Filantropia e financiamento

Para cada território, uma solução: práticas para fundações e institutos comunitários no Brasil

Fundações e institutos comunitários (FICs) fortalecem territórios ao mobilizar recursos locais, impulsionar mudanças e promover uma filantropia mais participativa e enraizada; no Brasil, as FICs se adaptam a um cenário desafiador, driblando a falta de incentivos fiscais e fortalecendo a cultura de doação para impactar comunidades

Por Nicholas S. Deychakiwsky, Paula Fabiani, Felipe Insunza Groba e Rodrigo Pipponzi

Ilustrações de Catarina Bessell
Fotos de André Porto e do Instituto Comunitário Baixada Maranhense

institutos comunitários

A crescente retração do espaço cívico e a baixa confiança nas instituições públicas representam desafios significativos para a participação democrática e a promoção do bem-estar das comunidades. Em 2024, apenas 3,6% da população mundial vivia em países com plena liberdade de associação, reunião e expressão, segundo o Civicus Monitor.¹ Por outro lado, apenas 52% da população mundial confia em seus governos – número que, no Brasil, cai para 39%, inferior à confiança em empresas (62%) e ONGs (56%), de acordo com o Edelman Trust Barometer 2025.²

Nesse cenário, a filantropia comunitária se consolida como um caminho indispensável para fortalecer a sociedade civil, mobilizar recursos locais e impulsionar mudanças que respondam às necessidades dos territórios. Entendemos essa modalidade de investimento social como uma estratégia e uma prática cujo propósito é desenvolver comunidades e solucionar vulnerabilidades a partir de sua própria visão de prioridades e potenciais soluções, por meio de recursos e potencialidades locais.³ As fundações e institutos comunitários (FICs) desempenham um papel estratégico nesse processo, articulando doações, distribuindo recursos e fomentando a cultura de doação local, a fim de garantir que o impacto seja duradouro e em conformidade com as prioridades das comunidades.

O financiamento colaborativo ganha cada vez mais relevância dentro desse movimento. O Johnson Center for Philanthropy define-o como uma forma de alinhar doações de diversos investidores sociais e filantropos com objetivos de longo prazo, territórios de interesse e populações beneficiárias, com o intuito de potencializar o impacto.4 O National Center for Family Philanthropy destacou esse modelo de financiamento em seu relatório sobre tendências para 2025, apontando que fundações familiares estão cada vez mais voltadas às necessidades comunitárias, migrando de uma abordagem centrada no doador para uma fundamentada na comunidade.5 Segundo sua pesquisa, 64% das fundações mantêm um foco geográfico definido, o que demonstra um compromisso crescente com a melhoria de índices de qualidade de vida em um território.

No contexto internacional, a cooperação para a solução de problemas sociais, ambientais e econômicos tem enfatizado a “localização”. Nessa abordagem, agentes locais lideram processos como a definição de prioridades e alocação de recursos, a elaboração de projetos, a implementação e a medição de resultados.6 O enfoque busca fortalecer sistemas comunitários, garantindo que os investimentos filantrópicos atendam às realidades e necessidades locais. 

A filantropia avança nessa direção e, assim, promove maior engajamento e direcionamento de recursos diretamente para as comunidades, reconhecendo que é para, com e por elas que ocorrem mudanças sistêmicas e efetivas nos territórios. Isso se reflete em práticas como os processos de doações participativas (que pregam a colaboração entre financiadores e realizadores na destinação de recursos) e a filantropia baseada em confiança (doações livres, com pouca ou nenhuma restrição de alocação orçamentária, em caráter multianual e com processos descomplicados de prestação de contas), além do impulso a metodologias como os círculos de doação (grupo de pessoas que se unem para doar recursos financeiros e/ou tempo a causas sociais, decidindo coletivamente para onde direcionar os fundos).

A filantropia comunitária surge como uma resposta capaz de fortalecer tendências positivas, como o financiamento centrado na comunidade e a localização de recursos, ao mesmo tempo que mitiga desafios, como a retração do espaço cívico e a crise de confiança nas instituições. Ela fortalece a capacidade e a voz das comunidades, constrói confiança e mobiliza recursos locais para benefício coletivo. Embora possa ocorrer de maneira informal, sua efetividade aumenta quando há um veículo filantrópico local, e as FICs são o modelo mais consolidado.

