Será que tudo no setor social precisa ganhar escala?

A volatilidade climática, a fragmentação geopolítica e os choques econômicos são sinais de um mundo que opera de forma imprevisível. Nesse contexto, o sucesso das organizações de inovação social precisa ser redefinido para algo além de ganhar de escala
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Há pelo menos duas décadas, uma pergunta estrutura boa parte da forma como a filantropia e o ecossistema de inovação social pensam sobre como efetivar mudanças: isso pode ganhar escala? A pergunta aparece em editais de financiamento, programas de aceleração e documentos de estratégia. Faz sentido: se uma solução funciona para uma comunidade, certamente o imperativo ético é ajudar muitas outras. Em um mundo com tantas necessidades não atendidas, o ganho de escala promete eficiência, alcance e velocidade.

No entanto, algo curioso aconteceu à medida que essa lógica se disseminou. Cada vez mais, ideias promissoras, organizações e formas de ação coletiva são filtradas pela mesma lente, submetidas ao mesmo padrão. Se algo não pode ganhar escala, por que valeria a pena investir nisso?

Essa suposição remodelou a arquitetura da sociedade civil. Influenciou que tipos de organizações recebem financiamento, que tipos de conhecimento são valorizados e até mesmo como os problemas sociais são definidos. Mas, à medida que cresce a instabilidade geopolítica, as desigualdades se aprofundam e os sistemas sociais se fragmentam de novas maneiras – à medida que o mundo, em suma, deixa de se comportar como um sistema capaz de ganhar escala –, é hora de fazer a pergunta incômoda: será que toda inovação social precisa ser concebida para ganhar escala? Onde o “pensamento orientado à escala” faz sentido, e onde precisamos reimaginar nossa forma de pensar o progresso e a inovação?

Quando a escala é a única lógica padrão

A escala se tornou uma ideia organizadora tão poderosa na filantropia e no desenvolvimento global porque, em sua essência, o pensamento orientado à escala é construído em torno do crescimento: a ideia de que um sistema bem-sucedido é aquele capaz de alcançar muito mais pessoas sem um aumento proporcional de recursos. Nessa formulação, as soluções mais valiosas são aquelas que conseguem se expandir rapidamente mantendo a eficiência. A mensuração, portanto, torna-se inseparável do desenho. Se o crescimento é o objetivo, a capacidade de demonstrar crescimento, por meio de métricas como usuários alcançados, domicílios atendidos, hectares restaurados ou unidades entregues, torna-se central para a forma como o valor é avaliado.

Essa orientação para a escala tem raízes profundas na prática do desenvolvimento global. Ao longo das últimas três décadas, governos e instituições vêm buscando, cada vez mais, modelos replicáveis que possam ser transferidos entre diferentes geografias. O microfinanciamento é um dos exemplos mais citados. O que começou como grupos de empréstimo localmente enraizados evoluiu para sistemas financeiros de grande escala que atendem milhões de pessoas no mundo todo, apoiados por métricas padronizadas como taxas de pagamento e número de tomadores.

Esses pontos de comprovação orientaram muitas das tendências que vemos hoje em torno do pensamento orientado à escala no setor social. Se uma intervenção funciona em um lugar, a pergunta seguinte rapidamente passa a ser se ela pode ser replicada em outros lugares, em escala.

No entanto, pesquisadores que estudam inovação social sugerem que o impacto se dissemina por múltiplos caminhos. Eles distinguem entre ampliação horizontal, ou replicação em diferentes locais; ampliação vertical, ou influência sobre políticas e instituições; e aprofundamento, ou transformação de relações, normas culturais e práticas locais. Outros estudiosos descrevem a ampliação em rede, na qual ideias se disseminam por meio de redes descentralizadas, em vez de uma única organização em expansão.

