É tarde da noite. O lugar é barulhento e cheira a cerveja e cigarro. A banda está na terceira música quando o trompetista faz um solo tão extraordinário que uma pessoa da plateia agarra seu braço. Vocês nem se conhecem, mas acabaram de ouvir algo fora de série.
É por esse motivo que 10 milhões de turistas visitam Nova Orleans, nos Estados Unidos, todo ano. A cidade e seus músicos sabem disso. Mas sabem também que só a música não paga o aluguel. Quando nós da UX for Good começamos a estudar o problema em 2012, o músico profissional típico da cidade era casado, tinha dois filhos, ganhava cerca de US$ 24 mil [R$ 122 mil] por ano e não tinha nenhum plano de saúde.
A Grammy Foundation, a New Orleans Jazz & Heritage Foundation e várias organizações bem-intencionadas já haviam tentado resolver o que consideravam a maior dificuldade: a falta de habilidade dos músicos para os negócios. Elas criaram uma rede de apoio com oficinas de educação financeira, cursos de gestão e ferramentas de planejamento de carreira. Eram iniciativas concebidas com cuidado por pessoas competentes e genuinamente preocupadas com a situação. Nada funcionou.
Depois de conversar com músicos, executivos de gravadoras, donos de bares, autoridades municipais, líderes de organizações sem fins lucrativos e turistas, descobrimos que o diagnóstico não estava exatamente errado, mas era irrelevante.
Em Nova Orleans, os músicos profissionais optam por um estilo de vida muito diferente daquele que a maioria de nós leva, inclusive no aspecto financeiro. Muitos param de estudar cedo para se dedicar a sua arte. Acordam tarde, tocam com os amigos e em seguida se apresentam até altas horas da madrugada. Não se prendem muito ao local onde moram ou trabalham. É assim que vivem, e sempre viveram, os músicos sérios de lá. Nenhum curso de capacitação financeira seria capaz de alterar padrões culturais tão enraizados.
Fomos procurar respostas em outro lugar. A solução econômica mais óbvia estava bem diante de nós, nos bares e casas de espetáculos: os turistas que vão a Nova Orleans atraídos pela música e gastam em tudo o que a rodeia, inclusive as gorjetas. Se cada um dos 10 milhões de turistas desse uma única gorjeta de US$ 5 durante a estadia média de cinco dias, a renda dos músicos da cidade aumentaria em mais de US$ 10 mil por ano. Se dessem duas gorjetas de US$ 5, a renda anual desses profissionais quase dobraria.
Simples, não? Contudo, todos nos diziam que a ideia da gorjeta estava fora de cogitação, que nenhum músico aceitaria. Quase todo músico profissional em Nova Orleans começou na rua, tocando por alguns trocados. Virar um profissional significa passar a tocar em casas noturnas, assinar contratos com gravadoras e deixar para trás o pote de gorjeta, o estojo do violão aberto no chão e os apelos nada sutis aos transeuntes. Para esses músicos, pedir gorjeta – mesmo que pudesse dobrar sua renda anual – era como retroceder na hierarquia social.

Outra saída seria tentar mudar a maneira como os músicos encaravam as regras da própria profissão. À medida que avançávamos na investigação, fomos vendo que a resistência não era exatamente à gorjeta em si. Era ao ato de pedi-la. Assim, quando entendemos que a verdadeira regra não era “não se aceita gorjeta”, mas sim “não pedir”, a coisa mudou. Se o que os músicos rejeitavam era a mensagem social implícita no ato de pedir dinheiro, a pergunta passou a ser outra: quem recebe gorjetas sem precisar pedir? A resposta estava nos próprios estabelecimentos onde os músicos se apresentavam: os garçons.
Nos Estados Unidos, a gorjeta faz parte de uma norma social bem estabelecida. É um campo na conta – ou um botão na tela – acompanhado da expectativa de que o cliente acrescente entre 15% e 25% ao valor a pagar. Ninguém precisa pedir nada, pois a expectativa já é parte da transação. Nossa solução foi simples: incluir outro campo na conta para a gorjeta da banda e iniciar um trabalho de convencimento das autoridades municipais para que a prática fosse adotada como padrão por todo o setor.