Neste artigo, exploraremos as principais características das FICs no mundo e, em especial, a adaptação desse modelo, bem estabelecido na América do Norte e Europa, à realidade brasileira. Acreditamos na sua potência para enfrentar de maneira criativa e colaborativa problemas sociais, ambientais e econômicos. Também analisaremos as oportunidades e desafios no Brasil e o papel do programa Transformando Territórios na disseminação desse conceito e no apoio à criação e consolidação dessas organizações. 

Os autores representam diferentes agentes desse processo: a Fundação Charles Stewart Mott, entusiasta do modelo; o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), que promove e apoia as FICs por meio do programa Transformando Territórios; e o Instituto ACP, que financia o desenvolvimento institucional de algumas FICs e iniciativas de filantropia comunitária no Brasil. Para ilustrar os conceitos e impactos, traremos casos e dados concretos de FICs brasileiras, assim como tendências para o modelo no país. 

 

O que caracteriza as FICs? 

As FICs possuem particularidades bem definidas que as diferenciam no campo da filantropia. São organizações de origem comunitária, comprometidas com a perenidade e focadas no fortalecimento de múltiplas causas dentro de um território. Em vez de competir com iniciativas locais, atuam como catalisadoras, impulsionando e articulando recursos para potencializar o impacto social e ambiental. No entanto, a forma como essas características se manifestam em diferentes países e regiões depende de fatores como o ambiente regulatório para doações, a cultura filantrópica local, as possibilidades legais de operação para organizações sociais e o nível de maturidade do setor social em cada contexto. 

Os atributos a seguir distinguem as FICs de outras organizações da sociedade civil (OSCs) e as tornam valiosas para o desenvolvimento comunitário:

  • São locais e, portanto, próximas às pessoas que atendem. Por serem geridas localmente e dependerem principalmente de recursos locais, têm maior chance de impactar positivamente a vida dos residentes nos respectivos territórios do que qualquer ator externo. 

  • Promovem o engajamento cívico, convidando a cidadania a participar de maneira inclusiva para avançar o bem-estar dos membros de uma comunidade. As FICs são capazes de superar divisões entre diferentes setores da sociedade, construindo pontes e fazendo da pluralidade um importante ativo local.

  • Atuam como catalisadoras ao mapear, mobilizar, agregar, gerenciar e direcionar tipos diversos de capital existentes no território – não só monetário, mas também humano, social, moral, intelectual, reputacional, cultural, natural, entre outros. 

  • Constroem capacidades na comunidade. Embora possam implementar projetos por conta própria, são mais eficazes quando são doadoras e fornecem apoio financeiro a organizações comunitárias locais. Isso, juntamente com outros tipos de assistência, constrói capacidade, confiança e colaboração. 

  • São independentes, não devendo lealdade a nenhuma corporação, força política, entidade governamental, religião, família ou indivíduo. Uma FIC, efetivamente, pertence a toda a comunidade. A garantia da independência como um alicerce torna uma base de financiamento diversificada e uma governança inclusiva ainda mais importantes. 

  • São permanentes e multitemáticas, pois os territórios são vivos e dinâmicos; suas demandas, potenciais e prioridades mudam com o tempo. As FICs devem ser trabalhadas, defendidas, protegidas e desenvolvidas em um esforço contínuo e de longo prazo. São criadas para ser duradouras e servirem de abrigo seguro para recursos filantrópicos destinados em benefício do território. 

  • Constroem jornadas filantrópicas, ao apoiar os financiadores de um território – voluntários, pequenos doadores, empresas, famílias filantropas – com suas causas e iniciativas sociais, promovendo um engajamento crescente com os moradores e possibilitando a constituição de fundos perenes em benefício da comunidade.

Com essas características, as FICs se consolidam como pilares essenciais da filantropia comunitária, viabilizando soluções para os desafios sociais e fortalecendo a autonomia das comunidades. 

