Onde estão os filantropos construtores?

À diferença dos magnatas de outrora, os grandes filantropos de hoje preferem dar dinheiro a organizações já existentes. Em vez disso, deveriam criar instituições novas, fortes e duradouras, capazes de suprir lacunas estruturais

Ilustração de uma mão em grande escala e a estrutura de um prédio em menor escala. A mão segura um bloco de dinheiro, que é usado para construir uma coluna do prédio
Ilustrações de Veridiana Scarpelli

Em 1891, o magnata e político estadunidense Leland Stanford tinha 61 anos e um patrimônio de mais ou menos US$ 1,9 bilhão [R$ 9,8 bilhões], em valores atuais. Ele poderia ter criado uma cátedra na Universidade Harvard, financiado uma ala de hospital ou assinado cheques polpudos para instituições de sua época. Em vez disso, ele e a esposa, Jane, pegaram mais de 3.300 hectares de sua fazenda e fundaram uma universidade com o nome de seu falecido filho. No século seguinte, essa universidade seria o motor intelectual do Vale do Silício e uma das mais prolíficas incubadoras de inovação tecnológica da história da humanidade. Stanford não doou para uma instituição. Ele criou uma.

Esse não era um comportamento raro para um magnata daquela época, mas um impulso que definiu uma Era Dourada da filantropia. Nos Estados Unidos, o período entre 1870 e 1920 produziu uma impressionante concentração de renda nas mãos de industriais – nomes como Andrew Carnegie, John D. Rockefeller, John Pierpont Morgan, Andrew Mellon e Cornelius Vanderbilt. Embora fossem negociantes impiedosos, muitos dirigiram suas fortunas para a criação de instituições que moldaram de forma fundamental a vida estadunidense.

A expressão “Era Dourada” foi cunhada satiricamente pelos escritores estadunidenses Mark Twain e Charles Dudley Warner em seu romance de 1873 intitulado The Gilded Age: A Tale of Today. Eles queriam mostrar que não se tratava de um tempo realmente áureo, mas apenas folheado a ouro: brilhante na superfície, corrupto e instável por baixo. Invocar o termo hoje não significa romantizar a primeira Era Dourada, com suas fortunas baseadas em monopólios, exploração de trabalhadores, apadrinhamentos políticos e coerções violentas. Em vez disso, trata-se de sublinhar uma semelhança estrutural: riqueza privada extraordinária acumulada em meio ao estrangulamento público e a questão correlata sobre o que essa riqueza deveria – se é que deve algo – à sociedade da qual foi extraída.

A atual Era Dourada rivaliza com a primeira em termos de concentração de riqueza, escala de desigualdade e pela enorme quantidade de capital disponível. No entanto, a ambição dos filantropos da Era Dourada original de erguer instituições parece ter esmaecido. Hoje, as pessoas mais ricas dos Estados Unidos se veem muito mais inclinadas a doar para instituições fundadas por Carnegie ou Rockefeller do que a criar algo comparável a elas. A falha não é tão somente filantrópica: é civilizacional. Estamos vivendo uma era de fragilidade institucional, e a relutância da classe bilionária em construir organizações que perdurem é tanto um sintoma como uma causa disso.

No centro da filantropia moderna reside uma ironia peculiar: a geração mais rica da história da humanidade, dispondo de mais riqueza do que os faraós, os Médici e os Carnegie juntos, provou-se surpreendentemente avessa a converter essa riqueza em instituições cívicas novas e duradouras. Os magnatas de hoje constroem plataformas que unem bilhões de pessoas, algoritmos que conseguem gerar prosa quase humana, foguetes que pousam sozinhos em balsas no oceano. Mas quando se trata de retribuir, preenchem um cheque para uma universidade fundada antes da invenção dos automóveis. Não usam sua extraordinária capacidade de construir organizações para criar bem público numa escala compatível com suas ambições privadas. Eles sabem como, mas não constroem infraestrutura cívica da qual a sociedade precisa em um tempo de necessidades agudas.

A nova Era Dourada 

Os paralelos entre a primeira Era Dourada e a atual não são só retóricos. Em 1890, 1% dos lares mais ricos dos Estados Unidos controlava pouco mais da metade da riqueza da nação, segundo os economistas Jeffrey Williamson e Peter Lindert. Em meados do século 20, a cifra tinha caído drasticamente, chegando a 23% no fim dos anos 1970. Hoje subiu de novo, para aproximadamente 32%, e a concentração no topo – o 1% superior – atingiu níveis nunca vistos desde a época dos “barões ladrões” da Era Dourada. Em 1982, a lista dos 400 mais ricos da revista Forbes requeria um patrimônio líquido de US$ 75 milhões, mais ou menos US$ 230 milhões em valores atuais. Em 2025 o piso foi de US$ 3,8 bilhões. A soma dos patrimônios dos 400 da lista chegava a US$ 6,6 trilhões – maior do que o PIB de qualquer país do mundo, à exceção dos Estados Unidos e da China.

