns dos benefícios de externalidades positivas (que, por sua vez, aumentariam o incentivo à produção dessas externalidades). Os economistas costumam se referir a esses benefícios como subsídios pigouvianos (em oposição aos impostos pigouvianos). Créditos de compensação de carbono são um exemplo padrão. Se uma empresa madeireira planta uma floresta para obter madeira no futuro, ela é incapaz de usufruir (diretamente) dos benefícios adicionais da captura de carbono que a floresta oferece à sociedade. Portanto, os créditos de compensação de carbono possibilitam que a madeireira capte um valor adicional da externalidade positiva que gera ao plantar árvores. Em vez de reduzir o nível de poluição, uma empresa poluente pode pagar à empresa madeireira para compensar sua poluição, o que encoraja, assim, a madeireira a plantar mais árvores e cria um círculo virtuoso.
O sistema de crédito de compensação de carbono levou a inovações sociais que permitem que não só organizações como indivíduos contribuam com ações coletivas para reduzir o aquecimento global. Por exemplo, a ONG Nexleaf Analytics criou um dispositivo que monitora a redução da emissão de carbono negro quando indivíduos na Índia trocam seus fogões tradicionais por modelos menos poluentes. Esse monitoramento preciso propicia  a indivíduos que recebam pagamentos por meio do sistema de crédito de carbono e leva a ganhos monetários diretos de mudanças de comportamento individual que geram externalidades positivas.
O exemplo da madeireira e do crédito de carbono mostra como podemos incentivar indivíduos ou organizações, mas a questão se torna mais complexa quando pensamos na necessidade de ações colaborativas e coletivas para resolver esses problemas. Veja o exemplo de Coase sobre o gado de um fazendeiro que invade a terra de um agricultor e come sua plantação – uma externalidade negativa criada pelo fazendeiro e sentida pelo agricultor. Podemos usar esse mesmo exemplo para ilustrar o problema do benefício social por meio de ação colaborativa. Digamos que o agricultor esteja pensando em adquirir uma tecnologia que aumentaria as chuvas em uma determinada área e assim impulsionaria tanto sua plantação quanto o pasto do fazendeiro. Se o custo da tecnologia for maior que o benefício que o agricultor vai obter sozinho, então ele não investirá. Mas se o custo for menor que a soma dos benefícios que tanto o agricultor quanto o fazendeiro receberão, compete ao fazendeiro pagar o agricultor – para ajudá-lo a internalizar a externalidade positiva – ou ambos deverão colaborar e comprar a tecnologia juntos (apesar de que coordenar essa compra pode apresentar custos transacionais e, assim, ela pode não acontecer).

Exemplos de benefícios não realizados


Esse simples exemplo ajuda a ilustrar o problema. Podemos pegar vários casos diferentes do mundo real para ver como o problema do benefício social se desenvolve em meio a diferentes contextos e domínios. Como veremos, muitos problemas sociais que requerem ações coletivas não são resolvidos dada a dificuldade que organizações e indivíduos têm de colher os benefícios das externalidades positivas.
 Vacinação contra a covid-19 | A vacinação apresenta duas vantagens. Primeiro, a pessoa que a recebe se beneficia diretamente de uma redução drástica da chance de ser contaminado. Segundo, os imunizantes geram benefícios sociais que extravasam (externalidades positivas) na forma de custos de saúde mais baixos (em geral, o custo de tomar vacina é muito mais baixo que o de ser hospitalizado para tratar de uma doença séria) e menor probabilidade de transmissão da doença. É improvável que um indivíduo consiga colher diretamente quaisquer desses benefícios extras de forma tangível. Portanto, a análise de custo-benefício por trás da decisão individual de tomar a vacina não considera os benefícios sociais.
