Imagine um manguezal na maré baixa, com suas raízes mantendo a linha da costa coesa, filtrando sedimentos, quebrando as ondas e criando um lar para formas de vida que a maioria de nós nunca verá. De longe, ele parece uma única faixa verde no horizonte; de perto, é uma arquitetura indomável de raízes e relações, em constante ajuste, falha e regeneração.
Neste momento de eventos climáticos em série, a adaptação se parece mais com um manguezal do que com um muro de contenção marítima feito em concreto: trata-se de nutrir as capacidades, os vínculos e as instituições que permitem que pessoas e lugares sejam flexíveis sem se quebrar. E, embora as comunidades sempre tenham se adaptado, a adaptação finalmente passou a ocupar o centro da política climática e da filantropia, dos comunicados da COP e dos diálogos de alto nível, do Adaptation Gap Report e da ascensão de fundos dedicados à adaptação e à resiliência. O financiamento para adaptação cresceu para uma estimativa de US$ 60 a 70 bilhões por ano [R$ 307,7 bilhões a R$ 359 bilhões], e os fluxos climáticos totais já chegam à casa dos trilhões, mas os países em desenvolvimento ainda precisarão de bem mais que US$ 300 bilhões [R$ 1,5 trilhão] por ano para adaptação até meados da década de 2030. As metas de dobrar o financiamento para adaptação até 2025 já ficaram fora de alcance, enquanto aumentam as perdas e os custos da demora.
Os riscos estão se acelerando mais rapidamente do que nossa capacidade de reorganizar a exposição e construir capacidade de resposta. E a linguagem do financiamento para adaptação pode parecer insignificante quando comparada às realidades que já moldam o cotidiano das pessoas: quem precisa caminhar mais longe para buscar água, quem pode pagar para ficar em casa durante uma onda de calor, quem tem poupança ou redes de apoio para se recuperar depois de uma enchente. A adaptação corre o risco de se tornar um novo rótulo para velhos hábitos? Como evitar que ela se torne apenas uma categoria em um portfólio, um pilar em uma teoria de mudança e um tema para eventos e encontros?
Em suma, o que significaria usar o tecido vivido da adaptação para reorientar a estratégia de quem atua na interseção entre clima, desenvolvimento e transformação social? Quais são as condições sociais que fazem com que alguns lares absorvam eventos climáticos enquanto outros desabam sob seu peso?
A adaptação se resume a uma ideia enganosamente simples: o risco climático não diz respeito apenas ao perigo em si, mas às pessoas que estão expostas a ele e a quais capacidades elas podem mobilizar para responder a ele. Nesse sentido, há quatro categorias interligadas de adaptação necessárias:
- Riscos: ondas de calor, enchentes, ciclones, secas, elevação do nível do mar e assim por diante.
- Exposição: onde pessoas e ativos se situam em relação a esses riscos.
- Capacidade: os sistemas financeiros, sociais, institucionais e de serviços que ajudam as pessoas a responder à sua exposição ao risco.
- Instituições e regras: direitos fundiários, normas de planejamento, governança e orçamentos que moldam as três dimensões anteriores.
Por exemplo, uma semana de calor extremo cria realidades completamente diferentes dependendo de como essas categorias se sobrepõem. Em uma cidade onde trabalhadores ao ar livre atuam em ruas sem sombra durante uma onda de calor (risco), moradias informais retêm calor (exposição), clínicas sobrecarregadas enfrentam dificuldades (capacidade), enquanto os Planos de Ação para o Calor representam uma resposta de política pública (Instituições e Regras): em cidades com melhor sombreamento, proteção laboral, alertas precoces e serviços de atenção primária à saúde, o mesmo evento de risco será muito menos letal.
A proposição central, portanto, é que a adaptação tem menos a ver com reduzir o mapa dos riscos e mais com redesenhar os mapas de exposição e capacidade: tirar pessoas e ativos da zona de risco sempre que possível e reforçar os amortecedores que absorvem choques onde isso não for possível. Quando o problema é visto dessa forma, o suposto dilema entre “desenvolvimento” e “clima” começa a se dissolver. Moradia segura, trabalho decente, água limpa e governança inclusiva são, ao mesmo tempo, ganhos de desenvolvimento e investimentos em adaptação climática.
Na Rohini Nilekani Philanthropies, as principais perguntas de aprendizado são: primeiro, como enxergamos e atuamos sobre o risco em função da exposição e da capacidade, e não apenas do perigo? Segundo, como passamos de estratégias reativas de enfrentamento (venda de ativos, retirada de crianças da escola, migração sob coação) para uma adaptação proativa e coletiva? Terceiro, como fortalecemos sistemas sociais, ecológicos e institucionais para que a adaptação se torne uma memória incorporada, parte do funcionamento das sociedades, e não uma sequência de projetos isolados?