Não fizemos pesquisas com usuários nem tentamos otimizar uma experiência. O que fizemos foi identificar uma regra social invisível que toda intervenção até ali tinha ignorado ou tratado como imutável. Em seguida, criamos um mecanismo que funcionava em sintonia com aquela cultura, e não contra ela.
Isso é o que chamamos de design de normas sociais.
Para mudar a solução, mude o problema
Sempre que alguém tenta transformar algo que resiste à mudança, vemos o mesmo padrão se repetir: pessoas inteligentes, intervenções razoáveis e… nenhuma alteração. A Harvard Business Review já mostrou que cerca de 70% das iniciativas de transformação organizacional fracassam1. Mesmo assim, seguimos tratando cada revés como um caso isolado – estratégia errada, liderança inadequada, momento desfavorável – em vez de questionar se há algo sistêmico em jogo.
E há, sim. Quando conseguimos enxergar as normas que perpetuam um problema, chegamos à conclusão de que quase toda solução já provada segue as mesmas regras implícitas do próprio problema. Mesmo que as soluções pareçam sensatas, é exatamente por isso que não funcionam. Para conceber soluções verdadeiramente distintas, e não só versões repaginadas daquilo que todo mundo tentou antes, é preciso primeiro ser capaz de enxergar tais normas.
Em Nova Orleans, toda fundação que tentou ajudar os músicos acabou vendo seu esforço frustrado pela mesma regra implícita que os atrapalhava: a de que músicos de verdade não se envolvem com o mundo dos negócios. Essas fundações não eram ingênuas e haviam estudado o problema. Mas como tinham partido da mesma premissa dos demais (sem sequer perceber), oferecer capacitação para ajudar os músicos na administração de carreira parecia a solução mais óbvia. A norma era tão arraigada na comunidade musical que ninguém conseguia enxergá-la.
O método convencional de design pode ser bastante útil. Nele, o ponto de partida é entender o público ao qual a solução se destina – como as pessoas vivenciam determinada situação, que obstáculos enfrentam, onde estão as principais dificuldades. A partir daí, cria-se uma solução. Ao substituir a intuição por evidências empíricas sobre como o indivíduo toma decisões, a ciência comportamental trouxe mais rigor e eficácia a esse trabalho. Mas embora sejam abordagens legítimas e possam produzir resultados concretos, tanto o design convencional como a ciência comportamental tendem a tomar o ambiente social como determinado. Ambos analisam indivíduos inseridos em um sistema sem questionar o próprio sistema. Perguntam como levar as pessoas a tomar decisões melhores, em vez de indagar se estamos realmente olhando para o problema certo.
No caso de Nova Orleans, o design comportamental, por melhor que fosse, teria apenas produzido um workshop de educação financeira mais eficaz. Jamais teria levado a um novo campo de gorjeta na conta. O design de normas sociais introduz essa perspectiva que faltava. Antes de conceber uma intervenção, busca entender como o ambiente social realmente funciona: que regras tácitas perpetuam certas condutas, quais estão impedindo a mudança e quais já atuam na direção desejada.
Todo ambiente social funciona com regras implícitas. A organização onde trabalhamos, a comunidade em que vivemos e a área na qual nossa vida profissional transcorre são regidas por normas que não foram colocadas no papel nem submetidas a voto. Mas, ainda que invisíveis, são elas que definem o que é considerado normal. São seguidas sem serem vistas. Na prática, essas regras também são invisíveis para quem chega de fora: designers, consultores, financiadores e responsáveis por políticas públicas que tentam promover mudanças. E não porque não saibam enxergar, mas simplesmente porque não estão procurando por elas.
Nesse sentido, o design de normas não vem substituir os métodos de pesquisa e design já empregados por quem trabalha com mudança social. É uma nova lente para enxergar o sistema em funcionamento e ver quais soluções têm chance de vingar e quais serão rejeitadas pelo ambiente antes mesmo de terem a chance de funcionar. Uma intervenção que ignora essas normas já parte em desvantagem.
