Uma metarrede adaptativa para enfrentar a emergência climática

A ecoAmerica criou uma rede para embasar e articular outras redes em prol da ação climática. A iniciativa, que chega a 60 milhões de pessoas nos Estados Unidos, traz lições importantes para campanhas de grande escala voltadas a enfrentar problemas complexos
Ilustrações de John Hersey

No mundo todo, países e comunidades estão cada vez mais expostos a ameaças existenciais associadas às mudanças climáticas. De 1980 para cá, 403 eventos climáticos causaram, só nos Estados Unidos, prejuízos superiores a US$ 1 bilhão cada – somando mais de US$ 2,9 trilhões em perdas segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, agência científica governamental. Em 2024, 27 eventos dessa natureza provocaram perdas estimadas em US$ 182,7 bilhões. Um estudo publicado em 2024 na Nature Medicine estima que, desde 2000, mais de 4 milhões de pessoas no planeta morreram em decorrência de efeitos das mudanças climáticas. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, esse cenário pode produzir outras 14,5 milhões de mortes até 2050, com perdas econômicas de mais de US$ 12,5 trilhões. 

A emergência climática é um problema complexo que exige soluções inovadoras, colaboração intensa e capacidade de operar em larga escala. Enfrentá-la implica repensar formas de organização, com inovações substantivas em estrutura, liderança e governança.

Bob Perkowitz chegou a essa constatação em 2005, quando começou a imaginar uma nova organização climática sem fins lucrativos. Perkowitz vinha de uma trajetória de sucesso como empreendedor e havia participado dos conselhos do Environmental Defense Fund e do Sierra Club, duas das maiores organizações ambientais estadunidenses. A combinação de experiência empresarial, atuação no terceiro setor e crescente inquietação com a crise ambiental levou-o a explorar formas de promover a ação climática a partir de uma abordagem racional, apartidária e positiva, capaz de engajar o cidadão comum que não se identificava com o ativismo ambiental tradicional.

Perkowitz fundou a ecoAmerica com o objetivo de fortalecer lideranças institucionais, angariar mais apoio público e gerar vontade política em favor da ação climática no país. Desde o início, a intenção era clara: “em vez de criar novas redes, trabalhar com as já existentes”. Para ele, o impacto dependeria diretamente da escala, que precisava ser ampliada o mais depressa possível.

Na prática, a ecoAmerica funciona como uma metarrede – uma rede de redes – adaptativa. Metarredes adaptativas são desenhadas para articular redes preexistentes, integrando princípios da governança policêntrica e da teoria de sistemas adaptativos complexos, que se caracterizam por ser interconectados, não lineares e imprevisíveis. Nesses sistemas, a mudança raramente resulta de um plano centralizado; emerge, de forma gradual e muitas vezes inesperada, do fluxo contínuo de interações e comunicações entre os diferentes atores do sistema. A governança policêntrica, por sua vez, se aplica a sistemas complexos, fragmentados, porém interdependentes, organizados em domínios sobrepostos. Cada domínio mantém certo grau de autonomia e se autogoverna, ao mesmo tempo que interage com os demais, sem que haja um centro único de controle. Em uma metarrede, decisões e ações não se concentram em um núcleo dirigente: são distribuídas por todo o sistema. Tal configuração permite que, apesar de sua grande escala e do alcance em diversas organizações e grupos, essas redes sejam maleáveis e sensíveis a dinâmicas locais, assim como à experimentação e ao aprendizado compartilhado.

Por essas características, metarredes adaptativas são particularmente apropriadas para lidar com desafios ligados à mitigação e à resiliência climáticas. Problemas relacionados ao clima atravessam escalas – da local à global – e exigem coordenação sistêmica e cooperação entre instituições heterogêneas, setores distintos, populações diversas e contextos territoriais variados. Arranjos desse tipo oferecem maior capacidade de resposta à complexidade, ao caos e à imprevisibilidade das condições concretas nos territórios.

Para Gus Speth, advogado ambiental e fundador do World Resources Institute (WRI), é preciso um “movimento de movimentos” para alinhar a transformação de políticas climáticas a mudanças mais amplas nos sistemas políticos. Segundo ele, essa arquitetura organizacional seria indispensável para viabilizar a transformação sistêmica em larga escala que o desafio climático impõe. A inovação no modelo organizacional da ecoAmerica abre uma oportunidade concreta de alinhar redes climáticas diversas em torno de objetivos comuns. Ao atuar conjuntamente como uma metarrede adaptativa, essas redes passam a colaborar, cooperar, experimentar e aprender de forma contínua. Esse arranjo conecta formulação de políticas públicas, produção de conhecimento, ferramentas organizacionais e engajamento de base, criando as condições para a reorganização sistêmica necessária para enfrentar a crise climática. 

