Como construir comunidades de doadores para causas negligenciadas

Cinco maneiras de engajar filantropos e defensores em temas emergentes ou subfinanciados com alto potencial de impacto, como a pecuária industrial intensiva
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Se você tivesse US$ 100 [aproximadamente R$ 520] para aliviar o máximo de sofrimento e gerar o maior bem possível no mundo, o que faria com esse dinheiro? Para muitos filantropos, a resposta a essa pergunta está em lugares mais novos e menos óbvios.

Uma comunidade crescente de filantropos, por exemplo, enxerga benefícios exponenciais em enfrentar os danos da pecuária industrial intensiva. Há muito tempo negligenciada e subfinanciada, essa causa vem atraindo cada vez mais doadores dispostos a lidar com alguns dos maiores problemas sociais do nosso tempo. Muitos financiadores despertaram para um problema que pensadores influentes já chamaram de“uma falha moral definidora da nossa era” e “talvez o pior crime da história”: o sofrimento imposto aos animais de criação. Outros reconheceram os impactos negativos colossais da produção industrial de animais sobre o clima, as comunidades rurais e os próprios agricultores, assim como suas contribuições para o risco de pandemias, a resistência a antibióticos e uma perda catastrófica de biodiversidade.

O que une esses financiadores, incluindo muitos das gerações mais jovens, é a compreensão de que investir na construção de um sistema alimentar mais ético e resiliente é uma das oportunidades de maior impacto dentro da filantropia, e a colaboração pode ajudar a maximizar cada centavo.

Com esse objetivo, em 2018, um grupo desses financiadores criou a Farmed Animal Funders, hoje chamada Senterra Funders, com a meta de acelerar o progresso rumo a um sistema alimentar mais humano e sustentável. Atualmente, a Senterra apoia indivíduos de alto patrimônio que respondem por cerca de 75% das doações globais nesse setor. A organização já destinou milhões de dólares por meio de um fundo coletivo e dezenas de milhões adicionais em doações independentes e colaborativas. Seu percurso oferece um estudo de caso para filantropos e defensores que atuam em outras causas novas, subfinanciadas e complexas sobre como se coordenar de forma eficaz para gerar impacto social em larga escala.

Uma causa negligenciada

A ciência mostra que os animais de criação são tão capazes de sentir dor, estresse e solidão quanto nossos animais de estimação, e que, quando têm oportunidade, experimentam alegria, buscam brincar e formam vínculos entre si e com as pessoas. No entanto, a grande maioria dos bilhões de mamíferos terrestres e aves criados para alimentação no mundo é confinada em galpões imundos e sem janelas, frequentemente chamados de fazendas industriais ou operações concentradas de alimentação animal (CAFOs, na sigla em inglês), onde são privados de ar fresco, de confortos básicos e da possibilidade de expressar comportamentos naturais, além de muitas vezes serem submetidos a abusos brutais. Bilhões de animais aquáticos enfrentam condições semelhantes. Mudar a forma como tratamos esses animais é uma das maiores oportunidades de reduzir o sofrimento em larga escala.

O mesmo esforço também pode economizar trilhões de dólares em custos ecológicos e de saúde ao reformar um sistema que acelera as mudanças climáticas e a poluição, ao mesmo tempo que produz alimentos frequentemente não saudáveis e inseguros. A pecuária industrial intensiva é a principal causa de desmatamento e um dos maiores consumidores de água do mundo, em parte porque são necessárias de 50 a 100 vezes mais terra e água para produzir uma única caloria de carne do que de vegetais. Avançar rumo a um sistema alimentar mais baseado em plantas reduziria drasticamente a pressão sobre o planeta e ajudaria a construir um futuro mais saudável e habitável.

Atualmente, 95% das doações voltadas ao bem-estar animal apoiam instituições que cuidam de cães e gatos, enquanto apenas 3% são destinadas aos animais de criação. E, com cerca de US$ 260 milhões [R$ 1,3 bilhão] por ano, as doações para essa causa representam apenas 0,04% da filantropia global, mais de 100 vezes menos do que áreas como desenvolvimento global ou mudanças climáticas.

