O papel das empresas na adaptação climática 

O investimento social corporativo pode fortalecer territórios, aumentar a resiliência e proteger comunidades e negócios
Prefeitura de Porto Alegre, à esquerda, e Mercado Municipal, à direita, alagados após chuva intensa.
Gilvan Rocha / Agência Brasil

Eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, comprometem a segurança das pessoas, interrompem serviços essenciais e paralisam atividades produtivas. O Atlas Digital de Desastres no Brasil estima prejuízos acima de R$ 380 bilhões decorrentes de estiagens e chuvas intensas entre 2015 e 2024. Desse total, R$ 350 bilhões recaíram sobre o setor privado, em decorrência da destruição de propriedades, interrupção de infraestrutura essencial e paralisação da vida cotidiana.

Nesse contexto, a adaptação climática desponta como prioridade para ajustar sistemas humanos e naturais às mudanças ambientais já em curso e às que ainda virão. Isso implica investimentos em melhoria da drenagem urbana para conter enchentes, construção de reservatórios hídricos sustentáveis e reordenamento urbano para retirar populações de zonas de risco. Os impactos ambientais e sociais da crise climática atingem comunidades, governos e empresas, o que torna a colaboração entre setores indispensável para enfrentar esse desafio.

Parte relevante dos riscos privados está associada a territórios que acomodam empresas e suas cadeias de valor. Em muitos casos, as empresas são o principal ativo do território, com estrutura operacional superior à do poder público local. O setor privado deve reconhecer seu impacto e importância nos territórios e assumir maior protagonismo no fortalecimento das comunidades locais, em linha com a premissa dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de que as empresas são corresponsáveis pelo desenvolvimento social e ambiental.

As estruturas de investimento social corporativo podem ser peça fundamental para fortalecer e acelerar soluções de adaptação climática no Brasil. Elas têm a capacidade de conectar capital privado, políticas públicas e organizações do terceiro setor para gerar valor público e privado. Essa capacidade pode ser mobilizada para promover a resiliência climática dos territórios, melhorar a qualidade de vida das pessoas e garantir a perenidade e legitimidade dos negócios.

Investir na adaptação dos territórios e das comunidades é, em última instância, proteger os próprios mercados e operações das empresas

O custo da inação e o potencial de geração de valor da adaptação são conhecidos. O Fórum Econômico Mundial estima que, sem ação urgente, o PIB global pode cair até 22% nos próximos 75 anos em decorrência das mudanças climáticas.1 O World Resources Institute calcula que cada dólar investido em adaptação pode gerar até US$ 10 de retorno.2 Mesmo assim, o avanço nessa agenda permanece lento. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta que a lacuna anual de financiamento para a adaptação em países de baixa e média renda chega a US$ 284 bilhões – valor 12 vezes maior do que o volume atual de recursos.3 Um relatório do banco J.P. Morgan registra que, quando as empresas investem em adaptação, tendem a concentrar esforços em proteger suas próprias operações. Com isso, aumenta o risco de se transformarem em “fortalezas solitárias”: preparadas internamente, mas paralisadas diante de territórios devastados ao redor.4 O investimento social das empresas pode ajudar a reduzir esse risco ao ampliar a proteção para além dos muros corporativos e fortalecer a resiliência dos territórios que sustentam suas atividades.

Colaborações e valor compartilhado

Competências privadas podem ser a chave para a cocriação de soluções estruturantes de interesse público, em benefício das pessoas e dos negócios. A ideia de valor compartilhado5 defende que a integração das estratégias de negócio à superação de desafios sociais gera oportunidades de inovação, vantagens competitivas e desenvolvimento territorial, substituindo práticas socioambientais meramente compensatórias por uma efetiva integração de incentivos empresariais às necessidades e capacidades de governos e comunidades locais.

Há exemplos dessa abordagem em grandes empresas brasileiras, para além do escopo da adaptação climática. Os programas Coletivo Coca-Cola Jovem e Natura Amazônia atuam em inclusão socioeconômica e geração de emprego e renda para obter impactos sociais que beneficiam as operações dessas empresas em variáveis como vendas, retenção de talentos, estabilidade na cadeia de suprimentos e acesso a insumos estratégicos. 

Na agenda climática, a literatura internacional documenta a relevância das expertises da responsabilidade social corporativa para a gestão de riscos associados a desastres. A capilaridade das empresas nos territórios facilita a identificação rápida das necessidades locais e a mobilização de recursos escassos, suprindo lacunas do Estado e contribuindo para uma recuperação mais ágil das áreas atingidas.6

No Brasil, contudo, a agenda climática segue tímida nos braços sociais das empresas. A Pesquisa Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC) 2025, realizada pela Comunitas junto a mais de 20 grupos empresariais que somaram R$ 6,2 bilhões em investimento social em 2024, constatou que apenas 15% deles investem em ações de adaptação climática. O enfrentamento das emergências climáticas está no radar das empresas, mas com a perspectiva de apoio humanitário e emergencial. A participação nessa frente atingiu taxa próxima a 100% após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.

