Dados com equidade para salvar mais vidas no SUS 

A digitalização da saúde exige simplicidade e uso prático para não aprofundar desigualdades no acesso ao cuidado
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São 7h30 da manhã. A enfermeira do Sistema Único de Saúde (SUS) tenta abrir o sistema de registro de dados dos pacientes, recém-contratado pelo município. Ela quer documentar o atendimento de uma gestante, feito ontem – o registro ficou para hoje porque ontem a internet caiu. 

O computador é lento, o navegador dá erro, as etapas de validação de senha a deixam confusa. Alguém avisa que chegou um paciente. No fim, ela anota os dados em um caderno. O registro só entrará no sistema quando – e se – alguém tiver tempo.

Não é preguiça: é o mundo real. E isso importa. A digitalização da saúde vai significar, cada vez mais, vidas salvas. Mas se parte da população ficar fora do registro digital, a desigualdade no acesso à saúde de qualidade tende a se ampliar.

O Brasil tem uma das maiores bases de dados de saúde do mundo: há cerca de 170 milhões de pessoas cadastradas na Atenção Primária do SUS. Temos capacidade para identificar, no país inteiro, quem precisa fazer exames preventivos com maior urgência. As 20 mortes diárias no Brasil por câncer de colo do útero, segundo o Instituto Nacional de Câncer, são um triste exemplo do mau aproveitamento desse potencial. O número poderia – e deveria – ser zero, pois esse é um raro caso de câncer evitável com vacina e, quando detectado precocemente, curável. Ainda assim, são milhares de mortes por ano. 

O Ministério da Saúde recomenda que mulheres entre 25 e 64 anos façam regularmente o teste preventivo, um exame citopatológico conhecido como Papanicolau, mas a cobertura se encontra muito abaixo do ideal. E, como acontece com quase toda medida preventiva, quem mais precisa dela costuma ser quem menos consegue acessá-la.

Além da exposição ao papilomavírus humano (HPV), há outros fatores de risco conhecidos que aumentam a chance de desenvolver esse tipo de câncer, como tabagismo e imunossupressão. Como existem muitos dados no SUS sobre pacientes com maior risco, é possível personalizar protocolos e lembretes e direcionar mais esforço para essas pessoas. Assim, mais casos seriam identificados e curados, e vidas seriam salvas. Para isso, contudo, precisamos que os dados de todas as pessoas estejam registrados e atualizados, em especial daquelas que dependem exclusivamente do SUS. 

Nossas observações vêm do nosso trabalho na ImpulsoGov, ONG que desenvolve soluções para o SUS em mais de 410 municípios, nos quais a renda média coloca seus habitantes entre os 35% mais pobres do país. São populações de baixa renda atendidas por serviços de saúde com menos recursos e alta rotatividade de profissionais – os territórios com mais desafios.

Ter os dados deve ser simples

O Brasil já construiu uma base para coletar dados de saúde em grande escala. O mais recente Censo das Unidades Básicas de Saúde (UBS) constatou que 94% das 44 mil UBS que participaram do levantamento estão conectadas à internet. Além disso, o governo federal desenvolveu um prontuário eletrônico público e gratuito (PEC), que permite a coleta de dados de forma padronizada em quase todo o país e já é adotado por 87% das UBS, segundo o censo das unidades. 

O Ministério da Saúde também criou incentivos federais financeiros que ajudam a alinhar duas coisas que raramente andam juntas: fazer o cuidado e registrar o cuidado. Funciona assim: a enfermeira do exemplo que abre este texto, ao registrar corretamente uma consulta de pré-natal de uma gestante, garante um pequeno valor financeiro adicional para os próprios profissionais de saúde dos municípios, potencializando o incentivo ao registro correto. 

Todas essas ações foram e são esforços de múltiplas gestões, ao longo de vários anos, e reduziram barreiras importantes de digitalização no SUS. Ainda persistem gargalos, porém. Primeiro, nem todas as informações relevantes são registradas com simplicidade e consistência, inclusive por não serem incentivadas financeiramente pelo governo federal como as demais. Saúde mental é um exemplo: sintomas e condições que afetam milhões de pessoas ainda não são fáceis de registrar em campos estruturados.