No entanto, mais recursos começam a fluir nessa direção, em parte graças à crescente preocupação popular e de especialistas. As doações para reformar e substituir a pecuária industrial cresceram quase 500% na última década, e a alocação estratégica desses recursos tem levado a conquistas notáveis.

Um exemplo é o papel da filantropia em acelerar o fim do uso de gaiolas em bateria para galinhas poedeiras, uma prática amplamente condenada por sua crueldade extrema e pelos riscos à saúde pública. Graças à defesa financiada por doadores, mais de meio bilhão de animais já não enfrentam essas condições. Mais de 3 mil empresas, incluindo muitas das maiores marcas de alimentos do mundo, se comprometeram a deixar de comprar ovos de galinhas mantidas em gaiolas. A União Europeia e 11 estados dos Estados Unidos proibiram essa prática, e a produção de ovos sem gaiolas nos EUA aumentou de 13% para 45% em uma década.

Mudanças como essa são possíveis, mas modelos de financiamento que ajudem a acelerar a transformação são essenciais. A seguir, cinco estratégias que orientaram a abordagem e o progresso da Senterra até agora.

1. Construir uma porta de entrada acolhedora

Muitas causas negligenciadas, complexas ou emocionalmente difíceis não dispõem de uma infraestrutura de financiamento que ajude os doadores a encontrá-las ou a navegar por elas. Criar um ponto de entrada personalizado e acolhedor pode acelerar esse processo.

Por exemplo, a Senterra agenda conversas com novos membros interessados para ajudá-los a entender como suas motivações e paixões principais se alinham a diferentes estratégias de doação. Em seguida, a organização os informa sobre o setor, incluindo áreas e estratégias de intervenção relevantes (como a melhoria das condições de vida dos animais de criação, a ampliação do acesso a alimentos saudáveis de origem vegetal por meio de políticas públicas e advocacy corporativo, e a redução do impacto climático do sistema alimentar), além de vitórias e desafios, e lacunas no campo (como oportunidades emergentes no Sul Global).

Por fim, com base no que os motiva a doar, a Senterra compartilha um portfólio de projetos promissores e oportunidades para replicar intervenções já testadas. Dito isso, a organização não impõe estratégias nem exigências de doação, mas apoia os doadores a refinarem suas próprias teorias de mudança e a entenderem como se encaixam no sistema mais amplo, em parte conectando-os a uma comunidade ativa de pares com valores semelhantes.

A One for Justice, uma coalizão de filantropos, líderes empresariais e outros indivíduos de alto patrimônio, oferece uma porta de entrada semelhante para a reforma do sistema de justiça criminal. Sua equipe mapeia os interesses, objetivos e apetite ao risco de cada pessoa e, em seguida, fornece aconselhamento e aprendizado contínuos por meio de briefings, visitas de campo, encontros e círculos de doação. O resultado é um caminho claro que combina comunidade, educação e aconselhamento, permitindo que novos financiadores se engajem de forma eficiente.

2. Apoiar a comunicação e a colaboração eficazes

A combinação de aprendizado compartilhado, fundos coletivos e doações independentes e coordenadas, incluindo iniciativas de resposta rápida, pode criar um poderoso efeito multiplicador quando aplicada a temas com poucos recursos, permitindo que financiadores individuais, juntos, tenham um impacto muito maior do que teriam isoladamente.

A Senterra apoia o aprendizado compartilhado por meio de chamadas entre membros, grupos de trabalho, círculos temáticos de financiamento, retiros, apresentações de líderes de organizações sem fins lucrativos e ativistas da linha de frente, além de um grupo exclusivo no Slack. Nesses espaços, os membros podem trocar ideias, examinar evidências e, por fim, coordenar doações. Eles podem discutir, por exemplo, se novas pesquisas sobre senciência animal devem influenciar quais espécies priorizar, ou debater como medir impacto e progresso como movimento.