Essa dinâmica é problemática em doenças como a covid-19, em que é possível estar infectado sem ter sintomas sérios ou  tomar atitudes que limitem sua probabilidade de sofrer contágio, como isolamento e distanciamento social. Se você acredita que não vai ter sintomas sérios ou não vê como onerosas as medidas para evitar a doença, os benefícios diretos de tomar a vacina são baixos para você. Além disso, dada a novidade da tecnologia de mRNA por trás das primeiras vacinas contra a Covid-19 e a falta de testes de longo prazo sobre elas, as pessoas podem achar que os potenciais riscos de tomá-las são maiores que seus possíveis benefícios. Esse cálculo pode explicar por que mais de um quarto do público americano tenha afirmado que provavelmente ou certamente não tomaria a vacina, de acordo com uma pesquisa da Kaiser Family Foundation.
Contudo, esses cálculos individuais não levam em conta a externalidade positiva para o resto da sociedade (por exemplo, custos de saúde reduzidos), porque um único indivíduo que se vacina não se beneficia diretamente. Essa discrepância levou alguns observadores, como o pesquisador da Brookings Robert Litan, a propor que se pagasse às pessoas para tomar a vacina. Esse pagamento (como o crédito de carbono) faz com que as pessoas recebam parte da externalidade positiva, lidando assim com o problema do benefício social nesse contexto. Nos Estados Unidos, muitos formuladores de políticas públicas resistiram à ideia do pagamento com o argumento de que era desnecessário e talvez até contraproducente. Contudo, quando os suprimentos de vacina ficaram mais abundantes, mas muitos indivíduos permaneceram hesitantes quanto à vacinação, vários estados americanos decidiram pagar cidadãos diretamente, sortearam grandes prêmios em dinheiro ou ofereceram outros incentivos (como cerveja grátis e licenças de pesca). Além disso, funcionários de empresas privadas, entre elas a Target, a Trader Joe’s e a Dollar General, foram estimulados a se vacinar em troca de pagamento.
 Cibersegurança | Crimes cibernéticos custam 1 trilhão de dólares por ano no mundo todo, ou pouco mais de 1% do PIB mundial, de acordo com um relatório da McAfee de 20201. Apesar de as empresas terem dificuldade em evitar que alguém extremamente determinado invada uma rede, elas podem utilizar vários níveis de proteção para limitar tanto o risco de invasão quanto os potenciais danos caso ocorra. Para complicar, os invasores costumam atacar vários sistemas antes de acessar seu alvo final. Por exemplo, um criminoso cibernético na Rússia pode invadir um computador na Índia e, por meio desse computador, invadir outro nos Estados Unidos e então usar este último para atacar a empresa-alvo de fato, também nos Estados Unidos. Embora o criminoso cibernético consiga atacar o alvo diretamente, usar esses “pontos de salto” cria muito mais dificuldades para rastrear o ataque, diminuindo as chances de o invasor ser pego e responsabilizado por suas ações.
A possibilidade de construir essa cadeia de ataques se deve parcialmente ao problema do benefício social. Se a empresa dona do computador na Índia tivesse investido mais em segurança cibernética, o criminoso encontraria mais dificuldade em esconder sua identidade verdadeira e, assim, poderia ser pego mais facilmente, o que talvez evitasse ataques futuros desse invasor. Portanto, empresas investem pouco em segurança cibernética porque tendem a aplicar recursos somente em um nível que lhes possibilite receber os benefícios diretos do fato de sua organização se mostrar menos passível de ser invadida com sucesso. Elas não recebem a externalidade positiva da maior dificuldade de criminosos cibernéticos usarem seus computadores como pontos de salto para atacar outros sistemas.
 Educação | Investimentos em educação revelam mais um exemplo de um problema do benefício social. Pesquisas mostraram que se uma pessoa investe em educação superior, ela não só recebe um benefício individual como contribui com a externalidade positiva de aumento médio de salários para outras pessoas da sua cidade, mesmo que não frequentaram a faculdade.2 Contudo, a pessoa que faz esse investimento não colhe diretamente os benefícios extra dele. Então, no conjunto, indivíduos investem pouco em educação, já que não conseguem se apropriar da totalidade dos benefícios. Essa dinâmica levou alguns estados e países a oferecerem educação superior gratuita (ou quase gratuita) a seus cidadãos para ajudar as pessoas a receberem os benefícios sociais do seu investimento em educação superior.