A concentração geográfica dessa riqueza também espelha a da era original. As fortunas dos anos 1890 se aglomeravam em Nova York, Pittsburgh e nos hubs ferroviários dos Estados Unidos; as de hoje orbitam San Francisco, Seattle e os corredores de Big Techs. As cidades industriais da primeira Era Dourada – Pullman, em Illinois; Hershey, na Pensilvânia – encontram contrapartida contemporânea nos campi de Google, Apple e Meta, em cujas instalações empregadores privados proveem assistência médica, transporte, alimentação e até habitação, criando miniaturas de Estados de bem-estar social dentro da estrutura do Estado público. 

A porção das fortunas individuais de hoje em relação à economia nacional é comparável à dos barões ladrões da Era Dourada. Em 1913, no auge de sua riqueza, John D. Rockefeller detinha aproximadamente 2,3% do PIB estadunidense. A venda em 1901 da Carnegie Steel, empresa produtora de aço de Andrew Carnegie, foi equivalente a cerca de 2,1%. Atualmente, nem uma fortuna sozinha chegou a essas proporções, mas a classe dos bilionários é imensa. Os 400 da Forbes detêm cerca de 3,6% do patrimônio líquido total das famílias estadunidenses. E, com o patrimônio líquido de Elon Musk alcançando US$ 1 trilhão, ele tem cerca de 3,2% do PIB dos Estados Unidos – uma cifra que faria dele, em termos proporcionais, o estadunidense mais rico desde Rockefeller. O setor de tecnologia produziu fortunas que teriam embasbacado os barões das ferrovias: assim como Musk, Jeff Bezos construiu uma fortuna de mais de US$ 200 bilhões; Mark Zuckerberg, Larry Ellison, Bill Gates, Larry Page e Sergey Brin têm, cada um, recursos cuja escala não encontra precedentes fora da Era Dourada original. 

Os construtores

Os titãs dos nossos tempos, contudo, carecem dos instintos criativos demonstrados pelos magnatas de outrora. O que distinguia os filantropos de antigamente não era o tamanho de suas doações, ainda que muitas vezes fossem enormes, mas a natureza do que construíam. Eles não meramente financiavam organizações existentes; eles concebiam, desenhavam e bancavam novas instituições, muitas das quais se tornaram pedras fundamentais da vida pública estadunidense. Fundaram hospitais, bibliotecas, universidades, institutos de pesquisa, museus e fundações – não como frutos de sua vaidade, mas como infraestrutura permanente para uma civilização que acreditavam poder melhorar.

A história de Andrew Carnegie é instrutiva. Carnegie era um imigrante escocês pobre que se beneficiou imensamente do fato de que um homem de negócios local abria sua biblioteca pessoal para os garotos trabalhadores de Pittsburgh. Ele creditava a esse acesso a transformação de sua vida e passou o resto dela tentando replicar a oportunidade que havia recebido. 

Entre 1883 e 1929, Carnegie financiou a construção de 2.509 bibliotecas públicas no mundo anglófono, sendo 1.689 nos Estados Unidos, 660 na Grã-Bretanha e Irlanda, 156 no Canadá, além de outras em Austrália, Nova Zelândia, Sérvia, Caribe, África do Sul, Bélgica, França, Ilhas Maurício, Malásia e Fiji. Não foram feitas doações a sistemas bibliotecários preexistentes. Na maior parte dos casos, não havia uma biblioteca para a qual doar. Carnegie criou essa infraestrutura física para o conhecimento público do zero, exigindo em troca que a comunidade se comprometesse a bancar a operação contínua da biblioteca, um mecanismo que permitiu a apropriação local e a sustentabilidade por muito tempo depois de o dinheiro de Carnegie ter sido gasto. Ele também fundou a Universidade Carnegie Mellon, o Instituto Carnegie (hoje Carnegie Science), o Carnegie Hall e a Fundação Carnegie para a Paz Internacional. Cada uma dessas entidades foi construída com o propósito de suprir uma lacuna que Carnegie havia identificado no cenário de então. Todas ainda existem hoje.

John D. Rockefeller operou em uma escala institucional semelhante. Em 1901, ele fundou o Instituto Rockefeller de Pesquisa Médica (atual Universidade Rockefeller), o primeiro instituto de pesquisas biomédicas dos Estados Unidos. Não foi uma doação para uma faculdade de medicina, mas a criação de um modelo inteiramente novo para organizar a pesquisa científica – livre da responsabilidade de ensinar e dedicado exclusivamente à descoberta. Pesquisadores da Rockefeller fizeram contribuições fundamentais à virologia, à biologia celular e à imunologia. Rockefeller fundou a Universidade de Chicago em 1890, com um aporte inicial de US$ 600 mil, concedendo ao longo do tempo mais de US$ 80 milhões à instituição – mais de US$ 2 bilhões em valores atuais. E, em 1913, criou a Fundação Rockefeller, pioneira no modelo moderno de filantropia estratégica, responsável por bancar o desenvolvimento da penicilina, a Revolução Verde na agricultura – que aumentou as colheitas no mundo todo no pós-guerra – e campanhas de saúde pública que erradicaram a ancilostomose no sul dos Estados Unidos.