O apoio também se dá na forma de financiamento coletivo. Por exemplo, o PEP Fund da Senterra acelera a transição para uma sociedade mais baseada em plantas na Europa ao permitir que doadores apoiem coletivamente organizações nacionais que promovem reformas de políticas públicas, justamente quando o contexto é favorável para mudanças. Muitos membros da Senterra não têm capacidade de avaliar individualmente cada organização ou suas necessidades.

Outro modelo de financiamento compartilhado são os “fundos orientados por tese” da organização de aconselhamento filantrópico Renaissance Philanthropy, que permitem aos doadores apoiar um objetivo ambicioso e com prazo definido sem precisar selecionar individualmente os beneficiários. Ao confiar na expertise de líderes do campo, os filantropos conseguem alocar capital rapidamente e perseguir oportunidades maiores e mais arriscadas do que fariam sozinhos.

Por fim, a Senterra facilita uma coordenação rápida e descentralizada. Por exemplo, quando uma campanha contra uma empresa global de alimentos, que havia revertido seus compromissos de bem-estar animal, chegou a um momento decisivo, a Senterra organizou uma chamada com membros para ouvir diretamente um líder da linha de frente e um financiador de longa data desse trabalho. Com base nesses relatos, os membros destinaram recursos adicionais, em poucas semanas, para apoiar advocacy de base, campanhas de conscientização pública e engajamento de acionistas.

3. Abraçar abordagens diversas

Com frequência, movimentos com poucos recursos, complexos ou em estágio inicial têm mais de uma teoria de mudança, e isso é algo positivo. Descobrimos que adotar diferentes abordagens torna nossa comunidade de doadores e o movimento como um todo mais fortes. As distintas experiências e pontos de entrada nos temas por parte dos membros da Senterra sustentam uma ampla gama de ideias sobre o que é eficaz. Essa diversidade impulsiona experimentações bem fundamentadas e abre caminhos para que as organizações apoiadas testem diferentes teorias por conta própria.

O Navigation Fund, uma organização concedente de recursos que atua em múltiplas áreas, foca em construir o poder de longo prazo do movimento de proteção animal. Ela não apenas financia grandes esforços, como campanhas por sistemas livres de gaiolas, mas também trabalha para fortalecer a liderança, a capacidade organizacional, o engajamento de jovens e a influência narrativa. Ao fazer isso, ajuda a viabilizar conquistas maiores e mais duradouras para os animais ao longo do tempo.

Enquanto isso, o objetivo central da Open Philanthropy, membro fundador da Senterra, é eliminar gradualmente as piores práticas da pecuária industrial. Para alcançar esse objetivo, a organização realiza doações expressivas, com alto retorno sobre investimento, para campanhas globais por sistemas livres de gaiolas e apoia trabalhos de mais longo prazo, como o desenvolvimento e a defesa de novas tecnologias para melhorar o bem-estar animal. Entre elas está uma técnica de sexagem de ovos que pode poupar bilhões de pintinhos machos de serem mortos de forma cruel.

Essas abordagens distintas, mas complementares, ampliaram a compreensão do movimento mais amplo sobre o que funciona, o que não funciona e onde estão novas oportunidades.

4. Trabalhar para equilibrar o poder entre financiadores e organizações apoiadas

Doar de forma eficaz em qualquer campo, mas especialmente em áreas novas e em evolução, exige que os financiadores levem curiosidade e humildade para as relações com as organizações apoiadas e, muitas vezes, colaborem diretamente com os defensores da causa. Aproximar-se do trabalho dos ativistas gera relações mais fortes e ciclos de feedback que resultam em doações mais fundamentadas e eficazes.

Muitos membros da Senterra participam ativamente de conferências de defensores, inclusive usando os intervalos entre sessões para elaborar estratégias com líderes do movimento sobre oportunidades e ferramentas emergentes (como o uso de inteligência artificial para melhorar a análise de dados e a coordenação de campanhas), e para coletar contribuições dos próprios ativistas (por exemplo, sobre que tipos de serviços de apoio fortaleceriam mais seu trabalho).

