Grandes empresas de tecnologia têm desempenhado um papel desmesurado na guerra em Gaza desde outubro de 2023 – de plataformas de mídia social acusadas de censura sistemática a conteúdos relativos à Palestina a gigantes como Microsoft, Google, Amazon e Palantir, que assinaram contratos bastante lucrativos para fornecer tecnologia para o exército israelense.
Preocupado com a atuação do setor nos ataques a Gaza, Paul Biggar, fundador da Darklang e da CircleCI, uma startup que se tornou uma empresa de tecnologia multibilionária, fundou a Tech for Palestine em janeiro de 2024. A organização opera como uma incubadora, ajudando empreendedores cujos projetos apoiam os direitos humanos dos palestinos para que possam desenvolver e expandir seus negócios. “Nossos projetos, por um lado, usam a tecnologia para o bem e, por outro, enfrentam os desafios sistêmicos relativos a Israel na indústria de tecnologia”, afirma Biggar.
Por mais de uma década como CEO e membro do conselho das empresas que fundou, Biggar teve uma visão privilegiada de como o setor equipa as forças militares israelenses. Em dezembro de 2023, ele foi afastado do conselho da CircleCI depois de postar em seu blog uma crítica a figurões da indústria por “apoiarem ativamente o genocídio” na Palestina. Na época, o número oficial de mortos no território ultrapassava 18 mil. A partir de então, essa contagem subiu para mais de 70 mil.
Desde seu lançamento, a Tech for Palestine cresceu de uma comunidade de trabalhadores da tecnologia e outros voluntários para uma organização de concessão de subsídios, sem fins lucrativos, que emprega cinco engenheiros palestinos em tempo integral e apoia 70 projetos. Em dezembro de 2024, tornou-se uma organização sem fins lucrativos isenta de impostos federais, o que lhe permite solicitar grandes doações privadas e obter doações menores por meio de um link de contribuições em seu site.
Entre os projetos mais ambiciosos da Tech for Palestine está o Boycat, um aplicativo que ajuda os usuários a identificar produtos de empresas que lucram com a violação de direitos humanos na Palestina, e o UpScrolled, uma alternativa ao Instagram que garante a inexistência de bloqueio de usuários e conteúdos postados, de algoritmos tendenciosos e favoritismo. A Meta, proprietária do Instagram e do Facebook, tem censurado em suas plataformas conteúdos de apoio à Palestina, conforme apurado em uma auditoria conduzida pelo Human Rights Watch.
Outro dos projetos de maior sucesso da iniciativa é o Find a Protest [Encontre um Protesto], um site que ajuda as pessoas a encontrar ações organizadas em todo o mundo, como manifestações e encontros formativos. Hannah Lynn iniciou o site em fevereiro de 2024 para auxiliar amigos a encontrar eventos perto deles. Ela começou a receber apoio da incubadora em maio de 2024 e, desde então, o portal cresceu para mais de 250 mil visitantes por semana. O Find a Protest também oferece uma plataforma para organizadores que facilita a listagem e a divulgação de seus eventos. “Tem sido difícil porque é um trabalho árduo, mas o estímulo da Tech for Palestine vem sendo incrível, e eles fornecem muitos recursos”, diz Lynn.
A Tech for Palestine também oferece mentoria individual com fundadores de startups experientes, teleconferências para que novos fundadores recebam apoio ao vivo de mentores e colegas membros da incubadora, webinars para aprimorar as habilidades dos participantes em vendas e marketing, além de acesso a até US$ 300 por mês em subsídios. A organização planeja distribuir US$ 800 mil neste primeiro ano do programa de doações e expandi-lo no futuro, de acordo com a necessidade.
“Nossa teoria de mudança é que, no ecossistema pró-ocupação e pró-apartheid, existem dezenas de milhares de projetos e nosso papel é ser um catalisador para lançar, no final, dezenas de milhares de projetos [para combater esse ecossistema]”, diz Biggar. “Estamos tentando transformar [a indústria de tecnologia] em algo que seja pró-liberdade, pró-libertação e pró-direitos humanos.”
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