Andrew Mellon constituiu a National Gallery of Art em 1937, doando não só sua coleção pessoal de obras artísticas, mas também o edifício neoclássico que a hospedaria. Ele estipulou que a galeria deveria se chamar “nacional”, em vez de levar seu nome, porque queria que outros colecionadores contribuíssem sem sentir que estavam enfeitando o monumento de outra pessoa. A estratégia funcionou: a National Gallery atraiu doações subsequentes das coleções dos empresários e filantropos estadunidenses Joseph E. Widener, Samuel H. Kress e do banqueiro Chester Dale.

Johns Hopkins, comerciante que enriqueceu com as ferrovias, deixou um legado de US$ 7 milhões – a maior doação filantrópica da história estadunidense até aquele momento – para criar um hospital e uma universidade. Inaugurado em 1889, o Hospital Johns Hopkins desenvolveu um modelo de residência que se tornou o padrão para a educação médica no país.

Nenhum desses homens deve ter sua trajetória romantizada. Aqueles que financiaram bibliotecas, laboratórios e universidades são os mesmos que se valeram de sistemas industriais marcados por coerção, repressão aos trabalhadores e distorções democráticas. Suas doações podem ter tido uma dupla função, servindo tanto para a construção cívica como para manter a reputação, a disciplina social e a conversão de riqueza privada em autoridade moral. Dizer que Carnegie e Rockefeller construíram instituições não equivale a dizer que seu poder era legítimo em todos os aspectos. É insistir em uma distinção que se tornou difícil de ignorar: não importando quão enviesadas fossem suas motivações, em múltiplas ocasiões transformaram fortuna particular em infraestrutura durável, de fim público, em vez de simplesmente redistribuir dinheiro pelos circuitos de prestígio das organizações de elite existentes.

Esse impulso se espalhou para além dos ultrarricos. Julius Rosenwald, presidente da rede varejista Sears, Roebuck and Company, se uniu ao educador Booker T. Washington a fim de construir, entre 1912 e 1932, mais de 5.300 escolas para crianças negras no sul dos Estados Unidos, marcado pela segregação racial. As escolas Rosenwald formaram uma geração de pessoas negras que vinham sendo sistematicamente excluídas da educação pública no país.
J. P. Morgan criou o Metropolitan Museum of Art, o Met, em Nova York, fazendo de uma coleção modesta um dos maiores museus do mundo. Em 1907, Margaret Olivia Sage, esposa do industrial Russell Sage, concebeu a Fundação Russell Sage, que abriu o terreno para a pesquisa nas ciências sociais e foi influente em diversas áreas, do planejamento urbano à legislação trabalhista.

O traço comum é indiscutível: filantropos da Era Dourada viram a construção de instituições como uma tarefa central. Não se contentaram em melhorar o que já existia. Identificaram lacunas estruturais na vida cívica – a falta de bibliotecas públicas, universidades dedicadas à pesquisa, institutos de pesquisa médica, museus de arte e fundações científicas – e criaram organizações novas, permanentes e autossustentáveis concebidas para sobreviver a eles.

Os assinadores de cheques

Os bilionários filantropos de hoje operam de forma diferente. Em vez de criar novas instituições, a maioria doa para aquelas já existentes, incluídas aí as que foram construídas pelos filantropos da antiga Era Dourada, há mais de cem anos.

Vejamos o cenário das maiores doações para o ensino superior. Em 2018, Michael Bloomberg, fundador da empresa que leva seu sobrenome, deu US$ 1,8 bilhão para a Universidade Johns Hopkins, onde estudou. Kenneth Griffin, fundador e CEO da Citadel, uma das maiores gestoras de hedge funds do mundo, doou centenas de milhões de dólares para a Universidade Harvard, fundada em 1636. Phil Knight, cofundador e ex-CEO da Nike, deu US$ 500 milhões para a Universidade Stanford, criação de Leland Stanford. David Geffen, produtor e magnata da música e do cinema, doou US$ 100 milhões ao Lincoln Center – construído com os esforços de John D. Rockefeller III – e US$ 150 milhões ao MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Stephen Schwarzman, cofundador, presidente e CEO da Blackstone, uma das maiores empresas de private equity do mundo, deu US$ 150 milhões para a Universidade Yale, US$ 100 milhões para a Biblioteca Pública de Nova York – construída com fundos de Andrew Carnegie, entre outros – e US$ 350 milhões para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Essas generosas doações fluíram para instituições que já estão entre as mais ricas e estáveis do mundo. O fundo de endowment de Harvard supera US$ 50 bilhões, o de Stanford, US$ 36 bilhões, e o do MIT, US$ 27 bilhões. Essas doações são os equivalentes filantrópicos das “ações de primeira linha” no mercado de capitais: seguras, prestigiosas e com poucas chances de dar errado. Ter um edifício com seu nome em Harvard confere uma espécie de imortalidade social, mas não tapa buraco algum na vida estadunidense. É como acrescentar uma ala a uma mansão de 200 cômodos.

