O investimento de impacto não existe

Existe investimento filantrópico e existe investimento comercial, não há nada além disso
Patpitchaya / Shutterstock

Às vezes, uma consulta banal feita a uma ferramenta de inteligência artificial (IA) produz algo que se parece mais com uma paródia. Outro dia, pedi ao Claude que me desse a definição mais recente de “investimento de impacto”, e ele me serviu esta pérola:

“Há um debate em curso em 2024 sobre se a definição deveria evoluir para além da intencionalidade, passando a enfatizar a mudança no mundo real e a adicionalidade do capital.”

A conclusão dessa discussão foi basicamente: “não”. E a razão, cada vez mais evidente, é que a “mudança no mundo real” muitas vezes exige algo abaixo das taxas de retorno de mercado. Sou velho o suficiente para me lembrar dos dias empolgantes em que o investimento de impacto falava sobre “capital paciente”, finanças concessionais e talvez – pasme – sobre tentar ser responsável pelos impactos gerados. Hoje, o que temos é “intencionalidade”.

E, às vezes, nem isso. Qualquer pessoa que trabalha na África Subsaariana tem testemunhado a diminuição constante do capital que poderia se enquadrar até mesmo na definição mais generosa de investimento de impacto. Há cada vez menos agentes atuando, investindo quantias cada vez menores e tentando mitigar riscos com processos de devida diligência cada vez mais onerosos. Diante dos cortes dramáticos em recursos para a assistência humanitária internacional, precisamos mais do que nunca de soluções baseadas no mercado, e este é um momento realmente ruim para o investimento de impacto estar falhando conosco.

Felizmente, tenho uma solução para a miríade de decepções do investimento de impacto: acabar com ele.

O problema fundamental é que o investimento de impacto não é nem uma coisa nem outra. Filantropos olham para os retornos que os investidores de impacto buscam e acham que eles são gananciosos. Investidores olham para os acordos concessionais necessários para promover “mudança no mundo real” e acham que eles são tolos. Financiadores que fazem questão de assumir riscos e ser generosos em suas doações passam, de repente, a agir como avaliadores frios, avessos ao risco e excessivamente detalhistas quando analisam empresas com fins lucrativos de alto impacto. Ninguém fica satisfeito.

O investimento de impacto deveria ocupar um espaço entre a filantropia e o investimento comercial. Intenções sem concessões deixaram esse espaço praticamente vazio. Isso sufoca uma inovação extremamente necessária em países pobres, porque as mesmas coisas que os tornam pobres são as que dificultam iniciar e expandir negócios nesses contextos. Isso não vai acontecer sem finanças concessionais. “Concessional” significa aceitar uma perda no retorno esperado porque você leva o impacto a sério. Isso significa empréstimos baratos, posições de capital próprio arriscadas em termos generosos, sem expectativa de retornos mais altos, e até mesmo doações diretas.

Essa perda que você aceita em nome do impacto tem um nome. É “filantropia”. Ela assume uma forma diferente da doação tradicional a organizações sem fins lucrativos, mas continua sendo filantropia.

Então, ficamos apenas com filantropia e investimento comercial. Investidores filantrópicos podem ser – e se sentir – generosos, e investidores comerciais podem se concentrar em maximizar lucros. Startups em mercados difíceis recebem financiamento, e investidores comerciais podem entrar quando os riscos já tiverem sido reduzidos. Investidores comerciais podem exaltar suas intenções sem precisar se preocupar com adicionalidade (não que alguma vez tenham se preocupado muito com isso). Filantropos têm a chance de gerar impacto, reciclar seu dinheiro e, ocasionalmente, obter algum retorno. Todo mundo sai ganhando.

Na Mulago, somos obcecados pela ideia de impacto exponencial ao longo do tempo e, por isso, fomos ajustando nossa forma de financiar empresas com fins lucrativos. Funciona assim:

  • Na maioria dos casos, a maneira pela qual uma ideia de negócio se torna exponencial – ou seja, causa um impacto significativo em um grande problema – é quando muitas empresas passam a adotá-la.
  • Isso significa que a ideia de negócio precisa ser atrativamente lucrativa, porque quem gostaria de adotar uma ideia que não é? Sustentável não é o mesmo que ser capaz de ganhar escala.
  • O problema é que muitas empresas que atendem populações pobres acabam migrando para mercados de maior renda ou se afastando de sua missão original em busca de lucro. 
  • Manter-se no mercado-alvo e fiel à missão exige que lucro e impacto estejam alinhados de forma indissociável. Infelizmente, isso não é comum.
  • Para startups, esse alinhamento robusto é, no início, um julgamento antecipado – ainda não há evidências concretas.
  • Mas, quando você encontra um negócio que tem impacto substancial e potencial de lucro, e consegue demonstrar de forma consistente que ambos estão inextricavelmente ligados, então você tem em mãos uma joia rara. Nesse caso, é preciso fazer tudo o que for possível para levar esse negócio ao ponto em que ele se torne investível do ponto de vista comercial.