 

Transformando territórios 

Desde 2020, o programa Transformando Territórios, uma parceria entre a Fundação Charles Stewart Mott e o Idis, tem impulsionado a criação e o fortalecimento de FICs no Brasil. Em quatro anos, o programa viabilizou o desenvolvimento de 13 FICs em oito estados, somando-se a três organizações preexistentes que já operavam segundo esses princípios: o Instituto Comunitário Grande Florianópolis (Icom), em Santa Catarina, o Tabôa Fortalecimento Comunitário, na Bahia, e o Instituto Baixada Maranhense, no Maranhão. 

Em países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e México, muitas FICs gerenciam os chamados donor advised funds (DAFs). Com uma estrutura análoga a uma conta corrente de doação, os DAFs permitem que doadores façam uso de incentivos fiscais, planejem e ampliem suas doações ao longo do tempo. 

No Brasil, no entanto, há um desincentivo estrutural para esse tipo de doação. As leis de incentivo fiscal segmentadas – benefícios tributários limitados a doações voltadas para áreas específicas, como assistência a crianças e adolescentes, idosos ou pessoas com deficiência, ou projetos esportivos e culturais – exigem que os recursos sejam direcionados diretamente a organizações operacionais, o que vai contra a vocação das FICs como articuladoras e distribuidoras de fundos. Também faltam incentivos no Brasil para doações às FICs, pois diferentemente do que acontece em outros países, organizações intermediárias não oferecem alívio tributário aos doadores, o que reduz sua atratividade frente a modelos com incentivos fiscais garantidos.

Portanto, do ponto de vista do doador, é mais vantajoso direcionar recursos para projetos com 100% de dedução fiscal, já que, na prática, ele apenas redireciona um imposto que já pagaria de qualquer forma. Esse fator se agrava com o fato de que todas as outras doações não oferecem nenhum benefício fiscal. E, como as FICs dificilmente conseguirão operar projetos que se encaixem nas leis de incentivo, essa disparidade limita seu potencial de captação.

Diante desse cenário, o modelo precisou ser adaptado à realidade brasileira. Em vez de atuarem como gestoras de fundos individuais, as FICs brasileiras fortalecem a cultura de doação local, mobilizando recursos e promovendo ações coletivas sem competir com iniciativas comunitárias preexistentes. Essa abordagem, no entanto, precisa considerar as distintas realidades do país, demandando um modelo flexível que respeite as particularidades de cada território.

Para estruturar esse desenvolvimento, o Idis criou 30 indicadores baseados em nove práticas e princípios norteadores das FICs, abrangendo desde a diversificação de fontes de financiamento até a qualificação da governança. A cada novo ciclo do programa Transformando Territórios, as FICs definem, junto ao Idis, metas de desenvolvimento para os próximos 24 meses, respeitando especificidades locais. O objetivo não é impor um modelo rígido, mas construir estruturas filantrópicas locais robustas e sustentáveis, capazes de enfrentar desafios de longo prazo.

Para impulsionar o crescimento das FICs, o programa oferece quatro tipos de suporte direto, combinando instrumentos padronizados e personalizados:

Formação e capacitação: palestras, treinamentos e workshops sobre governança, financiamento coletivo (crowdfunding), captação de recursos, comunicação e modelos de filantropia no Brasil e no mundo.

Caixa de ferramentas: mais de 30 documentos de referência, incluindo modelos de estatuto social, orçamento operativo, editais, validação documental de OSCs, boas práticas para gestão de fundos filantrópicos e diagnósticos territoriais.

Assessoria personalizada: apoio individualizado do Idis para a implementação das ferramentas e para superar desafios específicos de cada FIC.

Matching fund e apoio à captação: estrutura de matching fund (alavancando os valores captados pelas FICs) e suporte na interlocução com potenciais doadores e financiadores locais. 

A filantropia comunitária surge como uma resposta capaz de fortalecer tendências positivas, como o financiamento centrado na comunidade e a localização de recursos, ao mesmo tempo que mitiga desafios, como a retração do espaço cívico e a crise de confiança nas instituições

Além das atividades estruturadas, o Idis fortalece o intercâmbio direto entre as FICs, criando espaços contínuos de aprendizado e colaboração. Esse intercâmbio acontece por meio de viagens técnicas, participação em eventos nacionais e internacionais e um grupo de WhatsApp que reúne cerca de 60 participantes.