A gênese de uma metarrede climática

No início dos anos 2000, quando fazia parte do conselho do Sierra Club, Bob Perkowitz identificou uma oportunidade pouco explorada pelo movimento climático nos Estados Unidos: o engajamento da juventude. “Eu via muitos jovens preocupados com as mudanças climáticas e ninguém lhes perguntava como poderiam ajudar”, conta. À época, o Sierra Club tinha criado uma coalizão, a Sierra Student Coalition, que envolvia dezenas de universidades – algo modesto diante das mais de 4 mil universidades do país. Perkowitz sugeriu ampliar essa atuação trabalhando por meio das principais associações de ensino superior, capazes de alcançar o sistema universitário como um todo. 

A diretoria do Sierra Club, no entanto, não tinha recursos para tirar a ideia do papel. “Então, resolvi agir: achei gente, reuni recursos e fundei a ecoAmerica”, relata.

Em 2005, com o apoio do instituto de pesquisa sem fins lucrativos SRI International, Perkowitz ajustou o formato inicial do que chamou de “versão 1.0” da ecoAmerica, concentrando esforços no ensino superior. A aposta era que alcançar os milhões de estudantes universitários nos Estados Unidos criaria o empurrão inicial necessário para estabelecer uma base sólida para a organização. Lançada em 2006, a ecoAmerica contribuiu para a criação do Compromisso Climático dos Presidentes de Faculdades e Universidades, que até 2010 levou 697 universidades a se comprometerem a zerar suas emissões de carbono. Paralelamente, a organização liderou, em parceria com a Associação de Faculdades Comunitárias do país, o desenvolvimento de currículos e cursos voltados à formação de uma força de trabalho “verde”. A iniciativa envolveu a Agência de Proteção Ambiental e o Departamento de Educação no apoio à criação e à disseminação do programa. Esses primeiros resultados consolidaram uma diretriz que marcaria a trajetória da ecoAmerica: o investimento sistemático em pesquisas psicográficas a respeito do comportamento das pessoas e em estratégias de comunicação climática como forma de influenciar amplamente a sociedade. 

A ecoAmerica foi uma das organizadoras da Our Planet, Our Health: 2025 Climate Action Convention em Washington, D.C., capital dos Estados Unidos. Foto: cortesia da ecoAmerica

A ecoAmerica então passou a se expandir para outras grandes instituições, com o objetivo de alcançar mais amplamente os cidadãos comuns. Em 2010, a organização patrocinou sua primeira convenção climática nacional em Washington, D.C., reunindo 64 importantes cientistas sociais e profissionais da esfera acadêmica, de ONGs, da filantropia e do setor corporativo, para colaborar na formulação de estratégias capazes de impulsionar os Estados Unidos rumo a soluções climáticas. O relatório da conferência inaugural defendeu a criação de uma política pública nacional para o clima, o fortalecimento de coalizões e o aprimoramento das estratégias de comunicação para aumentar o apoio público à ação climática. A segunda cúpula nacional, em 2011, reuniu 80 participantes e resultou em um chamado por maior colaboração intersetorial, engajamento mais amplo da juventude e mais esforços para dialogar com os cidadãos estadunidenses sobre as mudanças climáticas, de maneira mais pessoal e relevante. Em 2012, o encontro já contava com mais de cem participantes, incluindo CEOs, acadêmicos, celebridades, lideranças em clima e sustentabilidade, inovadores sociais e especialistas em comunicação climática. O relatório daquele ano defendeu uma ação coletiva para transformar a infraestrutura energética do país com o propósito de reduzir emissões de carbono. 

Colaboração decisiva

Em 2012, a ecoAmerica já havia ajudado a incorporar estudantes universitários de todo o país à defesa da ação climática, estabelecido parcerias com universidades e ampliado a visibilidade da crise climática ao reunir autoridades do setor, lideranças empresariais, filantropos e celebridades. Foi nesse contexto que a Fundação John D. e Catherine T. MacArthur procurou Perkowitz e solicitou a elaboração de um relatório técnico que descrevesse o modelo de atuação da ecoAmerica. À época, a fundação buscava entender melhor o movimento pelo clima e descobrir um jeito de apoiar a ação climática no país de maneira mais consistente. 

“Seis meses depois de receber esse primeiro relatório, a MacArthur nos pediu um novo documento, com propostas de ações concretas que a fundação poderia adotar sobre as mudanças climáticas”, conta Perkowitz. “Esse trabalho acabou resultando em uma doação à ecoAmerica, para que os ajudássemos a orientar o foco das iniciativas climáticas da fundação. Assim, em 2012 elaboramos um relatório e um plano bastante abrangentes, que deram origem à segunda fase do nosso trabalho.”