Cada caminho tem seu próprio papel a desempenhar. No entanto, as exigências operacionais do pensamento orientado à escala requerem que se pense de forma consistente em alguns de seus componentes básicos: replicabilidade, padronização e resultados mensuráveis. A implicação, muitas vezes, é que processos sociais complexos talvez precisem ser simplificados em modelos estáveis, capazes de circular entre contextos, algo frequentemente chamado por sociólogos de “dataficação da sociedade civil”.

Na prática, isso pode moldar quais tipos de soluções são priorizadas, quais organizações recebem apoio e como os problemas sociais passam a ser definidos.

Organização comunitária, gestão coletiva e mudanças culturais raramente se traduzem em métricas fáceis de acompanhar. Tomemos, por exemplo, o caso da restauração de bacias hidrográficas. A construção de pequenas barragens de contenção e estruturas de recarga pode ganhar escala rapidamente em vários distritos e produzir números impressionantes, como hectares tratados e estruturas construídas. Mas a durabilidade desses ganhos muitas vezes depende de algo menos visível: acordos locais sobre o uso das águas subterrâneas, escolhas de cultivo em anos de secas ou quem decide quando um poço tubular deve ser aprofundado. Essas decisões são negociadas por meio da confiança, de instituições locais e da liderança dentro das comunidades. Muitas vezes são mais difíceis de contabilizar, mas frequentemente determinam se a resiliência perdura.

A pergunta, então, é: o que podemos perder se o pensamento orientado à escala se tornar a lente predominante para olhar a mudança social? Quando a capacidade de ganhar escala importa, que tipos de mudança ela consegue efetivar de maneira significativa? Como poderia ser o progresso se o impacto fosse julgado não apenas pela distância que uma solução percorre, mas também por quão bem ela fortalece os sistemas ao seu redor: as comunidades, os ecossistemas e as instituições que permitem que a mudança perdure?

Um mundo que já não se comporta como um sistema capaz de ganhar escala

Os limites do pensamento orientado à escala estão se tornando mais claros à medida que o próprio mundo se torna menos previsível. A volatilidade climática, a fragmentação geopolítica e os choques econômicos estão produzindo sistemas que se comportam menos como máquinas estáveis e mais como ecossistemas vivos. Nessas condições, soluções concebidas uma única vez e replicadas em todos os lugares podem rapidamente chegar a seus limites. O que as comunidades precisam é da capacidade de se adaptar: aprender, se reorganizar e responder à medida que as circunstâncias mudam.

As sociedades raramente se transformam apenas por meio da replicação. A mudança emerge com mais frequência de ecossistemas de atores, relações e instituições que aprendem, negociam e se adaptam em lugares específicos. Quando a inovação começa pelas realidades das pessoas e de cada contexto, em vez de partir da suposição de que as soluções precisam ganhar escala, diferentes possibilidades entram em cena.

Para a filantropia, a tarefa talvez não seja simplesmente apoiar aquilo que funciona em escala, mas cultivar as condições nas quais muitas formas de mudança possam criar raízes. Uma maneira de pensar sobre isso é por meio da navegação. Em águas incertas, os navios importam. Mas navios sozinhos não conseguem traçar o curso. Eles dependem de faróis que iluminam terrenos em transformação e de pontes que conectam esforços que, de outro modo, permaneceriam isolados. A sociedade civil precisa cada vez mais desse tipo de infraestrutura: instituições que ajudem os atores a enxergar a paisagem com clareza e a trabalhar em conjunto por meio dela. No entanto, a filantropia ainda tende a financiar os navios (as organizações que entregam programas visíveis), enquanto os sistemas mais silenciosos que ajudam a frota a navegar em conjunto permanecem subdesenvolvidos.

O que a filantropia pode fazer

Financiar as pontes. A filantropia pode investir de forma mais deliberada em infraestrutura social: plataformas de articulação, sistemas de governança compartilhada e redes de conhecimento que permitam a colaboração entre muitos atores. A Ecological Restoration Alliance, por exemplo, reúne profissionais da restauração, cientistas e organizações comunitárias para desenvolver protocolos compartilhados e sistemas de aprendizagem em diferentes paisagens. Em vez de ampliar uma única organização, a aliança fortalece a capacidade do campo de agir coletivamente.