Esse ambiente de troca tem gerado impactos concretos: as FICs se inspiram mutuamente, adotando estruturas de grantmaking participativo, editais simplificados para microprojetos e a criação de fundos temáticos. Além disso, a rede se tornou um espaço essencial para discussões sobre desafios comuns, incluindo questões jurídicas e fiscais.

A longo prazo, essa dinâmica de colaboração amplia o alcance do programa por meio de mentorias cruzadas, em que organizações mais experientes apoiam outras em estágio inicial. Essas parcerias podem surgir por proximidade geográfica – como no caso da Fundação FEAC, de Campinas, e a associação Fórum das Entidades Assistenciais de Valinhos (Feav), ambas na mesma região metropolitana – ou por afinidade temática – como a Associação Nossa Cidade, de Belo Horizonte, e a Fundação Gerações, de Porto Alegre, que compartilharam conhecimento sobre fundos emergenciais. Esse intercâmbio foi crucial, por exemplo, para a estruturação da linha emergencial da FIC gaúcha durante as enchentes no Rio Grande do Sul em maio de 2024, demonstrando como a colaboração entre as FICs fortalece a resiliência comunitária.

Além disso, o Idis tem impulsionado o reconhecimento das FICs como agentes estratégicos na gestão eficiente de recursos filantrópicos. Essas organizações têm a capacidade de apoiar tanto indivíduos e famílias que desejam estruturar suas doações como empresas locais que buscam fortalecer sua atuação no pilar social da ESG (governança ambiental, social e corporativa). Os potenciais vão desde a gestão de fundos filantrópicos próprios em benefício do território até a articulação de programas de voluntariado corporativo que se dediquem às demandas identificadas pelas OSCs locais.

Além do setor privado, as FICs também desempenham um papel crescente na colaboração com o poder público, ajudando a mapear demandas e identificar soluções para desafios socioambientais de cada território. A participação do Icom como membro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Florianópolis e o papel desempenhado pela Redes da Maré no Vacina Maré, iniciativa em conjunto com a prefeitura do Rio de Janeiro e a Fiocruz para a universalização da vacinação contra a covid-19 no território, são exemplos de como as FICs podem trabalhar em parceria com atores estatais para alcançar objetivos comuns. Com capacidade de articulação e profundo conhecimento local, elas são aliadas na construção de estratégias mais eficazes e conectadas às realidades das comunidades. 

 

Adaptações territoriais

A flexibilidade do programa Transformando Territórios e seu caráter de aceleração permitiram a participação não apenas de grupos de líderes sociais interessados em criar uma FIC do zero – os chamados Grupos de Iniciativa –, mas também de organizações já consolidadas que buscavam se converter ou adaptar-se ao modelo das FICs. O programa impulsionou a transformação de diferentes perfis institucionais, incluindo fóruns e federações de OSCs locais, organizações operativas com braços de grantmaking, instituições com fundos patrimoniais de foco territorial e até uma fundação familiar dedicada a fortalecer fundos comunitários. Entre os casos mais emblemáticos, destaca-se a Fundação FEAC, uma organização com 60 anos de história que encontrou no modelo das FICs uma oportunidade de diversificar suas fontes de captação e fortalecer sua conexão com o território. 

Um exemplo notável de conversão bem-sucedida é a Feav, no município de Valinhos, Região Metropolitana de Campinas. Originalmente um espaço de articulação entre OSCs locais, a Feav passou por uma transformação significativa durante a pandemia de covid-19. Diante da crise, percebeu seu potencial não apenas como promotora do diálogo entre organizações, mas também como um elo entre doadores, poder público e demandas do território.

A virada de chave veio com uma campanha emergencial que arrecadou cerca de R$ 300 mil em alimentos e itens de higiene, seguida por um amplo diagnóstico territorial que envolveu escolas, órgãos públicos, OSCs e lideranças comunitárias. Esse mapeamento fortaleceu a Feav como um hub estratégico de captação de recursos para projetos locais.

Desde então, a organização expandiu sua atuação. Com financiamento de uma multinacional instalada no município, implantou o JovemTEC, um cursinho preparatório gratuito para adolescentes ingressarem em colégios técnicos, preenchendo uma lacuna não atendida pelas OSCs locais. Além disso, estruturou um leilão beneficente para apoiar financeiramente as organizações do território.

