Filantropia guiada por amor e esperança

Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2025 destaca importância da escuta e da confiança na atuação filantrópica
Letícia Born (Co-Impact), Ana Fontes (Rede Mulher Empreendedora), Jessie Krafft (CAF America) e Wesley Matheus (Ministério do Planejamento e Orçamento) em um dos painéis do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2025

O Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais 2025 chamou o campo à sua raiz: o amor pela humanidade. É esse o significado da palavra “filantropia”, como lembrou o filósofo e educador estadunidense David Kyuman Kim ao público que ocupou a Casa Melhoramentos, em São Paulo, no dia 1o de outubro, e ao que acompanhou a transmissão online.

Philia anthropos: ‘amor pela humanidade’. Não é ‘dinheiro para a humanidade’ ou ‘financiamento para a humanidade’”, ressaltou Kim. “A pergunta que eu faço a vocês, especialmente quando pensamos em esperança em ação e no que nos motiva a fazer esse trabalho, é: qual é a qualidade do seu amor pela humanidade?” 

Compaixão e generosidade podem ser elementos definidores desse amor, disse Kim, assim como a misericórdia, entendida como “direcionar o coração àqueles que sofrem”. “A vocação mais elevada da filantropia acontece quando direcionamos nossos corações ao sofrimento. Não quando esperamos que o sofrimento venha até nós pedir ajuda, mas quando nós vamos até ele”, disse.

O tema da 14a edição do Fórum foi “Esperançar”, termo cunhado pelo educador brasileiro Paulo Freire. “Esperançar é a esperança que não fica esperando, mas toma a atitude hoje e vive o presente como um presente”, definiu Daniel Munduruku, escritor e diretor-presidente do Instituto Uka – Casa dos Saberes Ancestrais, na palestra que abriu o evento.

Reflexões sobre a esperança em ato e o amor pela humanidade no qual se baseia (ou deveria se basear) a filantropia atravessaram toda a programação do evento. Painelistas exploraram como diferentes dimensões da filantropia se conectam a esses conceitos, desde o fundamento ancestral da esperança, na fala de Munduruku, aos debates sobre suas aplicações práticas no investimento filantrópico de empresas, famílias e fundações.

“Todos podemos fazer mais”

No painel “Reverberando impactos: a geração de valor na cadeia filantrópica”, Aron Zylberman, diretor-executivo do Instituto Cyrela, lembrou que na origem do lema “Ordem e progresso” da bandeira brasileira estava o amor. A frase original do filósofo positivista francês Augusto Comte, que inspirou a expressão incluída na bandeira, destaca “o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”. 

“Cuidar do outro é fundamental. Está faltando amor na sociedade, nas empresas, nas nossas relações; amor nesse sentido de cuidar do próximo”, disse Zylberman. Segundo ele, o Instituto Cyrela busca aliar impacto econômico e social nos territórios em que a construtora que dá nome à entidade constrói edifícios para vender. O instituto recebe como orçamento 1% do lucro líquido da empresa. “É 1% no mínimo. Quero deixar registrado que eu acho 1% pouco. Vivo em campanha para que esse percentual aumente. Minha meta é convencer a administração da Cyrela a passar para 2,5%”, disse.

A filantropia corporativa deve trazer resultados para a sociedade e comunicar aos acionistas como esses resultados beneficiam a empresa, argumentou Zylberman. Para ele, se os projetos filantrópicos não estiverem conectados com o negócio, o financiamento perde sentido. 

“A filantropia empresarial feita desinteressadamente vai morrer. É preciso associar interesse social e interesse econômico, e isso é sempre possível”, afirmou.

Zylberman criticou o que chamou de “fetichismo quantitativo”: “a obsessão pela medição do impacto, como se não tivéssemos certeza de que algumas ações vão trazer benefício para muitas pessoas”. Ele destacou que, embora nem todo impacto social possa ser mensurado, isso não exime as empresas e instituições filantrópicas da responsabilidade na aplicação do recurso. Mas, segundo Zylberman, na maior parte dos casos, “o dilema sobre o que fazer com a grana da empresa não existe”.

