Enquanto industriais estadunidenses investiam seus excedentes na construção de instituições e infraestrutura cívica duradouras – como conta o artigo “Onde estão os filantropos construtores?” –, a economia brasileira ainda era predominantemente agrária e o conceito moderno de filantropia não fazia parte do repertório das elites do país. Para Miqueli Michetti, socióloga e professora da Universidade Federal da Paraíba, esse é um dos fatores que ajudam a explicar os caminhos distintos da filantropia de detentores de grandes fortunas nos dois países no último século.
“Já estávamos em meados do século 20 quando Assis Chateaubriand, com recursos do empresariado paulista, em boa parte com riquezas lastreadas no campo, criou o Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1947. No ano seguinte, Ciccillo Matarazzo, com sua riqueza lastreada na indústria, criou o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM)”, diz Michetti.
Segundo a pesquisadora, esses dois exemplos são exceções, pois não houve ao longo do século passado uma tradição de criação privada de instituições voltadas ao bem público por pessoas ou famílias muito ricas brasileiras. Além disso, a concepção do papel do Estado se deu de maneiras distintas nos Estados Unidos e no Brasil, o que ajuda a explicar por que a filantropia estadunidense desempenhou historicamente funções que, aqui, foram atribuídas principalmente ao Estado.
“Nosso capitalismo não tinha as feições do estadunidense, e as relações entre empresariado e Estado também eram diferentes, assim como – e isso é sumamente importante – o papel atribuído ao Estado na solução de problemas públicos e na própria feitura da sociedade brasileira”, diz ela. “A formação das grandes instituições de ensino superior, pesquisa e cultura no Brasil foi predominantemente conduzida pelo Estado, e não por grandes fortunas privadas”.
Uma convergência atual entre os dois países é a preferência da filantropia pela transferência de recursos. Os números do setor confirmam essa tendência de repasse, explica Cássio França, secretário-geral do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife). “A filantropia familiar repassa 38% dos seus recursos às organizações da sociedade civil, demonstrando sua aposta em fortalecer esse tipo de organização. As fundações e institutos brasileiros realizam menos apoio de longo prazo (14% do total de projetos apoiados têm duração de mais de três anos), que tendem a contemplar projetos mais estruturantes e com potencial de apoio institucional. A maior parte dos apoios é para projetos de um ano (41%) ou de um a três anos (46%). Na prática, essa característica da filantropia brasileira pode apontar para apoios pontuais e mais diversificados.”
Michetti argumenta que a dinâmica de apoio filantrópico a organizações e iniciativas já existentes se conecta ao fortalecimento dos movimentos de base e a disputas contemporâneas por legitimidade no campo da filantropia. Isso também explicaria em parte a relutância de alguns grandes filantropos em criar instituições do zero.
“Depois de décadas da gramática do grassroots, de que a legitimidade da sociedade civil não pode ser calcada nas mentes e vontades de empresários iluminados, mas em causas da sociedade civil próxima aos problemas efetivos que busca resolver, é mais difícil imaginar que as pessoas ricas vão construir sozinhas coisas que elas mesmas acham necessárias. Isso seria considerado pouco legítimo nesse contexto”, avalia ela.
Para França, outros fatores que diferenciam a filantropia estadunidense da brasileira são a cultura de doação robusta e os incentivos fiscais para doar existentes nos Estados Unidos. “Tais incentivos geram volumes de investimentos incomparáveis com aqueles realizados no Brasil. Resulta dessa diferença o baixo potencial da filantropia brasileira em criar instituições que requerem grandes volumes de investimento”, afirma ele.
Alguns exemplos brasileiros
Além do Masp e do MAM de São Paulo, o Brasil tem diversas iniciativas do investimento social privado na criação e na manutenção de instituições voltadas para o bem público. Conheça algumas delas:
Sabará Hospital Infantil
(São Paulo – SP)

Mantido pela Fundação José Luiz Setúbal, criada e presidida pelo pediatra de mesmo nome, é uma instituição sem fins lucrativos voltada à saúde infantil. A aquisição em 2005 do pronto-socorro infantil Sabará, fundado em 1962, foi o primeiro passo da fundação, cuja estrutura também inclui o Instituto Pensi, centro de pesquisa e ensino em saúde infantil, e o Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, que atua com advocacy e filantropia em prol dos direitos da criança e do adolescente e no fortalecimento da sociedade civil. Os recursos gerados pelo hospital ajudam a financiar as outras frentes da fundação. “O legado do Sabará vai desde a experiência individual de cada um de seus pacientes até políticas públicas que beneficiam todas as crianças e adolescentes deste país”, diz Setúbal.
Museu Vassouras
(Vassouras – RJ)
Fundado por Ronaldo Cezar Coelho e Guilherme Cezar Coelho, foi inaugurado em 2025 e é gerido pelo Instituto Vassouras Cultural. O museu está instalado no prédio do antigo Hospital Nossa Senhora da Conceição, erguido em 1848 como o primeiro hospital da cidade. Restaurado, hoje abriga um espaço cultural que promove exposições, ações educativas e programação voltada à memória e à identidade da região do Vale do Café, no Sul Fluminense. “O grande legado do Museu Vassouras deve ser o de atuar como um catalisador do desenvolvimento cultural, social e econômico do Vale do Café. Queremos contribuir para a valorização do patrimônio histórico, arquitetônico, ambiental e imaterial da região, reconhecendo todos os seus protagonistas e dando visibilidade às diferentes histórias que formam essa identidade”, diz Ronaldo Cezar Coelho.
Instituto Ling
(Porto Alegre – RS)

Fundado por Sheun Ming Ling e Lydia Wong Ling, imigrantes chineses que chegaram ao Rio Grande do Sul na década de 1950. Segundo Carolina Rosado dos Santos, gestora do instituto, sua criação foi inspirada em valores da tradição confucionista, especialmente nos princípios de reciprocidade, benevolência e responsabilidade social. O Instituto Ling começou com um programa de bolsas de estudos no exterior, tendo posteriormente aberto um centro cultural e liderado a criação do programa Reconstrói RS, voltado à recuperação da infraestrutura do estado após a tragédia climática de 2024. “Ainda são poucos os casos no Brasil de institutos fortes, resilientes e organizados para a perenidade, a partir de capital privado. Quando criamos o Instituto Ling, pensamos nessa perenidade de ultrapassar as gerações”, diz Santos.
Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
(São Paulo – SP)

A fundação foi criada em 1974 pelo engenheiro e empresário Oscar Americano e seus filhos, realizando um desejo da esposa, que havia falecido dois anos antes. O espaço localizado no bairro do Morumbi, na capital paulista, inclui a residência, um parque de 75 mil metros quadrados e a coleção de arte da família. Também promove concertos, exposições e atividades educativas. “Em um contexto em que muitas iniciativas têm caráter transitório, instituições consolidadas, comprometidas com o interesse público, desempenham um papel essencial na preservação da memória, na transmissão de valores culturais e na construção de uma sociedade mais consciente, criativa e sustentável”, diz Eduardo Monteiro, diretor cultural do espaço.
*O artigo faz parte da série “Filantropia que constrói para durar”, publicada na edição 17 da Stanford Social Innovation Review Brasil, e contextualiza o texto “Onde estão os filantropos construtores?”.