Sua crescente legitimidade gerou novas oportunidades. Em 2022, a prefeitura cedeu uma sede própria para a Feav, consolidando seu papel institucional. A entidade abriu uma frente de incidência apartidária junto aos poderes Executivo e Legislativo para viabilizar recursos e apoio institucional às mais de dez OSCs ligadas à assistência social operantes no município, e que atendem mais de 1.800 pessoas diretamente. O esforço resultou na liberação de R$ 6,5 milhões em emendas impositivas de vereadores em 2024. No final do mesmo ano, a Fundação FEAC, FIC da vizinha Campinas, oficializou a doação para a Feav de um casarão histórico, datado do início do século 20, possibilitando a sustentabilidade financeira da organização no longo prazo.

Em 2025, ao completar quatro anos de aceleração pelo programa Transformando Territórios, a Feav colhe os frutos dos esforços de sua governança voluntária. A organização conseguiu profissionalizar sua equipe, contratando dois colaboradores para apoiar a articulação local, a captação de recursos e a gestão do imóvel doado. Para garantir a manutenção e rentabilização da propriedade, desenvolveu um modelo de geração de receita baseado na realização de eventos, locação de espaços e até naming rights vinculados à reforma do casarão – um passo fundamental para sua autonomia financeira.

Para quem não o conhece, o município de Valinhos pode parecer apenas uma cidade-dormitório de Campinas, marcada por condomínios fechados de alta renda, distantes das áreas mais vulneráveis. No entanto, ao longo da última década, o município tem reafirmado sua identidade – os “pés de figo”, como são chamados os valinhenses – e fortalecido o tecido social por meio de uma maior conexão entre moradores, empresas e poder público. A Feav tem sido uma peça-chave nesse processo de construção comunitária.

institutos comunitários

Seu crescimento acelerado demonstra como a conversão de organizações tradicionais em FICs pode ser um caminho eficiente para impulsionar a filantropia no Brasil. Em vez de enfrentar os desafios burocráticos e financeiros da criação de uma nova OSC, a Feav aproveitou sua legitimidade prévia no território para expandir sua atuação e consolidar seu impacto – um modelo que pode inspirar outras iniciativas pelo país.

Outro exemplo emblemático de adaptação acontece na Vila Nova União, na zona leste do município de São Paulo. O Instituto Cacimba de Responsabilidade Social, uma FIC voltada para impactar todo o distrito de São Miguel Paulista, iniciou sua trajetória apostando em soluções econômicas e sociais aplicadas à realidade local. Seus primeiros passos foram a criação do Banco Social Cacimba, um banco comunitário, e o fortalecimento do empreendedorismo periférico por meio de iniciativas inovadoras como a Escola de desNegócio e a Uni-Diversidade da Quebrada.

O Instituto Cacimba também se destaca por um modelo de governança único, que vai além das estruturas tradicionais. Além do Conselho Fiscal e do Conselho Consultivo, a organização conta com um Conselho Comunitário, um Conselho das Avós e um Conselho da Juventude. Esses grupos desempenham um papel fundamental na construção conjunta das iniciativas e dos fundos temáticos, que futuramente estarão abertos à captação de recursos.

A presença de uma FIC enraizada no território e gerida por quem vive nele cria um mecanismo poderoso de articulação de ativos em benefício da própria comunidade. Ao mesmo tempo, oferece aos doadores um modelo de custódia comunitária dos recursos, assegurando que as decisões sobre investimentos e projetos sejam tomadas por quem realmente conhece as necessidades e potencialidades do território.

Uma evidência de que governança, legitimidade e impacto caminham juntos foi o lançamento, em 2023, do primeiro edital do Instituto Cacimba, voltado para empreendedores jovens e mulheres. A iniciativa ofereceu premiações de R$ 3 mil para 13 selecionados – indivíduos, duplas, coletivos ou negócios já existentes – e incluiu uma série de capacitações em temas como criatividade, marketing, economia solidária e vendas.