Ninguém diz, ninguém vê (mas todos sentem)
Você se lembra da primeira vez que levou alguém especial para conhecer sua família? Antes do encontro, é bem provável que você tenha dito algo como “Olha, minha família é meio estranha”. E talvez tenha até sugerido que essa pessoa evitasse determinado assunto ou se portasse de um jeito bastante específico.
Minha filha, já adulta, contou que antes de apresentar um novo namorado à família, aconselhava-o a conversar bastante. Caso contrário, explicou, nós – seus pais – acharíamos que ele era chato, não iríamos com sua cara e, de tanto criticá-lo, ela própria no final acabaria perdendo o interesse por ele.
Não gosto muito da imagem que essa história passa de mim, mas vamos lá: olhar para nossa família pelos olhos de outra pessoa nos faz ver coisas novas. Essas regras nada intuitivas – não tocar em determinado assunto ou agir de uma maneira muito específica – são exemplos de norma social que respeitamos a vida toda sem mesmo perceber. Não há nada que as imponha expressamente além da aprovação ou desaprovação dos outros, ou o sentimento de pertencer ou não a um grupo. Minha família nunca fez uma reunião para decidir que namorados quietos eram pouco confiáveis. A regra simplesmente existia e fora transmitida ao longo de anos de almoços em família, celebrações e trocas de olhares, até que passou a ser como as coisas funcionavam.
Quando conseguimos enxergar as normas que perpetuam um problema, chegamos à conclusão de que quase toda solução já provada segue as mesmas regras implícitas do próprio problema
Embora invisíveis, essas normas não são casuais. Em uma organização, ninguém percebe uma regra implícita até violá-la sem querer ou até que um novo funcionário faça uma pergunta que provoque um silêncio constrangedor. Ninguém nota as convenções de um setor até que um concorrente as questione e cause um alvoroço no mercado. É a violação que torna a norma visível. Até então, as coisas apenas são como são.
Faz sentido que normas sejam tácitas. Afinal, nossos ancestrais viveram em pequenos grupos por cerca de 100 mil anos antes do desenvolvimento da linguagem oral. Regras consolidadas por expressões faciais e outros sinais sociais mantinham os grupos unidos, garantiam a segurança de seus membros e asseguravam que todos fossem alimentados. Sabemos disso graças a estudos com técnicas de neuroimagem que mostram que, ainda hoje, a ameaça de exclusão social ativa as mesmas áreas do cérebro associadas à dor física ou à fome2. Durante boa parte da história humana, ser excluído do grupo não era só inconveniente. Era uma sentença de morte.
Mesmo hoje, quando leis escritas entram em conflito com normas sociais, as normas costumam prevalecer. Se o limite de velocidade sinalizado é de 100 km/h, mas todos à sua volta estão indo a 130 km/h, a que velocidade você dirige?
Mudar é difícil porque, quando uma intervenção pede que as pessoas se comportem de outro modo, está pedindo que assumam o risco de ser expulsas do grupo. O meio reage não porque as pessoas naturalmente resistem à mudança, mas porque são humanas.
Bons profissionais sempre perceberam as normas, mesmo que nada fosse dito. A leve tensão no ar quando alguém fala a coisa errada. O olhar que um subordinado lança a um superior antes de responder a uma pergunta. O reconhecimento tácito de quem pode falar e quem deve esperar a sua vez. O design de normas transforma essa intuição em método: em sinais específicos a observar, em perguntas adequadas a fazer e em uma maneira de transformar as descobertas em vantagem no desenho de soluções.
Uma nova arquitetura emocional
Quem já visitou algum museu sobre o Holocausto conhece a sensação. Você entra sabendo que será difícil. Percorre as exposições devagar, pois não há outra forma de percorrê-las. Lê coisas que não consegue “desler”. Vê coisas que não consegue “desver”. Em certo momento,
o peso de tudo aquilo se torna físico, como algo a lhe comprimir o peito.