O contraste com a velha Era Dourada é flagrante. Quando John D. Rockefeller fundou a Universidade de Chicago, a cidade não tinha nenhuma universidade dedicada à pesquisa de alto nível. Sua criação transformou a vida intelectual e social da região. Quando Carnegie construiu suas bibliotecas, a maioria das cidades estadunidenses não tinha nenhuma biblioteca pública. Antes que Rosenwald construísse suas escolas, crianças negras no sul dos Estados Unidos não tinham quase nenhum lugar dedicado à sua educação. Hoje há lacunas equivalentes por toda parte – na assistência médica rural, na capacitação profissional, na infraestrutura cívica para a era digital, na habitação, na saúde mental. No entanto, recursos da filantropia estadunidense fluem, repetidamente, para o mesmo punhado de instituições de elite que vêm acumulando doações há mais de um século.

Dizer isso não é igual a afirmar que hoje nenhum doador abastado cria algo novo. A filantropia contemporânea produz think tanks, redes de escolas comunitárias, empreendimentos biomédicos, meios jornalísticos sem fins lucrativos, programas de bolsas de estudo, escritórios de políticas públicas e negócios sociais. Mas é relativamente pequena a parcela dessa atividade que se compara ao que os filantropos do passado buscavam com mais frequência: uma infraestrutura cívica ampla e duradoura, destinada a servir um público que fosse além da ideologia, do setor, da tribo profissional ou da antiga faculdade do doador. A questão não é a ausência total de novidade. É a relativa escassez de novas instituições com a escala, a permanência e a orientação pública daquelas criadas na Era Dourada.

Em parte, a explicação é social: doar para Harvard, para o Met ou para a Biblioteca Pública de Nova York confere prestígio, algo que a incerteza envolvida em fundar uma nova entidade não oferece. Instituições já existentes têm escritórios de desenvolvimento profissional, operações sofisticadas de captação de recursos e peso para dar nome a prédios, financiar cátedras e promover galas beneficentes. Elas tornam a doação fácil e prestigiosa. Uma nova instituição, por outro lado, exige visão, risco, envolvimento operacional e a disposição de se associar a algo que pode dar errado. Os filantropos da Era Dourada tinham estômago para esse tipo de risco. Os de hoje, em geral, não têm.

A explicação também é, em parte, ideológica. A filosofia reinante na filantropia moderna, moldada pelo movimento do altruísmo eficaz e pelas consultorias que atendem aos ultrarricos, prioriza o impacto, a mensuração e a eficiência acima de tudo. A abordagem da Fundação Bill e Melinda Gates para a saúde global – visando doenças específicas com métricas quantificáveis, financiando campanhas de distribuição de vacinas onde o custo por vida salva pode ser calculado com duas casas decimais – é um dos exemplos dessa filosofia. Mas nem sempre o que mais importa para a sociedade é o que pode ser precisamente medido. Uma cultura filantrópica treinada para privilegiar intervenções viáveis, ciclos de feedback curtos e resultados quantificáveis ​​tenderá, ao longo do tempo, a subinvestir em instituições cujos benefícios são difusos, cumulativos e perceptíveis apenas ao longo de décadas.

Não é que a mensuração seja ruim; é que uma civilização não pode ser reconstruída apenas com base em métricas, e a criação de instituições resiste à quantificação. Quando Rockefeller fundou a Universidade de Chicago, ele não poderia ter medido seu “impacto” de forma significativa. As descobertas que surgiriam de seus laboratórios, os líderes que se formariam em suas salas de aula e as ideias debatidas em seus seminários eram impossíveis de prever no momento da fundação.

Uma era de declínio institucional

Não cabe dúvida de que as instituições construídas pelos filantropos da Era Dourada nos Estados Unidos foram muito bem-sucedidas. Mas isso não significa que os filantropos de hoje devam seguir seu modelo. Seria até mesmo possível argumentar que, ao contrário, precisamos apenas manter ou revitalizar essas instituições, em vez de criar novas.

As evidências, no entanto, sugerem o oposto. Não estamos apenas falhando em construir novas instituições; muitas das mais antigas estão se deteriorando de tal forma que nenhuma quantidade de doação digna de um nome numa placa possa consertar.

O declínio pode ser medido em quase todos os âmbitos. A confiança pública nas instituições despencou para níveis historicamente baixos. Uma longa série de estudos da empresa de pesquisa de opinião Gallup mostra que a confiança média dos estadunidenses nas principais instituições – Igreja, Forças Armadas, Suprema Corte, bancos, escolas públicas, jornais, Congresso, sindicatos e grandes empresas – está em 28%; é o quarto ano consecutivo abaixo de 30% e perto do ponto mais baixo em 46 anos de medição. Só 17% dos estadunidenses confiam que o governo federal fará o que é certo na maioria das vezes. A confiança na mídia caiu para 28%, e 70% dos pesquisados dizem que confiam “pouco” ou “nada” nela. Esses indicadores representam uma perda ampla e sustentada de fé na arquitetura institucional da vida estadunidense.

