Investir em educação gera o maior retorno”, afirmou apropriadamente Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos. Os benefícios econômicos da educação, para indivíduos e nações, são bem conhecidos: melhores oportunidades, maior empregabilidade e renda mais alta.
Mas embora importantes, tais vantagens não esgotam o poder transformador da educação. Quando políticas públicas e pesquisas concentram-se apenas nos retornos financeiros, corre-se o risco de subvalorizar a influência da educação sobre o empoderamento pessoal, a equidade social e o bem-estar coletivo, sobretudo no caso de quem atua fora do mercado formal de trabalho.
Pensemos, por exemplo, em uma dona de casa cujas contribuições à família e à comunidade não possuem valor monetário. A educação tem valor para essa mulher? A resposta é inequívoca: sim. Estudos apontam que a educação fortalece o pensamento crítico, aprimora a tomada de decisão e amplia a confiança. Seu papel na formação de comportamentos relacionados à saúde é particularmente significativo para as mulheres. Para uma dona de casa, esses atributos se traduzem em uma melhor gestão da saúde e da alimentação da família. Além disso, há ampla evidência empírica de que mulheres com maior escolaridade tendem a ter menos filhos.
Pesquisas mostram ainda que maior escolaridade relaciona-se a uma participação cívica maior, como votar, fazer trabalho voluntário e apoiar valores democráticos. Os gastos destinados à educação variam de país para país, mas a Unesco recomenda uma alocação de 4% a 6% do Produto Interno Bruto (PIB). A média mundial é pouco inferior a 4,5% e revela as disparidades de desenvolvimento econômico, de necessidades da população e prioridades do orçamento nacional.
O problema é que o arcabouço tradicional de avaliação de retornos educacionais, centrado sobretudo em métricas econômicas, não captura plenamente o impacto social da educação. Nossa compreensão sobre os retornos do investimento em educação precisa ir além das métricas econômicas convencionais. As evidências indicam que os dividendos da educação extrapolam em muito os resultados no mercado de trabalho, atuando como catalisadores fundamentais da transformação social e da vitalidade democrática.
Formuladores de políticas públicas e pesquisadores devem adotar um arcabouço mais abrangente, que reconheça a educação como bem público, com benefícios sociais de longo alcance. Isso implica superar cálculos simplistas de retorno sobre o investimento e incorporar metodologias capazes de mensurar o papel da educação na formação do pensamento crítico, no engajamento cívico e na coesão social.
O caso da Índia
Para entender melhor esse ponto, consideremos a Índia, que investe cerca de 4,5% do PIB em educação. A dimensão do sistema educacional é imensa: 1,5 milhão de escolas, 252 milhões de alunos e 9,5 milhões de professores. A expectativa média de escolaridade – tempo que um estudante médio permanece no sistema de ensino – é de 12,8 anos. Estimativas do Banco Mundial indicam que cada ano adicional de estudo pode elevar a produtividade em 10%; dados do Unicef sugerem acréscimo de 0,37% no PIB para cada ano extra de escolaridade. Elevar o indicador para 18 anos poderia acrescentar US$ 84 bilhões ao PIB indiano.
Embora essas estatísticas econômicas sejam importantes, não capturam todo o impacto social da educação. Pesquisas precisam avançar sobre dimensões como mudança social, participação cívica e empoderamento democrático.
Tradicionalmente, a educação tem sido vista na Índia como rota para melhores empregos e maiores salários. De fato, estudos apontam que os retornos privados do investimento em educação giram em torno de 6% a 10% e que a escolarização melhora as chances de emprego e o potencial salarial dos jovens indianos. No entanto, evidências recentes dos economistas Ravi Srivastava e Siddharth Dhote revelam desafios emergentes nessa relação. O aumento do desemprego entre graduados, a sobrequalificação generalizada e o crescente descompasso entre as habilidades adquiridas e os empregos disponíveis indicam que problemas estruturais no mercado de trabalho estão subvalorizando os retornos da educação. Essas complexidades exigem que pesquisadores adotem um arcabouço de avaliação mais abrangente.
Nos Estados Unidos, economistas como Daron Acemoglu e Joshua Angrist investigaram os retornos sociais da educação – benefícios que se estendem para além dos ganhos individuais, como maior renda –, que podem se manifestar como maior participação cívica, redução da criminalidade, melhores indicadores de saúde e maior coesão social. A dupla usou variações nos padrões de escolarização com base no trimestre de nascimento e em mudanças nas leis de escolaridade obrigatória para avaliar o impacto da educação sobre os retornos sociais. Sua análise do período de 1960 a 1980 encontrou retornos sociais mínimos (entre –1% e 2%), mas dados posteriores do Censo de 1990 sugeriram retornos sociais mais elevados, de 4% ou mais. Apesar de Acemoglu e Angrist destacarem a importância dos retornos sociais, seus resultados não chegaram a comprovar que a educação sempre produz ganhos cívicos ou sociais consistentes em todos os contextos.