As FICs são organizações de origem comunitária, comprometidas com a perenidade e focadas no fortalecimento de múltiplas causas dentro de um território. Em vez de competir com iniciativas locais, atuam como catalisadoras, impulsionando e articulando recursos para potencializar o impacto social e ambiental

O processo de seleção inovou ao simplificar a inscrição, permitindo que os candidatos enviassem suas propostas por áudio ou vídeo. Além de avaliar a viabilidade financeira dos negócios, o edital priorizou mães solo, mulheres vítimas de violência doméstica e famílias com renda de até um salário mínimo. 

Esse modelo de grantmaking descomplicado e acessível tornou-se uma marca das FICs brasileiras, que ao longo dos últimos anos vêm trocando experiências e aprimorando práticas de filantropia baseada em confiança. Do Fundo de Investimento Comunitário Capixaba (Fundaes), no Espírito Santo, à chamada pública “Éditodos” do Fundo Jequi, que atua no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, as FICs têm se destacado por fazer que os recursos cheguem diretamente às organizações e iniciativas que impulsionam a transformação social nos territórios. 

 

Tendências e desafios no Brasil 

Os exemplos de FICs não se restringem à região Sudeste. Em estados como Alagoas e Sergipe, bem como em cidades como Manaus, estão surgindo as primeiras organizações grantmakers independentes, estruturadas como fundos comunitários voltados às demandas locais. Essas iniciativas têm o potencial de atrair tanto recursos internos como investimentos externos para regiões historicamente fora do radar de grandes investidores sociais. 

Esse movimento já está em curso. As FICs vêm atraindo a atenção de filantropos, que as enxergam como uma oportunidade de envolver os próprios beneficiários na decisão sobre o uso das doações. Além disso, essas organizações oferecem um caminho para promover mudanças sistêmicas nos territórios em que atuam. O avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030 das Nações Unidas e da agenda ESG também pode impulsionar a criação de novas FICs, incentivando empresas a apoiarem os territórios por meio delas, em vez de investirem apenas em seus próprios projetos ou via departamentos de investimento social. Dessa forma, evita-se que os recursos sejam direcionados por convicções corporativas desalinhadas das reais necessidades da população.

No entanto, o amadurecimento das FICs no Brasil não ocorre sem desafios. O Icom, referência nacional nesse modelo há mais de 18 anos, construiu gradualmente sua expertise na gestão de fundos filantrópicos e na articulação de programas territoriais. Em 2006, menos de 20% dos recursos captados pelo Icom eram destinados ao apoio direto a organizações do território e a projetos próprios. Esse percentual cresceu para 69% em 2019 e chegou a 80% em 2021, quando a organização criou a Linha Emergencial Coronavírus. Em 2023, com a consolidação de programas como o TecTrampo (que capacita jovens em programação), a Plataforma Sinais Vitais ODS (focada em diagnósticos territoriais) e o Programa de Desenvolvimento Territorial do Frei Damião (um esforço multissetorial voltado ao bairro mais vulnerável de Santa Catarina), o Icom destinou mais de 70% dos recursos captados para ações de assessoria, inovação e garantia de direitos nas comunidades atendidas.

Apesar desse avanço, o ambiente regulatório brasileiro ainda não favorece a operação de organizações intermediárias. A ausência de incentivos fiscais e a incidência de impostos estaduais sobre doações (cuja extinção está prevista na nova reforma tributária) são barreiras significativas. Mas dois desafios específicos se destacam: a sustentabilidade financeira e a governança.

institutos comunitários

O desafio da sustentabilidade financeira está diretamente ligado à dificuldade de captar recursos institucionais para a própria FIC. Como essas organizações são independentes e não possuem mantenedores, sua vocação não é executar projetos diretamente junto aos beneficiários, e sim intermediar e potencializar doações. Isso torna essencial construir uma percepção de valor e confiança entre potenciais doadores. No entanto, segundo a Pesquisa Doação Brasil 2022, apenas 31% dos brasileiros (sejam doadores ou não) acreditam que as ONGs são confiáveis, e o mesmo percentual afirma que elas deixam claro o que fazem com os recursos captados. Ainda mais preocupante para as FICs, 46% das pessoas concordam com a afirmação de que “é melhor dar dinheiro diretamente a quem precisa, sem intermediários”. Esse dado revela um desafio cultural que precisa ser enfrentado para que a filantropia comunitária possa se expandir e ganhar legitimidade no Brasil.