 Recursos naturais | A floresta Amazônica foi chamada de “pulmão do planeta” porque produz grandes quantidades de oxigênio e também captura grandes quantidades de dióxido de carbono. Além disso, ela representa mais da metade das florestas tropicais e abriga mais da metade das espécies de plantas e animais do planeta. Portanto, o mundo todo tem interesse em ver a Amazônia prosperar. Cerca de 60-65% da Amazônia está localizada no Brasil e é controlada pelo país. Atualmente, o governo brasileiro vem tentando apoiar empresas locais e aumentar sua fonte de recursos  por meio da permissão do desmatamento de grandes porções da Amazônia para extração da madeira, para uso da agricultura e da pecuária. Aqui, o problema do benefício social aumenta: o mundo se beneficiava da antiga proteção à Amazônia, mas o Brasil não era capaz de colher as vantagens desse transbordamento.
Ainda, em agosto de 2019, mais de 26.000 incêndios florestais ameaçaram destruir áreas imensas da Amazônia. Dada a importância da região no mundo, muitos países ofereceram dinheiro ao Brasil para o combate a esses incêndios. Contudo, por causa da preocupação em se ver devedor dessa ajuda financeira, o governo brasileiro rejeitou uma grande parte do dinheiro oferecido, limitando sua capacidade de enfrentar os incêndios.

Uma solução: software de código aberto e livre


Agora que analisamos alguns exemplos do problema do benefício social, vamos olhar para um caso em que participantes encontraram uma solução efetiva: software de código aberto e livre [“free and open-source software” – Foss]. Conceito formalizado nos anos 80, o Foss agora permeia a economia digital e pode ser encontrado em todo lugar, de telefones celulares a carros e geladeiras. No modelo de produção tradicional e centralizado, uma empresa contrata funcionários e os remunera para criar um produto sobre o qual possui direito de propriedade intelectual. O Foss, por outro lado, adota um modelo de produção distribuído, em que usuários de determinado software colaboram para criá-lo e melhorá-lo, e seu código lançado publicamente, em geral de forma gratuita. Apesar de muitos usuários colaborarem voluntariamente, algumas empresas pagam a seus empregados para contribuir com o Foss, ainda que os concorrentes possam usar o software sem custo. Contudo, não é preciso cooperar com o Foss para usá-lo e isso cria o potencial para o comportamento aproveitador.
Muitos comentaristas consideram o Foss crítico para a inovação social.3 Além de tudo, em muitas áreas, incluindo big data, machine learning e inteligência artificial, conta-se mais com o Foss que com sua contraparte de código fechado. De fato, estima-se que 75% dos códigos de base corporativos são Foss, de acordo com um relatório de 2021 da Synopsys. Embora tal software não seja sempre grátis, é livre de proteções de propriedade intelectual, que evitam que outros acessem o seu código-fonte (por isso o ditado, em inglês, que diz “Free as in free speech, not as in free beer” (“Livre no sentido de liberdade de expressão, não no de cerveja de graça”) – apesar de não ser inteiramente assim, já que uma licença de código aberto dita como o código pode ser modificado e se pode ou não ser usado para propósitos comerciais. O avanço do Foss se tornou possível e se acelerou pela criação de plataformas de hospedagem como SourceForge, GitHub e GitLab, que permitem a produção e compartilhamento de códigos. Tais plataformas desobrigam programadores de lidar com hospedagem, distribuição e tarefas associadas, para que possam se concentrar em programação.
