Com a expectativa de que empresas de inteligência artificial como OpenAI e Anthropic gerem enormes fortunas pessoais nos próximos anos, já cresce a especulação sobre como essa nova classe de indivíduos ultrarricos direcionará esses ganhos e o que isso poderá significar para a sociedade. É razoável supor que pelo menos uma parcela dessas fortunas será destinada à filantropia, o que poderá acrescentar, ao longo do tempo, centenas de bilhões de dólares em novas doações para causas sociais.
Como era de esperar, boa parte do debate público tem se concentrado em quais problemas esses novos filantropos deveriam escolher para enfrentar e nas questões práticas que vêm em seguida: quais estratégias de financiamento serão mais eficazes? Que tipos de organizações deveriam ser criadas ou ampliadas? Que infraestrutura, talentos e formatos organizacionais serão necessários para transformar esses recursos em impacto significativo?
São perguntas importantes, mas talvez não sejam as mais importantes para o nosso tempo. A questão de maior peso é quais responsabilidades acompanham uma riqueza extraordinária em um mundo marcado pela queda da confiança nas instituições, por uma profunda polarização e por um sentimento generalizado de exclusão política e econômica.
Muitos dos criadores de grandes fortunas das gerações mais recentes, entre eles Bill Gates, Mark Zuckerberg e Michael Bloomberg, acumularam seu patrimônio durante um período de extraordinária transformação tecnológica, muito parecido com o atual. Suas iniciativas filantrópicas refletiam uma visão claramente tecnocrática: identificar um problema solucionável, mas que recebia poucos investimentos; reunir os melhores especialistas; financiar soluções; medir resultados; e dar escala ao que funciona. Esse modelo produziu avanços extraordinários em saúde global, pesquisa científica, educação e políticas públicas.
Ao mesmo tempo, também revelou os limites da expertise, dos recursos e das boas intenções como instrumentos de transformação social. Algumas das intervenções mais ambiciosas das últimas duas décadas enfrentaram dificuldades não por falta de financiamento ou rigor, mas porque subestimaram a importância da legitimidade, da confiança e do protagonismo das comunidades. A iniciativa de US$ 100 milhões [R$ 517 milhões] de Mark Zuckerberg para reformar as escolas públicas de Newark continua sendo um caso emblemático dos limites da filantropia conduzida de cima para baixo.
O desafio desta nova era da filantropia se torna ainda maior porque as instituições que tradicionalmente fazem a mediação entre cidadãos e poder também enfrentam dificuldades. Organizações da sociedade civil, de entidades sem fins lucrativos a universidades e meios de comunicação, lidam com suas próprias crises de legitimidade, representatividade e confiança pública. Críticos de diferentes partes do espectro político veem cada vez mais essas instituições como pouco responsivas às preocupações dos cidadãos comuns, ainda que discordem sobre as causas do problema. Alguns as consideram capturadas por elites econômicas e políticas, enquanto outros acreditam que se tornaram subordinadas a agendas ideológicas que deslocaram suas missões centrais. Em um momento de escassez de autoridade moral, a capacidade de lidar com interesses, valores e grupos sociais concorrentes será fundamental para qualquer pessoa ou organização que tente enfrentar problemas sociais.
Recursos, conhecimento especializado e ambição, por si só, não serão suficientes para reparar as fraturas da nossa ordem social. O principal desafio para essa nova geração de filantropos bilionários, portanto, não é apenas decidir o que financiar, mas como exercer influência em uma sociedade na qual a confiança é frágil e a legitimidade não pode ser comprada. Eles precisarão imaginar para si um papel mais amplo, que os coloque não apenas como investidores e articuladores de resultados sociais, mas também como responsáveis por preservar as condições cívicas que favorecem confiança, participação e senso de propósito compartilhado.
Ironicamente, apesar das muitas falhas de Andrew Carnegie como industrial, sua filantropia era orientada pela convicção de que a riqueza trazia obrigações que iam além das doações beneficentes. As bibliotecas cuja construção ele financiou em mais de dez países no começo do século 20 não eram simplesmente um serviço a ser oferecido. Eram instituições cívicas concebidas para ampliar oportunidades e autonomia e permitir uma participação mais ampla na vida pública. Da mesma forma, muitas das universidades, museus e instituições públicas criadas naquele período foram pensadas como uma infraestrutura duradoura para uma sociedade democrática. Essa concepção mais ampla de filantropia, entendida como uma forma de liderança cívica, e não apenas como oferta de bens e serviços que o mercado ou o governo não conseguem oferecer, parece cada vez mais relevante hoje.
Para essa tarefa, a próxima geração de filantropos talvez precise de referências. Curiosamente, algumas das lições mais valiosas podem ser encontradas justamente nas instituições que muitos novos filantropos tendem a descartar: fundações tradicionais administradas profissionalmente e com longa trajetória. Embora os formatos organizacionais e as estratégias de atuação de fundações como Ford, MacArthur, Hewlett e Packard possam parecer anacrônicos para uma geração imersa na cultura empreendedora, seria um erro ignorar a experiência que essas organizações acumularam ao operar na difícil fronteira entre mercados, Estados e sociedade civil.