Já no campo da governança, o grande problema é garantir legitimidade no território, evitando que a FIC fique excessivamente vinculada à imagem de seus fundadores. Esse quebra-cabeça é ainda mais complexo para organizações criadas “do zero”, em que muitas vezes os fundadores dedicam anos de trabalho voluntário para consolidar a iniciativa, construir redes de contato e atuar como porta-vozes da organização.

Desde os primeiros anos, é fundamental que as lideranças de uma FIC planejem a própria sucessão e implementem processos para oxigenar constantemente a governança, trazendo novos atores e vozes da comunidade para os espaços de decisão. Isso pode ser feito de forma gradual, mas sem acomodação. A criação de comitês temáticos ou territoriais é uma estratégia eficiente, pois permite a incorporação progressiva de novos membros na liderança da organização. O mesmo princípio se aplica a organizações que passaram por um processo de conversão – isto é, que evoluíram de uma estrutura consolidada para uma FIC. Nesses casos, há uma tendência de manter tudo como está, sem redistribuir poder ou dar visibilidade a novas lideranças, sob o argumento de que “sempre fizemos assim e funcionou”. Esse tipo de resistência pode comprometer a capacidade da FIC de se adaptar e crescer com o tempo.

A presença de uma FIC enraizada no território e gerida por quem vive nele cria um mecanismo poderoso de articulação de ativos em benefício da comunidade e oferece aos doadores um modelo de custódia comunitária dos recursos, assegurando que as decisões sejam tomadas por quem conhece as necessidades e potencialidades locais

Apesar dos desafios regulatórios, da fragmentação da cultura de doação no Brasil e da necessidade de fortalecimento da confiança no setor social, a filantropia comunitária tem um potencial imenso para florescer. As FICs estão destinadas a desempenhar um papel cada vez mais central, tanto no Brasil como no mundo. Seu compromisso com o fortalecimento local, com a promoção de valores cívicos e a construção de soluções baseadas no envolvimento da comunidade é essencial para a transformação social sustentável. Afinal, muitas das nossas maiores dificuldades estão enraizadas na ausência de pertencimento e de participação cidadã – e é justamente aí que as FICs têm o poder de fazer a diferença.

 

Aprendizados no apoio à filantropia comunitária

A transformação social ganha força quando a filantropia valoriza quem está na linha de frente e investe no poder das comunidades

Por Rodrigo Pipponzi

A experiência de um instituto grantmaker que atua há quatro anos com o desenvolvimento institucional de organizações sociais demonstra que muitos dos desafios críticos do setor social podem ser enfrentados com maior êxito por meio do apoio a organizações comunitárias de referência em seus territórios.

No entanto, os modelos mais comuns de atuação na filantropia ainda estão baseados em algumas crenças que precisam ser superadas para garantir um suporte mais eficaz a esse perfil de organização. Entre as abordagens necessárias para essa superação estão:

Repensar a prioridade da escala na estratégia. | As FICs atuam com foco territorial e, muitas vezes, em áreas relativamente pequenas. Portanto, apoiá-las não tem relação com o crescimento exponencial, mas com o fortalecimento profundo dentro de um território específico. O crescimento é possível, mas seus limites são dados pela geografia e pelas necessidades locais. Além disso, muitos desses territórios são pouco conhecidos fora de suas próprias regiões, o que, para alguns, pode diminuir o “glamour” da doação. Esse paradigma precisa mudar.

Abandonar a mentalidade de projetos. | O propósito das FICs é fortalecer o território, apoiando organizações, movimentos, iniciativas e lideranças locais. Por isso, sua atuação não se baseia na execução direta de projetos, mas sim no grantmaking – a distribuição estratégica de recursos para impulsionar mudanças sistêmicas na região. Infelizmente, a filantropia brasileira ainda prefere doar para projetos pontuais, com métricas e indicadores mais facilmente mensuráveis. No entanto, quando o foco está apenas em resultados imediatos, perde-se a chance de construir uma estrutura de apoio sólida e duradoura para a transformação social.