De ações pontuais à transformação estrutural

Gerar valor compartilhado implica abandonar a lógica reativa e adotar uma atuação preventiva e orientada à adaptação. Com isso em mente, a Comunitas desenvolveu o guia Enfrentamento às emergências climáticas: estratégias de colaboração público e privada, que identifica oportunidades para que governos, empresas e sociedade civil colaborem entre si para o desenvolvimento de soluções estruturantes. A partir de experiências reais, dados e percepções de líderes públicos e privados, propomos possibilidades de colaboração conforme uma abordagem cíclica que considera todo o escopo da crise, passando por ações de prevenção de desastres, preparação para redução dos impactos, resposta humanitária pós-desastre, recuperação de serviços essenciais e medidas de adaptação.

Propomos que os arranjos colaborativos intersetoriais sejam estruturados a partir da política pública, de modo a aproveitar sua capacidade de ganhar escala. Nesse modelo, as ações das empresas se dão pelo investimento social, que complementa os demais esforços privados ao mobilizar recursos filantrópicos para fortalecer tanto a ação pública como a comunitária, gerando valor compartilhado para as pessoas e para o ambiente de negócios.

No campo da adaptação climática, a elaboração de diagnósticos e de planos de ação é uma responsabilidade pública. Esta pode ser fortalecida por programas de investimento social que capacitem lideranças governamentais, fortaleçam organizações de base comunitária ou funcionem como capital catalítico para viabilizar negócios e soluções inovadoras, como as Soluções Baseadas na Natureza (SBNs). Esses recursos podem ser direcionados a territórios específicos ou alocados de forma mais flexível em regiões particularmente vulneráveis aos impactos climáticos. Empresas com menor exposição a riscos locais também podem contribuir, por meio da mobilização de recursos filantrópicos para apoiar organizações que fazem advocacy e incidência política e financiar levantamentos de dados, e aplicando critérios de vulnerabilidade climática na seleção dos beneficiários de suas iniciativas de educação, cultura, inclusão produtiva e outras áreas tradicionais da filantropia corporativa. Nesse contexto, temas como “educação resiliente” vêm ganhando força, como demonstram iniciativas da B3 Social e do Todos Pela Educação voltadas a mitigar a interrupção das aulas em situações de desastre.

Há algumas experiências em curso nesse sentido. A iniciativa Ação Climática, desenvolvida pelo Instituto Votorantim em parceria com a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) e o Instituto Itaúsa e lançada em 2023, reúne produção de dados, ferramentas de diagnóstico das capacidades estatais e apoio à gestão pública em territórios prioritários, com o objetivo de fortalecer as competências institucionais locais de gestão de riscos e de elaboração de planos de ação. Um dos potenciais dessa abordagem é auxiliar municípios tanto na formulação de políticas públicas como na captação de recursos – como os previstos no Plano Clima, guia das ações do Brasil de enfrentamento das mudanças climáticas até 2035 – para viabilizar projetos que costumam exigir grandes investimentos em infraestrutura.

Outro exemplo é o da Fundação Grupo Boticário, que atua na adaptação climática por meio da conservação de ecossistemas naturais, da proteção de mananciais e zonas costeiras e do fomento a negócios de impacto e SBNs. A plataforma Viva Água, desenvolvida em parceria com uma rede de cerca de 30 organizações, concentra esforços na adaptação de bacias hidrográficas estratégicas. Na baía de Guanabara, a iniciativa articula restauração ecológica, proteção de nascentes e mapeamento de riscos climáticos. De acordo com a fundação, o projeto já ampliou a proteção de 150 mil hectares, impulsionou 50 empreendimentos locais e beneficiou mais de 11 milhões de pessoas.

Esses exemplos evidenciam possibilidades para as empresas direcionarem seu capital filantrópico e institucional à construção de soluções adaptativas alinhadas às necessidades dos territórios. O investimento social pode desempenhar um papel decisivo no fortalecimento de comunidades vulnerabilizadas e no preenchimento de lacunas estatais, sobretudo em contextos de restrição orçamentária. Arranjos colaborativos entre empresas, governos e sociedade civil reúnem metodologias, capacidades técnicas e modelos de governança compartilhada com alto potencial de replicação e impacto em escala. Avançar nessa agenda exige reconhecer que investir na adaptação dos territórios e das comunidades é, em última instância, proteger os próprios mercados e operações das empresas.

Notas

1 World Economic Forum, The Cost of Inaction: A CEO Guide to Navigating Climate Risk, 11 dez. 2024.

2 Carter Brandon et al., Strengthening the investment case for climate adaptation: A triple dividend approach, World Resources Institute, 29 maio 2025.

3 United Nations Environment Programme, Adaptation Gap Report 2025: Running on Empty. Out. 2025.

4 J.P. Morgan. Unlocking resilience through climate adaptation. J.P. Morgan Insights, 2024.

5 Michael E. Porter; Mark R. Kramer, “Creating Shared Value”, Harvard Business Review, jan./fev. 2011.

6 Luis Ballesteros et al., “Masters of Disasters? An empirical analysis of how societies benefit from corporate disaster aid”, Academy of Management Journal, v. 60, n. 5, 27 jan. 2017.

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