Alguns financiadores da Senterra chegam a liderar suas próprias organizações e a trabalhar lado a lado com os ativistas em coalizões. O membro David Meyer, por exemplo, dirige a Food System Innovations, uma organização sem fins lucrativos que oferece financiamento, pesquisa e parceria intelectual colaborativa a defensores que promovem proteínas de origem vegetal e soluções de políticas públicas.

5. Financiar as condições para o progresso

Doar de forma eficaz em um campo com poucos recursos exige mais do que financiar programas; exige construir todo um ecossistema em torno do movimento que ajude tanto financiadores quanto organizações apoiadas a experimentar, assumir riscos e avaliar honestamente seu impacto.

Isso inclui financiar pesquisas sobre comportamento humano para orientar ações de advocacy. Por exemplo, estudos em ciência comportamental mostram que pequenos “empurrões” bem desenhados podem gerar mudanças grandes e duradouras no comportamento sem restringir escolhas. Nosso movimento tem aplicado cada vez mais esse conhecimento aos sistemas alimentares, tornando, por exemplo, pratos saudáveis de origem vegetal a opção padrão em universidades e hospitais, e reposicionando carnes vegetais à altura dos olhos em supermercados. Essas intervenções sutis exploram normas sociais e conveniência para normalizar hábitos alimentares mais sustentáveis e humanos. Os resultados são impressionantes: em quase uma dúzia de estudos, tratar as opções à base de plantas como padrão, em média, triplicou a proporção de refeições vegetarianas escolhidas, muitas vezes sem qualquer queda na satisfação. Grupos de pesquisa apoiados pela filantropia, como a Faunalytics, ajudam os defensores a colocar esses aprendizados em prática.

Outros grupos apoiados por financiadores que oferecem serviços para todo o movimento incluem a Animal Charity Evaluators, que realiza avaliações aprofundadas de organizações e intervenções; a Animal Advocacy Careers, que ajuda o movimento a atrair talentos de ponta ao oferecer apoio gratuito de carreira e mentoria; e a Animal Defense Partnership, que fornece assessoria jurídica pro bono a organizações sem fins lucrativos para que possam se concentrar em atividades essenciais à sua missão. “Meta-organizações” como essas ajudam a fazer com que recursos limitados rendam mais, ao promover o uso mais inteligente de cada centavo e a troca de aprendizados.

Escreva seu próprio manual

Construir um sistema alimentar global mais humano e sustentável é um desafio enorme e complexo, com múltiplas soluções possíveis. Uma única nova tecnologia ou um serviço direto isolado não fará, sozinho, uma diferença substancial. Ainda assim, no caso da pecuária industrial intensiva, uma das causas-raiz de muitos dos problemas globais atuais, essa complexidade tem levado financiadores e defensores interessados a serem astutos, criativos, colaborativos e engenhosos, tanto na forma de enfrentar o problema quanto na maneira de financiá-lo.

A maioria das causas novas, complexas, de nicho ou pouco atraentes tem o espírito empreendedor de que precisa para construir uma comunidade e uma infraestrutura que permitam que até investimentos modestos transformem sistemas inteiros, e não apenas tratem sintomas. E quando doadores trabalham juntos e os recursos são bem alocados, cada centavo tem potencial para ir extraordinariamente longe.


*Artigo publicado originalmente na Stanford Social Innovation Review com o título “Building Donor Communities for New or Underfunded Issues”.

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Os Autores(as)

Shannon Campion

Shannon Campion é diretora executiva da Senterra Funders, uma rede filantrópica estratégica composta por 49 financiadores individuais e institucionais, cada um doando US$ 250 mil [R$ 1,3 milhão] ou mais para construir um futuro além das fazendas industriais.

David Coman-Hidy

David Coman-Hidy é membro do comitê diretor da Senterra Funders e presidente do The Navigation Fund, que financia organizações e projetos de alto impacto voltados a soluções ousadas para os problemas mais urgentes do mundo.