A colaboração com a Fundação MacArthur levou a dois novos aportes, no total de US$ 6 milhões, destinados ao lançamento de uma nova iniciativa da ecoAmerica: a MomentUs. O objetivo era atuar nos bastidores com grandes instituições, associações e organizações em setores importantes da sociedade – como negócios, saúde, religião e educação –, oferecendo apoio à ação climática por meio de pesquisas, recursos e estratégias de comunicação. A proposta da MomentUs era estimular liderança e colaboração a partir de uma rede institucional multissetorial robusta, desenhada para ampliar o apoio público a soluções climáticas por meio de seus representantes em comunidades locais em todo o país. A partir dessa rede, a ecoAmerica criou uma campanha nacional voltada à imprensa local, às redes sociais e a formuladores de políticas públicas, a fim de envolver os cidadãos no debate climático de maneira positiva, com otimismo e sem confrontos. Eles queriam, por meio de investimentos em pesquisa, recursos de comunicação e parcerias institucionais, compatibilizar soluções climáticas a valores caros aos estadunidenses como comunidade e liberdade. A mensagem da campanha era clara: as mudanças climáticas afetam a todos, todos os dias, e cada pessoa pode fazer a diferença.

Inicialmente, a MomentUs concentrou-se em cinco áreas: educação, negócios, saúde, religião e comunidades. Rapidamente, porém, ficou evidente a necessidade de fechar esse leque. “Havíamos trabalhado com o ensino superior por oito ou dez anos e, naquele momento, praticamente todas as universidades do país já tinham currículos e práticas voltadas às mudanças climáticas. Tínhamos chegado a um ponto de retornos decrescentes”, explica Perkowitz. O setor empresarial também trouxe obstáculos. “Era difícil ganhar tração diante de tantas associações comerciais, tantos subsetores e tantas organizações. Era grande demais para conseguirmos abarcar”, diz. Em 2013, a ecoAmerica passou a concentrar esforços nos setores de saúde e da fé, além de atuar com comunidades locais por meio de organizações cívicas, associações e órgãos de governos locais.

Segundo Perkowitz, a MomentUs acabou se tornando o esboço da “versão 2.0” da ecoAmerica. Em 2016, o foco estratégico da organização estava voltado à colaboração com tomadores de decisão em grandes instituições dos Estados Unidos, buscando obter compromisso e autorização para mobilizar suas redes. Ao mesmo tempo, a ecoAmerica continuou a produzir pesquisas sobre atitudes do público em relação ao clima e estratégias de comunicação, métricas climáticas, políticas de energia limpa, relação entre clima e saúde mental e prioridades climáticas.

Em 2019, a organização criou o American Climate Leadership Awards, uma premiação anual com o objetivo de incentivar e dar visibilidade à liderança climática, distribuindo mais de US$ 150 mil em prêmios entre vencedores, finalistas e semifinalistas. A iniciativa aproximou a ecoAmerica de lideranças climáticas de base em todo o país e ajudou a projetá-las publicamente. A lista de premiados inclui a Schools for Climate Action, uma campanha que reúne jovens e adultos para mobilizar conselhos escolares, associações de pais e mestres, sindicatos de professores e grêmios estudantis em defesa de políticas climáticas; e a Cooperation Jackson, grupo do Mississippi voltado ao desenvolvimento comunitário sustentável e a empreendimentos de propriedade coletiva geridos por trabalhadores. A vencedora de 2025 foi a Change Is Simple, organização que oferece a crianças da região da Nova Inglaterra educação climática e em sustentabilidade, baseada em STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e em aprendizagem experiencial. 

Fortalecer a base social

Com seus eixos de pesquisa, políticas públicas, comunicação e liderança estruturados, a ecoAmerica foi para o passo estratégico seguinte: investir na organização de base. Em 2022, a entidade lançou um programa online de formação em questões climáticas que, em menos de três anos, capacitou mais de 7.500 pessoas em comunicação climática e estratégias de advocacy local. Ao concluir o curso, os participantes são convidados a integrar a rede de Embaixadores do Clima, uma comunidade que hoje reúne mais de 3 mil membros. Esses embaixadores passam a ter acesso à plataforma digital Forj, da ecoAmerica, que conecta usuários e permite interação entre a organização e a própria rede. A Forj também oferece capacitação complementar, além de outros recursos e oportunidades regulares de ação e mobilização. 