Por trás das manchetes genéricas, pesquisas recentes sobre adaptação e vulnerabilidade trazem alguns achados contraintuitivos e até desconfortáveis, que nos levam a fazer perguntas difíceis sobre resiliência e adaptação:
1. Ter abrigo não significa estar em segurança
As políticas para o calor frequentemente imaginam o risco como algo que está do lado de fora: ruas escaldadas pelo sol, locais de trabalho, campos agrícolas. No entanto, moradias de baixa renda com telhado de metal ou pouca ventilação no Sul da Ásia e em cidades africanas costumam apresentar temperaturas internas que regularmente superam o calor externo extremo, especialmente à noite. Para pessoas idosas, crianças, pessoas com doenças crônicas e mulheres cujos papéis de trabalho e cuidado as mantêm em casa, buscar abrigo pode significar viver dentro de um forno lento, em vez de escapar de um.
As estratégias de adaptação estão sendo desenhadas com base em padrões reais de exposição, ou em pressupostos que só fazem sentido se você já tiver uma casa fresca e segura para onde se recolher?
2. Enfrentar o risco pode minar a resiliência
As pessoas não respondem de forma passiva a enchentes, secas ou calor, mas fazendo tudo o que podem: tomar empréstimos com juros altos, vender animais de criação ou ferramentas, reduzir refeições, tirar crianças da escola ou enviar um membro da família para uma migração arriscada. Pesquisas sobre eventos climáticos e pobreza mostram, porém, que a sobrevivência sob restrições muitas vezes pode corroer a capacidade futura de gerar renda, a saúde e o poder de negociação. Isso significa que, em termos agregados, o que pode ser interpretado de forma equivocada como capacidade adaptativa é, na verdade, pessoas abrindo mão de sua segurança de longo prazo para atravessar o período extremo.
Quando celebramos a resiliência, estamos reconhecendo a agência das pessoas ou ignorando as condições estruturais que as deixam com apenas formas nocivas de adaptação disponíveis?
3. Soluções ruins de adaptação
Respostas clássicas de adaptação (muros de contenção costeira, diques, ar-condicionado, canais de irrigação) podem reduzir a exposição imediata ao mesmo tempo que criam novas dependências e pontos cegos. Defesas costeiras rígidas, por exemplo, podem comprometer ecossistemas de manguezal que, de outra forma, ofereceriam proteção flexível, enquanto estratégias de resfriamento intensivas em energia podem reforçar redes elétricas dependentes de combustíveis fósseis.
Há uma literatura crescente sobre soluções ruins de adaptação, intervenções que apenas deslocam o risco no tempo, ao adiar problemas, ou no espaço, protegendo uma área enquanto aumentam o risco em outra. A pergunta crítica, portanto, não é simplesmente se uma infraestrutura reduz perdas em um lugar ou momento, mas quem, em outro lugar ou mais adiante, terá de viver com os novos riscos que ela cria?
Adaptação como infraestrutura social
A adaptação não é um catálogo de soluções climáticas; é um projeto social sobre moradia, trabalho, dívida, cuidado e voz. Diz respeito a quem tem margem para escolher como se adaptar e quem está se adaptando porque, na verdade, nunca teve escolha. Como resultado, as formas mais duradouras de adaptação muitas vezes se parecem menos com projetos e mais com infraestruturas de relação e prática que se sustentam sob pressão, ou seja, infraestrutura social: as redes, normas e instituições que determinam se as pessoas enfrentam eventos climáticos sozinhas ou coletivamente.
De modo geral, há três categorias de infraestrutura social:
1 – Relacional: grupos de ajuda mútua, cooperativas, comitês de bairro, associações de migrantes e sistemas informais de apoio mútuo. Essas estruturas carregam informação, coordenam evacuações, reúnem doações e tornam possível absorver e compartilhar risco.
Por exemplo, por meio de sua abordagem de “micélio”, a Asar, uma articuladora de redes na Índia, constrói conexões entre governos locais, sociedade civil, comunidades e especialistas. Uma de suas iniciativas, a Conferência dos Panchayats (CoP), reúne representantes de aldeias, organizações comunitárias, grupos de autoajuda e governos locais. Em Jharkhand e Maharashtra, as CoPs reuniram centenas de representantes de aldeias e lideranças comunitárias para compartilhar experiências vividas de risco climático, soluções locais e planejar conjuntamente estratégias de adaptação.
2 – Cognitiva e cultural: conhecimento local sobre paisagens, padrões sazonais, rotas seguras e habilidades de reparo; narrativas compartilhadas sobre o que funcionou em crises passadas; normas de reciprocidade e cuidado. Esse é o “software” tácito que permite às comunidades improvisarem de forma eficaz.
Por exemplo, nas colinas de Nilgiris, na Índia, a Keystone Foundation atua há décadas como guardiã de sistemas de conhecimento indígenas. Por meio de seu programa People & Nature Collectives, a Keystone arquiva histórias orais, memória ecológica, práticas tradicionais de uso da terra, conhecimento de forrageamento, culturas alimentares e calendários sazonais, preservando uma inteligência comunitária que, de outro modo, corre o risco de desaparecer.