Com o passar do tempo, horas ou dias depois, a sensação se dissipa. A vida retoma seu curso e você volta ao que vinha fazendo e pensando antes.
Museus dedicados a genocídios existem por duas razões. Para as famílias e comunidades das vítimas são lugares de memória, solo sagrado. Para todos os demais, o propósito é evitar que atrocidades como aquelas voltem a acontecer. A lógica é expor o visitante ao horror do que ocorreu, despertar empatia e, a partir dela, inspirar algum tipo de ação.
Para quem financia iniciativas, lidera organizações ou contrata intervenções para promover mudanças, interpretar mal o problema pode sair caro, pois leva a soluções que não produzem nenhum efeito
Nenhuma instituição escolheu essa abordagem deliberadamente. Ela é tão universal que, na prática, define o que é um museu sobre genocídios. Mas será que essa norma faz sentido? Será que a exposição ao horror realmente desperta ações?
O Memorial do Genocídio de Kigali, em Ruanda, abriga os restos mortais de mais de 250 mil tutsis assassinados durante o genocídio de 1994. Todos os dias, grupos de ruandeses visitam as valas comuns onde estão enterrados seus mortos, enquanto centenas de visitantes passam pelo museu.
Em 2014, fomos até lá para falar com sobreviventes, parentes de vítimas, autores dos crimes, funcionários do museu e representantes do governo. E vimos aquela norma específica em ação: visitantes percorriam as exposições, mergulhavam no horror dos acontecimentos e saíam emocionalmente exaustos, não raro devastados.
O memorial fazia exatamente aquilo a que se propunha. Mas como mostrou nossa pesquisa, não estava transformando visitantes em gente disposta a agir. É verdade que quase todos saíam dali tocados de alguma forma. Ainda assim, entrevistas que fizemos na saída indicavam que poucos se sentiam inspirados a fazer qualquer coisa a partir daquela experiência.
Do ponto de vista do design, a resposta convencional provavelmente teria sido intensificar a experiência do visitante com uma sinalização melhor no interior do museu, uma condução emotiva mais cuidadosa ou um design de exposição mais impactante. Ou seja, tornar a experiência ainda mais intensa. Isso faria todo sentido se a empatia levasse à ação – o que a norma do setor acredita que sim.
Infelizmente, a ciência sugere o contrário. Tania Singer, especialista em neurociência social do Instituto Max Planck, demonstrou que empatia e compaixão são neurologicamente distintas. A empatia diante do sofrimento – como aquele que vemos em um museu sobre genocídio – ativa os circuitos cerebrais associados à dor. Mas a exposição prolongada não faz com que as pessoas se importem mais. Em vez disso, produz o que Singer chama de fadiga empática. Ficamos emocionalmente exaustos, nos distanciamos e perdemos o envolvimento.
Com a compaixão acontece algo diferente. O afeto, o cuidado e o desejo de ajudar seguem outros circuitos cerebrais. Em vez de nos desgastarem, aumentam nossa resiliência e a disposição para agir.
Quando deixamos de encarar a norma como verdade absoluta e passamos a vê-la pelo que era – apenas uma convenção –, foi possível fazer a pergunta certa: qual seria o mecanismo mais adequado para despertar a compaixão e o desejo de agir?
A resposta apareceu em uma escola de um vilarejo nos arredores de Kigali. A narrativa que Ruanda apresenta ao mundo sobre o genocídio de 1994 é um relato de horror e sofrimento. Mas a história que os ruandeses contam a seus filhos é mais rica. Inclui as pessoas que se recusaram a participar das atrocidades, aqueles que esconderam vizinhos e gente que teve coragem de agir quando isso equivalia a uma sentença de morte. Mais completa, essa narrativa não só ativa os circuitos associados à dor, mas produz compaixão e motivação para agir.