“Para cumprir nossa missão, era preciso atuar mais perto da ponta”, diz Perkowitz. “Criamos o programa de formação climática justamente para potencializar esse movimento.” A ecoAmerica chama essa iniciativa de “Going Local”: unir a atuação com parceiros institucionais a um foco consistente de engajamento das bases. Perkowitz se refere a essa fase como a “versão 3.0 da ecoAmerica”. 

Hoje, a ecoAmerica alcança mais de 60 milhões de pessoas nos Estados Unidos por meio de quase 200 organizações vinculadas a seus três principais setores de atuação: religião, saúde e organizações comunitárias locais. Para Ashley Lane, diretora de ativação de redes da ecoAmerica, a incorporação da rede de Embaixadores do Clima às três redes setoriais existentes criou “a infraestrutura de liderança climática e de mobilização social de que o país precisa: baseada em confiança, movida por pessoas e concebida para impactar o cerne da sociedade. É isso que estamos tentando fazer”.

Por meio de programas de pesquisa e mobilização, a ecoAmerica incentiva a ação climática em todos os níveis da sociedade. O Climate Leadership Awards, por exemplo, é um dos pilares do trabalho da organização para sustentar a mobilização de base. Em 2024, o orçamento operacional da ecoAmerica – US$ 3,4 milhões – veio principalmente de fundações familiares e de doações de indivíduos de alta renda comprometidos com a mudança. 

Sustentar e expandir uma organização com propósito

Líderes que buscam gerar impacto social em larga escala, como Bob Perkowitz, se deparam com questões complexas: como estruturar organizações quando os atores envolvidos operam em ambientes polarizados, autônomos e diversos? Como construir e fortalecer a capacidade de liderança coletiva? E como lidar com os desafios que surgem à medida que a iniciativa cresce? A trajetória de criação e expansão da ecoAmerica, ao longo de duas décadas, dá pistas importantes para responder a essas perguntas. Esses aprendizados podem ser organizados em cinco pilares que, em conjunto, ajudam a compreender o impacto inovador da organização como uma metarrede adaptativa.

Liderança responsável em escala | Em uma metarrede adaptativa voltada a mudanças sociais de grande magnitude, a atenção à escala e às dinâmicas do sistema é fundamental. A ecoAmerica promove e pratica um modelo de liderança que privilegia comportamentos adaptativos, éticos e relacionais, focados no alinhamento e na articulação da rede. É um modelo que reconhece a complexidade como condição de partida e promove práticas capazes de facilitar esforços coletivos.

Jacqui Patterson, fundadora do The Chisholm Legacy Project e ex-diretora do Programa de Justiça Ambiental e Climática da NAACP, uma histórica organização de direitos civis dos Estados Unidos, argumenta que a mudança sistêmica exige enfrentar, em escala, um modelo econômico extrativista. “Se realmente quisermos chegar aonde precisamos chegar como sociedade, e mitigar de fato os impactos das mudanças climáticas, é esse nível de transformação que devemos discutir”, afirma. Em um país grande, diverso e politicamente polarizado, não é algo simples. Ainda assim, diz Patterson, organizações como a ecoAmerica criam espaços nos quais as pessoas conseguem deixar diferenças de lado e se concentrar em ações de apoio mútuo que, no conjunto, podem produzir mudanças em larga escala.

A liderança é necessária, mas não basta diante de um desafio existencial como a crise climática. Elinor Ostrom, vencedora do Nobel de Economia em 2009 e falecida em 2012, observou que em um sistema policêntrico de governança climática formado por domínios interdependentes, porém autônomos, enfrentar esse desafio exige tanto a ação que emerge da base, conduzida por lideranças locais, como iniciativas que partem do alto, lideradas por responsáveis por políticas públicas nos âmbitos nacional e internacional. Desde 2016, a ecoAmerica investe na articulação institucional de cima para baixo por meio de seus membros. Mais recentemente, com a iniciativa Going Local e o programa de Embaixadores do Clima, passou a investir também no engajamento de base. Essa abordagem busca inspirar e fortalecer lideranças climáticas em todos os níveis da metarrede.

“A liderança que vem do alto e a liderança que emerge da base são complementares e se reforçam mutuamente”, afirma Ed Maibach, diretor do Center for Climate Change Communication, da Universidade George Mason. “A pressão da base dá cobertura política para que líderes no topo possam agir com ousadia. Sem esse apoio, ficam vulneráveis a ataques da oposição.” 

O esforço para incentivar e amplificar a liderança na base atravessa toda a metarrede, desde hortas comunitárias para enfrentar desertos alimentares, estações de nebulização para mitigar o desconforto em ilhas de calor urbanas, até áreas verdes cravadas nas cidades para o combate da asma urbana. Muitas dessas iniciativas são intersetoriais; com frequência, uma solução desenvolvida em um local é adaptada e reproduzida em outros contextos.