O principal desafio para essa nova geração de filantropos bilionários, portanto, não é apenas decidir o que financiar, mas como exercer influência em uma sociedade na qual a confiança é frágil e a legitimidade não pode ser comprada
É importante deixar claro que as fundações tradicionais estão longe de ser imunes à crise mais ampla de confiança que afeta a sociedade civil. Elas têm sido criticadas por diferentes lados e acusadas, entre outras coisas, de paternalismo, elitismo, falta de prestação de contas ou orientação ideológica. Ainda assim, continuam entre os poucos intermediários da sociedade civil cujo trabalho atravessa, de forma recorrente, diferentes setores e horizontes de tempo. Ao longo de décadas, essas fundações ajudaram a criar e sustentar ecossistemas inteiros de organizações, campos de pesquisa, instituições cívicas e infraestruturas de interesse público que continuam moldando a sociedade. Apoiaram iniciativas para ampliar direitos civis, promover a igualdade de gênero, fortalecer a proteção ambiental, melhorar a saúde pública e ampliar oportunidades para comunidades historicamente marginalizadas. Seu histórico está longe de ser impecável, mas demonstra capacidade não apenas de construir instituições, como também de ajudar a impulsionar mudanças sociais significativas dentro de sistemas complexos.
Suas lideranças passaram décadas lidando justamente com os obstáculos que a próxima geração de filantropos provavelmente encontrará: grupos com interesses concorrentes, valores conflitantes e questionamentos persistentes sobre legitimidade e autoridade em uma sociedade pluralista. Poucas outras instituições acumularam experiência comparável atuando em meio a disputas tão constantes.
O trabalho cotidiano de tradução entre diferentes linguagens intelectuais e políticas realizado pelas lideranças dessas fundações, entre conselheiros, equipes, organizações financiadas, formuladores de políticas públicas, lideranças comunitárias e a sociedade em geral, pode se tornar cada vez mais valioso nos próximos anos. Elas passaram décadas confrontando os limites do poder filantrópico e sabem que mudanças sociais duradouras raramente surgem apenas do conhecimento especializado ou dos recursos disponíveis. Com mais frequência, dependem da formação de coalizões e da adesão da sociedade.
Considere o exemplo já mencionado das escolas públicas de Newark. E se, em vez de chegar com uma agenda de reformas em grande parte definida de antemão, a iniciativa tivesse começado com um período de escuta da comunidade? E se uma parcela significativa dos recursos tivesse sido destinada ao desenvolvimento de lideranças locais, ao apoio à organização de pais de alunos e à criação de estruturas de governança por meio das quais os moradores pudessem definir prioridades e cobrar responsabilidade das instituições? É impossível saber se os resultados educacionais teriam sido diferentes, mas a intervenção poderia ter deixado uma infraestrutura cívica mais duradoura.
Uma abordagem assim exige uma mentalidade fundamentalmente diferente daquela que costuma orientar a inovação tecnológica. Ela pede que os filantropos vejam a filantropia não apenas como um mecanismo para resolver problemas sociais, mas como um meio de ampliar a capacidade de ação das comunidades e fortalecer sua possibilidade de moldar o próprio futuro.
Na década de 1960, a Fundação Ford financiou a Bedford-Stuyvesant Restoration Corporation, a primeira organização de desenvolvimento comunitário dos Estados Unidos. A iniciativa ajudou a lançar as bases do que se tornaria o movimento moderno de desenvolvimento comunitário ao demonstrar como a filantropia poderia fortalecer organizações de base local. Com o tempo, o modelo se espalhou para milhares de comunidades em todo o país, contribuindo para a criação de moradias a preços acessíveis, a revitalização de bairros e o crescimento econômico local, ao mesmo tempo que deixou como legado uma capacidade cívica e uma liderança local que perduraram muito além dos investimentos filantrópicos originais.
A próxima geração de filantropos certamente financiará descobertas científicas, acelerará a inovação tecnológica e enfrentará alguns dos desafios mais urgentes da humanidade. Mas também herdará uma sociedade às voltas com a queda da confiança, o enfraquecimento das instituições e profundas divisões sociais. Mesmo as intervenções mais bem concebidas podem fracassar quando as instituições que as lideram não têm legitimidade ou quando as comunidades que pretendem atender se sentem excluídas do processo. Descobertas científicas, oportunidades econômicas, saúde pública, desempenho educacional e até mesmo o desenvolvimento mais responsável da inteligência artificial dependem, em última instância, de níveis de confiança e cooperação social que não podem ser considerados garantidos.
Este não é apenas um argumento moral em favor da liderança cívica, mas também um argumento prático. A pergunta mais importante desta nova era da filantropia talvez não seja quais problemas a riqueza pode resolver, mas como ela pode ser empregada de maneiras que fortaleçam as bases democráticas das quais, em última instância, depende todo progresso duradouro.
*Texto publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “The New Gilded Age Needs Civic Leaders, Not Just Philanthropists”.
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