Lições do rio Negro

Ao narrar três décadas de viagens pela Amazônia, Drauzio Varella inspira novas formas de pensar políticas públicas, filantropia e desenvolvimento na região

“Senti o ridículo de ter vivido quase cinquenta anos no país em que nasci sem me dar conta de tamanha beleza.” A confissão de Drauzio Varella ecoa um sentimento do qual compartilho, com 45 anos, diante da Amazônia, nosso principal paradoxo nacional: território onde exuberância e fragilidade coexistem, e onde agendas globais de clima e biodiversidade confrontam realidades locais de violência e desigualdade. 

Em O sentido das águas: histórias do rio Negro, o autor concentra a discussão amazônica na bacia do rio Negro e reabre uma questão persistente em nossa história: por que continuamos olhando pouco para aquilo que nos constitui?

Varella não chega ao rio Negro como turista literário: sua trajetória nos explica o sucesso da obra atual. Entendo sua perspectiva muito influenciado por outros livros dele que li. Em Estação Carandiru, lançado em 1999 pela Companhia das Letras e premiado com o Jabuti de Livro do Ano Não Ficção em 2000, Varella consolidou a ética do testemunho diante da violência institucional. Em O médico doente (Companhia das Letras, 2007), ele relata a própria experiência com a proximidade da morte, após ter contraído febre amarela em uma viagem justamente ao rio Negro. Além deles, no livro Nas águas do rio Negro (Companhia das Letras, 2017), o autor também já sinalizava o fascínio e a conexão com o tema de sua obra atual.

Entre a crônica e a ciência

O sentido das águas chega em momento crítico na Amazônia: o garimpo ilegal recrudesce, facções criminosas consolidam rotas e debates sobre bioeconomia e demarcação de terras indígenas se intensificam. No ano da COP30 na região, Varella não pretende oferecer um manual de políticas públicas, mas constrói um caderno de viagens que articula ciência, história social e memória afetiva, transformando o rio Negro em um personagem central do debate público brasileiro.

A tese do autor, embora não explicitada formalmente, emerge ao longo das 304 páginas: o rio Negro condensa um patrimônio biocultural cuja compreensão demanda a articulação entre fatos naturais, usos sociais, cosmologias indígenas e violências históricas. A floresta se revela simultaneamente organismo e arquivo vivo; as populações ribeirinhas e indígenas emergem como produtoras de conhecimento; e o Estado brasileiro, quando finalmente chegou a essas paragens, perpetuou exclusões seculares.

Essa tese se sustenta ao longo dos mais de 60 casos apresentados, como o do ciclo extrativista da piaçaba com sua persistente escravidão por dívida; o da logística kafkiana necessária para receber benefícios do Bolsa Família; o da epidemia de alcoolismo e suicídio no município amazonense de São Gabriel da Cachoeira; o do projeto empreendedor yanomami de ecoturismo; aqueles de personagens humanos e animais; e o do papel de organizações da sociedade civil como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e o Instituto Socioambiental (ISA) no desenvolvimento da região.

O recorte temporal abrange o rio Negro em longa duração, explorando camadas sobrepostas de história natural e social: a bioquímica singular das águas negras, a diversidade linguística sem paralelo, os processos coloniais, as missões religiosas, as frentes extrativistas sucessivas, os desafios de segurança pública, os avanços científicos através de herbários e até experiências contemporâneas de governança local. Vale notar que, mesmo sendo médico de formação, Varella não se apoia em arcabouço teórico formal explícito, privilegiando o relato vivido e a observação direta.

O método de argumentação é híbrido. Primeiro, o autor constrói relatos de viagem alternando entre narrador-personagem e narrador-observador, criando proximidade e distanciamento conforme a necessidade. Segundo, estabelece uma trilha quase científica calcada em centenas de incursões que fez ao rio Negro ao longo de três décadas. Terceiro, reconstrói a história social por meio de miniaturas exemplares (como a freguesia da piaçaba, a figura do regatão, os soldados da borracha, os internatos salesianos, a antiga cidade flutuante de Manaus). Por fim, incorpora dimensões linguísticas e cosmológicas, explorando a exogamia linguística tukano, o papel do nheengatu como língua franca e o mito fundador da cobra-canoa.

A evidência que o autor apresenta é predominantemente qualitativa, apoiada por dados quantitativos sobre o esforço científico e recortes históricos precisos. A robustez do trabalho reside na densidade etnográfica e na longitudinalidade da observação de Varella. 

Se existe limitação, reconhecida pelo próprio formato escolhido, seria a ausência de ancoragem acadêmica tradicional com referências sistemáticas e notas, o que pode frustrar leitores em busca de uma base teórica. Em compensação, ganha-se notável legibilidade pública por meio de parágrafos concisos, linguagem acessível e cadência próxima à crônica jornalística.

No contexto do macrodebate brasileiro sobre mudanças climáticas, bioeconomia, demarcação de terras, combate ao crime ambiental e desenho de políticas de proteção social, o livro realiza três movimentos particularmente úteis.

Primeiro, desnaturaliza a vulnerabilidade amazônica. Demonstra que a violência atual não é acidental, mas produto de processos coloniais de longa duração iniciados com as chamadas guerras justas e tropas de resgate, perpetuados por economias extrativistas que reatualizam dominações por meio de mecanismos como a escravidão por dívida. 