Um exemplo é o projeto Community Lighthouse, em Nova Orleans. “O Community Lighthouse mobiliza uma rede intersetorial, envolvendo organizações religiosas e de saúde para garantir acesso a energia após desastres, como ocorreu durante o furacão Katrina, 20 anos atrás”, explica Ben Fulgencio-Turner, diretor do programa Climate for Health (CfH) da ecoAmerica. “Quando falta energia, tem gente que morre por não poder se proteger do calor, por não poder usar equipamentos de oxigênio ou por intoxicação por monóxido de carbono vindo de geradores. O objetivo era criar hubs de resiliência com microrredes solares e geradores de reserva, todos acessíveis a pé por qualquer morador de Nova Orleans. A ideia das microrredes solares veio de equipes de ajuda humanitária em Porto Rico, depois do furacão Maria.” 

Arquitetura de aprendizagem em sistemas abertos | Em um mundo hiperconectado, produz-se uma quantidade enorme de informação, incluindo conhecimentos que viabilizam a aprendizagem contínua e a ação, especialmente em organizações dispersas e estruturadas em rede. Transformar esse fluxo incessante de informação em algo inteligível e que se traduza em ação é um desafio. “A pesquisa é fundamental para a ecoAmerica”, diz Meighen Speiser, diretora-executiva da organização. “Foi assim que começamos, e é isso que norteia tudo o que fazemos.” Mas produzir pesquisa é só um primeiro passo. A capacidade de identificar e difundir essa informação, e de coletar e traduzir em ação tudo o que chega de sua vasta metarrede, é essencial para a missão e a efetividade da ecoAmerica. As práticas coletivas da organização incentivam o feedback constante, a troca de conhecimentos e a colaboração, abrindo espaço para a experimentação, a aprendizagem mútua e o engajamento profundo na metarrede. Seus processos internos se apoiam em fluxos contínuos de comunicação que permitem à ecoAmerica reunir, avaliar e incorporar informações e evidências, fortalecendo a aprendizagem institucional, a construção de sentidos, a articulação de narrativas e a coesão do grupo.

A atenção à aprendizagem mútua é fundamental para a ecoAmerica. Antes da disseminação na metarrede, todo material é analisado e avaliado pela liderança da organização. Esse processo de análise aproxima as lideranças da ecoAmerica da pesquisa, o que facilita a etapa seguinte de articulação de narrativas na rede. Depois disso, cada estudo é apresentado a membros institucionais estratégicos, para a priorização da ação climática com base em dados atualizados. Boa parte dessa informação é compartilhada com a rede de Embaixadores do Clima por meio do portal Forj. Por último, os resultados são disponibilizados nos sites da ecoAmerica. Ou seja, esses atores não só se pautam pelos dados levantados, mas aplicam essa informação em mensagens e campanhas de mobilização.

O feedback tem um papel central na cultura da ecoAmerica. A organização busca esse retorno de forma constante e por múltiplos caminhos: em conversas presenciais, interações online, pesquisas e diversos outros canais. O processo cria condições para um aprendizado mais profundo, no qual não se avaliam apenas resultados, mas também se colocam em questão pressupostos. Essa dinâmica de aprendizagem em duas direções aprimora os referenciais mentais dos participantes, estimula comportamentos adaptativos e sustenta um ciclo contínuo de experimentação e inovação, cujos efeitos se expandem por toda a metarrede.

A metarrede também foi pensada para ganhar escala e se disseminar. Em 2024, Brett Matulis, diretor de programas comunitários da ecoAmerica, organizou uma capacitação em clima para mais de 320 educadores da rede pública do condado de Prince George, em Maryland, na região metropolitana de Washington, D.C. A iniciativa partiu de um embaixador do clima local, que organizou e coliderou as atividades. O condado “é um dos maiores distritos escolares do país”, explica Matulis. “São cerca de 9 mil professores e mais de 130 mil estudantes. Se cada um deles alcançar 120 pessoas, o impacto pode ser enorme.” O programa já está sendo reproduzido na cidade de Bellevue, no estado de Washington; a rede pública de ensino da cidade de Denver planeja implementar uma capacitação semelhante.

O impacto adaptativo fica ainda maior com o modelo de ideação da ecoAmerica. A partir dessas formações nos sistemas escolares, por exemplo, a equipe passou a discutir um modelo de “formação de formadores”, mas logo percebeu que não daria para sustentar a ideia com seus recursos, limitados. Após novas rodadas de ideação, diretores setoriais e a equipe de ativação de redes a cargo de Ashley Lane criaram o programa Group Climate Ambassador Training, que leva a educadores roteiros de facilitação, material impresso e vídeos para capacitar tanto estudantes como outros educadores.

