De combatentes a guardiões

No coração da selva colombiana, a Comuccom promove a reconciliação com ajuda comunitária e ação coletiva 
Soldados da unidade Sparta Cinco do Exército colombiano estacionados em Puerto Guzmán para proteger membros da Comuccom
Foto de Ugo Lucio Borga

Em Putumayo, na Colômbia, uma parceria incomum está ajudando a transformar antigos campos de batalha em terras agrícolas e proteger um dos ecossistemas mais complexos do mundo. Nessa região, que faz fronteira com o Equador e o Peru, soldados estão estacionados na selva não para combater guerrilheiros, mas para auxiliar uma cooperativa de civis, agricultores e ex-combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A organização paramilitar de inspiração marxista se formou nos anos 1960 e travou uma guerra civil contra o governo colombiano que durou até o acordo de paz em 2016. O conflito deixou mais de 200 mil mortos e milhões de deslocados. 

A Cooperativa Multiactiva Comunitaria del Común (Comuccom) foi criada em 2018, reunindo ex-combatentes, civis e militares em um projeto compartilhado de reconciliação e gestão ambiental sob o lema “A paz é construída de forma coletiva”. A organização, apoiada por fundos da Missão de Verificação da ONU no país, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e da União Europeia, dedica-se a promover a paz, a justiça ambiental e o desenvolvimento sustentável.

“Após a assinatura dos acordos de paz, nossa cooperativa nasceu para envolver as associações locais como construtoras ativas da paz e protagonistas na restauração da natureza para as futuras gerações”, diz Duberney López Martínez ao site Mongabay em 2023. Ele se tornou presidente da Comuccom após o assassinato de seu fundador, o ambientalista Jorge Santofimio Yepes, em 24 de fevereiro de 2022, quando foi baleado durante uma reunião do conselho administrativo da cooperativa. “Queremos demonstrar que podemos deixar para trás uma cultura de conflito e avançar em direção à solidariedade e à paz em nosso território”, acrescenta Martínez.

Yepes iniciou o empreendimento do zero após conseguir no gabinete do então prefeito de Puerto Guzmán, Rodrigo Rivera, a cessão de 48 hectares de terra por um período de cinco anos. Hoje, 27 famílias estão instaladas no local e 12,7 hectares da propriedade foram transformados em uma comunidade agrícola sustentável, com foco na produção de peixes, além de projetos de apicultura e um viveiro dedicado à conservação da floresta amazônica.

Segurança e prosperidade

Registrada na Câmara de Comércio poucos meses após sua fundação, a Comuccom já contava com 90 membros em 2018 e atingiu 150 em 2021. A cooperativa agora faz parte da Rede de Viveiros Comunitários Amazônicos, um grupo de 12 organizações presidido por signatários dos acordos de paz e camponeses das regiões de Caquetá, Meta, Putumayo e Guaviare, criado para preservar o corredor biológico da Amazônia e promover uma cultura de paz comunitária. Para o ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Correa, o projeto é “fundamental para deter o desmatamento”. O governo de Gustavo Petro, atual presidente colombiano, busca restaurar toda a bacia amazônica colombiana, alcançando as áreas mais afetadas, mesmo aquelas mais remotas. 

Os projetos da Comuccom incluem piscicultura de tilápia, viabilizada por financiamento do Centro Experimental Amazônico (CEA). Os tanques de cultivo produzem até 14 toneladas de peixe por ano, destinadas integralmente aos mercados locais. No momento, a cooperativa está se preparando para a segunda fase do projeto, com o objetivo de dobrar a produção, de cinco para dez peixes por metro cúbico. O esforço é apoiado pela recente inauguração do PisciMayu, um mercado em Mocoa projetado para impulsionar a venda do seu pescado.

Na fazenda florestal, o Comitê de Mulheres e Gênero – composto por 18 membros, incluindo ex-combatentes, filhas e mulheres das comunidades de Puerto Guzmán e Santa Lucía – mantém mais de 15 colmeias. Dessa forma, o comitê sustenta os sonhos de vida comunitária em harmonia com a natureza. O projeto de cultivo e reflorestamento com plantas nativas, localizado no perímetro ocidental da propriedade, visa proteger e renovar o território.

“Queremos demonstrar que podemos deixar para trás uma cultura de conflito e avançar em direção à solidariedade e à paz em nosso território”

Garantir a segurança na região de Putumayo é extremamente complicado porque a vegetação densa, os rios e as trilhas deixam a área naturalmente vulnerável, dificultando o monitoramento por parte do governo central. Raphael Santofimio Jepes, signatário do acordo de paz e ex-combatente das Farc, e sua irmã, Maria Carolina Santofimio, que atua como agente de segurança da comunidade, têm sido cruciais para garantir a proteção do local.

“Se não fosse por eles, já teriam matado todos nós”, diz Armando Aroca, antigo camarada de armas de Yepes e hoje representante legal da cooperativa. “Eles” são os soldados da unidade Sparta Cinco do Exército colombiano, que foram destacados para a floresta adjacente às terras da Comuccom especificamente para proteger o projeto e aqueles que ali trabalham.

Essa circunstância chama atenção, pois é incomum que o Estado mobilize as forças armadas explicitamente para proteger comunidades camponesas. Uma rara exceção é o caso de Jani Silva, proeminente líder comunitária e ativista ambiental que trabalhou por décadas em defesa das comunidades camponesas, pelo direito à terra e pela paz. Jani chegou a ser indicada ao Nobel da Paz e, devido a perseguições e ameaças de morte, vive há anos sob proteção estatal.