Em artigo publicado em 2021 na revista World Development, os pesquisadores Ying Cui e Pedro Martins apresentaram o primeiro exame sistemático dos retornos sociais da educação. Ao analisar mais de mil estimativas provenientes de 32 estudos realizados em 15 países, investigaram de que modo a educação gera efeitos positivos de transbordamento (como aumento de produtividade e maior engajamento cívico) que beneficiam a sociedade para além do indivíduo. Os resultados indicam que esses efeitos tendem a diminuir à medida que os países se tornam mais desenvolvidos economicamente. Em contrapartida, crescem com níveis mais elevados de educação terciária (ensino superior e cursos técnicos), com maior dispersão educacional (variação no nível de escolaridade da população) e, no âmbito empresarial, com influências positivas que trabalhadores com mais escolaridade podem exercer sobre seus colegas.
Esse tipo de evidência reforça a necessidade de um investimento contínuo em educação – sobretudo no ensino superior – nos países de baixa e média renda. Ao avaliar os retornos dos investimentos educacionais, formuladores de políticas públicas precisam reconhecer que a escolaridade ocorre de forma gradual: em cada nível de ensino são adquiridos tipos específicos de conhecimento, que produzem retornos diferentes conforme o contexto.
Pesquisas demonstram que pessoas com maior nível de escolaridade são mais propensas a se envolver em atividades políticas e votar em eleições. Alguns teóricos sugerem que a atividade política decorre diretamente dos benefícios da educação no incremento da participação. Segundo estudos dos economistas Kevin Milligan, Enrico Moretti e Philip Oreopoulos, a educação pode fortalecer o engajamento político por duas vias: primeiro, ao desenvolver nos indivíduos as habilidades cognitivas e o pensamento crítico necessários para atuar em uma democracia representativa; segundo, ao ampliar sua consciência política, interesse e senso de eficiência, o que fomenta o envolvimento continuado na vida cívica.
Considerando, então, que a educação é vital para a promoção da participação cívica, as políticas públicas deveriam adotar uma abordagem holística que levasse em conta esses fatores adicionais para maximizar os benefícios da educação às sociedades democráticas. No exemplo da Índia, as evidências mostram o valor da educação no fortalecimento do engajamento cívico e da participação democrática. Uma análise das eleições gerais de 2019, conduzida pelo cientista político Oliver Heath, revela uma associação positiva entre taxas de alfabetização por distrito eleitoral e comparecimento às urnas. Distritos eleitorais com índices de alfabetização acima de 80% registraram uma participação cerca de 7 a 8 pontos percentuais maior que aqueles onde a alfabetização era inferior a 60%.
Ainda, dados da Pesquisa de Desenvolvimento Humano da Índia indicam que nos domicílios em que ao menos um membro tem diploma universitário há uma probabilidade 23% maior de que todos os aptos a votar exerçam seu direito de voto. Resultados da Pesquisa Nacional por Amostra da Índia sugerem que o vínculo entre educação e participação eleitoral é mais expressivo em áreas rurais do que nas urbanas: um aumento de 10% nas taxas de alfabetização corresponde a uma elevação de 6% no comparecimento às urnas nas zonas rurais, em comparação com 4% nas áreas urbanas.
Um novo paradigma para o valor educacional
Os benefícios cívicos e sociais da educação ressaltam a necessidade de repensar seu papel nas políticas públicas e na pesquisa. O valor da educação transcende o crescimento econômico e o aumento da renda: ela atua como um bem público que promove a participação cívica, fortalece a confiança nas instituições e estimula a coesão social.
Evidências da Índia mostram que níveis mais altos de escolaridade estão associados a maior comparecimento eleitoral, maior engajamento democrático e taxas superiores de voluntariado. No cenário internacional, o valor social da educação é especialmente elevado em países de baixa e média renda, onde normas cívicas e instituições ainda estão em consolidação. Em contextos de alta renda, o ensino superior desempenha papel fundamental na sustentação do engajamento cívico e no fortalecimento de valores democráticos como pensamento crítico, letramento midiático e tolerância.
Em conjunto, essas evidências posicionam a educação não apenas como instrumento de avanço individual, mas também como motor central do bem-estar coletivo. Formuladores de políticas públicas devem priorizar sistemas educacionais que estimulem o engajamento cívico, como iniciativas de voluntariado comunitário, debates, parlamentos juvenis e simulações eleitorais, ao mesmo tempo que asseguram equidade e oportunidades de aprendizagem ao longo da vida.
Formuladores de políticas públicas precisam de maneiras mais eficazes de mensurar o valor da educação para além de emprego e renda. São necessárias mais pesquisas para entender como a educação gera resultados positivos em diferentes contextos. Estudos longitudinais e o uso de variáveis instrumentais podem ajudar a revelar trajetórias causais. O acompanhamento de indivíduos ao longo do tempo e a comparação entre grupos distintos permitem observar como a educação influencia a vida cívica, a confiança e a participação social. Tais evidências podem orientar o desenho de políticas públicas que reflitam o papel da educação na construção de sociedades mais fortes e vibrantes.
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