A pesquisa e a disseminação de informações são apenas parte dessa arquitetura compartilhada de aprendizagem. A capacidade de contar histórias também é fundamental em todos os níveis da metarrede. Por meio de seus programas e formações, a ecoAmerica incentiva lideranças climáticas a narrar suas próprias experiências e a se comunicar com seus respectivos públicos de forma construtiva e pessoalmente relevante.

“Ninguém guarda cifras, estatísticas ou manchetes sobre o impacto de tempestades. O que fica é a sensação que aquilo provocou. Quando alguém conta uma história que toca as pessoas, o impacto é duradouro”, diz Matulis. Para incentivar narrativas que façam sentido para as pessoas, a ecoAmerica investe em pesquisas psicográficas e de comunicação, buscando entender como a população pensa e sente as mudanças climáticas. Esse trabalho com histórias é central na formação climática e no desenvolvimento de lideranças na rede de Embaixadores do Clima.

Mobilização estratégica de recursos | Na metarrede da ecoAmerica, a liderança climática é entendida como uma responsabilidade compartilhada, exercida em todos os níveis – das lideranças internas da organização e dos altos executivos de seus grandes parceiros institucionais até profissionais de ponta e atores da base. Essa lista de parceiros inclui a Associação Americana de Psicologia, a Academia Americana de Pediatria, a Igreja Presbiteriana, a Associação de Prefeitos Afro-Americanos e a Sociedade Islâmica da América do Norte, além de outras redes climáticas e organizações diversas. “Por mais ambiciosos que sejam nossos objetivos, deixamos claro aos parceiros que nossa missão é apoiá-los para que assumam liderança na agenda climática”, diz Meighen Speiser. A ecoAmerica sustenta essa expectativa oferecendo orientação e apoio entre pares, sempre buscando alinhar a ação climática às prioridades que cada parceiro já reconhece como centrais. Esse alinhamento exige esforço. Diretores de programas da ecoAmerica trabalham em estreita proximidade com parceiros, mantendo comunicação regular, dando acesso a pesquisas e recursos e construindo relações de confiança.

A capacidade da ecoAmerica de colher feedback e lições de um setor e, a partir disso, gerar ideias e ajustar rapidamente sua atuação ajuda tanto membros institucionais como lideranças de base. Tal capacidade de aprender rapidamente, de fazer ajustes e de ganhar escala é essencial para a metarrede, seja na adaptação da formação de Embaixadores do Clima, seja na criação de novos programas nos três principais setores de atuação. Manter o olhar atento ao nível local é decisivo para o sucesso da ecoAmerica.

“O objetivo do meu trabalho com parceiros [ligados a igrejas] é apoiar diretamente as comunidades de fé: as congregações e seus membros”, afirma a reverenda Carol Devine, diretora do programa Blessed Tomorrow, que prepara comunidades religiosas para enfrentar as mudanças climáticas como um desafio moral. “É com esse foco que procuro apoiá-los com recursos, eventos e capacitação.” O engajamento de base é reforçado por campanhas direcionadas. No fim de 2023, por exemplo, a ecoAmerica lançou a iniciativa One Home One Future, um esforço multirreligioso que reúne organizações e denominações religiosas em todo o país para apoiar congregações com materiais e recursos voltados a diferentes prioridades, da prevenção de desastres e justiça climática ao cuidado ambiental.

Fortalecimento de capacidades por toda a rede | Fortalecer a capacidade de adaptação na base é crucial para a missão da metarrede. Dar aos seus integrantes ferramentas, experiência e habilidades para atuar local, regional ou nacionalmente é parte desse esforço, e a ecoAmerica facilita o engajamento, a liderança e a ação.


Isso começa no alto. Na definição de Bob Perkowitz, a ecoAmerica é uma organização de código aberto: “Todos os nossos recursos e materiais são abertos, sob uma licença Creative Commons 4.0. Qualquer um pode usar”, diz. “Nossa função é formar lideranças climáticas e apoiá-las quando começam a exercer esse papel.”

A premiação anual pela liderança climática, o reconhecimento local, o apoio financeiro, a formação continuada e a destinação recorrente de recursos para lideranças da base são “instrumentos para o fortalecimento de capacidades”, afirma Speiser. No início, só havia apoio financeiro para grandes parceiros institucionais – “para a contratação de alguém […] para coordenar programas climáticos, por exemplo”, explica. Agora, com a consolidação de parceiros e a clara necessidade de investir nos territórios, a ecoAmerica passou a oferecer “microapoios” financeiros.

“No trabalho com comunidades de fé, oferecemos pequenos apoios, entre US$ 500 e US$ 1.000, para que uma congregação convoque outras da região e desenvolva ações coletivas, ampliando a mobilização em torno do clima”, diz Speiser.