O ensino superior – joia da coroa da filantropia da Era Dourada – ilustra esse padrão de forma clara. As dívidas de crédito estudantil nos Estados Unidos chegaram a US$ 1,6 trilhão no fim de 2025. Instituições criadas para democratizar o conhecimento se tornaram motores de endividamento para milhões de estadunidenses. Como consequência, a confiança pública foi minada: segundo pesquisa do Gallup, apenas 36% dos estadunidenses tinham “muita” ou “bastante” confiança no ensino superior em 2024, uma queda em relação aos 57% registrados em 2015. As universidades também já não são as fábricas de inovação que seus defensores dizem ser: apesar de terem recebido mais de US$ 109 bilhões em financiamento para pesquisa em 2024, a receita bruta de licenciamento caiu 24% e os royalties operacionais despencaram 41% – uma desaceleração da comercialização mesmo com o aumento dos investimentos. E uma análise da revista Nature constatou que artigos e patentes têm se mostrado menos disruptivos ao longo do tempo em diversas áreas, sugerindo que a própria atividade de pesquisa tem produzido menos avanços por dólar investido.

Os hospitais, outro produto emblemático da filantropia da Era Dourada, estão sucumbindo ao peso do efeito Baumol – a assistência médica é o tipo de trabalho intensivo que resiste a ganhos de produtividade e está sujeito a custos crescentes. Para cuidar de um paciente, uma enfermeira ainda precisa de praticamente o mesmo tempo que levava nos anos 1970, mas os salários têm de subir para competir com setores nos quais a produtividade está melhorando. O resultado tem sido uma escalada implacável de custos. Os gastos hospitalares per capita nos Estados Unidos foram de cerca de US$ 1.674 em 1980 para mais de US$ 4.807 hoje, em valores corrigidos pela inflação. A assistência hospitalar sozinha consome hoje cerca de 31% de todos os gastos nacionais com saúde – cerca de US$ 1,5 trilhão em valores atuais. A crise dos custos não está apenas encarecendo os hospitais; está fazendo com que desapareçam. Mais de 150 hospitais rurais fecharam desde 2010, e cerca de 600 outros – quase 30% de todos os estabelecimentos desse tipo – são considerados financeiramente vulneráveis.

Filantropos de outrora identificaram lacunas na vida cívica e criaram instituições novas, concebidas para sobreviver a eles

O jornalismo local sofreu um colapso que, aos olhos de Carnegie, seria considerado uma emergência estrutural. Entre 2005 e 2024, cerca de 2.900 jornais nos Estados Unidos fecharam ou se fundiram, criando vastos desertos de notícias nos quais não há nenhuma cobertura jornalística local. É bem o tipo de lacuna que um filantropo da Era Dourada teria reconhecido como um campo necessitado de nova infraestrutura – não comprando um jornal fundado na Era Dourada, como Jeff Bezos fez com o Washington Post, mas criando uma instituição projetada para sustentar o jornalismo local na era digital. Carnegie percebeu que as cidades estadunidenses não tinham bibliotecas e construiu uma infraestrutura nacional para fornecê-las. As cidades atuais carecem de redações jornalísticas, mas quase ninguém está concebendo algo para substituí-las.

O padrão se repete em todos os domínios. Os Estados Unidos precisam urgentemente de uma onda de construção institucional tão ambiciosa quanto qualquer coisa produzida pela Era Dourada. Basta olharmos para a extensão dos problemas existentes e a perversidade dos incentivos que mantêm o status quo: prisões que recebem financiamento por dia de encarceramento, sem nenhum interesse em evitar o retorno de ex-presidiários; assistência psiquiátrica que mantém pessoas com doenças mentais graves em prisões porque os hospitais psiquiátricos fecharam sem deixar nada no lugar; programas de reabilitação de dependentes químicos pagos por internação, e não pela recuperação duradoura; abrigos para pessoas em situação de rua subsidiados por pernoite, criando uma indústria permanente, sem nenhum estímulo para acabar com a situação; agências de proteção à infância bancadas pelo número de crianças no sistema, o que gera um incentivo perverso para retirá-las das famílias e manter os casos em aberto; defensores públicos tão sobrecarregados que só conhecem seus clientes já na audiência de instrução; comunidades rurais sem atenção primária à saúde e sem nenhuma instituição destinada a fornecê-la; escolas que ensinam para a média e são pagas pela frequência, não pelo sucesso dos alunos; programas de capacitação profissional que não se responsabilizam pela empregabilidade dos graduados; programas de reinserção social tão precários que devolvem as pessoas à liberdade com US$ 40 no bolso e nenhum outro apoio; sistemas de educação especial que pagam escolas para rotular crianças, em vez de integrá-las; centros de controle de doenças sem capacidade operacional para lidar com surtos e que não são responsabilizados pelos resultados de saúde na população; um sistema de primeira infância que trata o pré-natal, a pediatria e a pré-escola como problemas desconexos; um sistema de justiça civil que deixa de atender 86% das necessidades legais de estadunidenses de baixa renda; e um ecossistema de notícias locais tão degradado que comunidades inteiras perderam qualquer mecanismo institucional de responsabilização cívica.

