Transtornos mentais afetam grandes parcelas da população trabalhadora em todo o mundo. No Reino Unido, por exemplo, um em cada seis trabalhadores tem algum transtorno diagnosticado.
As empresas precisam aprender como melhor apoiar funcionários que enfrentam problemas de saúde mental. Um novo estudo sugere que parte da solução pode ser oferecer aos trabalhadores maior autonomia para equilibrar as responsabilidades do trabalho com o agravamento dos sintomas. Muitos profissionais usam como estratégia se afastar de algumas tarefas e se envolver mais em outras quando estão vivenciando um episódio de adoecimento, e essa estratégia se mostra eficaz.
“Nossas conclusões sugerem que o (des)engajamento temporário pode ser benéfico para funcionários com transtornos mentais e para as organizações em que trabalham”, escrevem Emily H. Rosado-Solomon, professora assistente de gestão na Babson College; Sherry M. B. Thatcher, professora no Departamento de Gestão e Empreendedorismo da Haslam College of Business da Universidade do Tennessee; e Sam D. Strizver, doutorando na Darla Moore School of Business da Universidade da Carolina do Sul.
O estudo, baseado em cinco anos de coleta de dados, envolveu 59 entrevistas com trabalhadores diagnosticados com transtorno de ansiedade ou de humor. Eles desempenhavam funções variadas, como a de motorista de ônibus, engenheiro químico, designer gráfico e músico.
Os profissionais precisam primeiro decidir se vão falar sobre suas questões de saúde mental com colegas, com o chefe ou o departamento de recursos humanos. Alguns relataram que achavam mais fácil conversar sobre sua condição com colegas quando estavam sem sintomas. Segundo os entrevistados, frequentemente gestores que tomavam conhecimento dos transtornos mentais de seus funcionários tentavam oferecer orientação psiquiátrica, mesmo sem ter qualificação para isso. No entanto, os participantes disseram apreciar chefes que demonstraram empatia e os incentivaram a recorrer aos benefícios de flexibilidade oferecidos pela empresa.
A pesquisa concentrou-se em como os trabalhadores administravam seus sintomas no trabalho. Os autores descobriram que funcionários com pequenos graus de autonomia conseguiam lidar melhor com seus sintomas (por exemplo, a possibilidade de ficar no drive-thru de um restaurante nos dias em que interagir com um fluxo constante de clientes seria um alívio bem-vindo).
Desde que iniciou a pós-graduação, Rosado-Solomon, filha de dois profissionais de saúde mental, questionava-se sobre o que os pesquisadores sabiam a respeito das experiências de trabalho de pessoas com transtornos mentais. A literatura disponível pouco abordava o assunto da perspectiva dos próprios trabalhadores.
Ver uma amiga passar por um episódio de depressão enquanto trabalhava em uma empresa fez Rosado-Solomon pensar que “talvez fosse o momento de uma pesquisa mais aprofundada sobre isso”, diz ela. Em seguida, a pandemia de covid-19 começou, o que levou empresas no mundo todo a buscar maneiras de lidar com funcionários acometidos por ansiedade e depressão.
As empresas entendem que têm obrigações para com funcionários que enfrentam doenças físicas graves, como câncer ou diabetes. A dificuldade em relação aos transtornos mentais, argumenta Rosado-Solomon, é que os empregadores frequentemente consideram que se trata de uma categoria diferente de doença que afeta o desempenho no trabalho. Os pesquisadores descobriram que, como os trabalhadores desenvolvem as próprias estratégias para manter o desempenho mesmo quando apresentam sintomas, “vemos pessoas prosperando em todos os níveis da organização”, diz ela.
O artigo se apoia na literatura sobre regulação emocional, que identifica o desengajamento como um método crucial, ao explicar como afastar-se de certas tarefas e situações pode ser útil para trabalhadores com transtornos mentais, afirma Hooria Jazaieri, professora assistente de gestão na Leavey School of Business da Universidade Santa Clara.
“Em vez de encarar o desengajamento como uma estratégia desadaptativa, os autores demonstram que ele é, de fato, uma estratégia que pode ajudar os trabalhadores a atingir seus objetivos no emprego”, diz Jazaieri.
A maioria dos locais de trabalho não lida bem com os transtornos mentais dos funcionários, em parte porque não conseguem adaptar suas respostas, seja em nível corporativo ou gerencial, às questões individuais de cada trabalhador.
“Em vez de uma abordagem única para todos, esse artigo reforça a ideia de que os trabalhadores têm autoconsciência”, pondera Jazaieri. “Quando a empresa confia neles e dispõem de autonomia, podem decidir quando é apropriado se desengajar temporariamente de algumas tarefas para administrar os sintomas, o que, em última instância, beneficia a organização.”
Veja o estudo completo: “Navigating Mental Illness at Work Using Disengagement and Engagement Pathways”, por Emily H. Rosado-Solomon, Sherry M.B. Thatcher e Sam D. Strizver, Academy of Management Journal, v. 68, n. 5, 2025.
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