Carol Devine, do Blessed Tomorrow, considera o novo programa especialmente eficaz. “Em 2025, foram mais de 2 mil participantes em um fórum em formato híbrido, o National Faith and Climate Forum, e mais de mil reunidos presencialmente com outras comunidades de fé”, conta. “Em um encontro local, havia representantes de nove religiões diferentes.” Os microapoios da ecoAmerica têm estimulado o crescimento da metarrede e reforçado o compromisso com a colaboração e a ação coletiva na base.

“Deixamos claro aos parceiros que nossa missão é apoiá-los para que assumam liderança na agenda climática”, diz Speiser. Para isso, a ecoAmerica oferece orientação e apoio entre pares, buscando alinhar a ação climática às prioridades de cada parceiro 

Oferecer um espaço de acolhimento para lideranças de base que assumem o trabalho difícil da ação climática é fundamental para reforçar a capacidade de membros. A ecoAmerica criou uma comunidade inclusiva, acolhedora, que incentiva a participação e o compromisso, usando a plataforma Forj para fortalecer elos e aumentar a colaboração tanto entre as próprias lideranças comunitárias como entre elas e as equipes da organização.

A ecoAmerica está sempre atenta a questões de justiça, equidade, diversidade e inclusão (JEDI). “Nossa estratégia foi intencionalmente pensada para ser mais inclusiva”, diz Speiser. “A razão de ser da organização é trazer mais gente para a agenda climática – atrair uma diversidade maior de pessoas para o movimento. Quem sofre primeiro, e mais, costuma ser quem tem menos. As mudanças climáticas multiplicam injustiças.” A maioria dos integrantes da metarrede prioriza ações de JEDI. Muitos vivem em contextos marcados por opressão, pobreza, racismo, discriminação de classe e intolerância. Nas formações locais, a ecoAmerica promove a justiça climática ao enfatizar que as soluções precisam servir e beneficiar de forma equitativa comunidades historicamente excluídas. O programa Climate Leadership Awards dá visibilidade a soluções climáticas eficazes criadas por grupos diversos.

Trabalhar por essas metas ficou mais difícil sob o atual governo do presidente Donald Trump, que tem priorizado o desmonte e o cerco a programas de diversidade, equidade e inclusão. Mas, apesar disso, a ecoAmerica mantém firme seu compromisso com a causa. A organização entende que resiliência e justiça climáticas exigem preparo e segue investindo em um trabalho que envolva diretamente as comunidades mais afetadas, oferecendo recursos capazes de promover mudanças antes que a próxima crise chegue. “É difícil separar justiça climática de justiça humana”, declara Carol Devine.

Amplificação catalítica da inovação | A amplificação é crucial para catalisar mudanças em larga escala. Praticamente toda comunicação feita pela ecoAmerica desde 2014 expressa o objetivo de ampliar a liderança climática e as soluções para o clima. Em toda a metarrede, lideranças climáticas são instruídas e incentivadas a experimentar, a inovar e a compartilhar essas inovações dentro e fora da rede. 

A liderança climática é amplificada em toda a metarrede, mas também para doadores e outros públicos externos, por meio de conferências, cúpulas, capacitações e fóruns promovidos pela ecoAmerica; de inúmeros encontros presenciais e online incorporados a suas práticas; e de sua premiação anual. “Cerca de 80% dos indicados ao Climate Leadership Awards vêm de fora da nossa rede”, observa Speiser.

Nos últimos cinco anos, a ecoAmerica produziu mais de cem webcasts, dezenas de webinars e quase 50 guias práticos para incentivar e viabilizar lideranças climáticas da base a atuar localmente de forma positiva e pessoalmente relevante. Isso, por sua vez, motiva outras pessoas a também se engajar.

Em suma, a grande meta da ecoAmerica é ampliar a liderança climática para que deixe de ser pontual e passe a emergir de forma coletiva, com capacidade de atuar em escala. Essa liderança coletiva, vinda do alto ou surgida da base, pode incentivar e sustentar transformações na sociedade capazes de reverter a crise climática. É um objetivo ambicioso, mas compatível com os meios que a ecoAmerica desenvolveu: redes e mais redes de organizações que mobilizam e coordenam milhões de pessoas para enfrentar o maior e mais complexo problema dos nossos tempos.