De muitas formas, o ecossistema Foss possibilita que desenvolvedores (tanto indivíduos como empresas) resolvam o problema do benefício social. Ao longo da última década, examinei esse fenômeno em parceria com outros indivíduos e organizações, entre elas o Laboratório de Ciências da Inovação em Harvard [Laboratory for Innovation Science at Harvard – Lish] e a Fundação Linux. Descobrimos que uma das razões mais comuns para um desenvolvedor colaborar com o Foss é a necessidade de criar um código particular que não existe atualmente.4 Então, escrevendo esse código, eles obtêm um benefício direto ao mesmo tempo que criam uma externalidade positiva: qualquer um também poderá ter acesso a ele sem (ou com pouco) custo. O problema do benefício social surgiria nesse contexto se desenvolvedores que contribuem com o código não pudessem obter nenhum benefício dessa externalidade. Contudo, o fato de que eles têm muitas maneiras de fazê-lo limita o problema do benefício social no contexto do Foss.
Para começar, quando desenvolvedores contribuem com código Foss, eles normalmente não estão criando um programa inteiro do nada, mas construindo com base no código Foss que outros escreveram. Por exemplo, considere um desenvolvedor da internet das coisas [IoT] que precisa escrever um software para monitorar a temperatura de uma geladeira e enviar alertas pela internet quando a temperatura ultrapassar certos limites. Sem o Foss, o desenvolvedor precisaria primeiro escrever um sistema operacional que executasse funções básicas (entrada e saída, conectar-se à internet, etc.) e a partir daí poderia criar a função específica que monitorasse a temperatura e enviasse alertas. Contudo, com o Foss, o desenvolvedor pode usar sistemas operacionais de IoT existentes e a única coisa que precisa criar é a própria função. Ou seja, ao usar o Foss e adicionar uma função, o desenvolvedor economiza bastante tempo e já captura a externalidade positiva dos esforços dos outros.
Talvez um modo mais concreto por meio do qual o Foss lida com o problema do benefício social seja pela manutenção. Se um desenvolvedor escolhe criar uma função de código aberto e outros desenvolvedores a adotam, então, conforme a comunidade cresce, outras pessoas podem ajudar na manutenção do software, corrigir bugs e adicionar mais características. Nesse caso, o desenvolvedor original recebe parte da externalidade positiva na forma de custos de manutenção reduzidos – se tivesse mantido o código do software fechado, teria de fazer toda a manutenção por conta própria. Mas nem todos contribuem, então se nenhum usuário de determinado projeto Foss ajudasse na sua manutenção (mesmo que fosse amplamente usado), essa responsabilidade recairia somente sobre o criador.
Durante a última década, empresas e outras organizações se tornaram mais diretamente envolvidas com o Foss. Apesar de parecer desaconselhável, ao menos em uma primeira impressão, que uma empresa pague seus desenvolvedores para escrever um código que os concorrentes possam usar de graça, cada vez mais empresas estão fazendo exatamente isso. Poderíamos esperar que o problema do benefício social diminuísse essa tendência: as empresas não conseguem capturar diretamente a externalidade positiva, o que eventualmente atrapalha sua habilidade em competir, já que concorrentes podem usar o mesmo código. Contudo, minha pesquisa mostrou que empresas que tanto usam o Foss como contribuem com ele apresentam ganhos de produtividade que seus pares aproveitadores que só usam e não contribuem.5 Os participantes que se dedicam totalmente se beneficiam do aprendizado que advém da contribuição. Mais importante, esse aprendizado traz mais benefícios a novos contribuintes, que têm mais a aprender. Além disso, outras pesquisas revelaram que empresas que contratam usuários experientes (cujo potencial de aprendizagem pode ser limitado) e contribuem com o Foss em níveis mais altos (mantendo e gerenciando projetos) conseguem impulsionar projetos em direções favoráveis, o que possibilita às  empresas captarem parte das externalidades positivas.6
Minha pesquisa encontrou efeitos similares no que se refere a países. Quando um país encoraja o uso do Foss, seus cidadãos contribuem com ele assiduamente, criando amplas externalidades positivas para o mundo.7 Contudo, o país também consegue capturar parcialmente o valor dessas externalidades pelo aumento de trabalho voltado para a tecnologia, por startups de tecnologia e pelo uso do Foss em empresas, que leva ao aumento da produtividade em algumas delas.8 Esses benefícios adicionais não crescem em países que não ampliam suas contribuições ao Foss.