Segundo, revaloriza a dimensão biocultural nas políticas públicas. A diversidade linguística e o plurilinguismo resultante da exogamia não são meras curiosidades antropológicas, mas base social que sustenta a manutenção de relações, a educação intercultural e projetos como o Plano de Visitação Yaripo, de ecoturismo yanomami. 

Terceiro, articula camadas históricas, culturais e institucionais, revelando, por exemplo, curiosidades como a micrologística para acesso ao Bolsa Família, ausente do debate público convencional. O custo proibitivo da gasolina e o desenho urbano-centrado do programa social exemplificam como políticas bem-intencionadas podem reproduzir exclusão quando ignoram especificidades territoriais.

Embora reforce inventários de violências coloniais e impactos de missões religiosas já conhecidos, o autor inova ao focar especificamente o rio Negro como unidade de análise. De forma original, coloca cosmologias indígenas no mesmo plano explicativo das ciências naturais, ruptura ainda rara no discurso técnico brasileiro. 

A obra ainda demonstra que saúde pública é fundamentalmente questão social. O alcoolismo epidêmico da região e os suicídios em São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, indicam que sem perspectiva econômica e pertencimento cultural, não existe prevenção eficaz possível. 

Simultaneamente, aponta que transições de modelo econômico são possíveis e podem ser endógenas, como comprova o ecoturismo Yaripo, caracterizado como “startup” de turismo yanomami, gerando renda enquanto preserva cosmologia e território. Em minhas palavras: empreendedorismo social de base.

O livro tem força como narrativa público-pedagógica, embora não substitua estudos setoriais especializados. O trade-off central da obra é: a legibilidade ampla cobra o preço da sistematização acadêmica.

Ecos de Euclides da Cunha ressoam no entrelaçamento entre história natural e tragédia social, agora com ética do olhar renovada, menos militar e mais convivente. O diálogo com Eduardo Neves (arqueólogo brasileiro e um dos principais pesquisadores atuantes na Amazônia) e a concepção da Amazônia como agrofloresta ancestral ancoram a crítica à noção romantizada de natureza intocada. Por afinidade temática e contraste de gênero, a obra conversa com A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert (Companhia das Letras, 2015), ao reconhecer cosmologias como fontes legítimas de explicação política.

Da leitura à prática

Da obra surgem oportunidades para a filantropia estratégica e o investimento social privado brasileiro, como, por exemplo, cofinanciar infraestruturas de base como centros de pagamento comunitários e iniciativas de empreendedorismo de impacto socioambiental; desenvolver programas de redução de danos e prevenção do alcoolismo cocriados com lideranças indígenas; estabelecer fundos para preservação e ensino de línguas por meio da formação de professores bilíngues e/ou poliglotas; ou garantir apoio de longo prazo a organizações de base, blindando-as de ciclos políticos. 

Já para empreendedores de impacto socioambiental, o livro pode sugerir a priorização de modelos de negócio com base comunitária: turismo de base indígena seguindo o exemplo Yaripo; cadeias produtivas de piaçaba e manejo florestal não madeireiro com certificação e preço justo; e tecnologias para pagamentos offline e conectividade que reduzam custos logísticos proibitivos.

A leitura também ajuda executivos corporativos de cadeias de suprimentos, sustentabilidade ou responsabilidade social corporativa, que são alertados para a necessidade de diligência reforçada contra cadeias produtivas contaminadas por atividades ilegais; o estabelecimento de parcerias de benefício compartilhado com comunidades locais; e investimentos sociais diretos em capacidade e resiliência local.

Já gestores públicos encontram no livro subsídios para, por exemplo, redesenhar a entrega de benefícios em territórios dispersos com postos itinerantes, pontos de pagamento comunitários e calendários móveis; e institucionalizar cogestão com organizações indígenas, fomentando alternativas econômicas endógenas que alinham demarcação, patrimônio linguístico e geração de renda.

Como literatura, a obra seduz pela capacidade de converter assombro em linguagem comum e, com isso, abrir portas para leitores não iniciados. O segredo de Varella está em imagens que seguram a mão de quem lê. A ciência aparece num registro que qualquer um entende: “As águas do rio são negras porque constituem um chá filtrado pelo solo argiloarenoso de suas margens”. A escala ganha corpo: “O rio Jaú, afluente que deságua no Médio Rio Negro, hoje um parque nacional do tamanho da Bélgica”. E até o trabalho de pesquisa vira poesia: “Os herbários são galerias de arte com obras que a seleção natural levou milhões de anos para criar”.

Ao mesmo tempo, o livro ensina a ver a floresta com outra gramática: “A Floresta Amazônica deve ser entendida como uma agrofloresta, um patrimônio biocultural dos brasileiros”. Também redesenha a cidade com metáforas que ficam na memória: “A cidade flutuante de Manaus é uma espécie de Veneza selvagem e tropical”. 

O resultado é um ganho duplo para o leitor: uma experiência estética que não infantiliza e um aprendizado concreto sobre território, história e política, sem pedágio de jargão e sem militância juvenil.

O sentido das águas: histórias do rio Negro
por DRAUZIO VARELLA 
Companhia das Letras, 2025, 304 págs., R$ 79,90