O assassinato de Yepes recebeu ampla cobertura da imprensa nacional, o que gerou indignação pública e obrigou o governo a agir. Jairo Agudelo Taborda, professor de relações internacionais na Universidad del Norte em Barranquilla, vê essa iniciativa como parte de uma mudança política mais ampla: “Pela primeira vez, um governo progressista está tentando implementar a reforma agrária e um sistema tributário mais justo”.

No entanto, a proteção para os defensores ambientais continua limitada e inconsistente. Segundo Taborda, o desafio agora é estender o modelo de paz assinado com as Farc para outros grupos armados que ainda operam no país, um passo vital para alcançar uma paz duradoura. 

Equilíbrio frágil

A criação da Comuccom e a proteção que ela recebe marcam um equilíbrio frágil entre iniciativas locais e desafios nacionais mais amplos. Após a desmobilização das Farc depois do acordo de paz de 2016, o governo não conseguiu estabelecer um controle efetivo em muitas das áreas rurais e remotas antes dominadas pelo grupo guerrilheiro, em especial na floresta amazônica. O vácuo de poder resultante fez com que vários grupos armados dissidentes competissem pelo controle territorial e pela exploração de recursos. Somente em 2024, 33 ex-membros das Farc que aderiram ao processo de paz foram assassinados, de acordo com a Missão de Verificação da ONU na Colômbia. Desde a assinatura do acordo de paz, um total de 441 ex-combatentes foram mortos, entre eles 11 mulheres. 

“Essa violência afeta de maneira desproporcional aqueles que defendem o meio ambiente contra os interesses econômicos ligados aos recursos naturais”, diz Taborda. Populações indígenas e afrodescendentes, organizações de base e comunidades camponesas temem que o conflito armado possa retornar ou já tenha recomeçado em suas comunidades, de acordo com entrevistas realizadas pela ONU.

No ano passado, a violência e a instabilidade em curso levaram à morte de mais de 252 pessoas e resultaram no deslocamento forçado de outras 51.623. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh) documentou 25 assassinatos e 119 ataques contra defensores ambientais – civis que protegem os recursos naturais arriscando a própria vida. Ao mesmo tempo, a Global Witness relata que a Colômbia continua sendo um dos países mais perigosos para os ambientalistas militantes, que são com frequência atacados por se oporem a projetos extrativistas e exigirem o cumprimento do direito à consulta prévia.

A crise contínua no mercado de cocaína, causada pela introdução do opioide sintético fentanil pelos cartéis mexicanos no mercado estadunidense, desestabilizou ainda mais as estruturas socioeconômicas em toda a América do Sul, provocando a escalada da violência. Grupos armados que disputam o controle da terra buscam transformar suas fontes ilícitas de renda.

“Hoje, a mineração ilegal se tornou a principal atividade econômica ilícita na Amazônia colombiana”, diz Taborda. Antes, essas receitas vinham quase exlusivamente da produção de cocaína, mas agora os grupos armados estão se voltando sobretudo para a exploração de áreas de mineração ilegal.

Na fazenda florestal, o Comitê de Mulheres e Gênero da Comuccom mantém mais de 15 colmeias. Foto de Ugo Lucio Borga

Embora o cultivo da coca provoque o desmatamento de grandes extensões de terra, as escavações associadas à mineração comprometem mais profundamente as regiões afetadas. Devido aos poluentes usados na extração e no processamento de metais, como o mercúrio, a mineração ilegal constitui uma ameaça de longo prazo para o solo e as bacias hidrográficas, com consequências catastróficas para a biodiversidade da Amazônia colombiana e as comunidades locais que dependem desse ecossistema florestal.

Em fevereiro de 2025, a então ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, María Susana Muhamad, anunciou que o desmatamento no território havia aumentado 35% no ano anterior. Esse dado confirma os achados de um estudo conduzido ao longo de 18 anos pelo Sistema de Monitoramento da Cobertura da Terra da Amazônia Colombiana (Simcoba) que alerta que, sem políticas de controle adequadas, mais 2,1 milhões de hectares de floresta poderão ser perdidos nas próximas duas décadas. “A agenda ambiental sobre o desmatamento deve caminhar de mãos dadas com o processo de paz total”, afirmou a ex-ministra.

A declaração de Muhamad ecoa estudos do Instituto Amazônico de Investigações Científicas (Sinchi) que detalham os ganhos territoriais das Farc sobre vastas áreas da Amazônia colombiana durante a guerra civil. Embora o foco das forças revolucionárias fosse o conflito armado, sua presença, involuntariamente, inibiu o desmatamento em larga escala ao limitar atividades ilegais como o cultivo de coca e a grilagem de terras. Após os acordos de paz de 2016, o Estado colombiano travou uma luta árdua para reafirmar seu controle sobre as áreas florestais remotas. Contudo, à medida que a presença estatal afrouxou, novos grupos armados se instalaram e a disputa territorial foi renovada, realimentando a violência e acelerando a degradação ambiental.

Tal realidade é particularmente intensa em Putumayo e regiões vizinhas como Guaviare. Embora o acordo de 2016 tenha prometido estabilidade duradoura, novos grupos armados preencheram os vazios deixados pelas Farc e passaram a controlar as economias locais, impondo regras opressivas e perpetuando a violência. Os esforços nacionais, como a estratégia de “paz total” de Petro, têm tido dificuldade em acompanhar a evolução desse conflito, na medida em que o diálogo, o investimento social e as medidas de segurança competem com o aumento das redes criminosas e a redução do apoio internacional.

Nesse cenário tão desafiador, a Comuccom oferece um exemplo singular de esperança e resiliência. Ao reunir ex-combatentes, famílias locais e defensores do meio ambiente, a cooperativa transformou uma área antes disputada em um espaço de restauração ambiental, com meios de vida sustentáveis e solidariedade coletiva.

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