No total, no nível do indivíduo, da empresa, da organização e do país, o Foss propicia a formação de um bem público enquanto possibilita que o contribuinte obtenha tanto um benefício direto quanto parte das externalidades positivas que são criadas ao mesmo tempo. Essa promessa gera um incentivo mais forte para que atores contribuam com o Foss, já que sabem que vão obter mais benefícios que o simples ganho direto de desenvolver uma função de que precisam. Essa dinâmica, por sua vez, dá origem a um círculo virtuoso que promove a criação contínua de mais e melhores práticas do Foss.

Generalizando uma solução


Podemos aprender bastante sobre como encorajar a criação de bens e serviços que gerem benefício social por meio dos diferentes exemplos que analisamos. Particularmente, quatro fatores provaram cruciais para resolver o problema do benefício social: 1) alinhar incentivos; 2) reduzir os custos de participação; 3) construir uma plataforma compartilhada; e 4) limitar o poder dos intermediários. Vamos examiná-los individualmente e descobrir como podem oferecer compreensão sobre o problema do benefício social em outras áreas.
 Alinhando incentivos | A principal causa do problema do benefício social é que os atores não conseguem internalizar com facilidade as externalidades positivas. Então, uma conduta natural é alinhar incentivos para facilitar essa internalização. Já se consegue observar a ocorrência de tentativas nesse sentido. Por exemplo, o objetivo mencionado anteriormente de combinar limites de emissão de carbono com créditos de carbono alinha os incentivos tanto dos emissores de carbono quanto dos captadores de carbono para que estes (que estão promovendo o comportamento pró-social ao criar as externalidades positivas) possam capturar as externalidades positivas que ajudam a criar. Do mesmo modo, propostas para recompensar indivíduos por se vacinar contra a covid-19 tentam alinhar os incentivos dos indivíduos com os de toda a comunidade e permite que aqueles capturem parte das externalidades positivas que criam por tomar a vacina. Vemos uma tática similar com as licenças do Foss, que possibilitam aos contribuintes de um projeto Foss determinar se ele pode ou não ser integrado a um software de código fechado. Além disso, novos contribuintes conseguem internalizar externalidades positivas por meio de maior aprendizagem sobre o software com contribuintes experientes, enquanto estes podem internalizar externalidades guiando o projeto em uma direção que beneficie a eles e a seus empregadores.
 Reduzindo os custos de participação | Se todas as decisões de fazer algo que beneficie o coletivo forem baseadas num cálculo de custo-benefício, então o segundo fator que se apresenta para aumentar os benefícios do ator é reduzir os custos de participação, especialmente custos de transação que vão contra o sistema. Para resolver parcialmente o problema acima mencionado do benefício social associado à educação superior, muitos propuseram tornar universidades gratuitas (ou ao menos comunitárias) ou cancelar dívidas estudantis. Apesar de ambas as táticas poderem surtir o efeito desejado, também é útil pensar em como reorientar o sistema para reduzir ainda mais os custos de oportunidade e de transação. Ainda que muitos indivíduos queiram frequentar universidades, os custos monetários diretos não são o único fator que os impedem de fazê-lo. A necessidade de se afastar por quatro anos do trabalho de tempo integral para se tornar um estudante em tempo integral pode se tornar proibitiva, então é interessante encorajar alternativas ao bacharelado de quatro anos (que já existem) e desencorajar percepções sociais de que tais metodologias alternativas de educação apresentam menos qualidade.
Baixar custos é essencial para diminuir as barreiras de entrada à contribuição com o Foss, o que incentiva o crescimento do ecossistema e sua habilidade em superar o problema do benefício social. Por exemplo, novos participantes podem contribuir de outras formas além de escrever códigos, o que inclui identificar bugs, sugerir novas funções e escrever documentação. Todas essas atividades tornam possível que indivíduos menos experientes ajudem com menos custo e, com o tempo, aprendam a fazer outros tipos de contribuição.