Em outras palavras, tínhamos encontrado um aliado: uma tradição narrativa local que nos colocava na direção certa. Nossa resposta foi a Curva Inzovu, um modelo que conduz o visitante por um percurso de dor, reflexão, esperança e ação. Em vez de deixar a pessoa mergulhada no desespero – confiando que a empatia fará o resto do trabalho –, a experiência redesenhada conduz o indivíduo, por meio da reflexão e da esperança, a um estado marcado mais pela determinação do que pelo luto. O Memorial do Genocídio de Kigali foi reformulado com base nesse modelo, que posteriormente foi testado em museus dos Estados Unidos e da Europa.
Em Nova Orleans, o que fizemos foi contornar uma norma. Em Kigali, substituímos a norma por uma nova arquitetura emocional para todo um campo de atuação. Isso também é design de normas.
Em busca de sinais
Como saber se o problema à nossa frente relaciona-se a uma norma? Para quem financia iniciativas, lidera organizações ou contrata intervenções para promover mudanças, interpretar mal o problema pode sair caro, pois leva a soluções que não produzem nenhum efeito.
Quatro sinais merecem especial atenção.
O problema persiste mesmo após tentativas sérias de resolvê-lo. Se toda iniciativa bem concebida, conduzida por pessoas competentes e com suficientes recursos continua sendo infrutífera, talvez o problema não esteja nem nas pessoas, nem nas soluções propostas, mas no ambiente que está rejeitando as duas possibilidades. No caso de Nova Orleans, duas fundações haviam tentado, mas as normas vigentes impediam o sucesso.
Todos chegam ao mesmo diagnóstico, mas ninguém o questiona. A unanimidade deve ser um alerta. Quando todos os envolvidos chegam à mesma explicação para a persistência de um problema, o consenso pode ser sinal de uma premissa tão amplamente compartilhada que se tornou invisível. É o caso dos museus dedicados a genocídios: como todos aderiam à mesma teoria da mudança, o consenso parecia confirmar que era a correta (embora a ciência provasse o contrário).
Há um descompasso visível entre discurso e prática. Às vezes, o orçamento aponta numa direção, mas as despesas seguem outra. Ou o planejamento estratégico define certas prioridades que as decisões do dia a dia ignoram. Às vezes os valores da organização estão estampados na parede, mas o comportamento real é completamente distinto. O descompasso não é hipocrisia – ou não é só isso. É sinal de que regras implícitas estão se sobrepondo a regras formais.
Há uma intervenção que deveria ter funcionado. Por vezes, a tentativa de mudança é silenciosamente neutralizada. Não é rejeitada abertamente, nem discutida e depois derrotada, é apenas absorvida. E, isso feito, a organização ou comunidade volta para onde estava, sem que ninguém saiba explicar o porquê. É o sistema imunológico do ambiente em ação: as normas asfixiando uma intervenção e tornando-a inócua. Quem já bancou uma ideia que deu certo na fase de testes e, por alguma razão, acabou não ganhando escala deve ter presenciado esse fenômeno sem percebê-lo.
Nenhum desses sinais é conclusivo por si só. Mas quando dois ou mais aparecem ao mesmo tempo, é bem provável que o problema em questão seja de normas. E isso significa que pode haver ali uma oportunidade que abordagens convencionais vêm deixando escapar.
Quando entendemos essa dinâmica, ela aparece por toda parte.
Como o design de normas funciona
Este é um processo em quatro etapas. Não substitui métodos de pesquisa e design já em uso, mas acrescenta uma camada que abordagens convencionais ignoram.
- Primeiro passo
Identificar regras tácitas
Aqui, as perguntas a fazer dependem de você ter acesso a pessoas que pertencem ao ambiente estudado ou estar trabalhando a partir de fora. Dois exemplos: “Quais regras oficiais todo mundo ignora e nada acontece?” – quando uma regra é ignorada sem nenhum impacto, é sinal de que outra regra, tácita, está prevalecendo; “Qual é, na opinião das pessoas, a verdadeira razão de algo estar acontecendo?” – quando a explicação informal difere da oficial, ela costuma revelar a verdadeira estrutura de poder.
