O discurso excludente das faculdades

As universidades têm maneiras sutis de acolher certos grupos de candidatos, ao mesmo tempo que afastam outros
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A medida que o custo de um diploma universitário nos Estados Unidos continua a aumentar, intensificam-se os debates sobre o preço e o retorno da educação superior. Contudo, grande parte da cobertura midiática no país que questiona se um diploma realmente promove mobilidade social raramente examina as diferenças entre instituições que oferecem cursos de graduação (bacharelado), faculdades comunitárias de formação técnica e faculdades privadas com fins lucrativos. Será que todas elas abrem suas portas aos estudantes da mesma forma? 

Em um novo artigo, Michelle Jackson, professora associada de sociologia na Universidade Stanford, e Christof Brandtner, professor associado de inovação na EM Lyon Business School, na França, investigam os sinais culturais que as instituições de ensino superior transmitem a potenciais estudantes por meio de suas comunicações. Os resultados mostram como elas têm maneiras sutis de acolher determinados grupos de candidatos e desencorajar outros.

Os pesquisadores demonstram que a discriminação começa no período anterior à candidatura, quando os estudantes avaliam quais instituições correspondem aos seus desejos e expectativas. Segundo os autores, ocorre uma forma de “exclusão institucional” quando potenciais alunos concluem que uma faculdade não é adequada para eles, com base nos materiais de divulgação da instituição e nos sinais culturais que estes transmitem. Além dos fatores mais conhecidos da desigualdade educacional (peso financeiro, nível de preparo para a academia e déficits de informação), narrativas culturais veiculadas online sobre as instituições reforçam fronteiras entre diferentes grupos.

“Muitos estudos se concentram em organizações individuais, mas queríamos dizer algo mais amplo sobre toda a infraestrutura do ensino superior”, diz Jackson. “Desenvolvemos um desenho metodológico misto, analisando diferentes regiões dos Estados Unidos e diferentes tipos de instituições, para construir uma amostra que pudesse falar sobre o país como um todo.”

Assim como outras organizações, as instituições de ensino superior constroem narrativas como parte de sua imagem pública, descrevendo o ambiente cultural de sua instituição para atrair candidatos. Com o objetivo de compreender essas narrativas e identificar diferenças entre elas, os pesquisadores usaram análise computacional de textos para examinar declarações de missão e páginas da internet sobre auxílio financeiro.

Por meio da análise de palavras e da modelagem de tópicos, emergiram termos e temas que evidenciam diferenças cruciais nos sinais que as instituições enviam aos estudantes, com impacto nas decisões de matrícula. Enquanto as faculdades privadas com fins lucrativos evocavam aspirações relacionadas a carreira, negócios e empregabilidade, esse mesmo vocabulário não se destacava nas universidades que oferecem bacharelados, onde predominavam temas pós-materialistas, como diversidade e cidadania global.

Para testar como os indivíduos respondiam a esses termos, avaliando se e como palavras-chave como “carreira” e “descoberta criativa” funcionam como sinais culturais, os pesquisadores realizaram um experimento com estudantes do ensino médio, metade deles proveniente de contextos privilegiados e a outra metade de contextos desfavorecidos. Os pesquisadores apresentaram aos estudantes perfis de instituições de ensino superior para medir os efeitos de diferentes palavras. Os resultados foram claros: narrativas sobre sucesso profissional atraíram participantes de contextos menos privilegiados, enquanto estudantes mais ricos preferiram instituições cujos perfis enfatizavam a descoberta criativa e a exploração do mundo.

Ao elaborar o questionário, os pesquisadores encontraram uma forma de retirar as considerações financeiras da equação. “Queríamos colocar os respondentes em um estado em que não pensassem nas restrições de custo”, explica Jackson. “Incluímos uma condição experimental e formamos três grupos. Para um deles, explicamos que o custo da faculdade seria totalmente coberto por bolsas. Para outro grupo, dissemos que os estudantes receberiam ajuda para obter empréstimos. O terceiro grupo foi informado de que os estudantes seriam automaticamente considerados para bolsas por mérito.”

Com as restrições financeiras praticamente fora de cena, os pesquisadores puderam comparar a magnitude do efeito das diferenças de linguagem. Observaram que as faculdades privadas com fins lucrativos conseguiam atrair de forma eficaz estudantes que priorizavam formação profissional e retorno financeiro. Já os estudantes mais ricos demonstraram rejeição a instituições que apresentavam narrativas focadas na carreira.

Hoje, muitas instituições de ensino superior investem recursos e energia para ajudar os estudantes a se sentir confortáveis e incluídos. Administradores buscam considerar como estudantes de diferentes origens socioeconômicas podem ou não se sentir à vontade na instituição, desenvolvendo, por exemplo, programas voltados a estudantes de baixa renda e de primeira geração no ensino superior, para atender a uma variedade de necessidades. Ainda assim, as instituições podem fazer mais para responder às preocupações de potenciais candidatos de todos os perfis.

“Ampliar a diversidade de pessoas que chegam ao ensino superior significa ajudá-las a sentir que pertencem a esse espaço”, considera Jackson. “Precisamos ouvir o que cada pessoa busca ao ingressar na faculdade.”

Veja o estudo completo: “Institutional Exclusion: The Cultural Production of Educational Inequality Through College Narratives”, por Michelle Jackson e Christof Brandtner, Social Forces, jul. 2025.

Leia também: Como evitar a armadilha de Turing na educação 

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