 Construindo uma plataforma compartilhada | Se é possível construir plataformas que propiciem a outros atores contribuir mais facilmente para a criação de bens com externalidades positivas, então não somente se reduzem as barreiras de entrada, como a eficácia geral do esforço vai se beneficiar da sabedoria das multidões e do amplo envolvimento de mais atores. No exemplo sobre cibersegurança, organizações chamadas de centros de análise e compartilhamento de informações [“information sharing and analysis centers” – Isacs] foram criadas no final dos anos 90 nos Estados Unidos como resultado de uma diretriz presidencial. As Isacs ajudam a lidar com o problema do benefício social ao disponibilizar a organizações de uma mesma indústria o compartilhamento de informações relacionadas a ataques cibernéticos para que todos se beneficiem do que cada um aprendeu individualmente, reduzindo assim as chances de ataques bem-sucedidos no futuro. Ainda que as Isacs não resolvam por completo o problema, essas plataformas possibilitam que concorrentes e organizações antes isoladas sejam mais eficazes em solucioná-lo em áreas tão vastas como serviços financeiros, infraestrutura eleitoral e aviação. Criar uma arena assim abre espaço para concorrentes colaborarem no núcleo ao mesmo tempo que competem pelas bordas – um tema recorrente em grande parte da minha pesquisa.
Outro exemplo extraído de minha pesquisa em plataformas compartilhadas vem do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas [“United Nations Development Programme” – UNDP], a agência da ONU encarregada de lidar com muitos desafios em escala global, entre eles pobreza, fome e água potável. Nos últimos anos, o UNDP aumentou esforços para criar soluções locais inovadoras para esses problemas. Após algumas tentativas e erros em esforços locais finalizados, a agência teve muito sucesso ao desenvolver Laboratórios Aceleradores do UNDP [“UNDP Accelerator Labs”], uma rede bem conectada de pequenas equipes em 90 países, com apenas três pessoas por país.9 Nossa pesquisa mostrou que a plataforma que o UNDP construiu possibilita que esses pequenos laboratórios largamente distribuídos identifiquem esforços locais para resolver desafios globais, ajudem a expandi-los regionalmente, agreguem o aprendizado desses esforços ao redor do mundo e os compartilhem com outros países que podem se beneficiar de soluções semelhantes, propiciando assim que a externalidade positiva possa ser colhida. Eles tiveram bastante êxito com programas tão variados quanto diminuir a falta de alimentos no Zimbábue, lidar com o despovoamento da Sérvia, Bósnia e Herzegovina e reduzir o descarte de plásticos no Vietnã.
No mundo Foss, a criação de plataformas como SourceForge, GitHub e GitLab reduziu os custos de participação e ofereceu uma centralização para os esforços descentralizados vindos de várias comunidades. Essas plataformas fornecem um ambiente de hospedagem, informações sobre licenças e outras ferramentas que ajudam projetos Foss a decolar rapidamente. Elas também facilitam às pessoas encontrar projetos Foss que outros já iniciaram, para que não haja esforços repetidos.
Por último, uma palavra de cautela sobre esse assunto: para algumas organizações, como a pesquisa demonstrou, a mudança de uma atitude de tentar resolver problemas individualmente para a de permitir a criação de soluções e benefícios sociais pode levar a tensões internas se  estiverem acostumadas a resolver problemas por conta própria.10 Tal questão pode desafiar a identidade de pessoas que passaram a vida tentando resolver problemas sozinhas. Portanto, essa transição deve ser gerenciada com cuidado.
 Limitando o poder dos intermediários | No contexto da floresta Amazônica, está bem claro que um intermediário individual supervisiona esse recurso natural crítico – nomeadamente o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Portanto, apesar da importância da Amazônia para a biosfera global, estrangeiros não têm voz a respeito de como ela é administrada (por exemplo, qual porcentagem dela pode ser desmatada, como lidar com incêndios florestais, etc.). Apesar de ser sensato respeitar a soberania nacional, dado que a maioria da floresta amazônica situa-se em território brasileiro, outros modelos para governar recursos naturais globalmente importantes têm sido desenvolvidos. Por exemplo, o Tratado da Antártida, ratificado em 1961, tornou o continente congelado acessível a qualquer um com propósitos de pesquisa e baniu dele a atividade militar. Portanto, esse recurso é governado por um acordo entre muitas nações e não tem um intermediário individual.