Apoiar tecnologias sob gestão comunitária. Plataformas digitais podem ganhar escala colocando a ação das comunidades no centro. O esforço local de mapeamento de desastres na Indonésia, que se apoia em abordagens participativas de mapeamento de desastres pioneiramente desenvolvidas por plataformas como a PetaBencana, permite que cidadãos relatem riscos em tempo real e contribuam para mapas abertos de desastres usados por comunidades e governos. A tecnologia funciona precisamente porque é cocriada com os usuários e incorporada aos sistemas locais de resposta, em vez de imposta de cima para baixo.

Investir nos bens comuns. Recursos compartilhados, como sistemas de dados abertos, protocolos de restauração, redes de formação e ferramentas colaborativas, muitas vezes funcionam como o solo a partir do qual a inovação cresce. Um exemplo é a CoRE Stack, desenvolvida pela Commons Tech Foundation, que oferece infraestrutura digital aberta e modular, concebida especificamente para organizações lideradas por comunidades. Em vez de construir plataformas proprietárias, a CoRE Stack se concentra em bens públicos digitais compartilhados, sistemas de identidade, registros, camadas de consentimento e protocolos de governança que muitos atores podem adaptar a seus próprios contextos. Financiar esse tipo de infraestrutura baseada nos bens comuns permite que organizações diversas colaborem e inovem sem que cada uma precise construir sua própria tecnologia do zero.

Construir a camada intermediária ausente. Entre organizações de base e grandes instituições globais existe uma camada frágil, mas crítica, de intermediários: redes regionais, polos de conhecimento e organizações dedicadas ao fortalecimento de campos de atuação, que traduzem ideias entre contextos. Esses atores orientam grupos emergentes, documentam aprendizados e mantêm a colaboração em ecossistemas de prática. Por exemplo, o Consortium for Agroecological Transformation exemplifica essa abordagem ao apoiar redes de agricultores, pesquisadores e organizações de base na transição de paisagens agrícolas rumo à agroecologia.

Olhando para além da escala

O pensamento orientado à escala tem seu lugar. Alguns desafios, como campanhas de vacinação em massa, sistemas de alerta precoce para desastres ou infraestrutura digital para inclusão financeira, dependem de soluções capazes de se mover rapidamente por grandes populações.

Mas muitas das transformações que agora buscamos, da restauração de paisagens degradadas à reconstrução da confiança social, não circulam exatamente da mesma maneira. Elas são moldadas lentamente no território: por meio de experimentos que fracassam antes de dar certo, de vizinhos que aprendem a responder juntos em momentos de tensão e de organizações locais da sociedade civil que permanecem presentes muito depois que a urgência de uma crise desaparece. Com o tempo, essas negociações cotidianas em torno de água, meios de subsistência, risco e responsabilidade começam a formar algo mais duradouro. Porque, quando as crises chegam, os sistemas raramente se mostram à altura da ocasião da noite para o dia; eles se elevam ao nível de prontidão que foi discretamente construído no dia a dia, por meio de relações, confiança e normas compartilhadas.

Em um mundo definido pela complexidade e pela incerteza, a tarefa à frente talvez esteja tanto em cultivar essas condições habilitadoras quanto em expandir as próprias soluções – fortalecendo os faróis e as pontes que ajudam a frota inteira a encontrar seu caminho.

*Texto publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “Does Everything in the Social Sector Need to Scale?”.

Autor(a)

Tanya Kak

Tanya Kak lidera o portfólio de clima e meio ambiente na Rohini Nilekani Philanthropies, onde promove abordagens de resiliência climática baseadas em sistemas e enraizadas nas comunidades na Índia.