Em cada um desses setores, o problema está na concepção dos incentivos. As instituições que temos foram construídas para uma era diferente e recompensam os aportes, não os resultados; o processo, em vez dos desfechos; e a sobrevivência, em lugar da transformação. Muitas áreas da vida cívica apresentam falhas e se beneficiariam de novas instituições pensadas especificamente para saná-las. Em vez de enfrentar esses desafios concebendo uma grande arquitetura, a classe filantrópica, em peso, preenche cheques para instituições cambaleantes, colocando dinheiro onde o que se necessita é imaginação institucional.

A obrigação do construtor

Vamos comparar essa mentalidade com a de Andrew Carnegie. Seu ensaio O evangelho da riqueza, publicado em 1889, ainda é lido hoje, mas seu argumento é quase universalmente mal compreendido. Sua premissa básica não era em favor de os ricos doarem seu dinheiro – essa era a parte fácil. Ele dizia que os homens que haviam demonstrado a capacidade de organizar grandes empreendimentos, gerenciar a complexidade e construir coisas que funcionassem em grande escala tinham a obrigação de aplicar as mesmas habilidades aos problemas públicos. O dinheiro era apenas o combustível. O verdadeiro recurso filantrópico era o gênio organizacional. O próprio Carnegie concebeu a estrutura de incentivos de seu programa de bibliotecas, exigindo que cada comunidade se responsabilizasse por bancar as operações antes que ele pagasse pela construção – um mecanismo que garantia a propriedade local e a sustentabilidade.

Rockefeller recrutou os educadores Frederick T. Gates e Wickliffe Rose para fazer da Fundação Rockefeller uma organização capaz de identificar problemas, contratar talentos e executar estratégias de longo prazo com o mesmo rigor que ele havia aplicado à Standard Oil, empresa petrolífera que fundou. Julius Rosenwald incorporou requisitos de contrapartida financeira ao seu programa de construção de escolas, determinando que as comunidades negras e os governos locais contribuíssem com fundos e mão de obra, criando assim um compromisso político e financeiro que perduraria além de seu próprio envolvimento. Esses homens encaravam a filantropia como um desafio operacional, não como uma transação financeira.

Quando um bilionário de hoje se limita a fazer doações de centenas de milhões de dólares para Harvard ou a colocar seu nome numa ala do Met, o público perde algo mais valioso do que dinheiro: a aplicação das habilidades que foram primordiais para a existência dessas fortunas. Jeff Bezos construiu a Amazon, transformando-a na rede de logística e distribuição mais sofisticada da história da humanidade. Imagine essa mente operacional aplicada à reformulação da infraestrutura de saúde rural ou de distribuição de vacinas – não como uma doação pontual, mas como a fundação de uma instituição permanente criada para essa tarefa. Elon Musk demonstrou com a SpaceX que era possível criar uma corporação destinada a fazer o que antes só os governos conseguiam. Seus esforços filantrópicos, no entanto, têm sido insignificantes se comparados à sua riqueza e certamente não chegam nem perto de algo como a criação de uma nova instituição cívica. A tragédia não é que esses bilionários estejam acumulando dinheiro. Muitos estão fazendo doações generosas, pelo menos segundo os padrões convencionais. A tragédia é que eles estão doando passivamente, transferindo riqueza para organizações que outras pessoas construíram, em vez de realizar o trabalho árduo, pouco glamouroso e pessoal de construir novas instituições por conta própria. 

Entre a venda da Oculus para o Facebook em 2014 por US$ 2,7 bilhões e a fundação da Anduril Industries, o empresário estadunidense Palmer Luckey desenvolveu um conceito que, se tivesse sido levado adiante, seria o mais próximo de um ato filantrópico à moda de Carnegie do século 21: uma rede de presídios privados sem fins lucrativos, cujo pagamento seria efetuado apenas se seus ex-detentos se mantivessem fora da prisão após a soltura. A ideia invertia a estrutura de incentivos do sistema prisional estadunidense, na qual as operadoras de prisões privadas lucram com a reincidência e não têm incentivo financeiro para a reabilitação. Luckey acabou desistindo do projeto – concluiu que demandaria muito lobby – e se dedicou a construir uma empresa de tecnologia de defesa que hoje está avaliada em dezenas de bilhões de dólares. Mas a ideia que ele abandonou é exatamente o tipo de pensamento institucional que este artigo defende. Luckey não estava propondo doar para uma organização sem fins lucrativos de reforma prisional já existente. Ele planejava um modelo com uma estrutura organizacional inovadora, um mecanismo de incentivo autorregulador e o potencial para demonstrar, em larga escala, que o encarceramento poderia ser reinventado. As habilidades que tornaram Luckey capaz de construir a Anduril do zero – as mesmas que lhe permitiram construir a Oculus na garagem de seus pais quando era adolescente – são exatamente aquelas que Carnegie argumentava ser obrigação dos ricos empregar para o bem público. O presídio sem fins lucrativos poderia ter sido uma nova instituição para um sistema falido. Em vez disso, o sistema continua quebrado e o construtor seguiu em frente.

A morte da permanência

Criar novas instituições exige paciência e visão de longo prazo. Talvez a diferença mais marcante entre a filantropia da Era Dourada e sua encarnação moderna resida na atitude em relação ao tempo. A Carnegie Corporation de Nova York, fundada em 1911, ainda está em operação mais de um século depois. A Fundação Rockefeller, fundada em 1913, continua financiando pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo. A Universidade Stanford, a Universidade de Chicago, o Met são instituições concebidas como entidades duradouras, veículos por meio dos quais os recursos de um filantropo poderiam gerar valor muito depois de sua morte.

