Tem sido difícil manter a esperança nestes tempos de crise. Nos Estados Unidos, desde a chegada da covid-19 vimos uma enorme quantidade de mortes, desastres climáticos cada vez mais intensos, retrocessos nos direitos reprodutivos, deportações em massa, cortes de verba para instituições culturais, assassinatos de cidadãos por agentes federais e a crescente normalização da retórica nacionalista branca – tudo amplificado por canais midiáticos que transformam esses eventos críticos em circuitos intermináveis de engajamento.
Pessoas e organizações continuam formulando e defendendo soluções ousadas para nossos problemas mais urgentes. Contudo, independentemente da eficácia que tais soluções poderiam ter se implementadas, muitos duvidam de sua viabilidade e isso, por sua vez, as enfraquece antes mesmo de serem tentadas. No BLIS Collective, um centro que usa narrativas para promover políticas sociais transformadoras, chamamos a distância entre o apoio a uma causa e a crença na sua realização de “déficit de esperança”.
Apoio é algo fácil de quantificar, comparável ao longo do tempo e, muitas vezes, prediz o comportamento eleitoral. No entanto, ele sozinho não dá o panorama completo a respeito de como as pessoas se sentem em relação a uma questão determinada. A esperança – a crença de que a mudança é possível – deve ser levada em conta na nossa compreensão do apoio. Grandes parcelas da população podem apoiar uma causa, mas, se não estiverem seguras de seu sucesso, é pouco provável que lhe dediquem tempo e recursos.
Neste momento de exaustão política e apatia, identificar e medir a esperança pode ser uma ferramenta poderosa para combater a desesperança. Precisamos analisar criticamente o que gera o colapso da esperança e, mais importante, o que a fomenta, pois ela é essencial para a ação coletiva.
Medir o déficit
Consideremos, por exemplo, a crise do clima: 83% dos estadunidenses acham que seu país deveria participar dos esforços globais para combater as mudanças climáticas. No entanto, apenas 38% são otimistas em relação à capacidade de os Estados Unidos lidarem com o problema. Esse pessimismo mina o apoio majoritário que, se mobilizado, poderia impulsionar ações efetivas.
A renda básica e o acesso universal à saúde também apresentam déficits de esperança particulares e profundos. Resultados preliminares de uma pesquisa realizada pelo BLIS e pela Fundação Robert Wood Johnson mostram que, embora 35,1% e 52,9% dos estadunidenses apoiem a renda básica e a saúde universal, respectivamente, apenas 9% e 10,5% desses apoiadores acreditam que as duas políticas sejam aprovadas em âmbito nacional.
Tomemos agora as reparações para a população negra dos Estados Unidos: medidas financeiras e não financeiras destinadas a reconhecer e reparar material e simbolicamente as injustiças provocadas pela escravidão e pelo terror racial no país. Uma pesquisa realizada em 2021 pela Liberation Ventures, organização dedicada a essa causa, constatou que 37% dos estadunidenses apoiam uma ampla política de reparações, um aumento de dez pontos percentuais em relação a 2019. Contudo, apenas 11% dos estadunidenses acreditam que tais medidas serão implementadas, segundo uma sondagem de 2024.
Nossa própria pesquisa, neste ano, detectou um déficit de esperança considerável quanto a políticas de reparação entre comunidades negras e indígenas, às quais há muito tempo se nega justiça. Ainda que 76% das pessoas negras entrevistadas tenham expressado apoio às reparações, só 21,5% acreditam que elas serão realizadas.
Nas comunidades indígenas, encontramos um apoio de 80% ao Land Back – movimento conduzido por povos nativos que visa recuperar a soberania e a gestão de suas terras ancestrais, além de práticas e modos de vida usurpados pela colonização. No entanto, apenas 19% acreditam que o Land Back seja viável. Esses dados indicam que avaliar apenas o apoio ao movimento pode subestimar significativamente a proporção de pessoas que acreditam no sucesso da iniciativa e, por conseguinte, a parcela de pessoas motivadas a agir.
Vale dizer que o déficit de esperança não é uma simples questão de apatia. Para grupos historicamente marginalizados, trata-se de uma resposta racional às suas vivências. Líderes foram assassinados, movimentos monitorados e políticas públicas desmanteladas pouco após terem sido conquistadas. Diante desse quadro, manter certo grau de cinismo e cautela é uma atitude tanto estratégica como sensata.
No entanto, se nos deixarmos levar pelo cinismo sem cultivar formas de esperança fundamentada, construtiva e radical, drenamos a energia dos movimentos capazes de promover mudanças. O conceito de déficit de esperança constitui, portanto, uma referência importante para que organizações estruturem suas estratégias. Para enfrentar o ceticismo, os mobilizadores precisam compreender as raízes da desesperança em suas comunidades e elaborar planos de comunicação que dialoguem com essas realidades.
O déficit de esperança não é apenas uma métrica importante, mas também um indicador relevante para a ação direta. Com base em nossos dados, ser “esperançoso” em relação a um movimento é um fator preditivo da disposição para doar, voluntariar-se ou agir concretamente em apoio à causa.