“Há uma hipocrisia gigantesca no mundo empresarial em relação à sua real responsabilidade de honrar o amor que foi extraído da bandeira. Há muito egoísmo tanto no CPF como no CNPJ. Todos nós podemos fazer muito mais”, disse.

Espaço para o erro

O painel “Esperançar e não esperar: monitoramento para a construção de pontes” discutiu como práticas de monitoramento e avaliação podem revelar se, e de que maneira, as transformações socioambientais pelas quais trabalham as organizações apoiadas pela filantropia estão se concretizando. 

Jessie Krafft, presidente e CEO da CAF America, instituição filantrópica que auxilia empresas, fundações e indivíduos a realizar doações, destacou que a filantropia baseada em confiança tem sido tema de conversas no cenário global. Essa abordagem prioriza a construção de parcerias mais equitativas e a redução dos desequilíbrios de poder entre financiadores e organizações da sociedade civil. Idealmente, nesse modelo, doadores deixam de ditar a aplicação dos investimentos e passam a confiar nas lideranças das organizações para alocar os recursos onde são mais necessários. 

“Acho que as pessoas estão mais falando do que agindo dessa forma, mas a conversa está acontecendo e caminhando na direção correta”, disse Krafft. “Esse tipo de apoio precisa de uma mudança de mentalidade dos doadores e nem todos conseguem trabalhar com essa abordagem, especialmente quando pensamos no ambiente corporativo e de doadores institucionais, que têm conselhos, acionistas e outras pessoas a quem precisam responder sobre o uso dos recursos.”

Letícia Born, diretora associada global e para a América Latina na Co-Impact, fundo filantrópico global colaborativo, acredita que há uma “falsa dicotomia entre confiança e medição de resultados”. “É como se uma entidade filantrópica tivesse que escolher entre abrir mão de seu controle ou medir resultados”, afirmou.

Em sua experiência, quando o financiador parte com “uma predisposição de escuta e curiosidade pelo problema que a organização quer resolver, e realmente dá espaço e recursos para que essa organização possa se manter no seu propósito, ela tende a melhorar sua capacidade de demonstração de resultados”. 

As organizações sociais estão em uma posição melhor do que as fundações filantrópicas para desenvolver suas estratégias, argumentou Born, pois conhecem o contexto local e sabem quais alianças precisam ser feitas. Por isso, é importante que tenham flexibilidade para desenhar seu processo de monitoramento e avaliação. 

“Isso não significa deixá-las à deriva, completamente soltas para desenvolver seu processo”, ponderou. “Oferecemos uma infraestrutura de apoio, na forma de comunidades de prática, encontros frequentes, guias e conexões com outras organizações que estão em desafios similares. Oferecer essa infraestrutura é uma decisão estratégica nossa. Isso requer tempo, equipe dedicada e recursos.”

Wesley Matheus, secretário de monitoramento e avaliação de políticas públicas e assuntos econômicos do Ministério do Planejamento e Orçamento, que foi o moderador do painel, destacou que as práticas de monitoramento e avaliação devem deixar um espaço seguro para o erro. Não necessariamente se chegará de imediato à solução de problemas complexos e sistêmicos, que exigem parcerias para sua resolução, lembrou o secretário. É preciso criar um ambiente seguro diante do risco de erro e da possibilidade de perda de financiamento, à medida que se monitora e se verifica se algo está apresentando ou não os resultados imaginados, afirmou.

“É fundamental gerar conforto e segurança para os gestores do terceiro setor, especialmente diante da conjuntura de redução e restrição de financiamento”, disse Matheus. “Quem já trabalha no limite não pode ter nesse processo mais um fator de estresse, mas sim um fator de aprendizagem e colaboração.”

Leia também: Os temas do Fórum Brasileiro de Filantropos e Investidores Sociais na SSIR Brasil

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