- Segundo passo
Distinguir freios de impulsos
Há dois tipos de normas: as que dificultam a mudança – obstáculos que sua intervenção precisará contornar – e as que a favorecem, impulsionando comportamentos na direção desejada. A maioria das pessoas se concentra naturalmente nos obstáculos. Mas não ignore os ventos a favor. Quando uma intervenção aproveita uma dinâmica que já funciona, ela parece natural para quem vive naquele contexto e isso faz toda a diferença.
- Terceiro passo
Planejar a intervenção
Diante de cada obstáculo, a pergunta não é como eliminá-lo, mas como chegar ao resultado desejado sem esbarrar nele. Já diante dos ventos a favor, a ideia é aproveitar uma dinâmica que já está empurrando as coisas na direção certa. No caso de Nova Orleans, a solução contornou completamente a norma de que não se deve pedir gorjetas ao tornar a contribuição automática. Em Kigali, apoiou-se em uma tradição narrativa já presente na cultura ruandesa. Em ambos os casos, a mudança não enfrentou o ambiente, mas trabalhou com ele.
- Quarto passo
Testar e ampliar
Sempre que possível, teste a solução em uma parte da organização ou da comunidade e observe a reação do ambiente. Normas dão um retorno imediato: se a iniciativa encontra resistência, há algo a aprender com isso. Volte às normas mapeadas, tente outra abordagem e teste novamente. Quando a solução ganha tração, é hora de ampliá-la.
Questionar o inquestionável
A primeira coisa que se percebe ao trabalhar com a Nasa, a agência espacial do governo dos Estados Unidos, é que todo mundo lá dentro sente praticamente o mesmo que quem está aqui fora: que a organização é uma das mais fascinantes do planeta. Engenheiros, administradores, qualquer funcionário se empolga ao falar sobre o trabalho da agência. E como não? É uma organização que levou seres humanos à Lua. É difícil não se maravilhar.
Isso torna ainda mais estranho algo que logo salta aos olhos e que todos percebem: para uma instituição que desperta tanta admiração, a Nasa parece receber pouquíssima atenção do Congresso estadunidense. Seu orçamento é cercado de incerteza (a relação da agência com seu principal financiador vem se deteriorando há décadas, lenta e continuamente, governo após governo).
A interpretação mais comum é que a Nasa precisa se comunicar melhor, engajar mais o público e defender de forma mais convincente seu valor. Por isso, praticamente toda tentativa de reverter esse declínio se concentrou na maneira como a agência fala de si mesma. É o que qualquer boa consultoria estratégica recomendaria (e o que muitas recomendaram).
O problema residia em uma norma tão entranhada na identidade da organização que ninguém conseguia percebê-la. E tudo começava pela narrativa mais importante que a Nasa construiu sobre si mesma: a ida à Lua.
Em 1962, o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, fez um dos discursos mais influentes da história do país. Mais do que mobilizar a nação, ele consolidou no interior da Nasa uma ideia que sobreviveria por décadas ao programa Apollo, aquele que levou o ser humano à Lua – a ideia de que cabe à Casa Branca definir os rumos da exploração espacial e convencer o Congresso e a opinião pública de sua importância. À Nasa caberia apenas executar essa visão.
Toda pessoa que entrevistamos falou da ida à Lua. Era a narrativa fundadora da organização, a prova de que nada era impossível e o modelo de como as coisas deveriam funcionar. E como o pouso no único satélite natural da Terra foi um dos acontecimentos mais marcantes da história da humanidade, a norma que isso criou não só sobreviveu ao tempo, mas se cristalizou.
Depois do programa Apollo, a Nasa continuou à espera de outra grande missão. Mesmo com novas prioridades e cortes de verba, a agência agia como se cedo ou tarde viesse da Casa Branca uma nova visão capaz de devolver rumo e recursos à exploração espacial. Dentro da organização, a explicação para a perda de apoio no Congresso costumava passar por uma combinação de cortes orçamentários, prioridades políticas ou desinteresse do público. Ninguém diria que estavam esperando a próxima grande diretriz – algo que jamais viria. Ninguém percebia. É assim que as normas funcionam.