A questão do intermediário também surgiu no ecossistema da Foss. Talvez o exemplo mais conhecido seja o caso do “preenchimento à esquerda” [“left-pad”], um pedaço de código Foss de 11 linhas que foi amplamente usado na internet para adicionar caracteres de preenchimento ao início de uma linha de texto. Por causa de uma disputa legal com uma empresa de hospedagem Foss, o criador do preenchimento à esquerda optou poor deletá-lo. Apesar de ser um pedaço de código simples que qualquer programador poderia ter escrito sozinho, era mais fácil usar uma linha de código para integrar o preenchimento à esquerda em seu código. Contudo, ao ser deletado, todos os sites do mundo que o utilizavam quebraram. Como resultado dessa experiência, os usuários Foss discutiram vários métodos que fazem com que seus códigos Foss existam permanentemente, para que nenhum indivíduo (incluído seu criador) possa deletá-los a posteriori.

Para onde vamos?


Apesar de o problema do benefício social não ser novo, sua importância cresceu devido ao número de desafios em escala global que o mundo tem sido obrigado a encarar. Felizmente, há muitos exemplos de soluções (ou ao menos soluções parciais) que levaram a um aumento de externalidades positivas em vários domínios.
Considerando o que é generalizável nessas soluções, organizações de inovação social podem encorajar atividades que criam externalidades positivas e levam a maiores benefícios sociais. Juntos, seja como indivíduos, empresas, ONGs ou governos, podemos resolver o problema do benefício social e lidar melhor com os desafios globais de hoje e de amanhã.
O AUTOR
Frank Nagle é professor assistente na Harvard Business School e também codiretor da HBS/Linux Foundation Core Infrastructure Initiative. Sua pesquisa investiga como empresas podem colaborar com comunidades e concorrentes por benefícios mútuos. Antes de se tornar um acadêmico, trabalhou com segurança cibernética por quase uma década.
 

Notas

  1. Zhanna Malekos Smith e Eugenia Lostri, The Hidden Costs of Cybercrime, San José, Califórnia: McAfee, 2020.
  2. Enrico Moretti, “Estimating the Social Return to Higher Education: Evidence from Longitudinal and Repeated Cross-Sectional Data”, Journal of Econometrics, v. 121, n. 1-2, 2004.
  3. Ver, por exemplo, Brandon Keim, “Open Source for Humanitarian Action”, Stanford Social Innovation Review, inverno de 2012; John E. Jones, “Open Source Software Is Philanthropy”, 30 out. 2017.
  4. Frank Nagle et al., “Report on the 2020 Foss Contributor Survey”, San Francisco: The Linux Foundation, 2020.
  5. Frank Nagle, “Learning by Contributing: Gaining Competitive Advantage Through Contribution to Crowdsourced Public Goods”, Organization Science, v. 29, n. 4, 2018.
  6. Linus Dahlander e Martin W. Wallin, “A Man on the Inside: Unlocking Communities as Complementary Assets”, Research Policy, v. 35, n. 8, 2006.
  7. Frank Nagle, “Government Technology Policy, Social Value, and National Competitiveness”, Harvard Business School Strategy Unit Working Paper N. 19-103, 2019.
  8. Frank Nagle, “Open Source Software and Firm Productivity”, Management Science, v. 65, n. 3, 2019.
  9. Elizabeth J. Altman e Frank Nagle, “Accelerating Innovation Through a Network of Ecosystems”, MIT Sloan Management Review, v. 61, n. 4, 2020.
  10. Hila Lifshitz-Assaf, “Dismantling Knowledge Boundaries at NASA: The Critical Role of Professional Identity in Open Innovation”, Administrative Science Quarterly, v. 63, n. 4, 2018.
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