Os filantropos de hoje cada vez mais desprezam esse modelo em favor da filantropia de “consumo de capital”, que é a prática de distribuir os ativos de uma fundação por um período determinado, geralmente ao longo da vida do doador ou durante um determinado número de anos após a sua morte. O raciocínio mais influente em defesa do gasto gradual foi o de Chuck Feeney, fundador da Atlantic Philanthropies, que até 2020 doou toda a sua fortuna, US$ 8 bilhões, e dissolveu sua fundação. O próprio Julius Rosenwald foi um dos primeiros defensores dessa prática – argumentando que cada geração deveria resolver seus próprios problemas –, em vez do controle póstumo simbolizado por fundos perpétuos.

O movimento complementar conhecido como filantropia baseada em confiança – que tem na filantropa MacKenzie Scott a praticante mais famosa – representa uma correção genuína do paternalismo e da burocracia excessiva das doações tradicionais de fundações, e sua aptidão de delegar poder e recursos às comunidades mais próximas dos problemas não está errado. Mas, em termos de teoria da mudança, é bastante incompleto. Doações financeiras irrestritas podem sustentar e melhorar organizações que já estejam funcionando, mas não são capazes de redesenhar estruturas de incentivo que levam muitas outras ao fracasso. Um abrigo para moradores de rua que recebe uma doação sem contrapartidas pode ter equipamentos melhores, mas continua a ser remunerado por diária. Um programa de reabilitação de dependentes químicos com mais tempo de operação ainda é pago por internação. A filantropia baseada em confiança aborda os sintomas da falência institucional com dignidade e rapidez, mas não altera a arquitetura subjacente – os ciclos de feedback falhos, as estruturas de remuneração perversas, os sistemas de responsabilização desalinhados que produzem os mesmos resultados geração após geração. Os grandes construtores de instituições da Era Dourada não estavam simplesmente transferindo dinheiro para as pessoas que dele precisavam. Estavam projetando novas estruturas com novos incentivos, novos mecanismos de responsabilização, novas teorias sobre como organizar o esforço humano em prol de um objetivo público. Isso é mais difícil, mais lento e menos transparente do que emitir um cheque de grande valor para uma organização sem fins lucrativos já existente, mas é esse trabalho que de fato transforma o que é possível.

Uma civilização não pode ser reconstruída apenas com base em métricas, e a criação de instituições resiste à quantificação

A iniciativa mais vultosa hoje é o Giving Pledge. Criado pelo investidor e filantropo Warren Buffett e por Bill e Melinda Gates em 2010, ele pede aos bilionários que se comprometam a doar, em vida ou por testamento, a maior parte de sua riqueza. Mais de 240 indivíduos e famílias assinaram o compromisso, representando mais de US$ 600 bilhões em promessa filantrópica. Em certo sentido, é um princípio admirável, ao rejeitar o acúmulo de riquezas por dinastias e ao insistir que as fortunas sejam destinadas ao uso público. Mas a ênfase em doar rapidamente, em vez de construir algo permanente, revela uma falta fundamental de imaginação institucional.

A filosofia do consumo de capital segue, de fato, um argumento razoável. Fundações perpétuas podem, sim, tornar-se burocráticas, cautelosas e desconectadas dos problemas que visavam resolver ao ser criadas. A Fundação Ford, concebida por Edsel Ford em 1936, tornou-se um exemplo clássico para os críticos da deriva filantrópica quando Henry Ford II renunciou ao conselho em 1976, alegando que sua missão havia se distanciado do sistema capitalista que a viabilizou. E muitas instituições nascidas na Era Dourada não cumprem mais seus propósitos originais. Mas o abandono total da permanência representa uma falha de outra natureza.

A oposição relevante não é entre fundações perpétuas e fundações com prazo de validade. Ambas as formas podem decair por presunção ou perder o rumo. A questão é se a filantropia cria uma arquitetura capaz de oferecer suporte duradouro a uma missão – organizações, normas, programas de formação, órgãos de pesquisa, plataformas cívicas –, que possa persistir enquanto houver uma necessidade pública real. Alguns problemas exigem urgência, outros exigem paciência, e muitos exigem ambas. Uma cultura filantrópica que só consiga vislumbrar o desembolso imediato é tão distorcida quanto uma que só consiga conceber um fundo permanente. O que falta hoje não é apenas longevidade, mas uma forma institucional à altura do horizonte temporal do problema.

