As políticas de conservação patrimonial do governo estadunidense deixaram, historicamente, as comunidades não brancas vulneráveis à falta de investimento e invisibilizaram as suas contribuições para a formação e o desenvolvimento do país. Das mais de 96 mil propriedades incluídas no Registro Nacional de Lugares Históricos, menos de 10% “refletem a diversidade populacional do país”, segundo o Serviço de Parques Nacionais, agência governamental responsável pela lista. Menos de 1% dos locais registrados está associado a histórias da população latina.
Em reconhecimento à necessidade de uma organização não governamental de âmbito nacional dedicada a preservar lugares, histórias e a herança cultural latina, um grupo de profissionais, advogados e acadêmicos fundou, em 2014, a rede de voluntários Latinos in Heritage Conservation (LHC). Desde então, essa rede se tornou a principal organização sem fins lucrativos dedicada à preservação do patrimônio histórico latino no país. Sua missão é construir um movimento que afirme a herança latina por meio da educação, da conservação e do desenvolvimento de lideranças.
“Estávamos tentando encaixar nossa história e nossos lugares em programas que jamais foram concebidos levando em conta nossa história e cultura singulares”, afirma Laura Dominguez, cofundadora e membro do conselho da LHC. Atualmente pesquisadora de pós-doutorado na Universidade do Sul da Califórnia, Dominguez já atuou no meio acadêmico e em organizações regionais de preservação histórica. Segundo ela, ao longo da carreira testemunhou falhas nos programas existentes, que muitas vezes marginalizam os profissionais latinos.
Agências federais, responsáveis por definir os padrões do campo, têm se esforçado nos últimos anos para enfrentar essas lacunas. Em 2013, o Serviço de Parques Nacionais publicou um levantamento de locais de patrimônio latino intitulado American Latino Heritage Theme Study, com o objetivo de fortalecer a representação das histórias latinas em parques nacionais. Em 2022, o Conselho Consultivo de Preservação Histórica criou um Plano de Ação pela Equidade, que reconheceu as disparidades existentes na preservação em nível nacional e se comprometeu a desenvolver um programa mais inclusivo.
Desde a posse do presidente Donald Trump, em janeiro de 2025, o poder executivo vem revogando esses esforços. O atual governo tem mirado nas políticas federais de diversidade, equidade e inclusão, e emitiu decretos para alterar a interpretação histórica em parques e museus nacionais a fim de promover o embranquecimento do passado do país. As mudanças promovidas pelo governo estão “desmantelando progressos significativos e reduzindo a visibilidade [das populações não brancas]”, afirmou Sehila Mota Casper, diretora-executiva da LHC, em um comunicado de imprensa.
Dominguez diz que as vozes de pessoas não brancas já eram silenciadas nas iniciativas de preservação histórica mesmo antes dos decretos do governo Trump. Ela conta que, quando estavam criando a LHC, os cofundadores pensaram: “Como seria se nós, desde o início, reimaginássemos a preservação histórica tendo os valores, a história e a cultura dos povos latinos em seu cerne?”.
Desde sua criação em 2014, a LHC passou a organizar eventos anuais que reúnem profissionais da área de preservação comprometidos com a diversificação do setor a fim de trocar informações sobre melhores práticas, apresentar trabalhos para novos públicos e manter contato com potenciais financiadores e representantes do Serviço de Parques Nacionais e do Conselho Consultivo de Preservação Histórica. A LHC também se envolveu em iniciativas de defesa de locais de patrimônio latino, incluindo o envio de sugestões e cartas de apoio às indicações dos Marcos Históricos Nacionais. O grupo foi crucial para o sucesso da nomeação do Chicano Park, o coração do bairro mexicano-americano mais antigo da cidade de San Diego, no estado da Califórnia, e do McDonnell Hall, em San José, também na Califórnia, local de origem das atividades comunitárias do líder trabalhista César Chávez. Em 2016, ambos obtiveram status de marcos nacionais.
Em diversas reuniões de planejamento estratégico realizadas entre 2014 e 2019, conta Dominguez, líderes da LHC inquiriram outras organizações de preservação histórica para “entender o panorama do ponto de vista de uma ONG” e definiram que seus objetivos seriam mais facilmente alcançados com acesso a financiamentos obtidos por meio de subsídios. Assim, a LHC se constituiu como uma empresa sem fins lucrativos isenta de impostos e, em janeiro de 2020, criou um conselho de diretores. Então, a LHC recebeu uma subvenção de US$ 750 mil da Fundação Mellon. O subsídio permitiu que a LHC contratasse Casper, uma das cofundadoras do grupo, como primeira diretora-executiva e desenvolvesse um de seus principais programas: o projeto Abuelas.
O registro do povo
A ideia de um projeto centrado em narrativas para servir como repositório de lugares históricos latinos em todo o país surgiu na primeira reunião da LHC, em 2015. Ali, os participantes encarregados de reimaginar a preservação histórica a partir de uma perspectiva latina discutiram “a intimidade e o legado da mesa da cozinha, onde mulheres se reúnem para tomar café ou enquanto trabalham e cozinham, compartilhando histórias”, explica Dominguez. O projeto online Abuelas reconhece a importância da narrativa para as comunidades latinas e o papel das mulheres como guardiãs da herança latina (Abuelas significa “avós”, em espanhol).