Especificamente entre entrevistados negros, aqueles que estavam “esperançosos” de que reparações pudessem ocorrer tinham 11 pontos percentuais a mais de probabilidade de agir em prol da causa do que aqueles que estavam “céticos”. Entre os apoiadores indígenas, os “esperançosos” tinham nove pontos percentuais a mais de probabilidade de afirmar que agiriam em apoio ao movimento Land Back do que os “céticos”.
Superando o déficit
Superar o abismo entre o apoio e a esperança exige uma compreensão aprofundada das causas desse déficit, dos motivos pelos quais ele se configurou em diferentes grupos e como podemos persuadir as pessoas a acreditar que nossas soluções são viáveis, a fim de que participem de sua concretização.
A esperança que medimos e cultivamos deve levar em conta os desafios enfrentados pelas pessoas e, ao mesmo tempo, insistir nas possibilidades dos nossos movimentos. Como escreveu o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, a esperança é uma “necessidade ontológica”; é parte do que nos torna humanos. “Precisamos da esperança crítica como o peixe necessita da água despoluída”, escreveu ele em Pedagogia da esperança. Mas a esperança “precisa ancorar-se na prática”, segundo Freire, pois só assim começa a transformar leis, instituições e o cotidiano. Em outras palavras, a esperança sem práxis deriva para o mero desejo, enquanto a práxis sem esperança se arrasta em uma atuação cínica e sem inspiração.
Estudar o que pode reduzir o déficit de esperança nos ajudará a construir movimentos mais eficazes e refinar nossas abordagens, mensagens e narrativas, a fim de converter o apoio público em convicção e ação. Apresentamos três recomendações para organizadores de movimentos, pesquisadores e financiadores:
1. Tome o pulso da questão | Antes de começar a coletar dados sobre o apoio público a uma causa, consulte grupos-chave para saber quão plausível eles consideram a solução ou política proposta. Investigue o que as pessoas veem como barreiras para a resolução do problema e se esses obstáculos parecem intransponíveis.
2. Meça o déficit de esperança | Analise a parcela de apoiadores que duvida da viabilidade da proposta. Com uma única pergunta (por exemplo: “Qual a probabilidade de tal coisa ser aprovada?” ou “Você acredita que algum dia tal coisa acontecerá?”), você pode identificar o contingente, comumente ignorado, de pessoas que não precisam ser convencidas da solução em si, mas sim ser inspiradas a acreditar na possibilidade de sua concretização.
3. Teste o que reduz o déficit e direcione sua comunicação | Após medir o déficit, teste quais abordagens ajudam a reduzi-lo e, em seguida, dirija suas intervenções para isso. Comece com experimentos baseados em hipóteses (testes A/B), variando enquadramentos, porta-vozes, estilos de conteúdo e elementos de comprovação. Identifique quais abordagens podem aumentar a percepção de viabilidade, reduzindo assim o déficit de esperança.
Com essa investigação, é possível ainda compreender melhor o segmento dos “indecisos”. Por exemplo, nossos dados indicam que pessoas negras mais jovens (de 18 a 36 anos) se mostram mais esperançosas em relação às reparações do que as mais velhas, ao passo que a esperança quanto ao movimento Land Back concentra-se entre os indígenas mais velhos (de 26 a 45 anos). Esse tipo de informação demográfica pode e deve ser combinado com grupos focais e entrevistas, a fim de identificar os obstáculos específicos enfrentados pelos que têm dúvidas. Somados, os resultados podem embasar estratégias de comunicação envolvendo abordagens diretas, por e-mail, por redes sociais e por meio de storytelling. Teste, amplie o que funciona e descarte o que não funciona.
Sabemos por pesquisas anteriores, em especial as relacionadas à ação climática, que as pessoas perdem a esperança em parte por não receberem informação suficiente sobre as vitórias e o impulso positivo decorrentes do trabalho de transformação social. A imprensa e as redes sociais enfatizam as crises e fracassos, o que pode criar uma percepção distorcida do progresso real. Especialistas em comunicação climática observam que compartilhar soluções e conquistas pode despertar a esperança, por mostrar que há ações em curso. Nesse sentido, outros movimentos precisam testar quais narrativas e modos de comemorar vitórias podem ajudar a reduzir o déficit de esperança.
Superar esse déficit, é bom sublinhar, não equivale a negar as razões das pessoas para a desesperança. Pelo contrário: reconhecer o luto pela pandemia, o medo do colapso climático e a exaustão provocada pelos retrocessos relacionados à justiça racial ajuda a construir credibilidade.
Essa honestidade deve ser acompanhada por uma visão inspiradora das coisas pelas quais lutamos, e não apenas daquilo que combatemos. A esperança, quando tangível, é contagiante; por isso, precisamos conceber estratégias para dar visibilidade ao progresso e celebrar conquistas parciais como passos fundamentais, e não meros acessórios em nossa jornada.