Priorizar o desenvolvimento institucional. | Considerando os pontos anteriores, o investimento no desenvolvimento institucional das FICs se torna indispensável. Como organizações que sustentam a sociedade civil organizada no território, elas precisam ser fortalecidas de forma contínua e perene, garantindo que tenham instrumentos, conhecimento e estrutura para apoiar outras iniciativas locais. A relação entre FICs e seus financiadores revela uma dinâmica de espelhamento. Elas desempenham um papel fundamental dentro dos territórios em que atuam, de forma semelhante ao papel que financiadores desempenham junto às organizações que apoiam. Essa interação possibilita um aprendizado mútuo, ampliando o impacto positivo e fortalecendo o propósito da filantropia por meio de parcerias territoriais. Ao expandirem sua consciência sobre desenvolvimento institucional, as FICs não apenas aprimoram suas ferramentas, experiência e conhecimento sobre o tema, mas também aplicam esses aprendizados em suas relações com outros agentes locais.

Cultivar a doação paciente e de longo prazo. | Investir no desenvolvimento institucional e em mudanças estruturais significa entender que os resultados não são imediatos. Esse processo demanda tempo, paciência e tolerância com erros, pois são nos ciclos de aprendizado que ocorrem as maiores transformações. 

A experiência do Instituto ACP mostra que superar esses desafios – que frequentemente contrariam as práticas predominantes na filantropia tradicional – gera benefícios significativos. O trabalho com organizações comunitárias evidencia que nada é mais poderoso do que compartilhar experiências com quem atua diretamente na ponta, liderando comunidades. Mais do que qualquer métrica de impacto, a combinação entre as vozes da comunidade e soluções construídas coletivamente garante maior eficiência na aplicação dos recursos filantrópicos.

Por que apoiar FICs?

Além dos benefícios diretos para os territórios, apoiar as FICs é um exercício necessário de equilíbrio de poder, que precisa ser aprofundado. Sentar à mesa com líderes comunitários, ouvir suas demandas e construir soluções coletivamente significa valorizar e amplificar suas vozes, o que inspira novas lideranças e fortalece o tecido social. Esse processo gera um efeito multiplicador na construção de narrativas, ampliando o alcance e o impacto das histórias dessas iniciativas.

Apoiar FICs também se revela uma estratégia eficaz e um atalho para impulsionar mudanças sistêmicas. Em vez de focar apenas em uma causa específica, essa abordagem reconhece a interseccionalidade de desafios sociais, permitindo que diferentes perspectivas e demandas sejam articuladas para priorizar soluções que transformem realidades locais. O apoio a iniciativas comunitárias tem um potencial mais significativo para transformar os sistemas social, econômico e político das regiões onde atuam.

Essa abordagem exemplifica como a filantropia comunitária tem moldado e fortalecido a visão de impacto e a estratégia de apoio financeiro e técnico das organizações que investem nesse campo. Recentemente, ao revisar seu planejamento estratégico, o Instituto ACP aprofundou a análise sobre como transferir esses aprendizados para outras modalidades de apoio, o que inspirou a expansão de seu volume de doações para a filantropia comunitária no futuro próximo.

 

Leia também: Um novo modelo para financiar o desenvolvimento comunitário

 

OS AUTORES

Nicholas S. Deychakiwsky é gerente sênior de programas na Fundação Charles Stewart Mott, nos Estados Unidos.

Paula Fabiani é CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis)

Felipe Insunza Groba é gerente de projetos e responsável pelo programa Transformando Territórios no Idis. 

Rodrigo Pipponzi é filantropo, presidente do conselho do Grupo MOL, presidente do conselho e fundador do Instituto ACP e membro do conselho deliberativo do Idis.

 

Notas
¹ Civicus Monitor, People Power Under Attack 2024.
² Edelman Trust Institute, 2025 Edelman Trust Barometer Special Report: Truth and the Crisis of Grievance.
³ Idis, Filantropia comunitária: terreno fértil para o desenvolvimento social, 2019.
4 Dorothy A. Johnson Center for Philanthropy, 11 Trends in Philanthropy for 2023.
5 National Center for Family Philanthropy, Trends 2025, 2024.
6 Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), “Localization at Usaid: The Vision and Approach”, 2023.

Leia também: Um novo modelo para financiar o desenvolvimento comunitário”

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