A mentalidade do consumo de capital é fundamentalmente focada no presente. Pressupõe que os problemas mais importantes são aqueles que conseguimos ver agora; que a aplicação mais eficiente do capital filantrópico é a que combate as crises de hoje; e que as gerações futuras produzirão bilionários para resolver seus problemas. Essas suposições podem vir a se mostrar completamente equivocadas. O investimento da Fundação Rockefeller na pesquisa do engenheiro agrônomo e biólogo estadunidense Norman Borlaug, nos anos 1940, só gerou a Revolução Verde nos anos 1960 – duas décadas de apoio institucional paciente que, lá na frente, salvaram da fome cerca de 1 bilhão de pessoas. Nenhuma fundação baseada no consumo de capital, operando sob uma cláusula de extinção em 20 anos com medidas rigorosas para anos de vida ajustados por incapacidade, teria bancado essa aposta. Os investimentos iniciais da Carnegie Corporation na radiodifusão pública deram frutos décadas depois com a criação da PBS, rede de televisão pública e educativa sem fins lucrativos nos Estados Unidos, e da Vila Sésamo. Essas não foram “vitórias por nocaute”; foram apostas institucionais lentas que exigiram o tipo de paciência que apenas uma doação permanente pode proporcionar.

A resposta certa não exige necessariamente perpetuidade: as organizações devem existir enquanto cumprirem seu propósito, e precisamos de novas estruturas filantrópicas capazes de incorporar esse princípio – instituições cujos projetos incluam mecanismos para renovação, autoavaliação e, quando necessário, encerramento oportuno. Nem a esclerose da Fundação Ford nem a planejada extinção da Fundação Gates representam um modelo adequado. Precisamos de instituições construídas para durar enquanto estiverem cumprindo seus objetivos, nem um dia a mais.

Ambição institucional e responsabilidade

Não perdemos a capacidade de construir; apenas a privatizamos. A elite contemporânea ainda funda organizações, recruta talentos, resolve problemas de coordenação e expande sistemas por continentes. Mas expressa essas capacidades por meio de empresas, não de instituições cívicas. Ainda produzimos construtores. Mas, diferentemente do que acontecia na Era Dourada, eles não adquirem suas capacidades no mercado privado para empregá-las depois a favor do bem público. 

Os filantropos da Era Dourada entendiam algo de que seus sucessores, em grande parte, se esqueceram: a forma mais elevada de filantropia não é a transferência de riqueza, mas a criação de estrutura. Uma biblioteca não é uma pilha de livros. É uma instituição – um conjunto de normas, práticas, relações e espaços físicos – que organiza o conhecimento e o torna acessível a qualquer pessoa que atravesse sua porta. Uma universidade não é uma coleção de salas de aula. É uma comunidade de investigação que se perpetua, uma máquina para produzir descobertas imprevistas. Uma fundação de pesquisa não é um talão de cheques. Trata-se de uma inteligência organizacional, capaz de identificar problemas, recrutar talentos e sustentar esforços por décadas a fio.

São essas estruturas que constroem a civilização. Não atos individuais de generosidade, por maiores que sejam, mas instituições: duradouras, capazes de se renovar e de operar muito depois de seus fundadores serem esquecidos. Os aquedutos romanos ainda transportam água; as universidades da Bolonha medieval e de Oxford ainda produzem conhecimento de ponta; as bibliotecas de Carnegie ainda emprestam livros. Essas estruturas perduram porque foram projetadas para isso, porque seus criadores entenderam que o presente mais valioso que uma geração pode dar à próxima não é dinheiro, mas estruturas sólidas dentro das quais o esforço humano pode ser organizado e sustentado.

O modelo que prega o esgotamento dos recursos diz aos filantropos de hoje para alocarem capital rapidamente, contra problemas mensuráveis, no lapso de suas vidas. A dinâmica social da filantropia de elite faz com que doem para lugares onde seus nomes serão vistos pelas pessoas certas. E assim o dinheiro flui para as mesmas instituições de sempre, o patrimônio dos mais ricos engorda e as lacunas estruturais na vida estadunidense – as instituições ausentes, os espaços sem governança, os problemas carentes de uma organização que os resolva – permanecem sem solução.

O que nos falta hoje é recuperar a ambição institucional com mais responsabilidade, mais autocrítica e de forma historicamente mais honesta do que se fazia na primeira Era Dourada. Não se trata de celebrar oligarcas por se comportarem como quase soberanos, e, sim, de perguntar por que, em uma sociedade tão rica em talento técnico, sofisticação gerencial e capital privado, tão pouco dessa capacidade está sendo convertida em estruturas duradouras visando a vida em comum.

Estamos consumindo a herança institucional da Era Dourada sem pensar em reabastecê-la. As bibliotecas ainda estão abertas, as universidades ainda ensinam, os museus ainda exibem suas pinturas; mas tudo isso foi criação dos mortos, mantida pelos vivos sem quase nenhum acréscimo significativamente novo. Os homens e mulheres que construíram as tecnologias que definem nossa era – que provaram, no mercado, sua capacidade de criar organizações com poder e escala surpreendentes – ainda não dirigiram essas habilidades para o bem público permanente. Os filantropos da Era Dourada nos deixaram as estruturas da civilização. Nós as mantivemos de pé, mas construímos pouco a partir delas. Quando essa base finalmente ruir, como acontece em algum momento com todas elas, descobriremos que a geração mais rica da história da humanidade legou aos seus descendentes apenas a memória das enormes fortunas que um dia teve e a certeza de que muito pouco disso foi investido para erguer algo duradouro.