O financiamento da Fundação Mellon permitiu que a LHC desenvolvesse um plano estratégico para o projeto Abuelas e para um piloto, focado no Texas e lançado em janeiro de 2024. O projeto, agora de alcance nacional, combina mapas, dados de sistemas de informação geoespacial, pesquisas de arquivos e histórias orais com um conteúdo interativo usando a plataforma ArcGIS, desenvolvida pela empresa Esri, e seu aplicativo StoryMaps. O primeiro StoryMaps do projeto apresentou cemitérios mexicanos vulneráveis no Texas e as experiências de trabalhadores agrícolas migrantes que foram para os Estados Unidos como parte do programa Bracero, financiado pelo governo, de 1941 a 1964.
Dominguez afirma que a necessidade de um formato online se concretizou durante os primeiros meses da pandemia de covid-19, quando a LHC dava seus primeiros passos como organização sem fins lucrativos. O formato também permite que a LHC identifique lugares extintos ou alterados significativamente em virtude de demolição ou gentrificação, problemas que impediram a inclusão de lugares históricos latinos no Registro Nacional, que possui critérios rigorosos de avaliação no tocante à integridade de propriedades históricas.
Os locais citados no site do projeto Abuelas provêm de pesquisadores da organização, bem como de sugestões recebidas por meio de questionários online. Nos bastidores, essas informações são compiladas para criar uma lista de lugares históricos até então jamais catalogados, algo que poderá ser usado em pesquisas futuras sobre as histórias latinas nos Estados Unidos e para ajudar a direcionar esforços de defesa de preservação histórica. Segundo Casper, o projeto Abuelas serve como um “registro do povo”, oferecendo uma alternativa de base e centrada nos latinos para o Registro Nacional.
Durante o processo de desenvolvimento do projeto Abuelas, a LHC transformou suas reuniões iniciais em uma convenção nacional bienal intitulada Congreso. Esses eventos aconteceram em Denver, em 2022, e em San Diego, em 2024, promovendo, ao longo de vários dias, fóruns nacionais para ampliar iniciativas de preservação regional, enfrentar desafios e seguir moldando a visão nacional da LHC.
Os sucessos anteriores da organização a ajudaram a conseguir apoio extra, inclusive do Fundo Nacional para a Preservação Histórica e do Fundo Nacional para as Humanidades. Em 2024, a LHC recebeu uma segunda subvenção da Fundação Mellon, desta vez no valor de US$ 4 milhões, para continuar apoiando as operações da organização, ampliar o projeto Abuelas e criar um programa de repasses de recursos destinado a cuidar de locais de patrimônio latino.
Desenvolver a capacidade comunitária
O programa de subsídios viabilizado pela segunda doação da Fundação Mellon à LHC é o primeiro do país dedicado a financiar projetos de preservação do patrimônio latino. Sua primeira rodada de inscrições se encerrou em fevereiro de 2025. A iniciativa concederá verbas que variam de US$ 5 mil a US$ 100 mil, a partir de um fundo inicial de US$ 600 mil, com o objetivo de fortalecer organizações comunitárias e entidades sem fins lucrativos de base que atuam na proteção e valorização das histórias latinas em suas comunidades.
A LHC também possui outras iniciativas que buscam democratizar a preservação histórica. Um exemplo é o Latinx Preservation Toolkit (Ferramentas para a preservação latina, em tradução livre), disponível para download. Esse recurso oferece orientação sobre os processos de designação histórica, em âmbitos regionais e federais, com o objetivo de capacitar comunidades latinas com o conhecimento e a orientação necessários para promover esforços de preservação.
Para levar seu trabalho adiante e formar a próxima geração de profissionais dedicados ao patrimônio latino, a LHC também oferece bolsas a estudantes de pós-graduação. Desde o início do programa, bolsistas já contribuíram para o desenvolvimento do projeto Abuelas e do Latinx Preservation Toolkit.
Casper afirma que esses programas são essenciais para a diversificação do campo de preservação histórica e para promover a missão da LHC de proteger o patrimônio cultural latino. “Tudo o que estamos fazendo é para que possamos capacitar as comunidades a contar suas próprias histórias, proteger seus próprios locais e obter o conhecimento necessário para trabalhar ao lado de profissionais da área que ocupam os espaços de tomada de decisão”, diz. O trabalho passou a ser ainda mais premente à luz dos retrocessos do governo Trump. “Trata-se de defender a precisão histórica, honrar as contribuições de nossos ancestrais e garantir que as futuras gerações herdem a história completa e diversa dos Estados Unidos”, explica Casper.
Para Casper e Dominguez, as atividades da LHC fazem parte da construção de comunidades vibrantes e mais diversas. “Temos muitos exemplos de como pessoas que se unem na tentativa de salvar um lugar tornam-se, muitas vezes, vozes cívicas poderosas”, diz Dominguez. “Estamos tentando fortalecer essa tradição da preservação histórica como um caminho para usar sua voz e amplificá-la em sua comunidade em prol de mudanças positivas, justiça social e mais equidade.”