3 – Institucional: governos locais, burocracias de linha de frente, sistemas públicos de saúde e educação e espaços cívicos capazes de ouvir, decidir e agir em condições de incerteza. Seu comportamento em uma crise muitas vezes importa tanto quanto as defesas físicas.
Por exemplo, a Jan Sahas (Índia) atua na interseção entre direitos trabalhistas, governança da migração e proteção social – todos mecanismos críticos em regiões afetadas pelo clima, onde o estresse térmico e a precariedade associada ao clima estão remodelando os mercados de trabalho. Por meio de corredores de mobilidade segura, assistência jurídica e sistemas de proteção ao trabalhador para milhões de trabalhadores migrantes e informais, a Jan Sahas fortalece justamente as instituições que determinam se os trabalhadores conseguem se adaptar sem mergulhar ainda mais na vulnerabilidade.
Quando essas infraestruturas são densas e saudáveis, as comunidades conseguem se adaptar de formas mais equitativas, antecipatórias e sustentáveis. Quando são frágeis ou desgastadas, até intervenções técnicas bem desenhadas têm dificuldade de funcionar. Uma barreira contra enchentes só é tão útil quanto a governança que decide quem pode viver atrás dela, os sistemas de alerta que sinalizam quando ela pode falhar e as redes sociais que determinam quem será ajudado primeiro.
Encarar a adaptação como um único novo compartimento de financiamento desvia do essencial, porque a infraestrutura social é tão diversa quanto a própria sociedade humana. A pergunta central não é “quantos projetos de adaptação há no portfólio?”, mas “quão forte é a infraestrutura social que sustentará as pessoas na próxima década de eventos climáticos extremos?”.
Uma mudança em três dimensões
Se a adaptação quiser corresponder às expectativas atuais, precisamos pensar em três dimensões.
1. Política, não apenas técnica.
A resiliência é uma questão política de representação e controle, não um resultado neutro da implantação de tecnologias. A adaptação costuma ser enquadrada como um problema de engenharia: construir muros de contenção costeira, implementar sistemas de alerta precoce, testar culturas tolerantes à seca. Esses esforços importam, mas permanecem frágeis se estiverem dissociados das relações de poder. A adaptação real exige que aqueles mais afetados não sejam apenas consultados, mas colocados no centro da tomada de decisão.
2. Proteção do desenvolvimento, não uma tarefa isolada.
Para muitas comunidades, adaptação é sinônimo de preservar ganhos de desenvolvimento duramente conquistados. Quando as chuvas faltam, ou as enchentes avançam, escolas fecham, sistemas de saúde entram em colapso, os preços dos alimentos disparam e a moradia se torna precária. Investimentos em adaptação bem desenhados funcionam como uma forma de seguro do desenvolvimento: mantêm crianças na escola, sistemas de água em funcionamento, clínicas abertas e famílias alojadas apesar dos choques climáticos. Tratar adaptação e desenvolvimento como compartimentos separados ignora essa interdependência. Também cria o risco de dupla contagem: rotular gastos sociais essenciais como “clima” sem alterar seu desenho para enfrentar o risco ao longo do tempo.
3. De longo prazo, não limitado por projetos.
A verdadeira resiliência não é construída em ciclos de dois anos, com orçamentos de fase piloto e estratégias de saída pré-definidas. Instituições que aprendem, infraestruturas que recebem manutenção e comunidades que confiam nos sistemas ao seu redor levam tempo para se desenvolver. Subsídios curtos e projetos pontuais podem desencadear inovação, mas raramente a sustentam. A adaptação exige investimento persistente e paciente: em planejamento e manutenção, em liderança local, e na capacidade de monitorar, avaliar e ajustar estratégias sob condições em transformação.
Ambições da adaptação reimaginadas
Tomadas em conjunto, essas três mudanças sugerem que o coração da adaptação está menos na novidade das intervenções e mais na durabilidade e na equidade dos sistemas nos quais elas estão inseridas.
O atual aumento de interesse em adaptação oferece uma chance rara de redefinir as ambições do campo. Em vez de aspirar a deixar as sociedades à prova do clima (algo impossível em um mundo já transformado), ele convida a um objetivo mais enraizado na realidade: cultivar infraestruturas sociais que permitam às pessoas navegar a incerteza com autonomia, solidariedade e alguma medida de segurança.
Isso é mais discreto do que muitos slogans, mas também mais radical. Exige instituições dispostas a compartilhar poder, e não apenas recursos; métricas capazes de abarcar a complexidade, e não apenas contar entregas; e estratégias que honrem as medidas que as comunidades já estão tomando, em vez de tratá-las como notas de rodapé de planos formais.
*Artigo publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “Climate Adaptation Means Building Social Infrastructure”.
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