Aqui vai um exemplo desse tipo de alinhamento: a Hello Tractor criou o “Uber dos tratores” na África Ocidental e Oriental. Sua plataforma permite que proprietários de tratores se conectem a agricultores que precisam de serviços de mecanização. O mercado-alvo da Hello Tractor é composto por pequenas propriedades e pequenos tratores, já que a grande maioria dos agricultores da África Subsaariana possui apenas alguns hectares (e tratores grandes e caros não fazem sentido nesse contexto). A Hello Tractor só ganha dinheiro se os donos de pequenos tratores e os pequenos agricultores ganharem dinheiro – não existe um mercado de maior renda para o qual migrar. Por causa desse alinhamento, e porque estamos empenhados em avançar a mecanização das fazendas africanas, concedemos à Hello Tractor US$ 200 mil [R$ 1 milhão] em doações em estágio inicial. Assim que fez sentido, fornecemos mais US$ 300 mil [R$ 1,6 milhão] em dívida de baixo custo. Desde que os conhecemos, eles passaram de zero para 2,5 milhões de agricultores atendidos e estão nos pagando exatamente dentro do cronograma.

Outro exemplo: a Pula é uma empresa no Quênia que oferece seguros contra riscos climáticos e pragas para pequenos agricultores. Eles ajudam seus clientes – empresas de sementes e fertilizantes, ONGs, instituições financeiras e órgãos governamentais – a desenhar e oferecer produtos de seguro que são combinados com sementes, fertilizantes e crédito rural. A Pula reforça suas chances de sucesso ao fornecer aos agricultores orientações personalizadas, via telefone celular, sobre como alcançar maiores produtividades e rendas. Como a propriedade agrícola mediana na África Subsaariana tem cerca de um hectare, os pequenos agricultores representam o único mercado significativo para seguros agrícolas. Ajudamos a Pula a iniciar suas operações em 2012 com uma doação de US$ 50 mil [R$ 268 mil]. Em 2018, investimos US$ 300 mil [R$ 1,6 milhão] em dívida conversível, que acabou sendo convertida em participação acionária. Hoje, a Pula atende cinco milhões de agricultores, e nossa participação acionária chegou a valer seis vezes o valor investido. Resgatamos US$ 400 mil [R$ 2,1 milhões] e ainda mantemos 2% da empresa (às vezes, a paciência realmente compensa).

Para alcançar uma escala que realmente importa, empresas que melhoram a vida das populações pobres ou protegem o meio ambiente precisam chegar a um ponto em que consigam financiar seu crescimento por conta própria ou acessar capital comercial. O papel do investimento filantrópico é levá-las até esse estágio. E acontece que, ao fazer filantropia, ainda é possível obter benefícios fiscais enquanto se utilizam diferentes formas de capital, adequadas ao estágio e à estratégia de cada empresa. Nos Estados Unidos, essas formas se enquadram na categoria de Investimentos Relacionados a Programas (PRIs, na sigla em inglês), uma classificação disponível para organizações que conseguem apresentar um caso crível de impacto social.

Já consideramos e/ou testamos diversas abordagens de PRI. Estas são as que usamos:

Doações (grants). Algumas empresas possuem uma organização sem fins lucrativos associada que pode receber doações tradicionais. Não sou muito fã desse modelo, porque estruturas híbridas costumam ser complexas demais e não ganham escala de forma satisfatória. Como fundação, fazemos bastante uso dos Expenditure Responsibility Grants (ERGs, doações com responsabilidade de execução na tradução livre). Com os ERGs, você basicamente paga para que a empresa execute um conjunto de atividades que é, ao mesmo tempo, do interesse da própria empresa e do impacto social de forma mais ampla. Os ERGs são relativamente simples de implementar e, como estamos mais interessados em velocidade e crescimento do que em retornos financeiros, muitas vezes esse é o nosso instrumento de primeira escolha.