Segundo, mesmo quando o dado existe, ele nem sempre volta para o município e para as equipes em formato amigável e acionável. Muitos sistemas foram desenhados para registrar e transmitir informações, não para devolver ao bairro uma resposta simples: quem precisa de qual cuidado agora e por quê. Sem isso, o trabalho se baseia em tentativa, memória e esforço manual. 

Usar os dados deve ser simples

Não basta ter os dados: precisamos usá-los. E usar os dados também precisa ser simples. Uma parte dessa simplicidade é devolver informação em formato acionável para quem cuida. Não apenas indicadores agregados, mas listas claras de “quem precisa do quê agora” – algo que diferentes municípios e iniciativas (incluindo as que acompanhamos na ImpulsoGov) vêm tentando construir a partir do prontuário eletrônico. 

Um exemplo prático é converter registros do PEC em listas nominais atualizadas: por bairro ou equipe, quem está em dia ou em atraso no pré-natal, quem não realizou exames-chave e quais etapas do cuidado estão pendentes. Em vez de alertas genéricos de “baixa cobertura”, a equipe passa a ver nomes e prioridades.

O valor da ferramenta depende menos do software e mais do desenho: a lista precisa ser simples e orientar a ação, por exemplo, distinguindo pessoas em dia e aquelas em atraso. Ao registrar o atendimento no PEC, a lista se atualiza automaticamente, fechando um ciclo contínuo de registrar, priorizar e agir. Dessa maneira, o dado se converte em cuidado no cotidiano.

Embora o PEC tenha evoluído, persistem barreiras de design e uso, sobretudo em contextos com menos infraestrutura e letramento digital – exatamente onde a tecnologia precisaria ser mais tolerante a falhas. E, mesmo quando funciona bem, continua sendo uma estratégia incompleta, pois pressupõe que profissionais consigam localizar, um a um, os cidadãos que estão com riscos e atrasos. Com as tecnologias que temos hoje, é possível ir além: levar informação e lembretes diretamente às pessoas, de forma personalizada e oferecendo um caminho simples para agendar, tirar dúvidas e completar o cuidado. 

Cidadãos protagonistas

“Bom dia, Maria! Já tem mais de três anos o último registro do seu exame preventivo do câncer de colo de útero, uma rotina muito importante para sua saúde. Essa doença é totalmente curável, mas é muito importante identificá-la cedo. O exame é gratuito no SUS, e pode ser feito na UBS que você já conhece, na Rua Alves de Andrade. Clique abaixo para agendar!” 

Diversas prefeituras e organizações estão experimentando o uso de mensagens à população para fins de saúde. A experiência mostra que essas mensagens funcionam melhor quando são “hipercustomizadas”, como o exemplo acima, e enviadas a partir de contas oficiais da Secretaria de Saúde local. Essa iniciativa está em conformidade com a prioridade 4 da Estratégia de Saúde Digital para o Brasil, que tem “o usuário da Saúde Digital como protagonista” de seu próprio cuidado. 

Em diferentes municípios brasileiros, mensagens simples e direcionadas têm mostrado potencial para destravar exames preventivos quando fazem parte de um fluxo completo (identificar quem está em atraso, convidar, facilitar resposta e agendar). No caso do Papanicolau, em um experimento interno realizado entre abril e julho de 2025, após o envio de uma mensagem segmentada para pessoas com exame atrasado em 11 municípios de sete estados, o número de testes realizados no mês seguinte foi quase quatro vezes maior do que no mês anterior. 

O design importa: o que antes era um texto enviado por SMS agora pode ser uma imagem, um vídeo ou um áudio, o que reduz barreiras de letramento. E qualquer uma dessas mensagens pode salvar vidas. Foi o caso de Lídia, moradora de Itapiúna (CE), município parceiro da ImpulsoGov no programa de mensagens customizadas. Em 2025, ela recebeu uma mensagem do programa, realizou o exame, descobriu células pré-cancerígenas, foi operada em Fortaleza e agora está curada e saudável.