Como avançar

Uma das primeiras medidas de Trump ao voltar à presidência dos Estados Unidos, em 2025, foi retirar novamente o país do Acordo de Paris, o tratado internacional firmado em 2015 para conter a emissão de gases de efeito estufa e evitar que a temperatura média do planeta ultrapasse a marca de 2 oC acima dos níveis pré-industriais. Desde o início de seu segundo mandato, Trump tem reafirmado o apoio ao petróleo, ao gás e ao carvão como pilares da matriz energética estadunidense – e desqualificado a energia de fontes renováveis como “fraude” e as mudanças climáticas como “farsa”. Cientistas do clima, por sua vez, alertam que o aquecimento global está avançando com mais rapidez do que indicavam projeções anteriores e que o tempo para evitar um agravamento irreversível da crise climática está se esgotando.

A ecoAmerica se encontra diante de um contexto político difícil. Apesar do crescimento acelerado nos últimos anos, a organização deve continuar recorrendo ao vasto capital social que acumulou para lidar com novos obstáculos e mobilizar tanto seus integrantes como a sociedade em geral. “Vemos o avanço em nível federal travar e a confiança pública fragmentada”, lamenta Ashley Lane. “Nossa maior oportunidade está em fortalecer vozes locais nas quais as pessoas confiam, e é exatamente isso que estamos fazendo.”

Já Gus Speth, do WRI, avalia que a atitude do atual governo dos Estados Unidos pode, paradoxalmente, incentivar a mobilização social necessária para promover mudanças sistêmicas. “Não dá exatamente para dizer que Trump esteja nos dando alguma ajuda, mas já não dá para ignorar que vivemos uma crise existencial e que é hora de pensar em como ampliar nossa força coletiva.”

A ecoAmerica se encontra diante de um contexto político difícil. Apesar do crescimento acelerado nos últimos anos, a organização deve continuar recorrendo ao vasto capital social que acumulou para lidar com novos obstáculos e mobilizar tanto seus integrantes como a sociedade em geral

Ed Maibach, da Universidade George Mason, avalia que o país e os próprios atores do campo da ação climática ainda têm muito a avançar para fazer frente às forças que se opõem à mitigação. “O primeiro desafio é fazer com que as pessoas se importem”, diz. “Ainda não tivemos sucesso nisso – ou, pelo menos, não tanto sucesso quanto nossos opositores. Mas conquistar apoio é só metade do caminho. A outra metade é, depois disso, tornar mais fácil para as pessoas, para as organizações e para os governos fazerem o que precisa ser feito para gerar impacto.”

Maibach vê grande potencial de crescimento no alinhamento entre redes climáticas voltadas à ação. Cada rede, observa ele, é em si um nó dentro de uma rede mais ampla de ação climática. “Esses nós, em geral, são muito mal conectados entre si. Sinto que ainda estamos nos primeiros atos dessa ópera.” E acrescenta: “Sendo franco, vejo redes de redes altamente funcionais entre aqueles que se opõem à ação climática. Parecem mais bem conectadas, mais abertas à cooperação e muito mais disciplinadas em seu potencial de influência. E também contam com muito mais financiamento.”

“A ação coletiva exige relações, e relações se constroem com base na confiança”, diz Marshall Ganz, articulador comunitário e professor na Universidade Harvard. “Essa confiança nasce do risco compartilhado e do compromisso compartilhado. Não vem antes disso.” Sem confiança, uma metarrede não cresce. A liderança coletiva em grande escala da ecoAmerica depende do cultivo cuidadoso e intencional de relações baseadas em confiança e capazes de promover transformação – algo que exige tempo, um recurso cada vez mais escasso diante da aceleração da crise climática.

Desde sua criação, a ecoAmerica tem dado uma contribuição relevante e singular para ampliar a conscientização e a ação climáticas em escala nacional nos Estados Unidos. Sua estrutura organizacional, concebida como uma metarrede adaptativa, abre possibilidades importantes para outras organizações do setor social interessadas em modelos de atuação com baixos custos de transação e alto potencial de impacto.

“Minha esperança é que as pessoas leiam isso e pensem: ‘Quer saber? Isso eu posso fazer. Vou participar dessa formação, colaborar e ajudar a promover mudanças’ – seja junto conosco, seja por conta própria”, diz Perkowitz. “Afinal, tudo o que queremos é que o planeta, e as pessoas que o habitam, possam continuar vivendo.”

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Os Autores(as)

S. Aqeel Tirmizi

S. Aqeel Tirmizi é professor de liderança e comportamento organizacional na Universidade Antioch. Seu trabalho como professor e pesquisador se concentra em oferecer fundamentos e sentido a práticas de liderança e organização, com impacto direto na melhoria da condição humana.

Timothy G. Staub

Timothy G. Staub é fundador e presidente do The Verdant Commons Project, organização sem fins lucrativos dedicada a articular e alinhar atores do setor privado, do terceiro setor e do poder público em torno da necessidade de políticas climáticas coerentes.