Dívida barata. Aqui existe o potencial de reciclar o dinheiro investido, descontando a erosão do capital causada por juros baixos ao longo do tempo e o risco mais elevado inerente a qualquer dívida nesses mercados. É uma ferramenta ótima e simples. Em algumas ocasiões, nós e outros investidores acabamos nos metendo em problemas por termos concedido dívida em excesso a uma empresa, o que pode resultar em um balanço desequilibrado e afastar futuros investidores em participação acionária. A dívida conversível – dívida que pode ser transformada em participação societária mais adiante – pode ser uma boa forma de atender às necessidades da empresa quando ela, e você, querem manter opções em aberto.

Equity generoso. Isso significa comprar uma parte da empresa, seja dentro de uma rodada estruturada, seja em uma transação separada. Descobrimos que o equity convencional envolve muito mais complicações do que doações ou empréstimos e, como somos uma equipe pequena, preferimos evitá-lo sempre que possível. Quando nos envolvemos em operações de equity, pressionamos bastante por condições generosas para os fundadores, que assumem todos os riscos habituais de uma startup, além dos riscos inerentes a mercados difíceis. Avaliações iniciais são, em grande parte, fantasia, e queremos manter as coisas simples, por isso, fazemos a maior parte dos nossos investimentos em equity por meio da modalidade de Acordo Simples para Participação Acionária Futura (SAFE, na sigla em inglês). Essa é a forma mais simples e, muitas vezes, mais racional de colocar dinheiro em estágio inicial. Basicamente, você concorda que suas ações serão avaliadas da mesma forma que as demais em uma rodada futura de equity. Essa modalidade de investimento, em grande medida, substituiu a dívida conversível em nosso conjunto de ferramentas.

De modo geral, o investimento filantrópico é mais fácil do que imaginávamos. Tentamos ou consideramos outras abordagens, como títulos perpétuos (uma ideia interessante, mas não conseguimos atrair outros investidores), acordos de participação em receitas (idem), doações reembolsáveis (algo meio contraditório e, além disso, muitos investidores acabam tratando isso como dívida) e garantias de empréstimo (ocasionalmente úteis). Evidentemente, também participamos de algumas rodadas de equity, mas, ao longo do tempo, o equity acaba se mostrando bastante trabalhoso. Além disso, um grande problema em muitas rodadas é a ausência de um investidor líder, e nem nós, nem a maioria de nossos colegas da filantropia, estamos estruturados para desempenhar esse papel.

Combinar a concessão tradicional de doações com o investimento filantrópico também é algo prazeroso. O investimento filantrópico leva você a um universo totalmente novo de ideias e pessoas interessantes, além de abrir novas oportunidades de impacto em escala (especialmente nesse período pós-cortes de recursos internacionais). Adoramos a troca de ideias entre as organizações sem fins lucrativos e as empresas com fins lucrativos do nosso portfólio, e tratamos ambas da mesma forma. Também não é algo necessariamente ruim que empresas com modelos de negócio ruins ou execução fraca acabem morrendo e desaparecendo, diferentemente de ONGs fracassadas, que podem vagar por muito tempo como zumbis ineficazes.

Espero que muitos financiadores filantrópicos passem a apoiar empresas com fins lucrativos de alto impacto. Mas também espero que aqueles que se autodenominam investidores de impacto usem seus talentos consideráveis para migrar para o investimento filantrópico: não deve ser nada agradável ficar aglomerado na extremidade do espectro de retornos que busca taxas de mercado sob o rótulo da “intencionalidade”. A Global Impact Investing Network afirma que existem US$ 1,5 trilhão em capital de investimento de impacto por aí. Não faço ideia do que isso realmente significa, mas ficaríamos felizes em ver ao menos uma pequena parcela desse montante sendo direcionada para “mudança no mundo real” (ao menos como ponto de partida), junto com uma parte substancial do que hoje vai para a concessão tradicional de doações. O financiamento filantrópico de empresas com fins lucrativos oferece aos filantropos um caminho totalmente novo para gerar impacto e dá às pessoas anteriormente conhecidas como investidores de impacto a chance de se banhar no calor reconfortante da verdadeira adicionalidade.

Então, pode entrar – a água está ótima.

*Texto publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “There Is No Such Thing as Impact Investing”.