Parcerias para o melhor sistema de saúde do mundo

Isso é apenas a ponta do iceberg de possibilidades do SUS quando falamos de saúde digital. Com um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo, um prontuário eletrônico público para coleta e incentivos financeiros para o registro, poucos países – talvez nenhum outro – se encontram tão bem-posicionados para levar saúde preventiva para quem mais precisa. 

Imagine profissionais de saúde que recebem alertas no próprio celular quando uma gestante de alto risco perde uma consulta de pré-natal. Ou uma pessoa com diabetes falta à consulta com sua médica de família e, com um clique, a profissional manda uma mensagem perguntando o que houve e se podem reagendar. Imagine o profissional do SUS saber quem são as pessoas que mais urgentemente devem fazer o Papanicolau, com algoritmos preditivos para classificação de risco com base no que a literatura médica já conhece.

Uma ressalva fundamental é que o uso de dados e algoritmos preditivos deve servir como apoio à decisão clínica, e não como substituição do julgamento dos profissionais de saúde. Esses sistemas se baseiam em dados históricos e evidências da literatura médica, que podem carregar vieses, lacunas ou desigualdades já existentes no sistema de saúde. Por isso, sua aplicação exige cuidado com a qualidade dos dados, transparência nos critérios de classificação, proteção da privacidade das pessoas e atenção para que a tecnologia amplie o acesso e o cuidado e não automatize exclusões ou decisões descontextualizadas.

As tecnologias e os dados necessários para isso já existem. No setor privado de saúde, em especial o de excelência e alto custo, essas tecnologias já são usadas, e o serão cada dia mais, salvando muitas vidas. Contudo, o maior risco é que o avanço tecnológico aprofunde o cenário de dois Brasis na saúde: o dos que vivem e o dos que sofrem. Para evitar essa disparidade, precisamos de parcerias e ações estratégicas na saúde pública.

O governo tem avançado e deve fortalecer sua capacidade: 

  • No nível federal, é essencial manter os incentivos financeiros relativos à qualidade da Atenção Primária e ampliá-los para outras áreas da saúde, além de estimular o uso de tecnologias já disponíveis para fortalecer o cuidado preventivo. 
  • A formulação de novas tecnologias deve priorizar o desenvolvimento de software aberto, o que permitiria maior colaboração e avanço mais rápido via ecossistema de saúde.
  • É fundamental priorizar a execução do plano da Rede Nacional de Dados em Saúde (iniciativa do programa Conecte SUS) como plataforma nacional de inovação, integração de informações e oferta de serviços digitais em saúde, permitindo o enriquecimento e a interoperabilidade dos dados – a capacidade de diferentes sistemas trocarem e usarem informações de forma integrada.
  • Aos municípios, cabe o uso efetivo dessas ferramentas no dia a dia das equipes, transformando dados em priorização e ação.

Tal avanço também exige a colaboração ativa da sociedade civil e do setor privado:

  • A sociedade civil pode apoiar o governo desenvolvendo e testando inovações diretamente integradas aos sistemas públicos, em parceria com o Ministério da Saúde e as secretarias municipais.
  • É essencial que esses projetos levem em conta as prioridades do governo, dados já existentes e os fluxos de trabalho dos profissionais, de modo a evitar a criação de novas tecnologias que gerem mais burocracia ou retrabalho para equipes já sobrecarregadas. 
  • O setor privado pode desenvolver produtos baseados nos sistemas existentes e estabelecer parcerias com o poder público em temas de interesse coletivo. 

Trabalhar com o governo deve deixar de ser visto como um obstáculo e passar a ser entendido como condição para ampliar o impacto. Com essa aliança será possível, cada vez mais, transformar tecnologias em vidas salvas, levando-as para quem mais precisa delas no SUS.

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