Como tornar a filantropia corporativa mais inclusiva

Uma lei brasileira que visava promover uma filantropia corporativa mais inclusiva não conseguiu direcionar mais recursos para comunidades carentes
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Quase uma década atrás, Octavio Barros trabalhava em uma startup de empreendimento social em São Paulo que buscava conectar de forma mais eficiente patrocinadores de projetos sociais e culturais com possíveis beneficiários. Desde 1991, o Ministério da Cultura do Brasil oferece incentivos fiscais a filantropos que financiam projetos artísticos e culturais. Historicamente, as empresas usavam suas próprias redes para identificar projetos, e muitos projetos dependiam de abordagens diretas para buscar financiamento – ambos os lados confiando apenas na dinâmica de mercado para se encontrar. 

“É um mecanismo de mercado por meio do qual se busca um equilíbrio”, diz Barros. “Eles tentam se conectar, mas os custos de busca e de conexão nesse mercado são muito altos. O patrocinador potencial não conhece o escopo completo dos projetos disponíveis nem seus atributos específicos. Ele coleta informações por meio do boca a boca ou abre um processo seletivo enorme, solicitando propostas sobre temas específicos.”

Depois de alguns anos, um problema surgiu: o crescente mercado de filantropia corporativa destinava a maior parte dos recursos – cerca de 80% – a apenas uma região: o Sudeste do país, onde estão as duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro.

Hoje, Barros é pesquisador de pós-doutorado na escola de negócios HEC Paris, onde estuda a provisão pública de cultura. Em um novo artigo, ele analisa os efeitos de uma política introduzida pelo Ministério da Cultura em 2017 para distribuir fundos pelo setor cultural do país de forma mais inclusiva. Músico amador e ex-empreendedor social que trabalhou para ampliar o acesso à cultura, Barros quis avaliar o impacto dessa política sob a perspectiva das empresas participantes. Como os financiadores filantrópicos reagiram à nova política? Ela mudou a forma como alocam recursos em um dos países mais desiguais do mundo?

“O desafio que enfrentamos foi que, ao fazer uma avaliação de política pública e determinar se ela funcionou ou não, você precisa de um grupo de comparação, um contrafactual, que não tínhamos, porque a política afetou o país inteiro e foi implementada ao mesmo tempo para todos”, explica Barros.

Usando ferramentas econométricas, Barros encontrou uma solução em uma análise de séries temporais para testar os resultados da política. “Foi uma aproximação que nos permitiu observar o que poderia ser esperado para o futuro com base em investimentos passados. Embora seja um pouco incomum nesse tipo de pesquisa e não permita inferências causais precisas, foi o que nos possibilitou comparar a projeção para o período que estávamos observando – quatro anos após a política – com o que realmente aconteceu”, diz Barros.

O processo supervisionado pelo governo inclui várias etapas. Primeiro, as organizações sem fins lucrativos que buscam recursos devem apresentar uma proposta ao Ministério da Cultura, que avalia sua viabilidade em termos de orçamento e cronograma. Em seguida, o governo publica as propostas qualificadas em um portal online, tornando as informações detalhadas sobre os projetos aprovados facilmente acessíveis, com o objetivo de promover maior inclusão. As empresas agora podem navegar pela plataforma, visualizar todo o leque de projetos possíveis e fazer buscas por palavras-chave. Projetos que receberam ou não receberam financiamento anteriormente também aparecem, fornecendo um histórico que permite às organizações entender quais projetos tiveram sucesso. Por fim, as organizações buscam patrocínio das empresas, e estas, por sua vez, descobrem projetos que valem seu investimento filantrópico.

A lei de 2017, no geral, não conseguiu direcionar mais investimentos para localidades historicamente desatendidas, constatou Barros. Sua pesquisa revelou dinâmicas competitivas de mercado que incentivaram as empresas a entrar em mercados concentrados e replicar estratégias já estabelecidas.

Contudo, Barros descobriu, em análises adicionais, que empresas privadas de alto desempenho e estatais aumentaram seus investimentos em áreas menos atendidas. Essas companhias aproveitaram a oportunidade para encontrar projetos nessas regiões e expandir seu alcance.

“Essa pesquisa é significativa para o avanço da teoria da filantropia corporativa e das parcerias entre empresas e ONGs”, afirma Marina Amado Bahia Gama, professora assistente de negócios na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP). “Oferece uma compreensão detalhada do impacto da legislação sobre as atividades culturais, particularmente sobre a probabilidade de uma empresa direcionar sua filantropia a comunidades desassistidas.” 

Pesquisa: “Navigating Philanthropy Allocation Amidst Change: Balancing Institutional- and Firm-Level Drivers of Giving”, de Octavio Augusto de Barros.

*Em junho de 2025, o Stanford Center on Philanthropy and Civil Society (Stanford PACS), sede acadêmica da SSIR, realizou seu Fórum de Acadêmicos Júnior em parceria com o Seminário Doutoral em Empreendedorismo Social e Filantropia (SEPHI, na sigla em inglês) na ESSEC Business School, em Paris. Os artigos da seção de Pesquisa da edição 14 apresentam trabalhos de pesquisadores que participaram do fórum.

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Autor(a)

Daniela Blei

Daniela Blei é historiadora, escritora e editora de livros acadêmicos. Seu trabalho pode ser lido em daniela-blei.com/writing