Tradução de empresas sociais 

A China adotou uma abordagem pragmática na definição de empresas sociais como uma nova forma de organização
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Quando um novo tipo de organização entra em um país, ele pode evoluir para formas inéditas. Essa ideia de tradução institucional é tema de um novo artigo, que examina como o conceito de empresa social mudou à medida que a China o adotou e adaptou com a participação do governo.

O artigo, de Cheng Lu, pesquisador de pós-doutorado na Saïd Business School da Universidade de Oxford, e Paulo Savaget, professor associado de ciência da engenharia em Oxford vinculado à Saïd, investiga o que aconteceu quando a forma organizacional da empresa social, que enfrenta problemas sociais por meio de atividades baseadas no mercado, entrou em um país socialista e coletivista acostumado a usar o governo para lidar com tais problemas.

Lu e Savaget recorreram à literatura acadêmica sobre tutela institucional ao buscar entender a evolução pela qual as empresas sociais passaram na China. “Queremos explorar como agentes do governo chinês participam das traduções de ideias estrangeiras”, diz Lu.

Antes de cursar o doutorado, Lu pesquisou empresas sociais na China na Universidade de Pequim. A ideia para este artigo surgiu de sua formação em ciência política, combinada com sua pesquisa atual em negócios. Na Universidade de Edimburgo, onde Lu obteve seu doutorado, Savaget e Lu trabalharam juntos pela primeira vez em temas de mudança sistêmica e empreendedorismo social. Quando se reuniram novamente em Oxford, decidiram produzir juntos este artigo, uma expansão e revisão de um capítulo da tese de Lu, baseada em seu trabalho de campo na China.

A descoberta mais surpreendente, diz Lu, foi que o governo chinês adotou uma abordagem pragmática para a tradução institucional, embora as empresas sociais fossem uma importação ocidental que representava uma forma completamente nova de enfrentar problemas sociais em um país onde potenciais perturbações sociais geralmente não são toleradas. Como o governo central não possui leis específicas voltadas ao funcionamento de empresas sociais, explica Lu, os governos locais se tornaram os principais agentes nesse processo de tradução institucional.

Autoridades locais primeiro estudaram o conceito de empresas sociais e depois consideraram os riscos e oportunidades, além da forma como esses grupos poderiam afetar o sistema social mais amplo, relata Lu. Essa cautela decorreu do papel do governo chinês como guardião da estabilidade social e do interesse dos governos locais e regionais em preservar as instituições existentes sob seu controle.

Após um período de exploração cautelosa, os governos passaram a trabalhar com as empresas sociais que se estabeleciam em suas regiões, garantindo que os funcionários públicos preservassem sua capacidade de exercer algum grau de controle, diz Lu. Essa participação levou as empresas sociais a ajustarem sua abordagem para se alinharem melhor aos objetivos de cada região.

“As pessoas podem pensar que o governo é autoritário e poderoso, mas observamos uma atuação muito mais leve e consultiva”, conta Lu.

As empresas sociais ocuparam esferas diferentes em cada região, de acordo com as prioridades dos governos locais. Em Pequim, observa Lu, elas se tornaram um instrumento de apoio à coesão social. Em Chengdu, as autoridades as direcionaram a fortalecer os laços comunitários. Em Shenzhen, o governo as usou para alavancar investimentos de impacto com fundos estrangeiros e chineses, com o objetivo de transformar a cidade em um centro de finanças sociais.

Estudos anteriores apresentavam o empreendimento social como uma forma organizacional que emergia de fundações de base comunitária. Isso pode ser verdade no Ocidente, mas não é o caso na China. Lá, as empresas sociais não surgiram da sociedade civil doméstica, mas vieram do exterior, afirma Chenjian Zhang, professor associado de estratégia de gestão e organização na Universidade de Bath.

“O artigo demonstra que as empresas sociais são, na verdade, fenômenos institucionalmente incorporados, cuja própria natureza depende do trabalho de tutela de atores poderosos, particularmente de governos que moldam seu desenvolvimento desde a introdução até a implementação”, diz Zhang. “Isso representa uma mudança: de estudar as empresas sociais como entidades independentes para entendê-las como formas organizacionais maleáveis, continuamente moldadas por tutores institucionais.”  

Pesquisa: “Institutional Custodianship Meets Institutional Translation: How the Chinese Government Engaged with the Integration of Social Enterprises in China”, por Cheng Lu e Paulo Savaget.

*Em junho de 2025, o Stanford Center on Philanthropy and Civil Society (Stanford PACS), sede acadêmica da SSIR, realizou seu Fórum de Acadêmicos Júnior em parceria com o Seminário Doutoral em Empreendedorismo Social e Filantropia (SEPHI, na sigla em inglês) na ESSEC Business School, em Paris. Os artigos da seção de Pesquisa da edição 14 apresentam trabalhos de pesquisadores que participaram do fórum.

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