O design de normas é uma nova lente para enxergar o sistema em funcionamento e ver quais soluções têm chance de vingar e quais serão rejeitadas pelo ambiente antes mesmo de terem a chance de funcionar
Perguntamos a um alto membro da equipe de comunicação do governo Barack Obama se algum dia haveria um novo discurso como o de Kennedy. A resposta foi categórica: não. O contexto mudara radicalmente desde 1962. Lá atrás, Kennedy falava a uma única organização encarregada de uma grande missão nacional. Agora, dezenas de empresas atuam na exploração espacial. Além disso, o público já não se mobiliza em torno de uma única causa como acontecia então. As circunstâncias que haviam tornado aquele discurso possível pertenciam a um momento histórico específico e impossível de reproduzir. A norma sobrevivera ao mundo que a criou.
Diante desse diagnóstico, concluímos que a Nasa precisaria traçar ela própria seus rumos. Em vez de aguardar uma diretriz que nunca viria da Casa Branca, teria de definir uma visão à altura de sua história e mobilizar parceiros de pesquisa para conquistar apoio político e transformá-la em realidade.
Em Nova Orleans, a saída foi contornar uma norma da comunidade. Em Kigali, substituímos uma convenção arraigada em todo um setor. Na Nasa, encontramos uma regra tão entranhada na cultura da organização que ninguém jamais pensara em questioná-la. Isso também é design de normas.
O campo do design de normas sociais ainda está engatinhando. Um pequeno grupo de praticantes vem desenvolvendo a abordagem na prática, com problemas reais, e fazendo ajustes nesse processo. A abordagem também chegou à sala de aula. Annalisa Enrile e colegas a ensinam na Escola de Serviço Social da Universidade do Sul da Califórnia, no primeiro programa de doutorado em inovação social dos Estados Unidos.
“Um aspecto fundamental do nosso doutorado é ensinar o aluno a identificar as normas em jogo antes de propor qualquer solução”, diz Enrile. “O design costuma ser retratado como algo intuitivo e até ambíguo. Mas quando compreende o papel das normas, o aluno consegue colocar no centro do trabalho as comunidades com as quais está atuando. Quando percebe que problemas sociais complexos persistem porque há normas que os sustentam, a pessoa passa a enxergar com clareza onde as soluções terão o maior impacto.”
A ciência também está avançando. Sociólogos estudam como as normas operam em diferentes grupos. Neurocientistas vêm confirmando a força desses mecanismos.
Nada disso, porém, exige começar do zero. Toda entrevista, toda visita de campo, toda reunião de planejamento estratégico da qual você participou, tudo isso já estava repleto de informações sobre o funcionamento do ambiente social. Talvez já houvesse a sensação de que algo não se encaixava. Faltava apenas um nome para aquilo, além de uma maneira adequada de agir.
Os sinais estavam lá: problemas que insistiam em voltar, explicações que ninguém questionava, a distância entre o que as pessoas diziam e o que faziam e os projetos-piloto promissores que, por alguma razão, nunca ganhavam escala.
A novidade não são os sinais. A novidade é saber reconhecê-los, entender o que revelam e desenhar soluções alinhadas à cultura em que serão implementadas. Embora estejamos apenas no começo dessa jornada, o ponto de partida já está ao nosso alcance: o trabalho que fazemos todos os dias.
Notas:
- Michael Beer e Nitin Nohria, “Cracking the Code of Change”, Harvard Business Review, maio/jun. 2000; John P. Kotter, “Leading Change: Why Transformation Efforts Fail”, Harvard Business Review, mar./abr. 1995. ↩︎
- Naomi I. Eisenberger, Matthew D. Lieberman e Kipling D. Williams, “Does Rejection Hurt? An fMRI Study of Social Exclusion”, Science, 10 out. 2003; Naomi I. Eisenberger e Matthew D. Lieberman, “Why Rejection Hurts: A Common Neural Alarm System for Physical and Social Pain”, Trends in Cognitive Sciences, jul. 2004. ↩︎









